XII
Poseidon se concentrava em sentir as correntes marinhas carreando energia por seu corpo - submerso em águas profundas, cercado pela escuridão, pelo silêncio, pela privação dos sentidos. Ao longo de eras, aquela privação era usada pelos homens como instrumento de tortura, despindo seus alvos da compreensão da Terra e dos elementos e jogando-os na incerteza vinda da ausência de estímulos. Para um humano aquilo poderia ser excruciante, mas para ele não.
No coração das águas que regia ele se sentia mais deus, menos humano.
Humano era como ele se sentia desde o início da punição das Moiras.
Uma sensação horrorosa.
Mas o total isolamento que se impusera não o impediu de perceber quem se aproximava, o descompasso de suas emoções traindo-o antes mesmo de sua presença física.
Saiu das águas e foi até ele, não impediu o meio sorriso de aflorar em seus lábios.
- Vieste até mim, General…
Ele, seu general. Contra todas as recomendações do Olimpo e de sua Deusa Protetora, Dragão Marinho voltava ao seu lugar devido pela sua própria vontade.
Ele ainda era tão belo quanto ele se lembrava, seus traços traindo sua verdadeira herança assim como o porte régio que pouquíssimos mortais teriam em toda a eternidade. Mas a grandeza de seu general estava maculada em si evidentes sinais de maltrato: Uma sombra de barba em seu rosto, olheiras marcando seus olhos verdes, olhos esses que agora traziam em si um quê de… Desespero?
Foi para isso que Atena o tomou de si? Para fazê-lo sofrer?
Teve vontade de pegá-lo em seus braços, até chegou a armar a ideia de fazê-lo, mas ele não se dobrou na vênia que sempre fazia. Em vez disso, continuou onde estava, como se inseguro se deveria se aproximar. Se queria se aproximar.
Aproxima-te, chega perto; mas ele não veio.
- Você foi até o Santuário para me salvar. Depois… Você foi. - A voz dele estava rouca, rasposa, e ele ainda mantinha sua distância. - Por quê?
- Nunca pensei em abandonar-te à danação eterna que Zeus te reservou.
- Mas eu... - "Te desafiei", era o que ele havia deixado no ar, "e ainda assim você veio me salvar?"
A insistência no olhar dele, a maneira como ele agora o encarava de volta, o incomodava.
Então Poseidon se aproximou, estendeu a mão para tocar seu rosto. Ele não veio até seu encontro mas estava ali, não estava? Portanto para que privar-se de seu toque? Não fazia sentido.
Ele não recuou, mas seu corpo se retesou ao contato.
Estás aqui, não me resistas...
- Por que eu? - Ele repetiu, os olhos fugidios e hesitantes.
- Eu te disse; não podia deixar-te à mercê daquela agonia… - Seus dedos deslizaram levemente pelos lábios dele, menos macios do que seu tato se lembrava mas que ainda o atraíam tanto, tanto.
- Não isso. - Ele sussurrou, o meneio de sua cabeça insuficiente para afastar sua mão, porém livrando seus lábios de sua carícia. - Por quê?
Os olhos verdes agora lhe abriam um buraco no estômago - um misto de constrangimento pela pergunta que ele fazia e indignação pela audácia dele em perguntar.
- Eu vi teu potencial... Tua grandeza, como nunca ninguém jamais viu, e tu o sabes…
Firmou a mão no seu pescoço, aproximando seu corpo e elevando seu cosmo para que ele o sentisse como sentia antes, quando tudo estava bem. Seu general não se afastou, apesar da errática hesitância. Um detalhe irrisório pois ele estava ali, ao alcance de seus dedos; ele veio ao seu encontro para voltar ao posto que era seu de direito, o de seu General, seu braço direito, seu homem de absoluta confiança e desta vez por sua livre e espontânea vontade. Sem Nibelungo. Sem ilusões. Ele era seu, seria seu para sempre, pois ao fim dessa vida viria outra, e outra, e mais outra; até o dia que a evolução de seu cosmo e o poder dos mares o convertessem em uma deidade - como ele sempre deveria ter sido.
- Posso guiar-te para que te convertas no que sempre foste destinado a ser… - Sussurrou no seu ouvido, suas duas mãos firmes na nuca dele. - Ao meu lado terás o mundo aos teus pés, Dragão Marinho…
- Eu quero Nibelungo… - Ele sussurrou, mantendo os olhos baixos.
Nibelungo?
Poseidon travou os dentes, passou saliva na garganta apenas para perceber como ela estava seca.
- O anel era tua punição por ter-me desobedecido. - Balançou a cabeça. - Não é punir-te o que quero agora. Não foi pra isso que te salvei…
- Você quer o meu corpo? - Agora ele o encarou, cortando sua frase na metade com uma fala curta e forte como um baque no peito. - Minha lealdade? É tudo seu... Mas eu quero o anel.
- Tu não precisas de Nibelungo. Oferto-te mais que isso. Estás aqui, vieste até mim, não precisas de algo que…
Suprimia tua vontade ao meu desejo.
- Eu sei o que o anel faz. - O parco controle de seu General começava a se desfazer, sua voz cada vez mais oscilante era sinal claro disso. - Eu o usei, por meses eu o usei. Eu sei o que eu estou pedindo e pelos deuses, eu nem estou te pedindo muito! Você já fez isso uma vez. O que é que te custa-
- O que é que custa a ti para entender que pedes por algo que me é impossível? Nibelungo terminará por matar-te! Eu te ofereço mais do que isso! Ofereço-te tudo o que tinhas e mais tua liberdade, tudo que tens a fazer é estender as mãos e tomar minha oferta para si; e eis que vens até mim pedir-me que te ponha de novo em grilhões, Dragão Marinho?
- ...Kanon…
Foi um balbucio tão débil que mal conseguiu ouvi-lo, mas ainda assim capaz de fazê-lo arfar de impaciência.
Kanon, sim, Kanon era o nome que ele tinha nesta vida mortal, fugaz como um suspiro no tempo dos deuses e por isso um nada, absolutamente nada diante do que ele realmente era, do que havia dentro dele. Refreou como pôde as ganas de fechar os dedos em punho ao redor dos seus cabelos, mas por que tanto te resistes a mim?
Voltou a si quando percebeu que ele tinha se afastado, pálido e ofegante.
Seus dedos realmente puxaram seus cabelos e sua boca realmente sibilou-lhe aquela pergunta.
- Espere… - Tentou tocá-lo novamente, mas dessa vez ele se esquivou. Uma esquiva frágil, desconjuntada pela agitação que o permeava, como se ele estivesse à beira de um ataque de pânico.
- ...Você esteve dentro de mim... - Ele andou para trás até suas costas enconstarem em um coral seco. Os soluços lhe borravam a voz, seus olhos praticamente lhe imploravam pelo que queria. - Dentro de mim, tantas vezes, eu estava com o anel e você não se importava… Você gostava, o anel sabia o quanto você gostava, então por que isso agora? Você pode ter tudo, tudo de volta se me der de novo o anel porque era ele era o Dragão Marinho, entende? Era ele, não eu… Eu sozinho não consigo, eu sou só…
Kanon.
Foi então que entendeu.
Dragão Marinho não existia, não existiu nunca, mas ele existia. Era por cima dele que toda a ilusão foi criada.
Um homem, dono de uma alma mortal marcada pela herança dos Deuses, pela ignomínia de sua gênese, pelo poder que lhe seria uma herança daquele que deveria ter sido seu pai. Mas apesar de todo o poder, de todo o potencial, ainda assim uma alma frágil e inexperiente.
Para um Deus, como ele, era como se ele fosse uma criança.
Cujo rosto agora tinha marcas de lágrimas que ele não poderia esconder, o queixo tremia pelo choro que ele mal e mal conseguia segurar enquanto ele se afastava correndo, quase tropeçando nas suas próprias pernas depois que lhe reafirmou sua negativa com um covarde meneio de cabeça, sem sequer olhá-lo nos olhos.
Lembrou-se de uma época, eras e eras atrás, onde rugiu de fúria por ter perdido um filho para Ares; que o matou a sangue frio para vingar o defloramento de sua filha mortal. Halirrothio, seu filho, um semideus. Alcipe, a filha de Ares, uma mera humana. Mera humana, ele dizia enquanto acusava o Deus da Guerra Sangrenta no Tribunal que mais tarde levaria seu nome, o Areópago.
Em sua defesa, Ares respondeu que era justamente por ser mortal que sua filha Alcipe era tão preciosa. Era humana, uma vida breve e frágil, portanto digna de ser cuidada pelo tesouro precioso e efêmero que era. Por isso todas as mortes que pudesse dar a Halirrothio seriam poucas.
Na ocasião, as palavras de Ares lhe pareceram tolice. Mas agora ele entendia. Ele realmente entendia.
Era, talvez, a primeira vez que Poseidon via além da ilusão.
O peso que fez a ele. O valor do que tirou dele.
Pior ainda era saber que ele considerava o destino de aniquilar-se uma vez mais para reviver a ilusão criada pela sua soberba.
A pressão em seu peito decuplicava a sensação que tinha desde a sentença das Moiras, algo que ele sempre considerou uma prerrogativa mortal, humana.
Culpa.
Consciência, lhe disseram as moiras. A sua tinha um nome. O nome dele.
O nome dele é Kanon.
OOO
