II
Mairon logo aprontou a roupa. Era um vestido longo e dourado, ornando com seus olhos e cabelos. Ataviou-se da forma mais bela que podia, olhando-se ao espelho e querendo consertar cada detalhe que pensava estar fora de ordem.
Tinha de estar mais preparada e bela que nunca àquele dia. Havia esperado tanto por ele! E Melkor dissera a si que também sempre querera casar! Agora era a hora de recuperar todo o tempo perdido!
"Não exatamente perdido", dizia de si para si. "Mas é claro que preferirei ser chamada de consorte do que de amante!"
Após se arrumar, foi até a Sala do Trono, como Melkor mesmo indicara para fazer. Lá, já havia praticamente todos os vassalos de Angband - ninguém ousaria estar ausente justamente no dia do casamento de ambos os comandantes da fortaleza. A decoração estava simples, porém obscura, mesclando elementos como o fogo e a escuridão, assim como eram ela e Melkor. Refletia o que eram!
Esperou um pouco a fim de ver se o Vala Negro aparecia. De repente ele veio. Estava esplêndido! Em vez de envergar a usual roupa negra, estava agora usando ouro e prata.
O vala também se surpreendeu grandemente ao ver a Mairon tão bonita e luminosa. Sorriu para si e a chamou para o trono. Ela o seguiu, e após isso Melkor tomou assento, trazendo-a para seu colo. Os convivas festejavam normalmente, falando, rindo. O vala resolveu deixar a todos livres por mais um pouco antes de fazer o anúncio. Claro que todos já sabiam a que vieram, porém deveria haver um anúncio oficial¹.
Enquanto estavam no trono, Melkor disse a Mairon:
- Então? Finalmente estou vindo a um casamento que é justamente o meu. Hoje não direi: "Até o Fulano de Tal se casou e eu não!", pois sou eu quem está se casando! Mairon, parece mentira!
A maia lhe sorriu e disse:
- Sim. Mas é de verdade! Eu também mal acredito, a partir de hoje eu o chamarei de meu esposo!
Ambos se beijaram na boca, ao que Mairon disse logo em seguida:
- Melkor, você falou de um anel.
- Ah, sim. Eu o darei a você logo logo, não pense que me esqueci!
- E quem o forjou?
- Eu mesmo.
Mairon riu de surpresa e alegria.
- Sério? Pensei que não sabia forjar...
- Quando quero eu sei. Mas prefiro que os utensílios em geral tenham o toque de suas mãos, meu bem.
A maia se desfez em sorrisos. Por tanto tempo fora somente amante! Por tanto tempo o vala hesitara em amar, e mesmo declarar seu amor! Agora ele o fazia sem reservas, como se fosse algo bastante natural. E para Mairon aquilo era tão bom, pois se esperara tanto, agora tinha o que almejara por muito tempo.
E o melhor: ambos eram ainur, portanto tinham toda a eternidade na frente de si para desfrutar desse amor!
Chegou, enfim, a hora em que Melkor ia anunciar a todos, oficialmente, que estavam casados. Levantou subitamente do trono e declarou então:
- Silêncio! Eu quero falar!
Todo mundo ficou quieto. Mairon também ficou de pé mas também ficou quieto.
- Hoje nós estamos celebrando minha união com Mairon. Alguns de vocês lembram da época em que ele comandou Angband em minha ausência.
Os imortais presentes lembravam. Melkor tinha muitos maiar e outros imortais entre seus aliados e soldados. Mas os edain obviamente não lembravam. Isto fora há muito tempo atrás.
- Ele naquele tempo era - e ainda é - o mais leal, o mais dedicado aliado que um dia já tive. Então, eu creio que "ela" - bem, agora ele está como "ela" - merece ser minha esposa. Nós queremos mostrar nossa aliança a todos. Em todos os aspectos, ele tem sido meu aliado - por que não ser meu cônjuge também?
Então ele beijou ao maia na boca na frente de todos. Todos aplaudiram. Todos já sabiam que Mairon e Melkor eram amantes, e eles não esperavam aquele título de "esposa", mas não era desconhecido que Melkor, em um momento muito remoto do passado, quis casar com duas outras ainur - Varda e Arien - e fora terrivelmente rejeitado e odiado não só por elas, mas por quase toda Arda; mas se ele pudesse confiar em alguém novamente, ele poderia ser capaz de se casar. E ninguém - nunca - fora tão confiável a ele do que Mairon.
Depois do beijo, o vala negro começou a falar novamente.
- Meus aliados! Eu tenho mais uma notícia para lhes dar. Alguns de vocês puderam perceber que Mairon tem estado em sua forma feminina por um mês ou mais. Bem, isto ocorre porque "ela" está grávida de um filho meu!
Mais aplausos. Muitos. Mairon cobriu seus ouvidos com suas mãos, dado que para ele aquele tipo de barulho era uma bagunça, e ele detestava bagunça.
- O nascimento é esperado para daqui oito meses. Eu serei o primeiro vala a ter um filho nascido!
Mais aplausos. Nesse barulho, Melkor estava feliz mas Mairon não. Ele tocou o braço de seu amante e então sussurrou em seu ouvido.
- Por favor, deixe-me dizer algumas palavras a eles.
- OK, meu bem. Ei, todo mundo, SILÊNCIO NOVAMENTE! Mairon quer falar com vocês.
Toda a sala ficou em silêncio. Mairon começou:
- Como nosso senhor nos disse, eu um dia fui o comandante de Angband em sua ausência. Vocês se lembram qual era minha política naquele tempo?
Um balrog, maia e imortal, levantou seu braço.
- Você pode dizer a todos qual ela era - disse Mairon.
O balrog respondeu:
- Era trabalhar em completo silêncio e discrição.
- Exatamente. E nós reconstruímos tudo e agora temos todo este reino novamente. Alguns naquele tempo não acreditavam que Angband pudesse ser reconstruída, mas eu provei o contrário. Agora nós estamos juntos novamente, todos. O reinado da escuridão é ainda maior do que antes. Mas isto apenas foi possível porque nós não saímos gritando a todos que ainda tínhamos um trabalho secreto na escuridão, pronto para despertar. E agora nós podemos agir em SILÊNCIO novamente. Em relação à construção de Dorthonion e em relação a essa criança também, a política do silêncio permanece. Se algum inimigo souber sobre essa criança, ele ou ela tentará matá-la ou sequestrá-la apenas para pedir alguma compensação ou mesmo para causar dor emocional a mim ou ao senhor Melkor. O mesmo em relação a mim. Pessoas de fora sabem que sou seu aliado mais confiável, mas não seu parceiro - e agora esposa. NÃO digam isto a ninguém, ou os inimigos podem também me tomar como um aspecto "emocional" para aborrecer ou barganhar com nosso senhor. Não sejam exibidos! Fui claro?
Todos na sala assentiram. Melkor gostaria de exibir seu maia e seu filho, mas o conselho de Mairon era muito razoável, e ele podia reconhecer isso.
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No decorrer da festa, Thuringwethil cumprimentou muito a Mairon, sabendo como ela desejava tanto aquela união. Alguns na verdade não gostavam muito de Mairon por pensar que Melkor dispendia muita atenção com ela, porém ela merecia. Era a que mais cuidava dos negócios de Melkor, tinha uma lealdade acima de qualquer suspeita e sempre o amara acima de tudo.
O período da prisão dos Valar era a principal prova daquilo. Durante os trezentos anos das árvores, Mairon nunca negligenciara seu dever. E agora, com aquela criança, era a mesma coisa. Ela, em seu íntimo, não desejava ser mãe; mas fazia aquilo por Melkor.
Antes que a noite acabasse, o vala tomou a Mairon pelas mãos e enfim mostrou a si o anel.
Era em ouro e prata, como as roupas que ele usava naquele dia. Em seu centro estava engastado um rubi. Colocou-o no dedo anelar de Mairon e o coração dela acelerou naquele momento.
- Oh, meu senhor...! Finalmente...! Meu esposo!
- Minha puta...!
Ambos não se seguraram mais e se beijaram com intensidade na frente de todos. Após aquilo, Mairon inquiriu:
- Mas se sou sua esposa, ainda me chama disso...?
- Ora! Esposa ou não, vai continuar minha puta! E quero aquela cama bem quente, não é porque virou esposa que vai parar de ser ativa nela!
Mairon sorriu.
- Mas é claro que serei!
A festa continuou através da noite e o vala disse a todos a continuá-la se quisessem, e foi a seus aposentos privados com seu parceiro.
- Mairon. Estou tão feliz esta noite. É só uma pena que nós precisamos fazer tudo em segredo...
- Este é nosso destino, meu senhor.
- Eu fico tão surpreso por você ter deixado sua posição em Valinor somente para me seguir. Você era o admirável para todos, e somente por minha causa você se tornou o abominável...
- Eu não me importo. Eu permaneço sendo o admirável para você, e isso é o que importa...
Com um sorriso, o maia beijou os lábios de seu senhor.
- Mas, meu bem... eu decaí muito... eu era lindo e poderoso, e agora estou totalmente encarnado, com as mãos queimadas, manco e não tenho o mesmo poder que tinha... talvez nem a metade...
- Eu sei, meu amor... mas para mim você é tão adorável quanto sempre.
Sendo assim, foram até seus aposentos e lá terminaram a noite enquanto os outros festejavam - a primeira dentre muitas estando oficialmente casados.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
¹Segundo Tolkien, não havia templos em Arda - tirando o templo que Mairon fez pra Melkor em Númenor (tá vendo, se nem templo tinha, quer dizer que a admiração dele era realmente singular! Rssss!) e por isso não devia ter casamento religioso. Devia ser, penso eu, uma festa pra família e pros amigos mais próximos, e depois passavam a morar juntos como marido e mulher.
Também acho que não havia, no mundo de Tolkien, regime de concubinato... a diferença é que os filhos da esposa seriam assumidos como legítimos e os da concubina não.
Várias partes do cap foram tiradas da fic "Maternidade", na qual tem tbm o casamento mas sem maiores detalhes.
No próximo cap, o lemon e o final da fic.
Beijos a todos e todas!
