NATAL DE 44

Capítulo 2:

Naquela noite, todos os soldados dormiram profundamente. Todos com exceção de Logan. Além dele, havia um guarda colocado para vigiar os prisioneiros, mas todos estavam tão embriagados que era impossível qualquer um deles empregar alguma fuga agora.

Ele ficou observando o dia surgir e os soldados acordarem com ressaca, inclusive O'Neal apareceu. O capitão acordava os seus soldados, como se quisesse certificar-se de que nenhum deles tivesse sido atacado à noite e, que os alemães ainda permaneciam adormecidos.

De longe, Logan percebeu o fedor de cigarros e de morte do capitão. Parecia que tinha dormido com as suas roupas e não parecia muito incomodado com a própria aparência. Fez um sinal para que o canadense se aproximasse e ele o fez, desconfiado.

Os soldados se reuniram em volta de seu comandante e começou a relatar.

-Ontem por volta das sete horas recebi uma nova ordem do Comando Central pelo rádio. –dizia com certa naturalidade. – Somos necessários para reforçar uma divisão em Peio. Temos que estar lá o mais rápido possível! Logan, se quiser nos acompanhar será bem vindo. Senão, pode partir agora.

-Senhor! –Cooper adiantou-se.- Peço a palavra, senhor!

-Fale logo, Cooper. Não temos tempo a perder.

-É do outro lado da montanha, senhor.

-Eu sei, Cooper. Só isso?

-Mas... E os prisioneiros, senhor?

O Capitão deu uma risadinha, mas os soldados não pareciam prever que algo ruim iria acontecer. Logan teve a mesma sensação.

-Acordem os infelizes, vamos dar uma volta lá fora. Cooper, Smith! Peguem pás... umas nove. Uma para cada prisioneiro.

Nesse instante todos perceberam a real intenção do capitão. Sabiam que estava em guerra, mas não quer dizer que poderiam aceitar o que estava para acontecer, mas obedeceram seu oficial superior. O canadense ficou parado, apenas fitando O'Neal. A fera dentro dele sussurrando o que ele deveria fazer, ignorando as ordens do homem para calar-se.

-O que foi, Logan? –O'Neal o fitou, acendendo outro daqueles cigarros fedorentos e baratos que havia achado. –Parece que não gostou das minhas ordens.

-E você parece que gostou muito delas.

-São só lixo alemão. Quem vai sentir falta deles? –disse com desdém. –Ainda dei aos Chucrutes uma última festa de despedida. Até que fui generoso.

Nesse instante as lembranças da noite anterior vieram com tudo na mente de Logan. A conversa com Erik, seu desejo de voltar para a esposa e para a filha. A fera falou mais alto. O'Neal e alguns soldados o ouviram rosnar e estranharam. Um homem afastou-se de Logan, pegando em sua arma, quando o viu olhar ameaçadoramente para o capitão.

Logan teve a intenção de atacar, mas o soldado apavorado disparou contra a cabeça dele. Era uma arma de grosso calibre, abrindo um buraco na caixa craniana do soldado canadense, mas ele não tombara.

O'Neal pegou o rifle das mãos de Cooper e descarregou a arma em Logan, fazendo-o tombar.

Os tiros e a confusão foram mais do que suficientes para despertar os alemães. Erik em silêncio olhava para o corpo inerte de Logan e em seguida para O'Neal. Em seu intimo entendia o que iria acontecer.

-Que merda, Rodriguez! Nem para matar um homem você serve? –O'Neal praguejou. –Todos para fora agora!

Cinco minutos depois, todos estavam de pé na neve do lado de fora do posto. O sol brilhava, mas não era o suficiente para aquecê-los. Os soldados americanos tinham os rostos sombrios, sentiam dores no estômago pela situação, mas mantinham-se firmes na marcha. Os cativos arrastavam os pés, certos do que os esperava.

Pararam há poucos metros do posto e ordenou que Cooper entregasse a cada soldado alemão uma pá.

-Formem uma linha. Cavem! –ordenou o capitão.

Os prisioneiros não podiam acreditar no que estavam fazendo. Erik olhou por cima do ombro, para o posto, lamentando a morte de Logan. O soldado canadense havia sido enviado para salva-lo e por isso foi morto. Em seguida, fitou o capitão que permanecia com um sorriso nos lábios, uma expressão que causava em seus soldados uma sensação desagradável de que ele se divertia com o que fazia.

Eles olhavam casualmente para o capitão, esperando que as ordens dele mudasse. Mas ele mantinha-se inalterado. Era nítido que o destino dos alemães estava incomodando os americanos. Em apenas uma noite percebiam que não eram monstros aos seus olhos, mas homens como eles, que desejavam somente voltar para casa.

Mas o capitão permanecia impassível em sua postura.

Assim que terminaram de cavar, os prisioneiros deixaram as pás caírem aos seus pés e ficaram de frente para o capitão. Ele ordenou que lhe dessem as costas. Em uma linha apertada, ombro a ombro, obedeceram.

-Peguem seus rifles. –o capitão ordenou e viu a hesitação em seus homens. –É UMA ORDEM!

Os soldados obedeceram, preparando seus rifles. Os alemães fecharam os olhos, alguns oraram. Erik pensava apenas na esposa que não beijaria mais, e na filha que não veria crescer.

-FOGO!

Mas ele não ouviu nenhum tiro. O'Neal viu que seus homens ainda com as armas apontadas para os prisioneiros, não dispararam.

-Que merda! São surdos? Atirem!

Eles não obedeceram.

-Não atirem!-ordenou Cooper e imediatamente todos baixaram as armas.

-O que disse? Querem ir todos para a corte marcial?

-Senhor... –era Cooper. –Uma coisa é atirar em uma batalha, outra é assassinato a sangue frio! Não vou matar esses homens!

-São alemães!

-Não vou compactuar com isso, senhor! Deixem eles presos no galpão e um soldado montando guarda até a chegada de outra unidade! São prisioneiros de guerra, não animais para serem executados!

-Acha que os nazistas teriam a mesma piedade que vocês?

-Eu não respondo pela consciência dos outros, senhor. Só pela minha! –Cooper falou sério, pela primeira vez sem tremor na voz ou nas mãos quando se referia ao Capitão. –E irei notificar o assassinato do oficial canadense, senhor!

-Você é mesmo um idiota!

O'Neal retirou a arma do coldre e apontou a pistola para a testa de Cooper, não tinha mais em seu rosto o sorriso jocoso de quem se divertia em ver homens sendo fuzilados. Havia raiva por ser contrariado.

-Vocês irão atirar! Foram ordens do Alto comando!

-Não quer dizer que sejam as certas! Ninguém atira!

-Está me desafiando, Cooper? Tá me desafiando, seu merdinha?

Cooper sustentou o olhar de seu capitão.

-Não vamos atirar nesses homens, senhor!

-Merda... –O'Neal deu uma risada e apontou a arma para a cabeça de Cooper e atirou, mas o garoto não ficou impassível.

Segurou a arma de O'Neal com as mãos, tentando desarma-lo. Mas o capitão era claramente mais alto e mais forte que o jovem soldado e foi rapidamente rendido após receber uma cabeçada na boca, que lhe quebrou dois dentes e um soco na boca do estômago.

Cooper sentiu o gosto de sangue e de bílis na boca, caiu ajoelhado e vomitou. Em seguida viu o cano frio da pistola apontada para seu rosto novamente.

-Finalmente teve colhões para me enfrentar, Cooper? To admirado! –deu uma coronhada no rapaz que caiu na neve e apontou a arma para a cabeça dele.

-Nein! –Erik gritou, aproveitando a confusão para jogar o próprio corpo contra alguns soldados.- FUJAM!

Ele ordenou aos seus homens, que hesitaram um instante em abandonar o companheiro para trás, mas um deles obedeceu prontamente às ordens, sendo atingindo na perna por O'Neal.

-NEIN!- Erik urrou ao ver o soldado cair pelo tiro na neve, gemendo de dor, enquanto era dominado e preso ao chão pelos outros soldados que tentavam contê-lo com esforço.

–Vão continuar me desafiando? –O'Neal parecia transtornado e chutou o rosto de Erik com tanta força que causou um ferimento horrível em seu olho, praticamente desfigurando-o. –Mais algum herói aqui?

Então antes que alguém dissesse algo, ou tivesse chance de reagir diante da execução covarde de um companheiro, ouviram um uivo terrível. Algo como se uma fera estivesse perto. Todos olharam na direção que o urro vinha, do posto alemão.

-Santo Deus...

Um soldado murmurou ao reconhecer a figura que se aproximava deles, com olhos injetados de fúria.

-Logan?

O'Neal parecia não acreditar no que via, apontou sua arma para ele e começou a atirar, descarregando-a contra o canadense que parecia não se importar com as balas atingindo seu corpo quando saltou na direção do capitão, com garras de ossos saindo das costas de sua mão e uma expressão animalesca em sua face.

As garras de Logan rasgavam o corpo de O'Neal com fúria, partindo ossos e espalhando vísceras na neve, fazendo o capitão sufocar com o próprio sangue. Em seguida ele olhou para os outros soldados que recuaram de medo, soltando Erik, alguns apontavam as armas para Logan.

-Chega, meu amigo... –Erik pediu, ignorado a dor cruciante em seu rosto, ao perceber sua intenção de continuar a lutar. –Já morreu gente demais hoje aqui, não acha?

-Não atirem! –ordenou Cooper ainda zonzo pelo golpe que recebera, tentando ficar em pés, os demais obedeceram baixando as armas.

Logan olhou para o que restava do capitão e recolheu as garras. Rodriguez tremia dos pés à cabeça ao reparar que não havia nenhuma marca do tiro que dera em Logan, e este o fitou com frieza. Seu fator de cura funcionou direito, mas como havia perdido parte da massa encefálica com o tiro, demorou um pouco para se situar onde estava e o que estava acontecendo. Mas ainda se lembrava do rosto de quem lhe deu o primeiro tiro.

-Cê tem sorte de que estou de bom humor novamente.

Rodriguez sentiu as pernas cederem e caiu na neve sentado. A cena era tão patética que Logan deu um meio sorriso e depois percebeu que os soldados americanos estavam mais preocupados em cuidar do ferimento no rosto de Erik, do que pelo destino infeliz de seu capitão.

-Quem é agora o oficial em comando dessa unidade? –Logan perguntou e o rapaz chamando Cooper endireitou o corpo.

-Sou eu, senhor. Sargento John C. Cooper.

-Então, Sargento. Leve os soldados para Peio. –Logan ordena e o sargento Cooper bate continência a ele, gritando ordens aos soldados para arrumar o que precisavam para partir.

-Senhor! –Cooper vira e olha para os alemães. –Deixaremos provisões para que consigam chegar ao próximo entreposto alemão que fica na direção contrária a que iremos.

-E o que dirá aos seus superiores, sargento? –Erik perguntou.

Cooper olhou para Logan, não parecia ter medo mais.

-Executamos os prisioneiros, conforme as ordens superiores. Mas o capitão O'Neal havia sido ferido quando tomamos o posto alemão na tarde da véspera de Natal. Não percebemos que era grave e ele morreu no caminho a Peio. Tivemos que enterrá-lo no caminho.

Logan sorri de lado com o que o sargento diz, e bate continência a ele. Em seguida, Cooper corre para dentro do posto para se preparar para partir de lá.

Nesse momento Logan observa o rosto de Erik e percebe que o olho dele estaria irremediavelmente destruído. O louco do O'Neal poderia tê-lo matado com aquele chute. Erik chama os soldados em seu idioma e os homens caminham para o posto para se prepararem para partir.

-Não vou para o Canadá com você.

-Eu sei. Vou ter que engolir que não realizei minha missão.

-Danke...

Logan em silêncio acompanhou a partida dos soldados, cada unidade em caminhos opostos, estranhamente unidos pelos acontecimentos daquela manhã de Natal que jamais sairá de suas mentes enquanto viverem.

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De repente Wolverine não estava mais sentindo o frio dos Alpes Italianos, estava novamente na Virginia observando o nome do Capitão John C. Cooper na lápide branca. Pela data, ele morreu quarenta e cinco anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial.

Logan sorriu, e em seguida sentiu um cheiro familiar. Algo que não sentia há setenta anos.

-Os anos não o mudaram nada, meu amigo.

Logan olhou por sobre o ombro e reconheceu o idoso que antes que havia avistado passeando entre as cruzes quando chegou. Não havia prestado atenção nele como devia, senão teria reparado o tampa olho no lado direito e um sorriso familiar.

-Erik Eichenhofer? –custava crer que era ele. –Cê tá vivo ainda?

Fitou o idoso com o sorriso sereno no rosto, apoiando seu corpo castigado pelo tempo na bengala, tendo ao seu lado uma senhora e dois adolescentes. Todos o olhando curiosamente.

-Hehe. Você também, Logan. Não se assuste com isso aqui. –apontando para o tapa-olho. –Isso garantiu que eu ficasse em casa até o fim da guerra.

-Fico realmente feliz que tenha conseguido, Erik.

-Todos nós conseguimos voltar, Logan... Deixa-me apresentar a você algumas pessoas. –ele fez um gesto com a mão trêmula e a senhora ficou ao seu lado.- Essa é minha Anja. Minha filha!

A senhora sorri e estende a mão calejada a Logan que a cumprimenta afetuosamente.

-Estes são os netos dela... meus bisnetos. Bastian e Ingrid! –dizia com uma pontada de orgulho na voz. –Lembra que eu contava a você e aos seus irmãos sobre o amigo mutante que salvou a vida de seu pai na Segunda Guerra, Anja? –apontou com um olhar para Logan e em seguida deu uma risadinha. –Claro que só fiquei sabendo o que era um mutante muitos anos depois.

Os garotos e a senhora fitaram Logan com um misto de surpresa, admiração e medo. Não que o mutante não estivesse acostumado com tais reações, mas a surpresa de ver que Erik conseguira voltar e cuidar da sua família o deixou feliz.

Erik dá alguns passos e para diante da lápide, chamando os bisnetos e a filha.

-Graças à coragem desse homem, nove soldados puderam voltar para casa e ver suas famílias. –Dizia Erik aos bisnetos, mas falando em seu idioma materno. –A guerra é algo terrível, mostra o lado mais negro dos homens, nos transformam em feras capazes de atos hediondos. Nada justifica todas as crueldades que foram praticadas durante a guerra. Eu sei que terei que responder por todas as que eu cometi quando encarar o Criador, mas... Mas também é capaz de mostrar o lado mais humano das pessoas.

-E como foi isso, vovô? –a garota perguntou.- Como foi que ele salvou nove soldados alemães se estavam em lados opostos na guerra?

Erik sorriu e depois começou a falar, não conseguindo evitar que seus olhos ficassem marejados com a lembrança.

-Foi em uma certa noite, quando homens que se deviam odiar por estarem em lados opostos, mas bastou uma noite de celebração de Natal para se verem como irmãos...

Fim...