OS MEDALHÕES DE ZETA
Nina Neviani
Capítulo X - Orgulho
"Meus jovens, vocês entrarão para a história. O destino de Mizar e Arkor passará pelas mãos de vocês."
As palavras do rei fizeram com que Hilda, Siegfried e Hagen entendessem a dimensão que as suas ações teriam na Guerra.
César Polaris continuou a falar:
– Falta quatorze dias para o confronto que decidirá de vez o futuro de... Zeta.
Siegfried teve pela segunda vez naquele dia o mesmo pressentimento e resolveu compartilhá-lo.
– Quando a isso, rei César, eu tenho as minhas dúvidas.
– Como assim, filho?
– Eu não me surpreenderia se Alberich adiantasse essa guerra.
– De maneira desleal?
– Alberich já deu muitas provas do quanto é desleal.
– Sim, você tem razão. Em quantos dias você acha que ele poderia adiantar essa guerra?
– As tropas arkorianas não precisam de mais do que uma semana para se aprontarem.
O monarca mizariano pensou por um tempo e perguntou para Hagen:
– Nossas tropas têm condições de estarem prontas em menos de uma semana?
– Sim, Alteza.
– Perfeito. Hilda, quais são as suas sábias sugestões?
A princesa sorriu e disse, mostrando o mapa.
– Supondo que a Guerra seja na fronteira...
– Faremos o possível para que ela seja lá.
– E como as casas próximas ao local estão desocupadas, nós poderíamos utilizá-las como bases de apoio. Poderíamos colocar armas e escudos extras e algumas pessoas para cuidar dos feridos. Eu mesma poderia estar lá...
Hilda foi bruscamente interrompida pelo pai.
– Não. Você sabe das regras, Hilda.
– Mas eu não estaria na batalha...
– Ainda assim. Sua obrigação é dar ordens de batalha da segurança do palácio.
– Certo, papai.
– Continue com a sua estratégia, querida. Eu gostei muito da idéia das bases de apoio.
– Sobre as bases de apoio não há nada mais além do que eu já disse, só que se fôssemos realmente utilizá-las, seria interessante levar os suprimentos aos poucos para não levantar suspeitas caso tenha algum arkoriano vigiando a fronteira.
– Certo. Hagen o que você acha da sugestão da Hilda?
– Excelente, Alteza. Após a reunião, explicarei para alguns homens e mandarei os ferreiros produzirem armas e escudos a mais para deixarmos nas bases de apoio.
– Este assunto já foi decidido. Qual o próximo ponto, Hilda?
A princesa olhou para as suas anotações, entretanto não precisou lê-las para explicar o próximo assunto.
– Levando em conta que a única intenção de Siegfried é lutar com Alberich, acho que ele deve estar disponível para... para lutar. Ou seja, Siegfried não coordenaria nenhuma tropa. – Olhando para Siegfried ela acrescentou – Talvez você queira um pequeno grupo de escudeiros com você...
– Não será preciso. Esta batalha é entre mim e Alberich.
Hilda queria discordar, porém concordou com a escolha de Siegfried, e continuou.
– Está bem. Assim, eu pensei em dividir o exército em duas grandes tropas. Uma receberia ordens de Hagen e outra receberia ordens suas, papai.
– Eu acho que é melhor. Assim tanto eu como Hagen poderemos tomar decisões mais rapidamente.
– Exato. O próximo ponto é a posição dos arqueiros.
Passaram as horas seguintes elaborando a estratégia que seria adotada pelo exército mizariano. Quando, por fim, chegaram a um consenso, já era quase noite.
– Acho que temos uma boa estratégia. – César Polaris declarou.
Todos assentiram e Siegfried disse:
– Só uma coisa. Acho que demos atenção demais ao Alberich, entretanto a Lorina é, sem dúvida, a melhor guerreira do reino. Ela tem uma mira incrível.
Hilda sentiu uma pontada de ciúmes da admiração que Siegfried tinha pela rainha de Arkor.
– Bem lembrado, filho. – Disse o monarca, e dirigindo-se a Hagen, falou – Hagen, não esqueça de avisar os guerreiros sobre Lorina.
– Não esquecerei.
– Certo. Agora vamos jantar. Estamos há horas aqui dentro.
Depois do jantar, quando ia para os jardins, Siegfried sentiu o peso do olhar dos mizarianos. Sabia que era o motivo da Guerra, assim, era por causa dele que aquelas pessoas tiveram que deixar seus lares e passaram a morar no palácio.
O guerreiro teve vontade de apressar o passo para sair do grande salão o mais rápido possível, porém lembrou-se que também era mizariano. Assim, continuou a andar normalmente.
Nos jardins, encontrou Hilda.
– É perigoso estar aqui fora a essa hora, princesa. Algum mestiço apaixonado pode não resistir e seqüestrá-la.
Ela riu e aceitou o abraço.
– O que eu mais queria era poder escapar desse pesadelo.
– Shhh. Tudo vai ficar bem. Se eu tinha alguma dúvida, elas desapareceram por completo quando eu tomei conhecimento da sua brilhante estratégia.
– Eu fui treinada a vida inteira para isso, entretanto nunca pensei que um dia colocaria todo o estudo em prática. Siegfried, você tem certeza que não quer um grupo de escudeiros com você?
– Absoluta.
Diante da convicção do guerreiro, Hilda desistiu de argumentar e mudou de assunto.
– A Lorina é tão boa guerreira, assim?
– Sim.
– Hum...
– Não me diga que ainda sente ciúmes?
– Não é bem isso. É que eu me sinto de certa forma... inútil. Ela é rainha e vai estar lá no campo de batalha, lutando. E eu que sou umas das princesas vou ficar trancafiada dentro do palácio!
– Hilda... Mizar e Arkor têm maneiras diferentes de encarar a guerra. Para os mizarianos, a guerra é uma atividade essencialmente masculina, mesmo porque, se comparado com Arkor, Mizar teve pouquíssimos conflitos. Já os arkorianos, vêem o combate, de maneira geral, como uma situação mais aceitável e se orgulham de possuir uma natureza guerreira. Você é uma mizariana, e tem que agir da maneira que o seu povo aprova. Já Lorina é uma arkoriana e age como tal.
– Você tem razão. – Beijou-o levemente e completou – Tem toda a razão, poderoso guerreiro e agora sábio Siegfried. Vamos entrar?
Hilda logo percebeu que os mizarianos que estavam vivendo no palácio faziam questão de ser hostis com Siegfried. Estava em dúvida se diria algo ou não, quando escutou alguém dizer "o mestiço maldito é a causa da Guerra". Foi mais do que suficiente para ela se decidir. Quando chegou no alto da escada parou e olhando para os mizarianos que estavam sentados nos diversos sofás que agora estavam no grande salão, disse:
– É dever da Família Real de Mizar proteger os mizarianos. É por esse motivo que os senhores estão aqui. Porém, alguns parecem esquecer que Siegfried Duhbe também é mizariano. – Hilda escutou Siegfried falar algo como "não precisa, Hilda", ela porém o ignorou e continuou – Se esquecem também que se não fosse pela coragem dele, neste momento eu poderia estar em poder de Alberich Megrez. Isso se ainda estivesse viva. Por isso, todos os mizarianos devem respeitá-lo, no mínimo, como um igual. E aos que pensam que Siegfried é a causa da guerra, permitam-me desfazer esse grande equívoco. Uma guerra entre Mizar e Arkor fatalmente ocorreria. Levou alguns séculos para ocorrer, é verdade, mas mais cedo ou mais tarde acabaria ocorrendo. O culpado dessa guerra é, a princípio, o último rei de Zeta, que não soube escolher qual de seus filhos seria o seu sucessor. Shido de Mizar e Bado de Arkor também são culpados por essa guerra, afinal mesmo sendo irmãos não souberam conviver um com o outro. E por fim, e creio que esses são os maiores culpados, somos nós. Nós e nossos antepassados. E também os arkorianos e seus antepassados. Somos os maiores culpados porque não soubemos corrigir o erro de Mizar e de Arkor. Somos nós porque fomos mesquinhos e não admitimos que somos tão filhos de Zeta quanto os arkorianos, e o contrário também, é claro. Assim, acho que o que menos importa agora, no presente, é ficar remoendo o culpado da guerra. O que podemos fazer é rezar para que essa guerra acabe trazendo o menor sofrimento possível para ambos os lados. O menor sofrimento para Zeta.
– Faço minhas as palavras de Hilda. – o rei disse.
– Eu também. – Freya reforçou.
Só quando teve o apoio do pai e da irmã, Hilda se deu conta de como tinha sido ousada. Nunca nenhum membro da Família Real de Mizar tinha assumido uma posição tão a favor de Arkor. E saber que sua família a apoiava sem restrições a orgulhava mais do que qualquer outra coisa. Esperou por mais algum tempo, quando teve a certeza de que nenhum mizariano iria se manifestar, a princesa desejou "boa-noite" a todos e foi para o seu quarto.
Quatro dias depois...
O dia previsto por Siegfried para a Guerra se aproximava. A movimentação no palácio de Mizar era cada dia maior, assim como também a aumentava a movimentação em todo o reino. O exército mizariano estava praticamente pronto, com a eficiência de Hagen todos já sabiam o que deveriam fazer e como deveriam fazê-lo. A ajuda de Siegfried também foi muito útil, ainda mais pelo fato de os mizarianos, depois do discurso de Hilda, passarem a respeitar o guerreiro. Alguns chegavam até a tratar Siegfried como um membro da família real.
Após o jantar, César Polaris chamou suas filhas, Hagen e Siegfried para acompanhá-los até a biblioteca. Quando já estavam acomodados, o rei começou:
– Eu não sei muitas coisas nessa vida. Contudo, uma das coisas que eu sei, provavelmente por ter vivido um, é reconhecer o amor puro e verdadeiro quando eu me deparo com ele.
O monarca ficou um tempo em silêncio até dizer:
– Eu queria muito que essa guerra não ocorresse. Não ao menos, agora. Queria que você, Hilda, e Siegfried vivessem o amor de vocês. Assim como queria que também você, Freya, e Hagen vivessem o amor de vocês. Entretanto, eu tenho fé e sei que vocês serão felizes. Muito felizes. A guerra leva muitas pessoas... O que eu quero dizer, meus jovens, é que vocês têm a minha benção para, quando essa Guerra acabar, viverem esse amor. Eu desejo que vocês se casem e sejam tão felizes como eu fui com Ana, e como Ian e Sarah também foram.
Freya interrompeu o pai e disse:
– Papai, porque toda essa conversa? O senhor fala como se...
– Como eu disse, minha querida. A guerra leva muitas pessoas.
O rei levantou a mão e silenciou os quatro que tinham começado a falar ao mesmo tempo.
– Encarem isso, como uma precaução da minha parte. Tudo o que eu quero é que vocês sejam felizes. E Hagen e Siegfried, eu fico muito honrado por vocês, em breve, se juntarem a família. Siegfried, o grande guerreiro e filho do meu melhor amigo e de uma mulher exemplar. E Hagen, o também grande guerreiro, e fiel amigo, que já arriscou a vida por mim. Sejam felizes, meus jovens.
– Agora, minhas adoradas filhas, por favor podem me deixar ter uma conversa particular com os rapazes aqui presentes.
As princesas estranharam o pedido, mas se retiraram.
– Eu tenho... algo para vocês dois, por favor venham até aqui.
Hagen e Siegfried se olharam, e seguiram o rei, que afastou a grande tapeçaria com o brasão de Mizar. Havia uma espécie de cofre que continha duas urnas. O rei abriu as urnas e tirou uma armadura de cada urna. Uma armadura tinha em algumas partes diferentes tons de cinza, e em outras uma cor avermelhada. O rei apontou para ela e disse:
– Essa é armadura é chamada de Beta.
A outra armadura era mais escura do que a armadura Beta, porém era tão linda quanto. Em alguns pontos a armadura tinha tons de azul.
– Essa armadura é chamada de Alfa. As duas armaduras deveriam ser usadas pelos príncipes nas guerras que Mizar, eventualmente participasse. Cada uma delas foi usada uma vez há algum tempo, e o resultado foi vitorioso. A cada novo rei que é coroado, as armaduras são sigilosamente reformadas para que elas não se tornem obsoletas. Porém a reforma é feita da maneira mais fiel possível, tanto que o desenho da armadura mudou muito pouco desde que elas foram criadas. Se eu tivesse filhos homens eles usariam essas armaduras. Assim, como considero vocês dois como meus filhos e como em breve vocês serão os príncipes de Mizar, não vejo porque não adiantar algumas coisa e entregar a você, Hagen, a armadura Beta e a você, Siegfried a armadura Alfa. Tenho certeza que vocês farão um bom uso delas.
– Eu não sei o que dizer. – O Chefe da Guarda Real estava surpreso com o presente.
– Eu muito menos. – Siegfried admitiu. – Só posso dizer: muito obrigado.
– Eu também sou imensamente grato, Alteza. É uma honra.
O rei César não teve tempo de responder, pois um guarda entrou apressado na biblioteca.
– Perdoe-me pela intromissão, Alteza. Mas o senhor disse que qualquer movimentação estranha deveria ser comunicada. Ao que parece os arkorianos estão se dirigindo para a fronteira.
Só quando terminou de falar, o guarda voltou a respirar.
– Vejo que está na hora de vocês usarem as armaduras.
Hagen antes de sair, perguntou:
– Alteza, o senhor não tem uma armadura?
– Tenho sim, filho. Não tem tanta tradição como a de vocês, mas é tão boa quanto.
Poucos minutos depois, o rei se despedia das duas filhas. Hilda segurava firmemente as lágrimas, Freya já tinha desistido da tarefa há algum tempo e deixava o pranto correr livremente.
– Infelizmente, não posso ficar muito tempo aqui, minhas queridas. Só quero que saiba que eu as amo muito. Eu já amava muitíssimo a mãe de vocês, mas nos dias em que vocês vieram ao mundo, Ana me deu mais motivos ainda para amá-la. Quero que me prometam apenas uma coisa: Sejam felizes.
O rei logo se juntou a Hagen e Siegfried que estavam no grande salão. As tropas já aguardavam do lado de fora, sistematicamente posicionadas. Freya trocou um último abraço com Hagen e Hilda com Siegfried.
– Está com o seu medalhão? – Hilda perguntou enquanto segurava o seu próprio.
Siegfried o tirou de dentro da armadura o seu.
– Sempre estarei com ele.
Distraíram-se quando um menininho se aproximou deles e disse para Siegfried.
– Não se preocupe príncipe Siegfried, eu vou cuidar da princesa Hilda.
Siegfried se abaixou e falou:
– Qual é o seu nome?
– Ian.
Siegfried sorriu e disse.
– Você tem o nome de um grande guerreiro, Ian. Eu confio a princesa Hilda aos seus cuidados.
O pequeno Ian, sorriu orgulhoso e ficou do lado de Hilda.
Siegfried deu um rápido beijo em Hilda e foi para a batalha.
Continua...
Nota da autora: Prometo não enrolar mais e fazer com que o próximo capítulo seja finalmente o da Guerra. Não dava pra ser esse, porque como vocês viram ainda tinha assuntos que deviam ser acertados.
Por favor, imaginem as armaduras dos rapazes como uma mistura entre as armaduras do Anime e das utilizadas na era medieval, porém menos protetoras do que essas.
Reviews me empolgam! Ainda mais agora que pelas minhas contas (não muito confiáveis) só faltam mais três capítulos. Vamos lá, pessoal, no capítulo passado senti falta dos comentários!
Até o próximo capítulo!!!
Beijos!
