OS MEDALHÕES DE ZETA

por Nina Neviani

Capítulo VIII – Lorina, a rainha de Arkor

Depois de ter visitado o túmulo de seu pai, Siegfried retornou ao palácio de Mizar na companhia do rei. Ele mostrou o quarto no qual Siegfried ficaria instalado e disse que estaria na biblioteca resolvendo alguns assuntos do reino.

Os seus planos iniciais foram totalmente alterados. A princípio, tinha planejado apenas deixar Hilda a salvo, e seguir seu caminho para algum lugar longe dali. Mas então, descobrira todo o seu passado. E era quase como se sentir em casa. Ali estava com o melhor amigo de seu pai, que o via como um filho. E tinha Hilda.

Observou melhor o quarto que ele ocuparia. Nem se comparava com o que ele tinha em Arkor. Na realidade tudo em Mizar era de melhor qualidade do que em Arkor. "Até o rei", pensou, lembrando-se Alberich.

Começou a caminhar pelo palácio, quando tinha entrado não tivera tempo de perceber o quanto ele era grande. Na sala de estar, foi até uma janela que dava para os jardins. Sorriu ao ver o gramado impecavelmente verde. "Quantas vezes não espiara Hilda descansar ali?"

Percebeu que alguém havia entrado no cômodo. Era Hagen, que desculpou-se logo em seguida.

– Desculpe, Duhbe. Não queria atrapalhá-lo.

– Não atrapalha, Merak. Pelo contrário, gostaria de ter alguém com quem conversar sobre Mizar. E acho que poderíamos nos chamar pelos nossos primeiros nomes.

O Chefe da Guarda Real assentiu.

Siegfried não sabia por que motivo, mas sentia que devia confiar em Hagen. Talvez pelo fato de ele ter salvo a vida do rei César. Talvez fosse só uma intuição mesmo. E desde que soube de toda a história do seu passado, decidiu que seguiria em todas as suas intuições.

– Sei que posso parecer curioso, mas para onde você levou a princesa Hilda? Nós procuramos em vários lugares.

– Para a casa que foi dos meus pais, que não ficava nem em Arkor e nem em Mizar. E é bem escondida pela mata. Imagino que o seqüestro de Hilda tenha dado muito trabalho.

– Sim. Porém, ela não foi realmente seqüestrada, se o plano de Megrez fosse realmente efetuado, é que nós teríamos problemas de verdade.

– É. Mas confesso que tive um pouco de trabalho para fazer Hilda entender que não era um seqüestro.

Os homens sorriram. E Hagen completou.

– A princesa Hilda é muito decidida, e uma pessoa maravilhosa também.

– Assim como a princesa Freya, não?

O Chefe da Guarda Real ficou um pouco vermelho antes de indagar:

– É tão óbvio assim?

– Não. Fique tranqüilo. Eu não tinha totalmente certeza até você confirmar agora. – Sorriram – Mesmo Hilda tendo me dito que você cuidaria para que nada acontecesse a Freya.

Hagen ficou pálido.

– Será que ela sabe?

– Talvez ela saiba o que a irmã dela sente por você.

– Você está insinuando que a princesa Freya possa gostar de mim? Gostar de mim não apenas como o Chefe da Guarda Real?

– E por que, não?

O mizariano pareceu pensar por algum tempo. Depois de algum tempo em silêncio, voltou a falar.

– Agora, o relacionamento de você e a Hilda está bem óbvio, Siegfried.

Eles riram.

– Ela te chamou de "meu amor" na frente de todos no palácio. – Então, Hagen ficou sério – Espero que ela seja correspondida, Siegfried. Hilda é uma pessoa...

– Sim, ela é correspondida. Muito correspondida e há algum tempo, também.

– Como assim?

Siegfried contou ao novo amigo toda a sua breve história com Hilda.

– Agora eu tenho uma prova do quanto você é bom. Desde os seus dezesseis anos você vem até Mizar, fica a metros da nossa princesa e nunca foi descoberto! E eu que pensei que a nossa guarda estivesse progredindo.

– E está, Hagen. É verdade. De três anos para cá, que foi quando você assumiu o seu posto, a disposição dos guardas é muito mais eficaz e correta.

– Mas ainda temos que melhorar. Se você puder me dar algumas opiniões eu serei muito grato, Siegfried.

– Claro, Hagen. Estou à disposição.

Hagen que estava olhando pela janela disse.

– Meu Deus! Arkorianos aqui!

Siegfried voltou-se para a janela e rapidamente reconheceu vários daqueles que até pouco tempo eram seus companheiros. Sem pensar, muito avisou.

– O rei César está na biblioteca vamos chama-lo.


– Hilda Polaris, me conte tudo!

Freya disse quando entraram no quarto dela.

Hilda suspirou ao sentar na cama, e disse:

– É uma história muito longa. Várias histórias muito longas.

A irmã deitou-se e apoiou a cabeça no colo de Hilda, que começou a contar a história dos pais. Quando terminou de contar, Freya estava tão surpresa quanto ela tinha ficado.

– Calma, deixa-me ver se entendi. – Freya disse, e sentou-se de frente para a irmã, e começou a falar – Papai, um dia, viu uma garota. E se apaixonou por ela. Mas nunca mais a viu.

– Certo.

– O melhor amigo dele estava prometido para uma garota que eles não sabiam quem era. Mas o amigo dele fugiu para se casar com uma arkoriana. Manchando a reputação da prometida que ele deixou aqui.

– Exatamente.

– Então, nosso pai, para melhorar a reputação da garota e para fazer que os boatos do amigo dele acabassem mais cedo, pediu essa garota que tinha sido trocada pela arkoriana em casamento. Depois que ele foi saber que se casaria justamente com aquela pela qual ele tinha se apaixonado, e que a vira apenas uma vez.

– Sim, você entendeu corretamente.

– Nossa. Acho que essa é realmente uma história de amor.

– Foi, até o nosso pai matar o nosso avô materno.

Hilda já tinha contado a Freya a história da morte dos pais de Siegfried.

– É. Eu não acho que o papai tenha agido errado, mas entendo a nossa mãe.

– Ela nunca perdoou o nosso pai. Acho que depois de esse episódio que ela ficou com raiva do mundo, e tornou-se aquela pessoa fria e um pouco ambiciosa que ela se revelou nos últimos anos.

– Isso, somado com a doença. Ela sabia que morreria cedo. Mas, a despeito de tudo, eu amo a nossa mãe.

– Eu também, lógico.

Ficaram um tempo em silêncio, até que Freya voltou a perguntar.

– Acho que só falta você me esclarecer a sua relação com Siegfried Duhbe.

Hilda ficou vermelha e disse.

– Freya!

– Não, não... Hilda! Eu contei sobre o Hagen, e você vai me contar sobre o Siegfried. Ele era aquele menino que você disse que conheceu quando era pequena e que ele não era de Mizar, não, é!

– Sim. É ele. E eu o amo. E ele também me ama.

Freya interrompeu a irmã.

– Que lindo!

– Não é tão lindo assim, Freya. Existem muitos pontos a se considerar. Siegfried está prometido a uma arkoriana.

– Ora, isso não é problema! O pai dele não estava prometido a uma mizariano e mesmo assim se casou com uma arkoriana? Ele pode muito bem fazer o contrário!

– Freya, estou falando sério!

A irmã mais nova deu de ombros, e a mais velha continuou.

– E também, não sabemos qual a vai ser a reação de Alberich.

Freya que estava na janela, disse meio assustada.

– Acho que isso nós já vamos descobrir. Eu acho que são arkorianos que estão vindo pra cá.

– O quê?

– Venha aqui ver.

Hilda viu um grupo de mais ou menos vinte pessoas se dirigindo em seus cavalos muito velozes para o palácio. Era possível perceber que os dois membros do meio eram de certa forma protegidos pelos demais.

A herdeira do trono de Mizar, disse para Freya.

– Vamos, não podemos ficar aqui paradas.

E as irmãs foram para ao encontro do pai. Encontraram-no na sala de jantar. Ele já sabia do que estava acontecendo, e dirigiu-se para a sacada. Junto com ele foram as duas princesas, Siegfried, Hagen e mais alguns guardas reais.


Instantes depois, os arkorianos paravam a frente do palácio real de Mizar.

– Tinha certeza de que o traidor estaria aqui. Você não nega que tem sangue mizariano nas veias, Siegfried.

Alberich se dirigia ao primo. Ou melhor, àquele que ele pensava ser seu primo.

Siegfried estava à frente de Hilda, como que para protegê-la, Hagen fazia o mesmo com Freya. E o rei César, estava entre eles. Foi ele quem disse.

– Boa tarde, para o senhor também, Alberich Megrez, rei de Arkor. Perdôo o seu deslize de diplomacia por ser rei a pouco tempo. Porém, não admito que venha ao meu reino para ofender um mizariano.

A voz do monarca estava calma, o que desconcertou o jovem rei de Arkor.

Hilda arriscou olhar para Siegfried, para tentar entender o que ele estaria sentindo. Porém, o rosto do guerreiro estava inexpressivo. A atenção dele estava toda na mulher que estava ao lado de Alberich.

"Que seria ela?" Hilda se perguntou.

Alberich voltou a falar.

– Certo. Foi um pequeno deslize de minha parte, César Polaris, rei de Mizar. – E olhando pra Siegfried continuou – Acho que não conhecem ainda a rainha de Arkor, Lorina Megrez.

"Então era por isso!" Hilda pensou. "A prometida de Siegfried tinha se casado com Alberich!"

– É um prazer conhecê-la, rainha Lorina. – César Polaris foi cortês ao cumprimentá-la. No entanto, um pouco da cortesia se perdeu quando ele voltou a falar com Alberich. – Creio que não veio até aqui para nos mostrar a sua esposa.

– Não. Vim aqui para comunicar oficialmente que o reino de Arkor declarará guerra ao reino de Mizar.

– Por qual motivo? – César Polaris continuava calmo, e Hilda desconfiou se ele já não esperava por aquela situação.

Alberich titubeou ao responder, não imaginara que o rei de Mizar se interessaria em saber o motivo que o levara a declarar guerra. Entretanto, se recuperou rápido e respondeu.

– Pelo fato de que vocês tiveram um espião em Arkor.

Ele não citou nomes, mas todos intuíram se tratar de Siegfried, que abriu a boca para falar alguma coisa, mas desistiu quando o rei César lhe fez um gesto discreto.

– Certo. Quando será a guerra?

– Quinze dias.

– Perfeito.

Com um quase imperceptível assentimento, que estava longe das regras de diplomacia, Alberich retornou para Arkor com a sua rainha e os seus guerreiros.

Continua...


N/A: Agradeço a todos os reviews!

E espero que tenham gostado desse capítulo.

Abraços!

Nina Neviani