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Saga o tinha nos braços, pegajoso e escorregadio pelo sangue que escorria de seu corpo aos borbotões. Era seu irmão, ele sabia, mas não era Kanon – era outro rosto, outra paisagem, outros armamentos, outra época, traída pelo bem polido elmo de Pilos em seu irmão. Porém os olhos, verdes e mortos, eram os mesmos.

Os soluços rasgavam seu peito, Saga não tinha controle do choro que vertia nem das palavras que dizia. Grego antigo? Não saberia dizer ao certo, mas parecia. Diante de si jazia um homem fulminado por um raio, outro de bruços no chão, a cabeça aberta por um golpe aparentemente devastador. Provavelmente dele, mas ele não se lembrava assim como não reconhecia suas ações ali, quase o que acontecia quando era possuído pelo seu lado maligno – ver o que acontecia e ouvir o que dizia sem real controle sobre seus atos.

Agora ele o sacudia como se estivesse incrédulo por vê-lo morto, seu peito fechado pela dor e pelo ódio. Sua cabeça se enterrou na base do pescoço do outro apenas para que o cheiro de sangue e terra quase o sufocasse. Ele parecia não se importar, e seguia balbuciando ininteligivelmente algo como um mantra.

À sua frente estava um homem imponente de olhos dourados, que ele intuiu como sendo Zeus. Que fez um meneio para que ele se levantasse, mas seu corpo se recusou, balançando a cabeça e aferrando-se ao corpo inerte do irmão em seus braços.

'Cástor', ele finalmente se deu conta do que repetia sem controle sobre suas palavras. 'Cástor, Cástor...'

Cástor, filho de Tíndaro, irmão de Póllux, filho de Zeus. Que morreu pelas mãos de Idas, irmão de Linceu; e a dor de Póllux fez com que ele pedisse ao seu pai para que sua imortalidade fosse dividida com o mortal com quem partilhou o ventre de Leda. Mas seus dedos entraram pelo buraco aberto nas costas do irmão, praticamente um rombo que lhe atravessou o corpo.

Um golpe pelas costas; se aquele nos seus braços era Cástor ele não teve como se defender.

Mas Cástor havia morrido em batalha, não numa emboscada.

Saga conhecia a história de sua Casa, não podia ter sido assim. Mas lá estava ele agarrado a Cástor morto à traição, sua garganta ardendo pelos berros, pela dor da perda, pela raiva. Zeus ainda estava diante de si, imóvel, não o olhava mais nos olhos quando balançou a cabeça em uma negativa muda.

Um relance de olhos no seu reflexo no elmo de seu irmão mostrou a si o mesmo um rosto igual ao que acomodava delicadamente em seus braços.

O mesmo rosto, tal qual como no presente.

Saga não entendia. Se estava vendo a perspectiva de Póllux sobre a morte de Cástor, como poderiam ter o mesmo rosto?

"Sempre foi o mesmo rosto", Era a voz de sua contraparte maligna na sua cabeça, novamente sussurrando perdições em seus ouvidos. Por tanto tempo pensara que era a voz de Kanon, replicada por sua imaginação culpada, mas não... Ele seguia vendo a si mesmo berrar contra sua vontade consciente, ele não conseguia discernir bem o quê. "Sim, você consegue", aquela voz maldita respondeu.

Zeus permanecia ali, impávido, e seus braços soltaram seu irmão para então ele se levantar e avançar sobre o Senhor do Olimpo. Seu cosmo respondeu, mas o ar subitamente eletrificou-se, o Raio apareceu na mão direita de seu Rei. Uma faísca, um clarão, depois... nada.

"Você consegue porque você sabe."

Ele virou o rosto para ver o irmão largado no chão, dessangrado, seus pulmões deixavam de aspirar o ar. Estava no chão, os olhos fixos no céu azul sem nuvens que escurecia pouco a pouco.

"...Você sabe o que ele fez."

...

Acordou num pulo, empapado de suor, a respiração descompassada por mais um dos pesadelos que viravam, ultimamente, a regra de suas noites. "Eu só queria dormir um pouco", pensava, "só um pouco, sem sonho nenhum". Mas até isso era pedir demais, ao que parecia.

Kanon estava acordado, sentado ao seu lado na cama. Mesmo na penumbra conseguia perceber detalhes do rosto igual ao seu apesar dos anos separados. O nariz reto, zigomas altos e proeminentes, queixo pontudo em maxilares quadrados, lábios cheios, as sobrancelhas arqueadas sobre os olhos claros. Que costumavam ser totalmente diferentes dos seus, apesar de terem o mesmo desenho e a mesma cor. Nunca doces ou suaves, sempre com um brilho ora sardônico, ora odioso, sempre duros e hostis.

'O mesmo rosto', pensou de si para si enquanto tentava ver os olhos do irmão, esses sim ocultos pela escuridão parcial.

- Disse alguma coisa?

A pergunta do irmão, assim à queima-roupa, o fez perceber que sussurrara as palavras sem querer.

- Não, não é nada. –Baixou os olhos, tentando desfazer em si a impressão de ter sentido o familiar e incômodo sarcasmo na voz do irmão. Porque era só isso, uma impressão, fruto de sua anterior desconfiança alimentada por anos de ressentimentos. – Você está bem?

Kanon acenou com a cabeça, um gesto aparentemente prosaico que apenas conseguiu reforçar sua percepção anterior.

Saga não queria que toda essa carga entre eles voltasse à tona.

Estendeu a mão para tocar seu ombro, ele se levantou antes do contato.

- Esse é o seu quarto. – Ele disse, dando-lhe as costas para tocar de leve a cômoda de madeira maciça.

- Você dormiu por dias... – Saga incomodou-se pela recriminação do tom de voz do irmão, e não conseguindo evitar a defensiva. – Não quis te deixar sozinho.

Kanon não respondeu, nem se virou para encará-lo. Andou vagarosamente até a porta.

- Onde você vai?

- Nós não temos mais idade pra dividir cama feito duas criancinhas, Saga.

- Eu estava cuidando de você!

Foi inútil, Kanon já andava corredor afora.

Aquela sensação de desapontamento, Saga conhecia bem.

OOO