OS MEDALHÕES DE ZETA
por Nina Neviani
Capítulo IX – A Guerra se aproxima
– Uma guerra.
A princesa mais velha disse. Estavam reunidos na biblioteca do palácio de Mizar, o rei, as duas princesas, o chefe da Guarda Real e Siegfried.
César Polaris, que estava pensativo até aquele momento, disse:
– Sim, uma guerra. Entretanto, não vamos nos preocupar com a guerra hoje.
– Como, papai? – Hilda perguntou.
– Isso mesmo, minha querida. Por hoje vamos esquecer esse assunto. A guerra acontecerá em duas semanas, teremos muito tempo para nos preocuparmos, e começaremos amanhã. – Hilda novamente ia falar algo, mas o rei repetiu – Amanhã.
– Certo, papai.
– Aproveitem esse belo dia. Pois, logo teremos muito trabalho.
Freya estava nos jardins do palácio de Mizar, perto da floresta. A princesa estava distraída e assustou-se ao ouvir o chefe da Guarda Real dizer:
– A guerra é iminente, princesa. É perigoso a princesa andar desacompanhada, ainda que em Mizar.
– Tem razão, Hagen. Foi um descuido meu.
O Chefe da Guarda Real notou a voz embargada da princesa mais jovem.
– Desculpe-me se vou parecer intrometido, mas esteve chorando, princesa?
Ela concordou com a cabeça, e então, disse.
– Eu tenho medo.
– Da guerra?
– Sim. E de perder meu pai, de perder você...
– Posso ocupar o posto mais importante da guarda mizariana atualmente, princesa Freya, mas não sou insubstituível.
– Não falo do Chefe da Guarda Real, falo de Hagen Merak. – Os olhos da princesa voltaram a se encher de lágrimas. – Eu não suportaria perdê-lo, Hagen.
Eles se abraçaram.
– É o meu dever, Freya. Devo proteger Mizar, devo proteger você...
– Se eu não fosse a princesa, ainda assim você me protegeria?
– Se você não fosse princesa de Mizar, eu já teria me atrevido a dizer o que sinto há muito tempo.
– O que você sente, Hagen?
– Eu a amo, Freya.
– Eu também o amo, Hagen. E quero que me prometa uma coisa.
– Se estiver ao meu alcance, prometo tudo o que você quiser.
– Prometa-me que vai voltar vivo dessa guerra.
– Freya...
– Por favor, Hagen. Só assim eu conseguirei agüentar esses dias que antecedem a guerra, e a própria guerra.
– Mesmo sabendo que não temos o poder de mudar o nosso destino, eu prometo fazer o possível para voltar vivo. Para você.
E trocaram o primeiro beijo
Em uma das inúmeras salas do palácio mizariano, a outra princesa de Mizar conversava com Siegfried.
– Eu ainda não acredito. Tanto que o meu pai pregou uma paz entre mizarianos e arkorianos... não é justo que seja no reinado dele que aconteça a primeira guerra entre Mizar e Arkor.
– A culpa não foi dele. Alberich é um tolo, essa guerra pode desgraçar os dois reinos. Cada vez que penso nisso fico mais revoltado. Os mizarianos e arkorianos nunca guerrearam e quem provocou a guerra não é de nenhum dos dois povos!
– Eu tenho muito medo.
– É normal que tenha medo, Hilda. Mas como o seu pai disse, não devemos pensar na guerra hoje.
– Sim, vocês têm razão.
Ficaram em silêncio e Siegfried se juntou a ela, que olhava as terras de Mizar, mas como se estivesse olhando muito além. Ele a abraçou.
– Posso fazer uma pergunta? – Hilda perguntou.
– Claro.
A princesa escolheu as palavras antes de dizer:
– O que você sentiu quando viu que a sua prometida agora é a rainha de Mizar?
Siegfried também pensou por um momento antes de responder:
– Alívio.
– Não sentiu ciúmes?
– Ciúmes? Não, não. Não me diga que você sentiu ciúmes.
– Ela é bonita. E pelo que eu escutei meu pai dizendo, ela guerreia muito bem. E...
Ela deu de ombros. Siegfried a virou até que pudesse olhar nos olhos dela.
– Sim, ela é bonita e luta muitíssimo bem. Mas eu nunca senti nada por ela. Quando eu a conheci, já tinha sido encantado por uma linda e bondosa princesa. Eu amo você, Hilda, e ninguém mais.
– Perdoe-me, eu sou uma tola. Com tantas coisas mais importantes para me preocupar e eu agindo como uma boba.
– Eu gosto de saber que você se importa comigo, Hilda. Saber disso me deixa honrado. – Olhando para os jardins, ele disse – Tenho uma proposta para fazer.
– Sim?
– Eu a observei tantas vezes naquele jardim, entretanto jamais ousei imaginar que poderia estar ali junto com você.
– Está me convidando para um passeio, Siegfried Duhbe?
– Sim, porém dessa vez você ficará sabendo para onde vai.
Ela riu.
– Fico mais tranqüila. Vamos?
– Vamos.
No dia seguinte...
Na sala de jantar do palácio, o silêncio era absoluto. Estavam à mesa, o rei, as princesas, Siegfried, e, por convite do monarca, Hagen. Antes do anoitecer do dia anterior, todos os mizarianos e arkorianos já sabiam da guerra. A maioria das pessoas estava apreensiva com o confronto.
César Polaris se levantou e os demais começaram a fazê-lo também, mas o rei os deteve com um gesto.
– Penso que temos coisas mais importantes para nos preocuparmos do que com regras de etiqueta desnecessárias. Quando terminarem a refeição, por favor dirijam-se à biblioteca, eu os espero lá.
Minutos depois, na biblioteca...
– Espero que tenham aproveitado bem o dia de ontem. – O rei disse aos quatro jovens. Hilda teve que conter o riso ao ver a irmã corar violentamente. Quando ela e Siegfried estavam passeando pelo jardim, tinham visto Freya e Hagen finalmente admitindo o que sentiam um pelo outro. "Essa guerra, fez pelo menos uma coisa boa", pensou.
– Cada um de nós aqui terá a sua utilidade. – O rei continuou – Eu com a experiência, Hagen com o grande conhecimento sobre lutas e sobre Mizar, Siegfried com o entendimento excepcional sobre combates, Hilda com sua inteligência privilegiada e Freya com a sua simpatia e amabilidade.
A princesa mais jovem não gostou da parte que se referiu a ela no discurso.
– De que servem simpatia e amabilidade em uma guerra?
– Vejo que devido a sua ansiedade, indicarei as suas responsabilidades primeiro. – Indicando o mapa do reino que estava pendurado na parede, falou – Está vendo aquela área próxima à fronteira entre Mizar e Arkor?
– Sim.
– Quando a guerra começar, aquelas pessoas serão as primeiras a ser atingidas, e aquela é uma área residencial, há um número considerável de mulheres e crianças ali. Uma de nossas atribuições, como membros da Família Real de Mizar, é proteger os mizarianos. Assim, vamos trazes essas mulheres e crianças, e também os homens que não lutarão, para o palácio. Deixaremos alguns guardas lá, para nos avisar caso ocorra algo diferente. A sua tarefa, minha pequena Freya, é acomodar essas pessoas no palácio e cuidar para que elas estejam abrigadas da melhor maneira possível. Acho que ninguém executaria melhor essa tarefa do que aquela que todos amam no reino e que sempre sabe como ser gentil.
Ela corou, apenas um pouco dessa vez, devido ao elogio do pai e a excitação de ter uma tarefa para cumprir na guerra.
– Certo, papai. Eu devo acomodar as famílias apenas nos quartos livres na área oeste, que são os quartos livres, ou em todos?
– Temos vinte quartos nos palácio, desses, dezesseis estão desocupados. Fique à vontade para utilizar todos.
– Sim, se for preciso eu dividirei o quarto com Hilda e cederei o meu. Posso começar a cuidar dos preparativos?
– Claro.
– Com licença. – E saiu orgulhosa da sua responsabilidade.
– Hagen, você pode passar a responsabilidade de avisar esses moradores a alguns de seus guardas? – O rei perguntou.
– Sim, senhor.
– Obrigado. Antes me diga: de quanto tempo você precisa para conseguir as informações de quantos homens fazem parte da Guarda Real de Mizar e quantos homens em idade de lutar nós temos?
Para surpresa e orgulho do rei, ele disse prontamente.
– Não preciso de tempo, Alteza. Cento e cinco homens fazem parte da Guarda Real, e são oitocentos e vinte e um homens em idade para lutar, contando com os guardas.
– Contando comigo?
– Não. Sem contar com o senhor nem com Siegfried.
– Certo. Obrigado, Hagen. Por favor, volte aqui depois de passar as ordens para os guardas.
O rapaz concordou, pediu licença e deixou a biblioteca. O rei voltou-se para o outro homem presente na biblioteca.
– Siegfried, eu entendo e ficaria aliviado se você não lutasse. Sua mãe certamente não aprovaria, nem seu pai. Lembre-se que, se você lutar, vai lutar contra seu próprio povo. É certo que a luta Arkor contra Mizar já uma luta de um só povo, mas o seu caso é especial.
– Eu gostaria de propor uma solução. – Siegfried disse.
– À vontade, filho.
– Eu acho que não conseguiria lutar de verdade contra um arkoriano, ainda mais porque muitos dos guerreiros são meus amigos. Porém, eu sou o motivo, ao menos o motivo declarado, de essa guerra existir, por isso me vejo na obrigação de estar no campo de batalha. E estarei lá para me encarregar da única pessoa que eu desejo ferir.
– Já pensou se você deseja realmente carregar o fardo de matar o rei de Arkor?
– Não me sentirei culpado em matar o homem que matou um rei para tomar o trono.
– Você já matou alguém, filho?
– Não.
– Creia-me, não é tão simples como parece. Mas se essa é a sua decisão eu a aceito e a respeito.
– Obrigado, rei César.
Nesse momento, hagen voltou à biblioteca.
– As ordens já foram dadas, Alteza.
– Ótimo, Hagen. Hilda pegue os mapas de Mizar e das fronteiras e comece a analisá-los com Hagen e Siegfried. Enquanto isso, eu escreverei cartas para os governantes dos reinos mais próximos avisando sobre a guerra. Teoricamente, isso seria responsabilidade de Alberich, já que foi ele quem declarou a guerra, mas como ele me pareceu não muito atento às regras de diplomacia, não me custa fazê-lo.
Algum tempo depois, o monarca de Mizar se juntava aos jovens que analisavam os mapas e tentavam elaborar estratégias ofensivas e defensivas.
– É, meu jovens, vocês entrarão para a história. O destino de Mizar e Arkor passará pelas mãos de vocês.
Continua...
Nota da autora: Capítulo curto e com um romancezinho básico antes da guerra. Eu, particularmente, não gosto de colocar cenas que não tenham pelo menos um dos personagens principais. Assim não era pra existir a cena do Hagen e da Freya. Relevem os errinhos, mas o capítulo foi escrito, (rapidamente) revisado e publicado em menos de meio dia.
Ah, esse capítulo é especialmente dedicado a Harpia, Sah Rebelde, Amelia Ebherrardt e olhai.lirios.
Até...
Nina Neviani
