VIII
"Ele te sentiu, não sentiu? De algum jeito, seu irmão te sentiu e veio até aqui, Dragão Marinho."
Ainda conseguia sentir a pele da orelha dele roçando em seus lábios quando sussurrou em seu ouvido, enquanto se debruçava sobre suas costas e o penetrava com raiva e força. Acendera seu cosmo quase que com fúria para estimulá-lo muito além do limite do humanamente suportável em punição à sua insurgência imaginária. Seu general estava debruçado sobre sua mesa, encaixado em si, seu membro ereto sem que ele o tocasse porque dessa vez ele o faria gozar apenas com a penetração e seu cosmo ressonando em seu corpo. Ganhou em troca o arfar dolorido do outro, quase uma lamúria de um prazer intenso misturado à dor que causava nele. O rosto dele corado, os olhos apertados, gemidos afogados e joelhos trêmulos enquanto seu gozo sujava o chão de seu palácio; um prazer que seu General nunca sentira e não sentiria jamais, com ninguém.
Ele tinha essa necessidade de dar a ele esse prazer inumano mesmo misturado à dor que dessa vez ele quis lhe causar, porque era assim que ele o marcava para que ele soubesse do que era capaz. Depois de esvaziar-se nele, o fez colocar sua escama e lutar contra seu desgraçado irmão ainda com seu sêmen preso em suas entranhas.
Agora tudo que Poseidon tinha era um buraco que o engolia por dentro e o toque da pele dele, o cheiro dele, marcados em sua memória. Isso, e a sensação de dor e desorientação que vinha dele porque Nibelungo lhe fora arrancado à força e a sua alma se contorcia em sofrimento agudo.
Diante dele, nas antessalas do trono olimpiano, a voz de Atena ecoava em brados furiosos que exigiam justiça. Ela, que agora tinha seu Dragão Marinho sob seu poder, o dizia covarde, baixo, pervertido e vil, e instava o Senhor do Olimpo – seu pai – a fazer justiça para seu guerreiro, gravemente ofendido sob todas as leis das Ordens Sagradas.
Zeus, o Hórquio, Guardião do Raio, que sempre concedeu afagos e favores à sua filha, agora cinicamente contemporizava o assunto como algo menor. E quanto mais ele fugia, mais Atena bradava que ele precisava fazer justiça, que ele devia essa justiça não a ela, mas às almas dos Dióscuros.
Seria cômico ver seu irmão finalmente encurralado justo por sua querida consentida, que seguia insistindo na infrutífera tentativa de chamar seu pai a uma responsabilidade da qual ele fugiu por eras e eras a fio. Seria cômico, não fossem as trágicas circunstâncias envolvidas.
A alma dilacerada de Dragão Marinho – seu Dragão Marinho – seguia agonizando, o cosmo de seu irmão insuficiente para aplacar seu suplício. Ele conseguia sentir seu sofrimento por ter, durante tanto tempo, entranhando seu próprio cosmo ao corpo dele, ao cosmo dele, para fazer com que seu general sentisse a totalidade do prazer que ele queria lhe dar assim como anel o fazia dizer o que Poseidon queria ouvir.
"Uma mentira."
- Menina tola, estúpida, tão tola és que não percebe que estás a defender uma causa perdida! – Seu cosmo rugiu com sua voz, atraindo a atenção de Atena e de Zeus. – Deixa de perder teu tempo com súplicas ao teu pai e devolva-me o que é meu!
- Ele não é uma coisa! – A jovem deusa gritou, apontando o báculo em sua direção. – Você nunca mais vai colocar as mãos nele, nunca mais!
- Então tua preciosa Terra irá para debaixo d'água, o que me dizes? – Empunhou o tridente e quando percebeu-se de si, estava avançando na direção de sua sobrinha. – Não me importo que todas as almas viventes acabem no Hades, todos eles morrerão por tua estupidez!
- Desta vez eu não vou ficar rezando em um pilar, covarde infeliz! – Os olhos de Atena cintilaram, e ela avançou com a Vitória nas mãos e o rosto crispado de ódio.
- Já chega! – Zeus interrompeu os dois. – Voltem aos seus lugares, os dois. Agora.
Poseidon retrocedeu. A alma de seu General seguia agonizando, e bater-se com Zeus não o ajudaria em absolutamente nada.
- Rei dos Mares, Domador de Cavalos... – Zeus disse, a voz pausada. – Tua conduta junto a esse mortal merece uma repreensão, bem o sabes.
- Sabes o quanto isso soa irônico quando vindo de ti, ó irmão? Quer que eu elucide, aqui, como enganaste boa parte de tuas concubinas mortais com trapaças e ilusões?
- Não deves trazer esses assuntos à baila, meu passado não vem ao caso. – Zeus aferrou suas mãos ao raio em sua mão direita. – O que está feito está; mas tu ofendeste este guerreiro. E haverá uma punição, mas não outorgada por mim. Que as Moiras decidam o que será de ti neste caso, a mim não me cabe decisão alguma fora as já tomadas.
- Pai! – Atena esbravejou. – Isto nada mais é do que uma palmada no pulso perto da ofensa que ele fez aos meus guerreiros!
- A alma dele está ferida, Nibelungo lhe foi arrancado à força! – Poseidon disse, apertando os lábios. – Ele precisa de mim.
- Uma pena, porque não te aproximarás dele. – A voz de Zeus não admitia tréplicas.
- Não posso curar a alma dele sozinha, pai, sabes disso...
- O que é finalmente uma punição justa para uma alma tão problemática como a dele e a de seu irmão, minha filha.
- Meu pai. – A voz outrora orgulhosa da Tritogênia quase se quebrou quando percebeu o que Zeus pretendia. – Eu não posso permitir que meu guerreiro sofra assim. Eu preciso que me ajude, meu pai. Eu preciso.
- Filha minha... Faria qualquer coisa por ti, e tu o sabes. Mas isso... Não posso, é um precedente por demais perigoso. Não posso, entendes?
Zeus meneou a cabeça, contrito, encarando sua filha consentida como se sua negativa lhe doesse muito. Atena empalideceu a olhos vistos, Poseidon trincou os dentes.
Sua sobrinha era uma tola, sempre seria, mas ele não.
Ele sabia o quanto de verdade havia naquele teatro de seu irmão.
- Eu te imploro, meu pai. Eu te imploro. - O burburinho cresceu quando a impávida Deusa da Sabedoria se ajoelhou aos pés de seu pai, quase tocando a testa no chão. - Rogo teu favor, e o faço de joelhos...
Poseidon sabia que era inútil.
Zeus não moveria um único fio de seus cabelos em auxílio dos mortais que compartilhavam a alma que ele mutilou para que ele não a chamasse de 'seu filho'.
- Eu não posso, filha minha. Eu não posso perdoar duas almas que, encarnação após encarnação, se insurgem contra nós, os deuses. Especialmente contra ti. Agora levanta-te, estás embaraçando a ti mesma insistindo nesta questão...
- Não é contra mim que eles se insurgem a cada vez que atentam contra os deuses. – A voz de Atena saiu em um soluço pelo choro que a duras penas ela conseguia sufocar. – É contra ti, meu pai. É contra ti, pelo que fizeste a eles quando-
- Chega.
O raio na mão do Hórquio cintilou na direção de sua filha.
- Não! – As lágrimas no rosto de sua sobrinha brilhavam pela luz azulada que vinha de Zeus. – É uma das metades da alma do que deveria ser teu filho, o que você mutilou para que nascesse mortal. E está entregando à morte uma vez mais, condenado ao sofrimento, porque lhe é conveniente. Mas eu não vou, meu pai, não vou permitir que ele sofra assim. É uma metade da alma que deveria ter sido de meu irmão!
Poseidon fechou os olhos, respirou fundo. Estava feito.
Atena, sua muito tola sobrinha, acabava de comprar para si não só a danação de seu Dióscuro, como também a ira de seu pai.
- Teus irmãos estão aqui, e apenas aqui, menina insolente! – O golpe de cosmo fez com que ela caísse sentada no chão, levantando o rosto incrédulo para ver os olhos faiscantes de Zeus. – Teus irmãos, primos, teus tios, tua madrasta, teu pai. Esta é tua família, menina ingrata, e é a mim que deves tua lealdade. Não a esses mortais com quem tanto te misturas todas as vezes que desce até a Terra para nascer como uma deles, indigna da divindade que nasceste para ser!
Atena, após um momento encarando o nada, levantou-se sem muita cerimônia com a ajuda de seu báculo.
- E o farei sempre, pois não tenho lugar aqui, meu pai. Não tenho lugar aqui, dentre tão olimpianas divindades, não tenho. Pois nasci tantas vezes na Terra, vinda de um ventre impuro, humano, mas quente e aconchegante como o que me negaste. Dentre os humanos, os homens, tão imperfeitos, tão defeituosos, eu vi sofrimento, dor e morte. Mas vi amor. Vivi amor. Fui amada, eu amei. Fui confortada, confortei. Fui querida, e tu sequer sabes o que é isso. Nunca soubeste, ó grande Rei dos Reis, te contentas com a obediência e o temor. Isso lhe basta porque és um monstro. Um monstro...
A deusa saiu da sala, mal segurando o choro por sua decepção.
Poseidon sabia que, sobre este assunto, decepção era tudo o que teria de seu pai.
A alma de seu general seguia sangrando.
Seu general, seu Dragão Marinho, o homem que colocou em sua cama, o homem a quem deu prazer e dor porque queria – exigia – que fosse marcado como seu. O homem que queria ter gemendo seu prazer enquanto sussurrava para seu amo coisas doces e obscenas, diretamente projetadas de desejos que se escondiam nos recônditos de sua mente.
O buraco em seu estômago e as memórias que tinha do corpo de seu amante, de seu cheiro, de seus gemidos, começavam a lhe dizer que a punição das Moiras viria muito antes do que o esperado.
Quando a sacerdotisa de Apolo o recebeu em privado, no transe onde podia ver o destino de deuses e homens, se pôs a dizer-lhe rebuscadamente o que seu poder divino traduziam em palavras muito simples. As estrofes sussurradas lhe lembravam de que mesmo ele, um dos Três Reis, não deveria jamais se esquecer do quão implacável é a roda do Destino. Mas ele se esqueceu.
"Uma mentira, tu mesmo a criou." A voz de sua consciência silvou em seu ouvido enquanto a pitia falava.
Na cegueira de sua soberba e junto com a joia mítica que o servia, urdiu a ilusão perfeita: A segunda Estrela de Gêmeos subjugado à sua vontade; um Mestre das Ilusões transmutado em uma projeção de general – e amante – perfeito.
E ele se enamorou de sua própria ilusão, seguro que estava de que nada lhe tiraria seu Dragão Marinho.
"Por quanto tempo", sua voz trêmula pelo medo de já saber a resposta.
Sim, em seu íntimo ele já sabia.
As moiras não falhavam jamais.
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