VII

Saga sentiu seu corpo se chocar contra uma pilastra nos arredores do Pilar do Atlântico Norte. Sua cabeça zunia, seu corpo protestava pela potência do golpe que recebera, mas ainda assim se forçou a levantar o mais rápido que podia.

Porque se ele não levantasse, ele poderia morrer.

Kanon iria matá-lo.

Não era como das outras vezes em que brigaram ou lutaram. Antes ele sempre sentira que seu irmão - apesar da raiva, do ressentimento e muitas vezes do ódio que sentiam um pelo outro - se refreava no momento de atacá-lo. Era o que ele sentia também em todas as vezes em que se viu obrigado a usar de força física contra ele; exceto a ocasião do Cabo Sounion. E ele ainda se lembrava da dor nos olhos de seu gêmeo pela traição desse acordo tácito que existia entre eles, mesmo que daquela vez ele tivesse chegado ao ponto de sugerir a morte de Atena e do Grande Mestre.

Ainda assim, Kanon não o machucou quando foi atacado, ele não quebrou o acordo. Saga sim. E Saga sabia que foi ali - quando o prendeu naquela cela, quando o renegou e o abandonou à própria morte - que o jovem inconsequente e problemático completara sua mutação para se tornar o homem que usurpou o posto de Dragão Marinho.

Outro golpe, ainda mais forte que o primeiro. Fez o que pôde para desviar, cuspindo saliva tinta de sangue, mas o incômodo gosto de ferro não deixava sua boca. Estava em clara desvantagem porque dessa vez era ele quem não queria machucar o irmão, era ele quem se refreava porque queria que seu oponente continuasse vivo.

E sabia que Poseidon usaria isso contra ele.

Os olhos suplicantes de Atena estavam sobre si. Via neles a mesma impotência que ele sentia - ela não podia fazer nada para interferir, ou toda a Trégua estaria ameaçada. Aquele duelo era sua única chance, e ambos sabiam que aquele era um jogo onde o Deus dos Mares marcara todas as cartas para seu benefício.

Desviou com dificuldades do Triângulo Dourado, sentindo a força gravitacional da singularidade quase dilacerar seu corpo. Mal se equilibrou em seus pés, e sentia seu irmão invocar uma Explosão Galáctica, talvez a mais poderosa que já o viu criar. Elevou seu cosmo, esperando que pelo menos seu poder fosse capaz de mantê-lo inteiro contra o golpe que ele sabia que não teria como bloquear.

Isso não impediu seu corpo de sentir a dor da temperatura elevada, que o descarnaria sem a proteção de seu cosmo e de sua veste.

Seu corpo foi arremessado para longe, e a memória do calor do golpe ainda queimava seus neurônios. Conseguia sentir o olhar de Poseidon, junto com a indisfarçável satisfação de ter uma situação perfeita em suas mãos: Eliminaria, de um só golpe, o Cavaleiro de Gêmeos que ousou desafiá-lo e ainda faria com que seu Dragão Marinho completasse sua metamorfose para se transformar no seu servo mais fiel - e mortal.

Sentiu seus olhos se encherem de lágrimas porque ele entendia agora que não haveria volta. Ou Kanon o mataria, ou morreria por suas mãos.

Levantou-se, rezando baixinho e elevando seu cosmo, sem se preocupar em esconder sua dor como fez da última vez que atentou contra a vida de seu irmão. A armadura elevou seu próprio cosmo de forma cálida, como se o confortando pelo que eles dois sabiam que viria a seguir: Dragão Marinho avançando, seu cosmo imponente e sem freios, junto com a total ausência de emoção em seus olhos.

Olhou no fundo nos olhos do irmão que tanto amou e odiou, e ainda assim não via nada. Sentia outra Explosão Galáctica em curso, o cosmo de seu irmão em sintonia com o golpe que pretendia ser desta vez fatal. Elevou o seu também e disparou outra Explosão Galáctica junto com ele, o choque entre elas arrasando tudo ao redor.

Foram ambos arremessados, Saga sentia seu corpo queimar como se ardesse até quase os ossos. Não tentou se proteger, mas a armadura o fez por ele. A voz de Atena, aos gritos, instava-o a se levantar; e quando alçou os olhos para ver o que acontecera viu que a escama de Dragão Marinho fizera o mesmo por seu irmão. Ele já se levantava, junto com seu cosmo que respondia - bem no fundo, era como se ele também conseguisse sentir - à ordem final de seu amo.

Os olhos dourados de Poseidon fulguravam sua sentença, e ele sabia que Kanon estava vindo consumá-la.

Será que Kanon tinha mesmo consciência de suas ações sob o jugo do anel, como Sorento dizia? Será que sua real vontade se oporia a matá-lo?

Não seria sua morte um castigo justo pelo que ele fizera a seu irmão há tantos anos atrás?

Porque Dragão Marinho nada mais era do que um monstro que ele ajudou a criar.

Sentiu o cosmo de Atena em pessoa lhe amparar, mas não responderia a sua ordem de se proteger e continuar vivo. Conseguia entender, agora, que não seria capaz de matar seu irmão. Tentou ao menos se por de pé, mas seus joelhos se negaram a obedecê-lo.

- Kanon… - Não se preocupou em esconder suas lágrimas. Consciente ou não, desejoso disso ou não, esperava que pelo menos ele fosse capaz de ver, em seus olhos, a dor que carregava em si pelo que fizera no Cabo Sounion.

Fechou os olhos, invocando em seu cosmo e sua mente a única palavra que queria que seu irmão guardasse de si.

"Perdão."

O golpe não veio.

O cosmo dele continuava elevado, pronto para disparar o golpe final. Mas ele não se movia, exceto pelos punhos cerrados até quase fundir seus dedos com a pele. Então ele sentiu - como sentiria uma espécie de membro fantasma - o abrumador poder do anel lutando, junto com a vontade de um deus, para subjugá-lo a terminar o que começaram.

Os gritos de Atena terminaram de acordá-lo para a realidade. Não sabia como, mas Kanon parecia estar conseguindo resistir ao poder do anel nem que fossem por alguns segundos.

O que deveria ser tempo o suficiente para um Cavaleiro de Ouro agir.

Elevou seu próprio cosmo de forma furiosa, sentindo que por um momento poderia até ter alcançado o nono sentido. Não saberia, e não importava: Atacou Kanon com todas as suas forças, precisava nocauteá-lo antes que ele cedesse ao anel novamente. O cosmo de Poseidon rugiu sobre si, porém aquilo naquele momento não era relevante - o olimpiano teria sua punição em seu devido tempo, mas ele começaria por tirar seu irmão do domínio daquele anel. Se morressem, pelo menos Kanon morreria livre e não como uma maldita marionete.

Usou seu cosmo para amplificar cada golpe, e Kanon caiu quando o elmo voou de seu rosto. Empregou então toda sua força e sua cinese cósmica para isolar o braço dele, arrancando com suas próprias mãos o metal eletrificado da manopla esquerda da escama. Sentia o golpe de cosmo tentando demovê-lo dali, mas iria tirar aquele anel do dedo de seu irmão nem que para isso arrancasse a mão junto. Apenas com a ajuda do cosmo de Gêmeos unido ao seu que ele conseguiu enfim estabilizar a mão o suficiente para puxar o anel do dedo dele, enquanto Kanon gritava como se Saga estivesse lhe retalhando a alma.

O anel queimou sua mão e ele o jogou longe, enquanto sentia o estômago embrulhado ao captar décimos da desorientação que seu irmão sentia. Gritava para que ele tirasse a escama, mas Kanon não parecia em condições de concatenar nada além da própria agonia que o consumia naquele momento.

Sentiu o cosmo de Poseidon em fúria, mas nem sequer viu o golpe seco que o jogou para longe do seu irmão.

- Tens ideia do que fizeste, mortal infeliz? - A voz tonitruante de Poseidon gritava enquanto seus punhos o golpeavam, a força de sua ira pronta para esmagá-lo.

Não o fez, porém, porque mesmo o Rei dos Mares era obrigado agora a retroceder mediante ao poder de uma Deusa que tinha em suas mãos a Vitória. Atena em pessoa apontava o báculo para o corpo mítico de seu tio, e Saga jamais vira seus olhos garços tão ameaçadores.

- Recue, crônida. - Ela rosnou. – Gêmeos venceu. Então recue, pois eu juro que jamais voltarás a por tuas mãos em meus dois cavaleiros.

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