VI

A perturbação no continuum do espaço-tempo o trouxera até ali.

Poseidon sentiu em seu cosmo, entranhado em todo seu Reino como nunca antes – um dos efeitos de prescindir de um avatar em prol de ter seu poder completo.

Ele era seu Reino, seu Reino era ele, e isso se estendia aos oceanos, abismos abissais, toda sorte de peixes, algas, animais da costa e monstros marinhos; e também do seu mais raso soldado até seus mais poderosos Generais.

E o General à sua frente, despido de sua armadura e em roupas de treinamento, era o responsável pela singularidade que rompeu momentaneamente as fronteiras do espaço-tempo para criar um portal que agora engolia pedras para um ponto cego entre as dimensões.

Triângulo Dourado, um dos golpes especiais de Dragão Marinho.

Um sorriso brincou nos lábios do Rei dos Mares, seus olhos dourados fulguravam à visão dos triângulos concêntricos que eletrificavam o ar. O poder do portal que se abria era abrumador. Impressionante até mesmo para os deuses filhos legítimos de Zeus que viviam no Olimpo.

'Cada detalhe', ele pensou para si mesmo, enquanto admirava não só o poder que o mortal manipulava, mas a beleza do corpo perfeito, do rosto bonito, dos cabelos que balançavam furiosamente ao vento, os olhos verdes concentrados refletindo o brilho dourado do cosmo de seu dono e por isso ficavam momentaneamente mais dourados do que verdes. Um verde que deveria ter sido azul, somente azul; não fossem tintos pelo dourado que sempre lhes serviria de cor de fundo.

Cada detalhe transparecia o poder incomensurável do que poderia ter sido e não foi.

Ele era belo, poderoso, grandioso. Maior do que a vida de reles mortais, muito maior.

Tanto poder, que agora estava à sua disposição.

Os efeitos do golpe se dissiparam, e o mortal voltou seus olhos em sua direção. Poseidon meneou a cabeça para que ele viesse até si e se ajoelhasse em uma deferência.

Terminada a vênia, o general se levantou lentamente e se aproximou; os olhos verdes fixos nos seus como seria de sua vontade. Seria? Sim, seria. Percebeu que seria quando o mortal parou diante de si e ele tocou seu rosto; abrindo os lábios reflexivamente quando seus dedos encontraram os lábios dele.

Seus lábios se curvaram num sorriso de desejo.

Nibelungo cintilou na mão esquerda de seu Dragão Marinho.

Seu Dragão Marinho.

O Rei dos Mares avançou um passo, suas mãos descendo do rosto do mortal até a nuca cuja pele ainda estava eletrificada pela estática gerada no golpe. E praticamente não se percebeu vencendo a irrisória distância entre a boca dele e a sua; ele cheirava ao ozônio do ar energizado pelos portais dimensionais.

Uma parte de si sentia a agitação na alma do outro, lutando contra a força irresistível do anel a despeito de sua absoluta imobilidade enquanto seus lábios roçavam os dele. Outra parte lhe dizia que era no mínimo imprudente ceder ao desejo que Nibelungo transformava em realidade.

Mas naquele momento não conseguia julgá-las importantes diante de todo aquele potencial.

Tudo seu.

Amplificou seu cosmo, juntou-se ao poder do anel que vibrou em alegria e obediência ao seu senhor.

Dragão Marinho fechou os olhos e abriu os lábios, lentamente imitando seus movimentos.

As circunstâncias seguiam lhe sorrindo.

...

- Senhor da Terra, Domador de Cavalos.

De seu trono, via Atena paramentada em sua veste divina. Ao seu lado, o cavaleiro de Gêmeos em sua armadura dourada.

Nada disso deveria perturbá-lo, mas não conseguia evitar a sensação de um buraco se abrindo em seu estômago. Porque ele sabia bem que se Atena se deu ao trabalho de descer ao Reino Submarino em pessoa, báculo e escudo em mãos e tendo ao seu lado a Primeira Estrela de Gêmeos, isso só podia significar uma coisa. E era isso que lhe causava a apreensão que sentia naquele momento, habilmente escondida sob sua capa de impassibilidade.

Dragão Marinho.

Que passou a noite arfando de êxtase sob seu corpo, todas as suas sinapses sobrecarregadas pelo prazer que suas carícias e seu cosmo o faziam sentir. Sim, usava seu cosmo para excitá-lo, provocava e desbaratava seus sentidos enquanto o anel o comandava a corresponder a cada beijo, a cada mordida, a cada toque. Porque agora ele lhe pertencia, todos os dias e todas as noites ele o fazia seu. Seu quando ele se derramava em suas mãos, seu quando ele sorvia sua seiva, seu quando ele desfalecia de prazer, ofegante e trêmulo sob o peso de seu corpo. Mais seu do que nunca.

Seu Dragão Marinho.

- Salve, sobrinha minha, virgem protetora das cidades. A que devo a honra de tão estimada visita?

- Tens em tuas fileiras, ó tio meu, um de meus mais estimados guerreiros.

Os olhos verdes da Primeira Estrela de Gêmeos seguiam em si, tão duros e desafiadores quanto possível. Olhos esses tão iguais ao de seu general, mas marcados pela petulância daqueles que ainda não aprenderam seu lugar.

- Sim, o tenho. Agora ele me é consagrado, como deves saber. – Sustentou o olhar do cavaleiro, esperando que ele depreendesse um décimo do desprezo que lhe sentia. Então voltou seus olhos até a filha de Zeus. – Uma aquisição arriscada, dada sua tendência à desobediência, como também é de teu conhecimento. Mas estou deveras surpreso, me está sendo um servo surpreendentemente leal, que rapidamente galga seu caminho à minha mais alta estima.

O cavaleiro de Gêmeos travou o maxilar enquanto apertava os punhos.

- Não tenho dúvidas, Senhor dos Mares. – A voz de Atena desviou sua atenção pelo tom incisivo que trazia, e que de maneira alguma era um bom sinal. – Mas, mesmo ele consagrado a ti, ainda conta com minha estima e bendição; sempre contará.

Não lhe era novidade alguma que a Tritogênia tinha uma afeição especial pelas almas desgarradas dos Dióscuros. Não saberia dizer até que ponto ela era consciente das reais circunstâncias de seu nascimento e da natureza do que deveria ter sido daquelas almas, mas tinha certeza que pelo menos uma parte inconsciente dela sabia que, não fosse pelo desaparecimento de Métis quando engolida por Zeus, a alma dividida em duas seria a de seu irmão, o destinado a derrocar Zeus de seu trono.

E Poseidon também sabia que, sem sombra de dúvida, sua muito tola sobrinha armaria um escarcéu de proporções épicas se descobrisse que mantinha seu general sob a influência de Nibelungo, muito apesar dele ser visto pelo resto dos olimpianos como um criminoso que merecia uma pena ainda mais dura que a de Prometeu.

- Bem sei que sim, sobrinha. – Um décimo de sua irritação escapuliu de seu controle. – Porém nunca compreendi o estranho de tuas bendições. Sobretudo àqueles que tem uma mais estranha ainda afeição em atentar contra ti, como minha Segunda Estrela de Gêmeos.

- Kanon. O nome dele é Kanon. – Poseidon rilhou os dentes à menção de Atena ao nome que o mortal carregava agora. Um nome temporário, descartável, alheio ao potencial de seu Dragão Marinho. – E eu gostaria de vê-lo, senhor meu tio.

Seus dedos formigavam, o buraco em seu estômago aumentava. Sabia que as chances de que Atena não percebesse Nibelungo em Dragão Marinho eram nulas. Não lhe sobrariam opções senão pagar para ver o que sua sobrinha faria, se ela o julgaria importante a ponto de colocar a trégua toda em risco.

Os olhos verdes do gêmeo de seu General seguiam em si, duros, desafiadores, quase o fazendo levantar-se de seu trono para dar-lhe a lição que ele merecia. A simples ideia de que Atena entrasse em contato com seu general lhe irritava mais do que gostaria de admitir, e a imagem e semelhança de seu Dragão Marinho ao lado da Deusa, usando a armadura de Gêmeos, lhe inspiravam uma raiva quase irracional. Pois Atena só estava ali por conta daquele desgraçado insolente, que sabe-se lá por que resolveu, a esta altura, que queria ter contato com o irmão com o qual pouco se importou até agora. E ele não perderia seu General, seu Dragão Marinho, para os tardios arroubos de consciência de um hipócrita como a Primeira Estrela de Gêmeos; nem que para isso tivesse que passar por cima da própria Atena, do próprio Zeus.

Dragão Marinho era dele, não o entregaria pelo capricho da filha de seu irmão, isso estava simplesmente fora de cogitação.

'Imprudente', uma parte de si sussurrou, 'imprudente que te apegues tanto assim a um reles mortal que te aquece a cama'.

- Muito bem. – Assentiu e levantou-se de seu trono. – Em alguns minutos ele estará aqui diante de vossa presença.

OOO

Os olhos de seu cavaleiro estavam presos ao chão, o misto de apreensão, raiva e vergonha tão facilmente perceptíveis a si que quase se confundiam com o que ela mesma sentia.

Sempre fora assim, em todas as suas encarnações e as deles – os pensamentos e sentimentos dos Dióscuros, bons e ruins, eram tão intensos em si que muitas vezes lhe pareciam seus. Foi assim que entendeu Saga quando ele se prostrou a seus pés implorando por um perdão que sequer poderia lhe ser pedido. Foi assim que o entendeu também quando ele se apresentou diante de si, moribundo, como um espectro de Hades. Foi assim que o compreendeu e sentiu sua dor e arrependimento quando ele morreu em seus braços, após a batalha das doze casas; foi assim que entendeu o ódio e o rancor de Kanon quando o salvou tantas e tantas vezes na prisão do Cabo Sounion, e o entendeu também depois quando ele também se prostrou a seus pés, implorando pelo perdão e uma chance de se redimir.

O resquício da conexão intensa, forte e indelével que teria com o irmão que deveria ter tido e não teve.

Sim, ela sabia. Como deusa da Sabedoria lhe seria natural conhecer o que é desconhecido, mas não só.

Sempre, desde o Mito, tivera relances e fragmentos sobre a ignomínia praticada por seu pai. Por isso negava-se a resguardar seu corpo nos domínios do Olimpo para renascer junto aos humanos a quem jurara defender. E a cada embate com os Dióscuros, quando eles a atacavam, a cada redenção que sempre viria depois... Em cada uma de suas mortes, suas almas a buscavam. Incompletas e feridas, mutiladas em sua essência, mas ainda assim compartilhando consigo uma origem comum, uma deusa primordial que deixou de existir para lhes preservar o que fosse possível de vida.

Sua mãe, a mãe que nunca teve, a mãe de que Zeus lhe privou.

Em suas fantasias ao longo de eras, imaginava que ela a amaria tão incondicionalmente como as mães mortais amam seus filhos. Como também amaria o que restou de seu irmão se pudesse, se ainda existisse.

Era dever dela, então, amar e velar por aquelas almas desgarradas.

Sentiu Kanon chegar antes do ecoar metálico de seus passos e seu coração gritou em seu peito, dolorosamente contraído ao perceber Nibelungo totalmente entranhado nele. E, junto com Nibelungo, a vontade e o desejo de seu Senhor reverberando no lugar de sua alma.

Saga percebeu também, e nunca vira tamanho terror nos olhos de seu cavaleiro.

"Princesa", a voz de Kanon a saudava, mas dentro dele não havia nada. Nada além do anel, das projeções de Poseidon e da resistência que encontrava toda vez que tentava buscar a alma do Dióscuro com a sua.

Seus dedos se aferraram ao cabo de seu báculo, seu cosmo explodiu na direção do Rei dos Mares. Saga, sentindo no fundo de sua alma o temor de não encontrar mais a metade que lhe faltava, ainda tentou acalmá-la; mas foi em vão.

- O que pensa que estás fazendo, menina? - O impacto do cosmo de Poseidon a lançaria longe se ela não estivesse tão enraivecida. – Vieste me atacar em minha própria casa?

- Como você tem coragem, como você ousa? – Sua voz era um rugido. – Tire Nibelungo dele, tire agora!

- O mortal agora me é consagrado, Tritogênia. Usará o anel se for de minha vontade, pelo tempo que eu desejar.

Poseidon não retrocedeu, mas seus olhos traíam sua raiva, seu sentimento de posse. Como se Kanon fosse uma coisa de inestimável valor, da qual ele não iria se desfazer...

Uma coisa.

E ela teve a confirmação, ali, de que os piores temores de Saga deviam ser reais.

Ela travou os dentes para que seu queixo não tremesse, a simples ideia do que Kanon fora forçado a fazer sob o jugo do anel fazia seus olhos se empaparem em lágrimas. Porque então fazia sentido a resistência da alma de Kanon em mostrar-se a si: A dor, a culpa, a vergonha...

- Vais me atacar novamente? – O olimpiano estreitou os olhos, ameaçador. – Arriscarás a Trégua por um guerreiro que me foi cedido em comum acordo com o Olimpo?

- Covarde imundo... – Não se preocupava mais em esconder o tremor em sua voz. - Eu não descansarei enquanto não libertá-lo de você.

- E como pretendes fazê-lo? De vera que achas que me vencerás ao enfrentar-me aqui, em meus domínios, totalmente desperto enquanto tu estás em um corpo reencarnado?

- Levarei o caso a Zeus, ó meu tio.

- Pois leve, sobrinha. Vejamos o que nosso Senhor do Raio tem a dizer sobre isto.

O brilho sardônico que perpassou os olhos dourados do Rei dos Mares a fez se arrepender imediatamente de suas palavras. Ele sabia, assim como ela, que aquelas almas que reencarnavam sempre ao seu lado, para o bem e para o mal, eram nada menos que a crua exposição do maior pecado de seu pai, que pouco ou nada faria para ajuda-la.

- Inclusive, se quiseres, tenho uma solução melhor. – Um sorriso brincou nos lábios de Poseidon. – Não seria prudente que arrisquemos a trégua por algo tão menor, assim que proponho uma alternativa. Teu cavaleiro e meu general em um duelo, que tal? Caso teu Santo vença, ceder-te-ei Dragão Marinho para que faças dele o que quiseres. Mas caso seja derrotado... Meu General lhe reclamará a vida, e não haverá compensação alguma de minha parte.

Atena retrocedeu, porque ela sabia o que a proposta era: Uma armadilha. Saga não enfrentaria Kanon, mas sim o cosmo da Segunda Estrela de Gêmeos manipulado por Nibelungo e seu Senhor.

Saga tinha a vitória como única opção, ou o anel forçaria Kanon a matar seu próprio irmão.

Seus olhos foram até os olhos marejados de seu cavaleiro, pois aquele duelo era algo que ela não teria coragem de lhe pedir.

Saga assentiu, e o sorriso do Rei dos Mares se engrandeceu.

OOO