XIII
Ele corria desembestado pela borda da falésia da praia como se os cães do inferno estivessem em seu encalço.
Não - Pensou Saga, horrorizado, quase que sem controle sobre suas pernas.
Esse sonho de novo, não.
A mesma falésia chuvosa, a mesma tempestade retorcendo os céus em nuvens enegrecidas carregando a fúria do Rei dos Mares, a parca iluminação vinda dos raios que castigavam as águas com a sanha do Portador do Raio.
Pai?...
Não. Estava tudo errado, pensava Saga enquanto seguia correndo até - ele sabia, era o mesmo sonho, o mesmo maldito sonho - até o Cabo Sounion. Suas pernas bambeando, seu fôlego lhe faltando a cada passada, o peito apertado pelo esforço e pela urgência em chegar até onde deveria estar a cela onde estava trancado seu irmão.
- Ele estará morto - Saga tentava gritar aos céus ao chegar perto do local onde a água estava mais próxima. - Ele está morto, MORTO, ELE SEMPRE ESTARÁ MORTO!
Pulou, sabendo que enfrentaria a mesma sensação de quase afogamento, a mesma maré em fúria que sempre tentava arrastá-lo até sua morte. Mergulhou, sabendo o quanto seus olhos arderiam, o quanto doeria a si ver os barrotes da prisão totalmente submersa sob as águas…
Não havia cela. Não havia nada.
Buscou a superfície, seus pulmões engolindo o ar em contrações doloridas de seu diafragma. Tentou olhar ao seu redor o quanto as ondas permitiam em meio à ressaca furiosa - e que agora quase o esmagava contra a parede de rochas atrás de si. Mergulhou novamente para fugir das ondas, no meio da água turva e salgada viu um vulto submerso cujos longos cabelos encobriam seu rosto.
Nadou em desespero até sua direção, agarrando-se ao corpo para puxá-lo para a superfície e…
Kanon.
Não tinha a pele macerada e violácea pela morte. Os olhos entreabertos não estavam baços pela opacidade do contato prolongado com a água. Mas ele não respirava, havia se afogado...
Estava morto? Novamente morto, sempre tão morto como quando-
"Não", rilhou os dentes e nadou com ele até a encosta. "Não", repetiu em sua mente enquanto tentava firmar os dedos na parede de rocha com o irmão nos braços. "Não", sentia seus dedos enrugados se abrirem em feridas pela fricção na pedra íngreme, firmando os pés como podia na parede, tateando pontos onde pudesse escalar o pouco que faltava para que chegassem à superfície; mas não conseguiria com o peso dele em seus braços, não conseguiria carregando o corpo de seu irmão…
- Não - A palavra, mais gemida do que gritada, rasgou-lhe os pulmões num esforço sobre-humano onde ergueu-se escalando um pouco mais enquanto prensava o corpo de seu irmão contra a falésia, não o deixando cair no mar revolto. A chuva e a terra caíam em seus olhos mas ele não os fecharia, não os fecharia porque tinha que encontrar cada ponto onde seus dedos se encaixariam, ignorando a dor de suas falanges, ignorando a terra ardendo em seus machucados, o peso de seu irmão o puxando para baixo, não.
Não.
Ele não entregaria o corpo de seu irmão ao mar.
Contraiu os músculos de seu braço além da própria capacidade numa tentativa de jogá-lo na superfície de terra, conseguiu elevá-lo o suficiente para isso e empurrar suas pernas para que a maior parte de seu torso se prendesse ao chão da encosta.
Kanon estava a salvo.
Subiu encosta acima e rastejou de bruços na terra batida, cada fibra de seu corpo protestando pelo esforço de se colocar a salvo. Seus pulmões quase implodiam sob suas costelas, mas ele não iria se render à fúria do mar, à fúria da tormenta, aos relâmpagos que cortavam os céus, à natureza que os fustigava como um castigo divino.
Um castigo divino.
- Fodam-se - Soluçou reunindo as forças que não tinha para tentar se equilibrar em seus joelhos bambos. - Fodam-se - Repetiu apoiando as palmas no peito imóvel de Kanon, apertando uma, duas, três, quatro vezes, e mais uma, mais uma, mais uma, parou para abrir-lhe a boca e soprar seu parco fôlego dentro dela.
- Vamos - Ele dizia massageando-lhe o peito novamente, por mais que fosse inútil, por mais que estivesse apenas despendendo um esforço inócuo ele ia fazer, ele não ia entregar seu irmão à morte sem pelo menos uma luta. - Kanon, vamos…
Seus braços doíam, seu corpo pesava, suas lágrimas se misturavam à lama grudada em seu rosto pela chuva que ainda caía; ele urrou quando parou de massagear o peito de seu irmão para lhe acertar um soco em seu esterno. Outro, mais outro, Kanon continuava tão imóvel quanto antes, imóvel, pálido…
- Não… - Agora soluçava sobre o peito de seu irmão, seu gêmeo, sempre foi o mesmo rosto, outro sonho lhe dissera, o mesmo rosto desde tempos imemoriais, o mesmo rosto desde que-
Os olhos dourados do Portador do Raio em seu sonho, uma negativa muda, fingida, seus dedos entrando no oco sangrento da ferida aberta nas costas de seu irmão…
"Você sabe o que ele fez"
Acomodou-lhe cabeça no vão de seu pescoço, soluçando como uma criança. Mesmo de olhos fechados sabia que ele estava ali, ele tinha vindo, ele sempre viria, ele sempre se certificava de que tudo correu a contento.
Seus jogos, suas maquinações travestidas de guerras e crises que ele permitia - não só permitia, alimentava.
A maneira fria, crua e sistemática com a qual ele garantia que eles não pudessem sobreviver.
Nunca puderam.
Sentiu o ar se eletrificar, apertou seu irmão contra si como se o pudesse proteger…
"Saga."
A voz de Atena em sua cabeça.
Acordou, Atena estava diante de si.
- Alteza... - Murmurou, surpreso por ver a Deusa em seu quarto.
Uma garota.
Os olhos dela brilhantes pelas lágrimas.
- Você viu meu sonho?... - Baixou o rosto, mais envergonhado do que enraivecido pela intrusão de sua privacidade.
- Eu conheço seu sonho. - Ela disse, num soluço.
As mãozinhas dela, suadas e frias, buscaram as dele no momento que a menina lhe fez o pedido mudo e envergonhado de um abraço.
Abraçou-a, sem entender muito o porquê; e ao envolvê-la com seus braços…
Ele estava tão cansado. Um cansaço de anos. Décadas, séculos…
- O quê...? - Sussurrou como podia através da garganta fechada pelo choro que mal conseguia segurar.
Os braços dela o apertaram como se ele pudesse se esfumar dali, desaparecer no ar.
- Eu te vi perecer diante de meus olhos por tantas vezes que nem posso contar. - Ela soluçava. - Você tinha outros nomes. Outras histórias. Outros rostos, mas você e ele… - Sentiu ela engolir com dificuldade.
- Sempre o mesmo rosto - Saga balbuciou.
- Sempre. - Ela assentiu em resposta.
Havia nela - neles - uma presença etérea, disforme, vaga demais para ser considerada até mesmo real, mas… Real ou não, ela estava ali.
Algo que ele, Kanon e a menina que o abraçava tinham em comum - que deveriam ter tido.
Mãe, a voz de Atena em sua cabeça sussurrou.
Saga chorou nos braços daquela menina, a deusa que sempre o salvou, o perdoou e o defendeu apesar de todos os seus pecados - com o amor de uma irmã - como jamais chorou em sua vida.
OOO
Do Cabo, podia ver o Templo de Poseidon. As ruínas que um dia ele fora encarregado de proteger, e que já teve - há bem pouco tempo atrás - vontade de quebrá-las até que não restasse pedra sobre pedra, apenas com a força de seu ódio.
Jamais esqueceria o que viu no Pilar do Atlântico Norte, nem o buraco aberto em sua alma ao saber o que soube logo depois.
Mas seu ódio, sua indignação e seu rancor não ajudariam seu irmão em nada.
Seu irmão. A quem ele tanto amou, de quem tanta raiva teve… Uma metade de si, literalmente.
"A verdade o libertará - mas antes o deixará furioso", foi o que leu em algum lugar. Mas ele não estava furioso. Não mais.
Raiva e fúria foi o que ele sentiu desde que se entendia por gente - ele e seu irmão. De certa forma, era reconfortante saber de onde ela vinha.
Jamais perdoaria os envolvidos. Jamais. Mas não perdoá-los era diferente de não perdoar.
Perdoar a Existência, o Universo, seja lá que força determinou a criação de suas almas para que fossem jogadas no Ciclo das Existências.
Perdoar para que pudessem, ele e seu irmão, sair do ciclo vicioso de raiva, ódio, loucura e insurgência em que eram manipulados a entrar para que nele perdessem a vida. Uma danação eterna.
Kanon estava ali. Sozinho, perdido, sem saber entender o que existia por baixo da raiva, da sensação de desprezo que ele sentia - eles sentiam - em relação ao mundo.
"Eu sei que no fundo você é igual a mim", era o que ele lhe gritava quando estava preso no Cabo Sunion. Era verdade. Foi essa raiva surda e onipresente que os empurrou para a separação, a loucura partilhada mesmo em caminhos distintos.
Saga sabia que seu irmão fora ao Reino dos Mares, implorando por Nibelungo novamente em seu dedo. Soube quando ele irrompeu templo adentro, bêbado uma vez mais, lhe gritando impropérios e acusando-o de 'foder com a sua vida pela enésima vez'. O que degenerou em outra briga, outra situação de onde saiu em frangalhos emocionais porque simplesmente não conseguia entender como as coisas sempre davam tão errado.
Isso foi antes dele dormir sob a ação de algumas taças de vinho. Antes dele sonhar, antes de Atena ter com ele… Antes dele saber o que tantas vezes se perguntou, antes e depois dos pecados ignominiosos que cometeu nesta vida; talvez em outras, também. O que de tão errado havia com ele. Com Kanon. O que tanto os deuses queriam deles dois.
A verdade era dolorida, crua, injusta e vil. Mas era melhor do que não saber, estar permanentemente no escuro, sem saber o que fazer; e não ter outra alternativa que não o ciclo onde estavam presos.
Irônico como em todas as vezes que tentou ajudar seu irmão, nunca se imaginou no lugar dele. Nunca. Estando ele no lugar do seu irmão, usando um anel que lhe sussurrava a todo momento o que sentir, dizer ou fazer em troca da ilusão de ser amado, teria ele feito a mesma coisa? Achava que sim. Ele já se perdera para si mesmo por conta de uma ilusão parecida.
Kanon o viu aproximar-se, estreitou os olhos como quem diz 'vai embora'. Saga baixou os olhos, um pedido mudo de desculpas que o outro conseguiria sentir mesmo que não quisesse.
Sempre foram melhores em se comunicar assim do que em palavras.
Kanon fixou o olhar no horizonte, Saga se sentou ao seu lado.
- Eu sonhava com você - Disse, meio que sem esperar resposta. - Eu sonhava que você…
- Eu o quê? - Kanon o cortou, seco como sempre.
- ...Estava morto.
- Crise de consciência, que lindo. - Ele ironizou, olhos ainda no horizonte. - Não se esqueça que aqui, nesse lugar, você tentou me matar.
- E por que você não me matou quando nos enfrentamos?
Ele não respondeu de imediato. Continuou olhando para o mar à sua frente, Saga fez o mesmo.
- ...Eu não sou você. - Ele disse, tão baixo que mal conseguiu ouvir. - A grande merda da minha vida, aliás, é essa. Não ser você.
- Eu acho que você é mais eu do que você imagina. - Replicou, olhando para o chão. - Eu sei que sou mais você do que eu imaginava.
Ele se manteve calado.
- Por que você foi até lá, Saga, mexer no que estava quieto?
Kanon tinha esse jeito cru de dizer as coisas, sempre teve. Por muito tempo se ressentiu por isso, como se essa rudeza fosse uma forma de Kanon o atacar, e então ele reagia. Ele reagia à forma como percebia Kanon, Kanon reagia à forma como percebia a ele. E ambos sempre esperavam o pior um do outro; espelhavam o pior um do outro.
Saga sempre esperou que Kanon fosse igual a ele. Kanon sempre lhe gritou que era o contrário. "Você é igual a mim", dizia Kanon. Nenhum deles nunca disse, porém, o "eu sou igual a você".
Porque apesar de serem iguais - terem o mesmo rosto, sempre o mesmo rosto - não conseguiam se colocar um no lugar do outro.
Esse era um padrão que demoraria a desaprender. Não podia, também, querer que Kanon simplesmente jogasse fora todos os ressentimentos que lhe tinha.
- Alguns sonhos eram horríveis. - Disse, evitando o olhar dele. - Tão horríveis que…
- Que?
- Não importa. - Balançou a cabeça em negativa. - Os detalhes não importam. Só me importa que os sonhos estavam certos. Você estava morrendo… Ele ia te destruir.
- ...Como você sabe?
- ...Ele não via você. - Saga sentia a voz engasgando na garganta. - Ninguém aqui também te via. Cada um que te olhava… Via o que queria ver. Eu sei disso porque… Eu também não via você.
Olhou para Kanon, que não olhava para ele mas travava o maxilar, mexendo discretamente as mãos num macete que Saga conhecia de quando ele ficava nervoso.
- Eu via em você o que eu tinha medo em mim. O que eu queria e não podia… O que eu podia, e não queria. - Mantinha a cabeça baixa, a voz trêmula e sussurrada. - ...Me perdoa.
Kanon baixou a cabeça, os lábios apertados e os olhos marejados.
- As coisas não vão melhorar como um passe de mágica por conta de uma conversa, Saga. - A voz dele estava tão engasgada quanto a dele. - Hoje, você se acha capaz de me ver? De verdade?
Esticou os braços para trazer Kanon para um abraço que ele não recusou. A posição em que estavam, um ao lado do outro, fez com que ficassem desconfortáveis; abriu as pernas para que Kanon se sentasse entre elas, meio de lado. Fazia muito tempo que não se sentavam assim, um no colo do outro. Kanon era bem mais leve, uma criança como ele.
Acomodou-lhe a cabeça no vão de seu pescoço, Kanon se aninhou como se ainda fosse aquele menino que ele um dia foi. Sentia a respiração descompassada em seu pescoço, o quanto Kanon tentava segurar seu choro.
Ele não era mais criança, eles não eram mais crianças. Mas uma parte deles sempre seria - dois meninos sozinhos no mundo que só tinham um ao outro.
Mais sozinhos do que jamais poderiam imaginar.
- Era mais fácil... - Kanon soluçou. - Era tão mais fácil quando ele me dizia o que fazer… Ele ficava feliz, eu ficava… - Outro soluço. - Eu nunca fui alguém em que se pudesse confiar, eu…
Saga entendia. Uma insegurança perene, a sensação de que nunca seria o suficiente, de que no fundo era uma farsa. Por isso eram ambos tão suscetíveis à ilusão de poder, a qualquer coisa que lhes sussurrasse nos ouvidos as mentiras que se quer ouvir… Deixar-se levar.
- Você não me matou… - Saga soluçou. - Você me protegeu. Você decidiu isso sozinho.
Kanon se deixou chorar. As lágrimas lhe molhavam a camiseta, Kanon tremia sob seus braços. E ele chorava também.
Lágrimas tão salgadas quanto o mar em que o viu se afogar tantas vezes.
Kanon descobriria sobre eles, Atena, Zeus. Tudo a seu tempo. O Tempo, Atena lhe disse, o Tempo cura muitas feridas.
Não era só de tempo que seu irmão - sua metade - precisava agora.
Deixou-lhe um beijo no rosto, um que nunca se permitiu. Kanon sempre lhe fora um manancial de sentimentos confusos, amor e ódio, atração e repulsa, mas não renegaria mais nada dele. Nada.
Ele também não se apartou. Em vez disso, encostou os lábios no vão de seu pescoço.
- Nós vamos ficar bem. - Saga disse, a metade de sua alma partida tão aninhada em si quanto em seus sonhos onde tentava - em vão - protegê-lo da morte certa.
Agora ele estava vivo. Quebrado, sua alma sangrando, doendo como nunca - podia sentir isso em si. Era seu melhor instrumento de comunicação, melhor do que as palavras onde sempre se perderam. Mas estava vivo, e isso significava que ainda poderiam mudar as coisas. Ou pelo menos tentar.
- Nós vamos ficar bem. - Repetiu, esperando que a alma dele depreendesse essa certeza. - Nós dois. Juntos.
Levantou os olhos para o céu em um desafio mudo, que renovariam dia após dia.
Eles existiam. Eles mereciam. E viveriam - mesmo que suas vidas fossem a personificação da insurgência aos deuses.
Que viesse a tempestade, os raios e a fúria do mar. Eles as enfrentariam.
Juntos, dessa vez.
OOO
É isso, é o fim.
Nibelungo foi uma fic meio... Autoral? Difícil descrever.
Essa história não fala de amor, nunca falou. Fala de... projetar-se no outro, esperar que o outro se comporte como em suas projeções, fala de abuso.
Fala sobretudo de controle.
Da necessidade de controlar, de achar-se no direito de controlar, de superar o abuso e a coerção que vem do controle. E ela, neste ponto, está terminada.
Talvez, quem sabe, ela ganhe um epílogo? Ainda não sei. Mas a história principal é esta, está acabada.
Espero que tenham gostado, que esses capítulos os tenham feito pensar.
See you, folks, and stay tuned!
(Human Being, 27/12/2016)
