OS MEDALHÕES DE ZETA
por Nina Neviani
Capítulo V – O retorno a Mizar
Apesar de todo o cansaço, Hilda não dormiu muito. Quando despertou, levou algum tempo para se lembrar onde estava. Ao recordar, parte dela ficou triste ao perceber que estava mesmo longe da proteção do seu palácio. Outra parte, porém, se alegrou por reencontrar aquele garoto, agora homem, que a despeito do passar dos anos, continuara tão vivo em sua memória. Obviamente, preferiria reencontrá-lo em outras circunstâncias.
– Bom dia? – A princesa arriscou ao entrar no cômodo no qual se despedira de Siegfried horas antes.
– Bom dia, princesa. – O guerreiro cumprimentou-a calmamente, ocultando perfeitamente o seu tumulto interior – Espero que tenha dormido bem.
– Sim, obrigada. Desculpe-me, não trouxe nenhum relógio, eu dormi muito?
– Não, cerca de oito horas. É quase meio-dia, no entanto, o café da manhã está pronto. Sirva-se à vontade, a sala de jantar é no...
– Você não vai comer? – A princesa o interrompeu.
– Deseja companhia?
– Não acredito que seja uma questão de eu desejar companhia ou não. E sim, de você se alimentar. Você já tomou café da manhã?
– Não. Ainda não. – Siegfried admitiu.
– Então porque não se alimenta ao mesmo tempo em que eu?
– Bem, você é a princesa, e eu...
– Se você vai falar o que eu estou imaginando, por favor, pare. – Hilda respirou fundo e, mais calma, explicou – Não acredito que seja superior a você apenas por ser filha de um rei. Não sei como é a relação dos arkorianos com os membros da família real arkoriana. Mas posso garantir que em Mizar, não costumamos ter qualquer tipo de discriminação. E por favor, chame-me de Hilda.
Ele pareceu pensar por um breve instante antes de concordar.
– Certo, Hilda. Vamos comer?
Hilda se impressionou com a mesa preparada por Siegfried. Definitivamente, não se tratava de um seqüestro! A refeição oferecida pelo guerreiro não ficava muito atrás da servida no Palácio de Mizar.
– Você preparou tudo isso sozinho?
– Sim. Afinal, não é todo o dia que tenho a honra de uma visita de um membro da família real de Mizar. – Ele brincou. Tinha percebido que a princesa Hilda não era uma garota mesquinha como os arkorianos suspeitavam. Ela ainda tinha muito daquela menina assustada e generosa que ele conhecera anos atrás.
– Está de parabéns, é uma bela mesa. E saiba que estou honrada por sentar à mesma mesa que Siegfried Duhbe, o maior guerreiro de todos os tempos – ela brincou também.
Ele murmurou algo em agradecimento enquanto afastava a cadeira para que ela pudesse sentar. A gentileza do gesto não passou despercebida. Em boa parte da refeição reinou um silêncio quase absoluto. Até que a princesa perguntou:
– Você mora aqui?
– Não. Eu quis muito morar aqui quanto tinha dezessete anos, mas o meu tio se opôs. – Siegfried notou que falar do seu tio já não aflorava tanto o seu ódio por Alberich – No entanto, é provável que eu venha morar aqui.
– Sério?! – Então, percebeu que o motivo que o faria morar naquela casa era a traição que ele tivera que ele cometera por culpa dela. – Por minha culpa! Tenho certeza de que se você precisar de apoio, seja ele de que natureza for, Mizar dará – afirmou categórica.
Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dele.
– Não é a primeira vez que me oferece o apoio do seu reino, princesa. Ahn, Hilda – a princesa gostou de como ele pronunciava o seu nome – Agradeço, mas, ao contrário do que imagina, a culpa não é sua, e sim de Alberich.
– Ainda assim, você, gostando ou não, é um mizariano. Não costumamos virar às costas para os nossos, se e quando precisar pode contar com esse seu reino também.
– Obrigado, novamente. Só que acho um pouco complicado fazer muitos planos para um futuro muito distante, Hilda. Algo me diz que as coisas estarão muito mudadas quando voltarmos para lá.
– Siegfried, será que a minha irmã não corre perigo? Talvez o rei Alberich, na minha ausência, seqüestre Freya.
– Não se preocupe. Primeiro, Alberich foi muito específico ao dizer que raptaria a princesa Hilda. E, segundo, com o seu desaparecimento tenho certeza que a princesa Freya será muito bem vigiada.
– Sim, você tem razão. Hagen não deixaria nada de mal acontecer à minha irmã.
– O Chefe da Guarda Real?
– Sim – ela confirmou desconfiada – Os arkorianos sabem muita coisa do nosso reino?
– Nada de significativo, fique tranqüila. Em todo caso, não desconhecemos que o exército de vocês evoluiu muito desde que Hagen Merak foi elevado ao posto de Chefe da Guarda Real.
– Sim, ele vem fazendo um bom trabalho. Ontem à noite tive muito medo de não conseguir passar despercebida por ele.
Um silêncio um pouco constrangedor se seguiu. Siegfried foi o primeiro a falar.
– Sei que você deve ter ficado muito decepcionada. Mas, eu achava que era a única forma de ter certeza de que você ficaria bem. Tive receio de mandar um aviso e não ser levado a sério. Ou de que, mesmo com maior proteção, Alberich conseguiria raptar você.
– Eu entendo. E tenho que admitir que seu plano foi perfeito.
Retirando o medalhão do bolso do casaco que vestia, a princesa disse:
– No entanto, ele é seu. – E entregou-o.
Siegfried olhou para o pescoço dela e para o medalhão que os dedos delicados dela seguravam.
– Você mandou fazer uma cópia?
– Não. O meu pai tinha outro. Ganhei-o pouco tempo depois de entregar o outro para você. Disse para todos que eu tinha perdido, mas meu pai desconfiou da história e perguntou se eu tinha dado o medalhão para alguém. Eu disse que sim, e ele falou que estava tudo bem e me deu este. – Ela segurou com a outra mão a jóia que carregava sempre consigo – Só pediu para dizer a todos que eu tinha reencontrado.
– É estranho, ou interessante, ainda não consegui definir direito.
– De qualquer forma, ele é seu. Por favor.
O guerreiro, sem ter alternativa, aceitou a jóia. Hilda hesitou, porém resolveu perguntar algo que estava intrigando-a.
– Se o rei Alberich tivesse decidido tentar seqüestrar Freya, você teria feito a mesma coisa? – Siegfried não respondeu, e ela insistiu – Teria, Siegfried?
Ele levantou-se da mesa e parecia confuso e angustiado quando finalmente respondeu:
– Não. Eu não teria feito a mesma coisa. Com certeza eu avisaria. Mas não chegaria a esse ponto.
Então, ela fez a última pergunta que ele queria ouvir naquele momento.
– Por quê?
– Eu não sei.
– Está mentindo. – Ela falou calmamente. Agora estava em pé, próxima a ele.
– Sim, eu estou mentindo. A verdade, que a mim me parece ridícula, é que desde que aquele dia, há mais de década, eu me encantei por você. Eu tinha pouco mais de dez anos, mas... Você me impressionou de tal maneira... Quando era adolescente eu cheguei a ficar meses sem falar com Alberich depois que brigamos porque ele tentou roubar o medalhão que você tinha me dado – se já tinha começado a falar, era melhor confessar tudo, por isso continuou. – Desde os meus dezesseis anos eu venho observando-a passar as tardes nos jardins sempre que posso.
– O quê?
– É ridículo, eu sei. Mas... você queria a verdade.
Hilda sorria quando disse.
– É tão ridículo quanto eu pensar todas as noites em como estaria aquele arkoriano que me ajudara. Assim como foi ridículo o quão ansiosa eu fiquei ao receber seu bilhete.
Ele olhava-a intrigado, não conseguia acreditar que o que ela falara era verdade. Então, não era unilateral!
– E, acima de tudo, é ridículo sentir o que eu sinto só por estar perto de você.
Quando Hilda percebeu já estava sendo beijada. Siegfried, quando deu por si, já estava beijando Hilda. A leve mão que pousou na sua nuca o incentivou a abraçá-la mais. Sem dúvida, estava vivendo um dos melhores momentos da sua vida. Hilda, por sua vez, acreditava que estava sonhando.
Siegfried ponderou porque nunca se sentira ao menos tentado ao beijar Lorina e praticamente agarrara Hilda.
Lorina.
Ele interrompeu o beijo, e viu o olhar confuso da princesa. Afastou-se dela antes que suas emoções falassem mais alto do que a sua razão.
– Eu não posso.
– Como assim não pode? Não me venha com aquela tolice de eu ser princesa e você um guerreiro.
– Um guerreiro mestiço. Entretanto, o motivo não é esse.
– Qual é o motivo? – Ela perguntou, um tanto receosa.
– Eu... Eu tenho alguém.
Hilda não esperava por aquilo. Abriu a boca para falar, mas nenhum som saiu, talvez porque nem ela soubesse o que falar. Como fora idiota!
– Eu pensei que... que você sentia o mesmo...
– E eu sinto.
Ela afastou-se dele para ver se assim conseguia pensar com mais clareza. Balançou a cabeça e disse:
– Acho que não estou entendendo, você...
– Eu estou apaixonado por você. Na verdade eu acho que sou apaixonado por você. Só que eu... estou noivo.
– Se você sempre foi apaixonado por mim, porque vai se casar com outra?
– Eu e Lorina fomos prometidos quando ainda éramos muito jovens. – Vendo que ela não acreditava muito no que ele dizia, continuou – E diga-me quantas chances você acha que eu teria?
– Eu também sou apaixonada por você!
Ele ignorou a declaração dela e continuou.
– Eu chegaria ao palácio de Mizar e diria: "Olá, rei César! Eu sou um mestiço e quero me casar com a sua filha, aquela que um dia a rainha de Mizar! E nossos filhos, que um dia governarão o reino de Mizar, terão sangue arkoriano correndo nas veias."
Quando se voltou novamente para Hilda percebeu que ela tinha lágrimas nos olhos, e deu-se conta do quanto fora rude, estúpido e cínico. Abraçou-a. Alegrou-se quando percebeu que ela não se esquivara do contato.
– Hilda, querida, perdoe-me. Por favor.
As lágrimas agora começar a descer, pequenas gotas molhando o belo rosto da princesa e a camisa de Siegfried.
– Você falou a verdade, Siegfried. Não estou chateada com você. Estou chateada com as circunstâncias. Com essa imbecil rivalidade entre mizarianos e arkorianos, com...
– Imbecil rivalidade?
– Claro. Ou você acha que eu sou a favor dessa separação?! – Ela que ainda estava abraçada a ele, saiu do abraço e começou a andar pelo cômodo – Por Deus, somos todos descendentes de Zeta! Arkor e Mizar eram irmãos! Irmãos gêmeos! – Siegfried continuava surpreso. – Meu pai também pensa assim. A minha mãe pensava diferente, mas meu pai sempre nos educou para que víssemos que arkorianos e mizarianos não devem se odiar.
– Estou surpreso. – Siegfried confessou.
– Por quê? Não me diga que você é a favor...
– Não! Eu odiaria a mim mesmo? – Hilda sorriu entre as lágrimas – Mas não imaginava que você pensasse assim.
Beijaram-se novamente. Dessa vez foi Hilda que interrompeu o beijo.
– Podemos fugir! Não foi isso que sua mãe fez? E ela era uma princesa também!
Siegfried, porém, balançava a cabeça negativamente.
– Não. – E com pesar acrescentou – Veja o que aconteceu com eles. Nós não viveríamos em paz, estaríamos sempre fugindo. Isso não é vida pra você – tocou-a levemente no rosto – E além do mais, Mizar precisará da sua princesa, Hilda.
Ela estremeceu com as palavras dele.
– Você fala como se...
– É apenas um mau pressentimento. De qualquer forma, entregarei você sã e salva para o rei César.
– E depois?
– Depois você será a princesa que seu reino merece.
– E você se casará com a sua noiva?
– Não. Não me casarei com Lorina. Percebi que nunca conseguirei amar ou desejar outra mulher como amo e desejo você. Obviamente, não voltarei para Arkor. No entanto, você não deve se preocupar comigo.
– Você acha que eu conseguirei não me preocupar com o homem que amo?
Ele gostou de ouvir aquelas palavras.
– No momento, devemos nos preocupar em chegar bem em Mizar. Depois o destino se encarregará de decidir.
Abraçaram-se novamente.
– Eu queria que esse dia não acabasse nunca.
Hilda disse quando ainda estava abraçada a Siegfried. Estavam no jardim situado ao sul da casa. Observavam a lagoa que existia na terra dos Duhbe. Siegfried abraçou-a mais forte ao dizer.
– Eu também.
O Sol já estava quase se pondo. O casal tinha passado a tarde conversando, rindo, relembrando o passado, ou apenas ficavam juntos como estavam naquele momento. Às vezes, Hilda imaginava como estaria a situação em Mizar, porém sabia que teria vários dias para reverter a situação em Mizar, e apenas um para passar com Siegfried.
Ele também pensava em Mizar e em Arkor. Será que Alberich teria desistido de tentar seqüestrar Hilda? Será que percebera algo estranho em Mizar? Entretanto, não adiantava pensar em Arkor x Mizar no momento. Deveria apenas aproveitar as poucas horas que passaria junto de Hilda.
Hilda acordou e sentiu que era observada.
– Bom dia. – Foi saudada por Siegfried.
– Bom dia.
Ficaram um tempo em silêncio, apenas se olhando, como se quisessem guardar aquele momento para sempre.
– Temos que ir.
Ela concordou silenciosamente.
– O cavalo já está pronto, mas talvez você queira se banhar antes de ir. A banheira já está preparada.
Cerca de uma hora depois, os dois começavam o caminho de volta a Mizar. Dessa vez, Siegfried preferiu que Hilda fosse atrás dele, para que caso ocorresse algum ataque ela, dessa forma, estaria mais segura.
Quase quatro horas depois já podiam ver o reino de Mizar.
– Eu te amo – Siegfried disse.
– Eu também te amo.
Quando chegaram a Mizar, tudo aconteceu muito rápido. Hilda só percebeu o momento em que três guardas reais, entre eles Hagen, seguravam Siegfried, como se ele fosse um perigoso assassino. Ele, contudo, não tentou reagir.
– Larguem-no! – Hilda ordenou, longe de ser atendida.
– Você está bem, princesa? – Foi Hagen quem perguntou.
– Soltem-no! Ele me salvou! – Os homens novamente a ignoraram.
Foi Siegfried quem falou.
– Calma, Hilda. Eu já esperava por isso. Está tudo bem.
Um dos guardas reais ia bater em Siegfried quando Hagen o impediu.
– Não. A princesa está dizendo que ele a salvou. Vamos apenas levá-lo para o palácio.
E ordenou para o terceiro guarda.
– Levem-no para o palácio. Eu vou à frente avisar o rei César.
No saguão do palácio, os dois guardas jogaram Siegfried no chão. Hilda ajoelhou-se junto dele, e sussurrando perguntou.
– Meu amor, está tudo bem com você?
– Sim, não se preocupe.
Quando ergueram os olhos, viram que o monarca mizariano os observava. O rei então, calmamente disse.
– Hilda. Siegfried. – Ajudou-os a levantar, e sem se preocupar com as expressões de surpresa que ocupavam o rosto dos dois jovens disse – Sejam bem-vindos ao lar.
Continua...
N/A:
Mais um capítulo!
Já disse que eu adoro o rei César? Perceberam que ele conhece o Siegfried, né?! A questão é... da onde?
Tudo isso e muito mais no próximo capítulo!
Não preciso dizer que ele só sai de acordo com as reviews, né?!
Ah, agradeço todos os que comentaram!
Beijos e até o próximo capítulo!
Nina Neviani.
