Aviso: Esse capítulo contém descrições gráficas de non-con e necrofilia. Recomendo critério aos leitores.

Tejem avisados.


V

Saga estava, mais uma vez, nos aposentos privativos do Pilar do Atlântico Norte, esgueirando-se até o banheiro onde conseguia ouvir gemidos que denunciavam o que acontecia ali. Apenas a ideia do que ele iria ver lhe embrulhava o estômago, mas ainda assim ele se viu entrando no banheiro e se escondendo atrás de uma coluna onde ele podia ver com riqueza de detalhes o deus dos mares segurando pela nuca o seu irmão, debruçado de costas na borda da banheira enquanto o olimpiano o penetrava e grunhia seu prazer.

Kanon não emitia um único som; o único movimento de seu corpo era o impulso vindo da força das estocadas do outro, empurrando-o como se ele fosse uma boneca de trapo largada na borda daquela banheira. "Ou uma boneca inflável", pensava Saga, enquanto via seu irmão sendo tomado pelo olimpiano sem a mais mínima interação de sua parte. Ao contrário da outra vez em que os viu, dessa vez Kanon não demonstrava prazer algum, seguramente porque dessa vez a força das estocadas era tamanha que Saga estava surpreso por Kanon não soltar um gemido sequer. Poseidon não parecia minimamente preocupado com o prazer que seu general - "sua cadela", pensou Saga ao sentir a raiva amargar sua boca - viesse a sentir dessa relação sexual; muito pelo contrário.

Mas isso era uma boa lição para Kanon entender quem é que mandava de verdade nesse jogo, e certamente seu único ato de rebeldia seria ficar ali de bruços como um peixe morto enquanto era fodido pelo deus dos mares como a puta que ele merecia ser.

Os grunhidos de prazer do olimpiano aumentavam num crescendo, até ele agarrar os cabelos de Kanon e puxar sua cabeça para cima, expondo para si o rosto até então coberto pelos cabelos longos e molhados, esparramados pelo chão.

"Bom menino", o olimpiano agora gemia, enquanto os olhos embaçados e opacos de Kanon encaravam o nada, e Saga via diante de si o rosto pálido, a pele macerada e violácea. "Bom menino", o deus dos mares gemia, enquanto Kanon era empurrado pela força de suas investidas, e os lábios arroxeados não exalavam ar. "Muito bom menino", Poseidon agora terminava de se aliviar, ofegante, ainda investindo contra o corpo inerte de seu irmão; e Saga sentiu o bolo em sua garganta, sempre ali pela vergonha e pela raiva pelo que seu irmão fazia, se transformar em uma irresistível sensação de pavor misturada ao asco, tão intenso que ele mal teve tempo de virar o rosto antes de engasgar em sua própria ânsia.

Levantou-se de golpe e se viu sentado em sua cama depois de quase ter vomitado nos próprios lençóis, o corpo trêmulo coberto por uma capa de suor frio. Tentou acalmar a respiração entrecortada, mas a sensação de asco e pavor persistia a ponto de quase sufocá-lo.

Sem dúvidas ele já teve pesadelos repugnantes, inclusive como protagonista, mas esse seguramente foi o pior de todos.

Porém, por mais repulsivo que fosse seu sonho, ainda conseguia ser menos perturbador do que a insinuação de Sorento. O portador do anel pode ter ciência de seus atos mas não é capaz de subjugar sua vontade; uma testemunha impotente dos desígnios da joia.

Saga sabia que ele e Kanon eram portadores de grande beleza física, portanto eram considerados 'desejáveis'. E, se o Deus dos Mares quisesse se vingar de Kanon... Nada seria mais indigno para um guerreiro do que servir seu senhor como um pórnoi serve seu amo.

Algo tão baixo que, pelos costumes, faria com que seu irmão fosse desterrado de ambas as Ordens.

Mas, por mais humilhante que fosse a noção de que Kanon seria capaz de submeter-se a isso por interesses escusos, queria acreditar que Kanon fazia o que fazia por querer; afinal seu irmão seguramente parecia gostar do que Poseidon fazia.

Seria o anel capaz de mimetizar isso? A luxúria, o desejo sexual? E se até nisso ele estivesse sendo controlado pelo anel? Seria isso prazeroso a ponto de conseguir arrancar satisfação sexual de seu irmão mesmo se ele não quisesse?

Foram pouquíssimas as vezes que ele, conscientemente, experimentou esse tipo de prazer. Pois mesmo quando correspondia à corte de seu erastes, não era adequado que ele mostrasse satisfação pelos beijos e toques. Especialmente quando seu mestre se satisfazia entre suas coxas, deviam ambos – ele e Kanon, quando em sua vez – ficar imóveis, em silêncio, sem uma única sombra de satisfação em seus corpos. Era parte do treinamento: Eromenos como eles não deveriam sentir desejo por seus mestres, menos ainda por outros homens. Gratidão, sim; afeto também. Mas não desejo, especialmente eles como futuros santos.

Uma vez ele viu seu Mestre com seu irmão. Quis sair, ele o mandou ficar e o puniu porque viu que seu corpo reagiu. Kanon encarava o chão, o rosto escondido sob seus cabelos. Depois ele lhe trouxe uma compressa gelada para tratar seus hematomas no rosto, mas mesmo ali não lhe olhou nos olhos.

Kanon não gostava que seu mestre o tocasse. Saga sabia, mas era assim que devia ser. Não havia nada que se pudesse fazer, Kanon sabia, mas nem isso o fazia aceitar que aquilo, por desagradável que fosse, era parte dos deveres que tinha para com seu mestre...

Como a revolta surda do Kanon daqueles tempos se encaixaria com o gozo de quando Kanon recebia o sêmen de Poseidon em si?

Seus dedos estavam gelados, ele tremia apesar do calor da noite grega em seu quarto abafado.

Não queria dormir, não queria mais sonhos com Kanon morto.

Sempre morto.

OOO

- E então, como foi a visita ao seu querido irmãozinho?

A voz rascante de Ikki, carregada com a sorna de sempre, dessa vez quase o fez responder com um soco seco no nariz do cavaleiro de Fênix. Conseguiu segurar a urgência de fazer o jovem engolir os dentes e se afogar no seu próprio sangue, mas não pôde sequer olhar para o outro para esboçar uma resposta.

Estralou os dedos da mão esquerda, esfregando os nós enquanto seguia olhando fixamente para algum ponto aleatório na arena onde treinavam aprendizes e cavaleiros de menor rango.

- Ei – A mão de Ikki cutucou seu ombro, fazendo com que Saga o segurasse pelo punho. – Eu estou falando com você, Saga de Gêmeos.

Seus dedos estavam quase por partir o braço do cavaleiro, mas Ikki sequer piscou em resposta à dor que seguramente devia sentir.

- Não cheguei a falar com ele. - Relaxou seu agarre, posto que quebrar o punho do adolescente não o ajudaria em nada.

- Claro, uma missão de espionagem, eu imaginei que vocês não fossem trocar uma porra de uma palavra um com o outro. – Ikki elevou a sobrancelha. – Mas você achou alguma coisa?

- Não. – Saga engoliu em seco enquanto o que viu naquele maldito pilar voltava à sua memória, os olhos do outro seguiam plantados em si na medida em que seus dedos soltavam seu braço. – Ele não está aprontando nada.

Ikki o seguia encarando, sua voz assumia o mesmíssimo tom de quando ele mentia para seu mestre ao tentar encobrir algo que Kanon havia feito. O jovem cavaleiro à sua frente não teria como saber, mas seu estômago se retorcia à mera possibilidade de que ele – alguém – viesse a desconfiar de alguma coisa.

- ...Não está aprontando nada... – Fênix repetiu vagarosamente suas últimas palavras, para então desviar os olhos para algum ponto aleatório entre eles dois. Então ele bufou, balançando lentamente a cabeça numa negativa exasperada.

Saga não disse nada enquanto Ikki se afastava devagar, mas não deixou de ouvir a pergunta que o jovem deixou no ar, quase que como um sussurro que só eles dois poderiam escutar.

- E ele, Saga, está seguro?

Seus olhos se baixaram ao chão apenas quando o cavaleiro de Fênix já tinha lhe dado as costas.

OOO

- Saga!

Abriu os olhos num sobressalto, e surpreendeu-se com a jovem Deusa diante de si, de madrugada na biblioteca.

Cochilara em cima dos livros que tinha vindo ler. O que não era raro, posto que sua insônia o empurrava para cochilos curtos e agitados nas horas mais impróprias, mas jamais esperaria que pudesse ser acordado por Atena, ali, àquela hora.

- Desculpe, Alteza. – Baixou a cabeça, mortificado, mas os olhos de Atena não o reprovavam. – Estava sem conseguir dormir, vim até a biblioteca para uma sessão de leitura...

- E por que você está lendo sobre o Anel de Nibelungo?

Ele olhou para o livro aberto sobre seus braços, ainda mais desconcertado. O olhos de Saori Kido seguiam sobre si, mas ele não sabia o que dizer.

Uma das mãos dela pousou em seu ombro, a outra puxou gentilmente o livro para si.

- Eu me lembro, muito bem, de como Seiya teve de usar a Espada Balmung e a veste divina de Odin para libertar Hilda do calvário em que ela estava. Também podia sentir uma parte de sua alma gritando, implorando para que a matassem antes que todos os seus guerreiros morressem diante de seus olhos. Por isso, pelo sofrimento dela, o desconforto físico que eu sentia estando exposta ao frio extremo não me parecia uma comparação justa...

Saga sentiu a garganta apertada, não tinha coragem de sequer responder à sua deusa. Foi ideia de seu irmão que Hilda, uma sacerdotisa que apenas bem fizera em sua vida, fosse submetida a tamanho suplício. Foi dele que partiu a ordem que levou Sorento de Sirene até Asgard. Foi ele que, sabendo o que causava o anel, ainda assim determinou que uma mulher inocente fosse barbaramente torturada para servir a seus interesses.

Como poderia ele, portanto, pedir para seu irmão uma clemência que Kanon mesmo não teve?

Os dedos de Saori Kido agora roçavam seu ombro num acalanto ao seu corpo que tremia, as lágrimas queriam pular de seus olhos apesar de seu esforço para se manter sem chorar. A imagem do último sonho que tivera com seu irmão, horrendo o suficiente para que agora ele tivesse medo de dormir, voltou à sua mente junto com as palavras de Sorento.

"O anel influencia tanto assim tuas ações, Dragão Marinho?" Dizia Poseidon enquanto o beijava, o tocava e o tomava em seu palácio, na frente dos outros generais, de Atena e de todos os deuses do Olimpo; todos impassíveis como se nada estivesse acontecendo. O cadáver agora falava, o anel fulgurava em seu dedo enquanto o cadáver de seu irmão sussurrava elogios descarados ao seu desempenho sexual, dizia tudo que o rei dos mares queria ouvir de sua boca como um ventríloquo no colo de seu títere. E cada vez mais podre, o fedor de sua putrefação saturando o ar do reino dos mares sem que ninguém sequer se incomodasse.

A mão de Atena crispou-se em seu ombro, e Saga recolheu-se aterrorizado.

- Por que você está lendo sobre o Anel de Nibelungo? - Os olhos garços de sua Deusa oscilavam entre a apreensão e a incredulidade.

Não deveria, nunca, ter tido esse momento de fraqueza diante da Deusa. Sua voz, agora dura como não pareceria possível a uma jovem tão delicada, lhe dizia que aquela não era uma pergunta. Era uma ordem, a deusa esperava que ele a cumprisse, mas as palavras se enroscavam no bolo formado em sua garganta.

- Por quê, Saga?

Tudo que conseguiu fazer foi sair da cadeira, desajeitado, para ajoelhar-se diante de Atena já sem segurar as lágrimas, tocando-lhe os pés num pedido de súplica ainda que sem dizer nada. A jovem Deusa meneou a cabeça, Saga tentou impedi-la de entrar em sua mente, porém foi inútil.

Ele não pôde impedir de que ela vislumbrasse o teor dos sonhos que tinha, a conversa com Sorento, o que viu naquele pilar.

- Kanon... Ele... Ele? - A mente de Atena se desligou da sua, ela agora totalmente desconcertada.

- Por favor, minha princesa... – Saga sussurrava entre soluços. – Por favor, princesa, por favor, por favor perdoe meu irmão, tenha misericórdia-

- Poseidon o fez usar Nibelungo? – Atena dizia, sem dar muita atenção às suas súplicas enquanto seu cosmo aumentava em progressão geométrica. – Ele fez... E ele...

- Princesa...

- É Kanon quem tem que me perdoar, Saga... Se o que vi em ti for verdade... – Atena olhou para si, os olhos fulgurando junto com seu cosmo.

Os dedos dela secaram suas lágrimas, mas Saga nunca viu o rosto da Deusa tão duro.

- Levante, invoque a Gêmeos, nós vamos até o Reino dos Mares. - A mão que ela havia levado à sua boca se cerrou em um punho. – Se o que vi em ti for verdade, nada salvará Poseidon de mim desta vez. Nada.

OOO