O sol da alvorada já não mais se escondia no horizonte, o orvalho desaparecera expulso pela claridade e a Terra era oferecida o ápice dos raios do astro rei.

Flora e fauna pronunciavam-se pouco a pouco e simultaneamente seus sons eram ecoados pela floresta, frestada pelos feixes de luz que se infiltravam por entre as folhas verde vivo das faias em flor. Sherwood, portanto, encontrava-se em completa e corriqueira calmaria, degustada, com muito apresso, por um jovem arqueiro, debruçado sobre os braços de um majestoso carvalho, enquanto observava alguns frutos, agitados pela brisa fresca de fim de tarde, desvanecerem-se dos galhos indo de encontro ao solo húmido e coberto por folhagens.

Avistou um jovem casal cruzando por debaixo do galho onde estava. Curioso, passou a observa-los, desejando saber a que preço aqueles dois amantes submetiam-se aos possíveis perigos daquele bosque. Poucos possuíam a valentia para perambular por aquelas bandas, temendo serem abordados por sua famosa trupe de ladrões, logo não seria nem um pouco prudente ir tão a fundo na floresta de Sherwood, um território recheado de foras da lei e vigaristas.

Ambos caminhavam tão entretidos que mal perceberam sua presença acima deles, notou que, ambos pararam sérios. A garota levou as mãos à face, e o garoto, decepcionado, tocou o ombro direito de sua companheira, retirando-a em um gesto desconfortável não muito depois. Fitaram-se como se fosse à última vez que o fariam e, após um leve aceno simultâneo com as cabeças, seguiram opostas direções.

Não havia mais ninguém que pudesse ser avistado por Sesshomaru, mas ele manteve os olhos no lugar onde os jovens se separaram.

"-Sesshoumaru?"

Ele sacolejou a cabeça, no intuito de afastar qualquer memoria que desejasse reaver-se.

"-Sesshoumaru?!"

Suspirou em desagrado. Não seria possível não é mesmo? Afinal já se fazia algum tempo que passara a ministrar tentativas improfícuas com o propósito de desapegar-se de um passado penoso e aflitivo.

"Sim Rin?"

Esfolaram-lhe a pele, tirando toda sua decência, seus títulos, sua nobreza e sua integridade.

Não satisfeitos, o acusam de peregrinar o demônio, similar, segundo eles, ao seu pai, Inu-Thaisho, que por provas infundadas foi morto a sangue frio e posto de alimento aos abutres.

"-Você vai voltar não vai?"

Cometera equívocos, em tamanha demasia, a ponto de consumir tudo o que mais lhe estimava.

"-Não há necessidade de se preocupar"

Contudo, a cada ensaio, via-se novamente desvanecido. Sucumbido ás suas origens e sobrepujado a antigas feridas. Porque desatrelar-se de momentos outrora degradantes, significaria... Esquecer-se dela...

"-Prometa!"

Significaria desinibir-se de instantes prósperos e risonhos que apesar de retomar á antigos e penosos acontecimentos, entrelaçavam sua alma e coração de maneira a acorrenta-lo por seu próprio querer.

"-Dou-lhe a minha palavra, pequena."

Paguejou

Caso assim procedesse transformar-se-ia em um estúpido sentimentalista e ultimamente, a persistência desta em possuir sua razão e suas ações tornava-se demasiado irritante. Era mesmo um belo de um imbecil, disso ele tinha certeza.

Sentiu algo rapar-lhe a fina e desgastada camisa de linho, rasgando o tecido e quase atingindo sua cabeça. Sesshoumaru desceu da arvore empunhando sua pequena adaga de caça. Com seu bom humor, caracteristicamente precário, aos pedaços não faria mal estraçalhar o bastardo que arremessara a bendita pedra!

-Ei abaixe essa arma Sesshoumaru!- gritou o moreno agitando os braços, sinalizando uma rendição descompromissada e brincalhona.

O arqueiro continuou a encarar o brutamonte a sua frente, não ministrando nenhum movimento que revelasse alguma intenção de retornar a arma à algibeira, apesar de girar os olhos tediosamente, um tanto desapontados por ter sido seu amigo o indivíduo que quase lhe arrancou sobrancelha. Internamente, torceu para que fosse um moribundo qualquer. Não pensaria duas vezes antes de lhe dar alguns socos.

-O que quer Ryou?- Sesshoumaru sequer tentou encobrir seu desinteresse na formação de um dialogo muito menos o seu desejo terminar aquele rodeio da maneira mais rápida possível.

-Sesshoumaru, falo sério, abaixe a arma...

-O que quer?

-Primeiro abaixe a arma...

-Diga logo o que, por todos os demônios, você quer!

O batedor riu zombeteiro pela indignação do amigo, cruzou os braços rígidos sobre o tecido da regata maltrapilha e passou a andar sobre o território desnivelado da região.

Nenhuma resposta

-Mas o que há afinal, Ryou? Esta com medo?

- Não acredito que seja de seu feitiço mandar um bom amigo para o senhor prematuramente.

-Tem certeza?

-Ora, mas é claro que tenho!

-Pois bem, então desembuche!

...

Rangem as dobradiças da porta. A camponesa entra, seguida por uma rajada de vento fervorosamente retida pelas grossas madeiras do portão. Tira seu capuz, permitindo-se soltar o rabo de cavalo, logo avistando seu objetivo para tornar a caminhada pelo pequeno salão, sob as vistas desdenhosas do antigo padre, que não se contentou em ficar quieto.

-Fico feliz que tenha vindo despedir-se Lady Rin.

A morena sorriu sátira

-Nada mais aprazível para a alma do que dizer-te adeus, não concorda Frei Tancredo?

-Completamente-ironizou o pastor- Apesar de admirar seus sermões durante a missa de Domingo, creio que será gratificante a minha mudança para York. Aliás, uma lastima não ter comparecido no ultimo evento, senti falta de uma boa cristã.

Boa cristã... Pois ele devia de ser um exímio frei para dar-lhe sermões. Devia. Mas não era. Uma lástima não?

-Costumo preferir a igreja silenciosa nos momentos em que rezo... Por um milagre-respondeu a rurícola, ainda fazendo menção de continuar a discursar, dirigindo-se agora ao novo frei.

-Espero que tenha consciência padre-debutou Rin- do rebanho que agora lhe pertence.

Um rapaz, franzino, de cabelo comprido içado por um pequeno elástico azul uniu as sobrancelhas, confuso. Enquanto arrumava a toga presa por um cinto improvisado de barbante barato que teimava em ajeitar-se no corpo desengonçado e magro, suas mangas eram exageradamente dobradas Teria ele tomado tanto hidro mel a ponto de esbanjar um cheiro intenso de néctar? Bem uma abelha ele não era.

-Nothinham constitui-se em sua maioria de mulheres, crianças e idosos. Os homens morreram nas cruzadas de Ricardo ou voltaram arruinados. Estamos desesperados, nossos solos estão férteis para plantio, mas não há nem um mísero grão para semear...

-Não, não e não. Nem cogite essa hipótese!-repreendeu frei Tancredo, que simultaneamente recebeu olhares desgostosos da mulher que falava.

- Apesar do fato da minha pessoa não encontrar-se a discursar com sua santidade, caro padre Tancredo. Entenda que as pessoas correm o risco sofrer prejuízos tão grandes que beirariam a falência, enquanto a Igreja possui estoques de semente mofando em seus porões.

- Lamento os grãos deverão ir para York. Para tanto o povo de Nothinham tem que aprender a parar de pedir e colher o que cultiva.

- Tudo o que peço padre, constitui-se em nada mais do que a pura benevolência cristã, diante da dificuldade inesperada e absurda de todo um povoado!

-Ouça-interviu Miroku- Nós dependemos das ordens vindas de York, mas talvez possamos achar uma solução...

-Tolice, não cabe a York pagar pelos pecados dessa vila.

-Pecados? Ora para o inferno com os pecados!

Rin corrigiu rapidamente seu equivoco desrespeitoso, ficando em silencio por longos segundos antes que exprimisse outras ofensas sobre o teto da casa de Deus, mas consciente de sua causa perdida progrediu até a porta pela qual entrara momentos atrás.

-Tenha um bom dia, Lady Rin. Uma pena que...

A camponesa gracejou um pequeno riso irônico, interpelando os dizeres do religioso.

-Como já lhe disse frei, aprecio a igreja silenciosa quando rezo- enunciou, num gesto notório, para que o individuo em questão cala-se a boca, para em seguida virar-se para o jovem frei.

-Perdão, mas qual seu nome?

O rapaz estendeu-lhe a mão, respeitoso e lhe sorriu de forma amigável.

-Frei Miroku

A morena semelhou-se ao mesmo gesto, contudo não se apresentou. Puxou a pequena argola e a porta de madeira velha deslizou pelo chão sedimentado. Correntes de vento entram pelo corredor da Igreja serpenteando o salão e regando-o com humidade, uma chuva de verão estava por vir. A rurícola subiu com agilidade sobre seu alazão caramelado e partiu para o leste.

-Terá muitos problemas com Rin de Paper Harow, Miroku, mas, com o tempo, há de se acostumar com a ignorância dessa garota. - comentou o padre Tancredo

O mais novo não exibiu preocupações. Sabia que a donzela não era dotada de pretensões mesquinhas, porém talvez Rin fosse intrometida de mais em assuntos fora de seu encalço e isso não ia lhe trazer surpresas agradáveis.