OS MEDALHÕES DE ZETA
por Nina Neviani
Capítulo
VI – Os medalhões de Zeta - Parte I
Quando Hilda e Siegfried já estavam em pé, o monarca de Mizar falou:
– Vamos até a biblioteca? Temos muito que conversar.
Apesar da ordem, o tom de voz era calmo.
E dirigindo-se ao Chefe da Guarda Real, pediu:
– Hagen, você poderia avisar Freya que está tudo bem com Hilda?
Hagen assentiu e imediatamente foi ao encontro da princesa mais nova.
– Sua irmã ficou muito abalada com o seu desaparecimento, Hilda. E creio que Hagen seja a pessoa que melhor a tranqüilizará, excetuando você própria. Óbvio.
Hilda conseguiu ficar mais surpresa ainda com essas últimas palavras do pai. Além de, aparentemente, conhecer Siegfried, também percebera que Freya nutria um sentimento especial pelo jovem Chefe da Guarda Real. "Quantos segredos mais o seu pai sabia? Quantos mistérios ele esconde?" A princesa se perguntava. No entanto, a princesa não verbalizou suas indagações, apenas seguiu o rei. O mesmo fez Siegfried.
No cômodo, o rei não se sentou na cadeira mais alta – destinada ao monarca, escolheu ter aquela conversa em um dos vários sofás que existiam no amplo cômodo. Hilda estranhou, pois somente quanto recebia visitas muito informais seu pai agia daquela forma. O rei indicou silenciosamente que os jovens sentassem no sofá à sua frente. Sorrindo, César Polaris disse:
– É curioso, Siegfried. Muitas vezes eu imaginei o que iria lhe dizer quando nos reencontrássemos. Agora, porém, não sei por onde começar.
Siegfried parecia a cada instante mais confuso, e disse:
– Se me permite Alteza. Talvez pudesse começar dizendo de onde me conhece.
– Faz anos que não o vejo, meu jovem. Dezoito anos, para ser mais exato. Mas sei que o reconheceria em qualquer lugar, e sem muito esforço. Você é idêntico a Ian. Aliás, ele não gostaria de ouvir você me chamar de "Alteza".
Vendo o espanto no rosto dos dois, o rei continuou:
– Certo. É melhor, eu começar a contar essa longa história.
Siegfried, ainda não acreditando nas palavras que ouvira, perguntou:
– O senhor conheceu mesmo o meu pai?
O espanto de Siegfried era justificado. Se o monarca de Mizar tivesse realmente conhecido Ian Duhbe, o guerreiro poderia fazer muitas perguntas que o intrigavam por muitos anos e que ele não pudera fazer antes por não conhecer ninguém que conhecesse seu pai. A exceção era seu tio, mas Ian Duhbe era assunto proibido na casa da Família Real de Arkor.
– Penso que "conhecer" defina de maneira modesta o que foi a minha amizade com seu pai. Ian foi meu melhor amigo. E eu o seu melhor amigo.
Respirou fundo antes de começar.
– Nos conhecemos quando tínhamos por volta dos oito anos.
– Vocês tinham a mesma idade?
– Sim. Se seu pai estivesse vivo teria quarenta e três anos. Bem,– sorriu francamente – não sei qual de nós dois era o mais mimado. No início, a antipatia foi mútua. O nosso relacionamento só começou a mudar quando eu, brincando com a espada do meu pai, me cortei e Ian me ajudou a cuidar do ferimento. Fazendo um curativo perfeito para um garoto de oito anos de idade. A partir daquele momento eu percebi que seu pai era uma pessoa na qual eu poderia confiar em uma situação difícil. Pouco tempo depois já éramos grandes amigos.
Depois de um momento de silêncio, o guerreiro perguntou:
– O senhor sabe como meu pai conheceu a minha mãe?
– Claro. Mas acho que, antes, é melhor falarmos desses medalhões e do que aconteceu nas últimas horas.
Foi Siegfried quem começou a falar.
– Eu e todos demais os guerreiros homens de Arkor fomos informados por Alberich que a primeira missão dele como rei seria seqüestrar Hilda para poder negociar com Mizar, em situação mais vantajosa. A minha primeira idéia foi apenas avisar Mizar. Mas tive receio de que vocês ignorassem o aviso, ou que mesmo assim Alberich conseguisse raptar Hilda. Por isso eu fiz com que Hilda visse o medalhão que ela tinha me dado junto com um bilhete que dizia para ela sair do palácio sem ser vista pelos guardas.
A princesa interferiu
– Papai, acho que devo explicar como o medalhão foi chegar às mãos de Siegfried.
– Suspeito que tenha sido no dia em que seu coelhinho se machucou, não!
Siegfried voltou a falar.
– O senhor não parece ter ficado surpreso com o fato de um dos medalhões ter ficado comigo por todos esses anos.
O rei sorriu.
– Sim, Siegfried, você tem razão. Não estou nem um pouco surpreso. Quando eu vi o curativo em Grin, logo percebi que só um Duhbe poderia fazer um curativo tão bem feito.
Siegfried ficou orgulhoso. Não tanto por si mesmo, mas pelo respeito e admiração que o rei de Mizar tinha pelo seu pai.
– Vocês não sabem, mas existe uma história por trás desses medalhões. Contudo, a melhor maneira de contá-la é seguir cronologicamente na história da minha amizade com Ian.
Hilda e Siegfried assentiram, e César Polaris continuou a contar.
– Como já disse, eu e Ian logo ficamos muito amigos. Éramos como irmãos, talvez pelo fato de ambos sermos filhos únicos.
– Desculpe-me interromper, Alteza. Mas... quer dizer que eu não tenho parentes vivos?
– Infelizmente, você é o único Duhbe vivo. E o único Megrez também.
– Como? O que aconteceu com Alberich?
– Nada. Alberich continua vivo. – Suspirou. – Deixemos para falar dele depois.
Mesmo intrigado com o que ouvira, Siegfried concordou. Ao que parecia a conversa ainda seria muito longa. Não que o fato o desagradasse, pelo contrário, estava muito feliz por poder conhecer um pouco do passado do seu pai, e conseqüentemente, o dele próprio.
– Voltando a falar do seu pai. Ah, outra coisa que provavelmente você não saiba, mas você tem uma bela herança.
– Bela herança? O que o senhor quer dizer com isso?
– Que você é rico, Siegfried. A família Duhbe sempre foi uma família de posses, eram comerciantes por natureza. Seu tio, nunca me deixou lhe entregar o seu dinheiro enquanto era vivo. Mas creio, que agora... Seu tio era uma ótima pessoa, mas orgulhoso demais, ao meu ver.
Foi Hilda quem expressou sua surpresa.
– Não me diga que o senhor era amigo de Isaac Megrez também?
O rei, rindo, respondeu.
– Não, não. Não chegamos a tanto. Na realidade a única vez que nos encontramos pessoalmente foi na ocasião de seu nascimento, Siegfried. Veja, estou me apressando novamente!
Os jovens sorriram e o rei retornou a falar de sua amizade com Ian Duhbe.
– Quando já éramos adolescentes, eu e Ian viajávamos muito. Seu pai sempre participou dos negócios da família, essas viagens eram a trabalho. Porém nós sempre encontrávamos um tempo para a diversão. E como nos divertíamos! Na maioria dos destinos de nossa viagem ninguém nos conhecia. Ou seja, não éramos o príncipe e um dos garotos mais ricos de Mizar. Éramos César e Ian. Enfim. Conhecemos muitas pessoas nessas viagens, mas uma delas creio que foi responsável por todo o que vocês estão vivendo atualmente.
– Minha mãe? – arriscou Siegfried.
– Não. Nessa época tínhamos dezessete anos. Seu pai só foi conhecer sua mãe quando tinha vinte e um.
– Quem era, papai?
– A mulher que nos vendeu esses medalhões. No caminho de volta de uma dessas nossas viagens, conhecemos uma senhora que parecia estar passando por dificuldades. Ah, outro aspecto no caráter de seu pai a destacar, Siegfried, era a sua bondade e generosidade.
– Como se o senhor próprio não fosse tão bondoso e generoso, papai!
O rei, para surpresa de ambos, pareceu ficar um pouco vermelho com o elogio.
– Fico feliz que me tenha em tão boa estima, mas... receio que ao final dessa conversa você não me considere tanto assim.
– Duvido! – Hilda disse de pronto – Continue a falar da senhora, papai!
O rei riu novamente.
– Sim, sim. Oferecemos dinheiro para essa senhora. Ela, para nossa surpresa, disse que não aceitava esmolas, que somente recebia dinheiro com o seu trabalho. Então, indagamos qual era a ocupação dela, ela nos disse que vendia objetos mágicos. Quando eu e Ian conseguimos parar de rir, perguntamos qual era a peça mais cara que ela tinha.
– Que na verdade eram os medalhões. – Siegfried completou.
– Exatamente. Entretanto ela nos advertiu que as pessoas que usassem aqueles medalhões conheceriam o amor verdadeiro. No começo, não ligamos muito. Mas depois, pensamos que poderia haver um fundo de verdade naquela história. Decidimos então que cada um guardaria um medalhão. E aquele de nós fosse pai primeiro, presentearia o seu filho com aquele medalhão. E o outro presentearia o filho mais velho do sexo oposto ao filho do primeiro. Assim ficou decidido. E o acordo foi cumprido.
– Como se o senhor estava com os dois medalhões? – Hilda questionou.
– Creio que devo adiar essa explicação também. Voltando novamente no tempo. Quando eu tinha dezenove anos eu conheci a única mulher que eu amei em toda a minha vida.
– Minha mãe. – Hilda inferiu.
– Correto. Bom, a princípio eu só vi Ana uma vez antes de noivar com ela. – Percebeu o espanto no rosto da filha. – Sim. O seu pai, Siegfried, até conhecer a sua mãe era muito cético com relação ao amor. Mesmo metade das jovens de Mizar era apaixonada por ele.
– Apenas metade? – Era Hilda quem queria saber.
– Oh, sim. A outra metade era apaixonada por mim. Afinal, eu era o príncipe. – Riu – Aconteceu que provavelmente por prever que o filho não se apaixonaria tão facilmente, os pais de Ian decidiram arranjar um casamento para ele. Ele não se importou. Como eu disse, ele não acreditava em amor. A negociação toda ficou por conta dos pais dele. Ele não se interessou nem em conhecer a sua futura noiva. Ela era muito nova. Estava com dezesseis anos. O acertado era que quando ela tivesse dezoito se casariam. Tudo continuou como era antes. Até que, um ano depois, eu devido a compromissos reais, não pude acompanhar seu pai em uma viagem. Esqueci de mencionar, mas eu era quem cuidava das anotações das transações comerciais que Ian realizava. Era eu também quem escrevia os documentos. Seu pai sempre foi ótimo com números, em contrapartida não gostava muito das letras. Não pense que ele não sabia ler, ou algo assim. Seu pai teve uma ótima educação. O fato é que ele apenas não gostava. Enfim, nessa viagem ele teve que contratar alguém para que fizesse as anotações e outras coisas assim. Um dos empregados da família ficou encarregado de encontrar alguém. Assim, o ajudante de seu pai na viagem seria S.M.
– S.M.? – perguntou, Hilda.
Siegfried que já tinha entendido, explicou sorrindo.
– Sarah Megrez.
– A mãe dele foi o ajudante do senhor Duhbe na viagem?
– Sim. Ian, porém, só foi descobrir quando eles se encontraram em um vilarejo próximo. Em Arkor, Hilda, essa seria uma atribuição normal. Bem, não tão normal assim, mas... – sorriu e falou com carinho – Sarah era única.
– Rebelde, o senhor quer dizer. – Siegfried esclareceu.
– Não, não. A sua mãe tinha atitude. Não fazia nada apenas por rebeldia. O que seu tio andou lhe contando sobre a sua mãe? – Apesar de perguntar, o rei não deu tempo para Siegfried responder – Não, melhor não saber. Bem, seu pai precisava fazer a viagem. Precisava de um ajudante. E a sua mãe era a única disponível. Ele teve que aceitar. Para resumir, seu pai voltou da viagem completamente apaixonado.
– Mas tinha uma prometida. – Siegfried lembrou.
– Sim, tinha uma prometida. Por quase um mês que seu pai e sua mãe passaram se encontrando escondido e sua mãe tentando se decidir o que era mais importante. O reino ou o amor.
– O amor venceu. – Hilda disse.
– O amor sempre tem que vencer.
A última declaração do rei provocou um leve rubor no jovem casal que ele fingiu não ver.
– Nesse mês, o seu avô materno faleceu. E Isaac assumiu o trono.
– Ele sabia sobre o meu pai e a minha mãe?
– Sabia, mas fingia não saber. Porém, ele agora era o rei de Arkor. E não lhe agradava ver a irmã apaixonada por um mizariano. Eles discutiram e aquela foi a gota d'água para que sua mãe decidisse escolher Ian à Arkor. Eles foram até Phecda e se casaram lá. Passaram duas semanas em uma pousada lá até que o meu presente de casamento ficasse pronto.
Siegfried estava abismado, até então acreditara no homem à sua frente quanto a força da amizade dele e de seu pai. Mas não imaginava que ela era tão intensa assim.
– A casa foi o senhor que sim.
– Não fique tão surpreso, era o mínimo que eu podia fazer. Até porque o seu pai tinha dinheiro para comprar dez casas daquela e continuar com um bom dinheiro. Entretanto, com a fuga dele, ele não tinha acesso ao dinheiro que lhe pertencia. O que não foi problema por muito tempo com o tino que seu pai tinha para o comércio, logo ele conseguiu alguns clientes em Alioth. Ele preferiu Alioth à Phecda por ser mais distante e não existir, assim, possibilidade de ele ser reconhecido. Seus avôs deixaram Mizar por causa do escândalo. – O olhar do rei pareceu um pouco triste – Eu tinha esperança de que quando você chegasse à idade adulta, eles ainda estivessem vivos. Mas eles faleceram há aproximadamente seis anos, com poucos meses de diferença da morte de um para a do outro.
– Papai, o que aconteceu com a prometida do pai de Siegfried?
O rei suspirou fundo antes de dizer.
– Eu me casei com ela. Sabia que assim os falatórios acabariam mais rápido.
Hilda estava chocada.
– Eu não sabia que o senhor tinha se casado com outra mulher que não fosse a minha mãe.
– E está certa. Eu não me casei. A prometida de Ian era a sua mãe, Hilda.
Continua...
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Phecda e Alioth são reinos (na minha fic, óbvio). Bom, já que Bado e Mizar tiveram reinos achei que Thor e Fenrir também poderiam ter!
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N/A: Estou começando a gostar de acabar os capítulos com frases de efeito. Hahaha!
Não imaginei que esse capítulo fosse sair tão cedo! Viu como reviews me incentivam a escrever! Por isso o meu obrigado para:
Arthemisys, Saory-San, Sheila-San, Sah Rebelde e Harpia!
Graças a elas eu me empolguei... e aí está o capítulo seis. Que foi escrito no tempo de recorde de três horas. (Sei que não foi tão recorde assim, mas...)
Ah... O que acharam? Muitas reviravoltas?
Muitos mistérios esclarecidos... Outros tantos para se esclarecer.
Reviews! Pode ser que o próximo capítulo saia tão rápido quanto esse!
Beijos!
Nina Neviani
