Naruto não me pertence, nem a história!
A caminho do trabalho, Hinata apertou o passo ao ouvir o relógio da prefeitura anunciar as oito horas da manhã. Planejara chegar bem cedo, mas infelizmente dormira demais… por ter ido ao bar de exe cutivos na noite anterior e custado a dormir, de tão an gustiada pelo modo como se comportara diante de um completo estranho!
Oficialmente, não precisava chegar ao escritório do hotel antes das nove horas, porém, considerando os altos índices no desemprego no país, era preciso mostrar empenho e de dicação no trabalho.
— Provavelmente, haverá cortes… pessoas em cargos re dundantes — alertara seu gerente, na última reunião, e Hinata se considerava em perigo, por ter sido contratada recentemente. Seria difícil conseguir em Hilford outro em prego com tão boas perspectivas e, se tivesse que se mudar para Londres, deixaria a avó sozinha. Aos sessenta e cinco anos, não se tratava de nenhuma inválida… longe disso… e vivia cercada de amigos, mas havia a doença. Devia muito à avó por tê-la criado e lhe dado amor.
No saguão do hotel, parou no balcão da recepção e indagou a Emma:
— Ele já chegou?
— Na verdade, chegou ontem — informou a moça, com expressão sonhadora. — Já está lá em cima. Espere até ver. É lindo de morrer…
Hinata meneava a cabeça ao caminho do elevador. Ao se oferecer àquele estranho no bar de executivos, redefinira seu ideal de beleza masculina, e duvidava de que o novo patrão grego fosse sequer se aproximar do padrão.
Hinata trabalhava no terceiro andar, numa sala ampla, com cinco outras pessoas. O gerente dispunha de uma di visória envidraçada, mas ele ainda não chegara e o cubículo estava vazio.
Mal ela se ajeitara à mesa de trabalho, o gerente chegou, na companhia dos demais colegas.
— Bom dia, Hinata! — saudou o superior.
— Bom dia. Eu pretendia chegar mais cedo, só que… Gordon Jarman a cortou:
— Não precisa explicar nada. É melhor você subir logo ao andar da presidência. A secretária do Sr. Uchiha a aguar da. Parece que quer entrevistar todo mundo… e não ficou nada satisfeito ao convocar você e ser informado de que ainda não tinha chegado.
Hinata se apressou ao elevador.
O andar da presidência era um território desconhecido para Hinata. Estivera ali apenas por ocasião da admissão e dias antes, quando toda a equipe foi informada da incor poração do hotel ao grupo Demétrios.
Um pouco insegura, saltou do elevador e caminhou até uma porta com a placa "Assistente Pessoal da Presidência".
Madge Fielding, a secretária do antigo proprietário, apo sentara-se após o anúncio da incorporação. A mulher à mesa devia ser a assistente pessoal do novo presidente.
Nervosa, já ia explicar o motivo da presença, mas a mu lher nem esperou.
— Hinata? Você está atrasada. O Sr. Uchiha não gosta… Deixe-me ver… Talvez ele não tenha tempo de entrevistá-la agora — alertou, antes de pegar o telefone. Num tom bem mais dócil do que aquele que usara com Hinata, anunciou: — A Srta. Hyuuga está aqui, Sasuke. Ainda quer entre vistá-la? — Ouviu a resposta e pôs o fone no gancho. — Você pode entrar, Hinata. Por aquela porta.
Engolindo a indignação, Hinata se encaminhou à referida porta, bateu de leve e girou a maçaneta.
A claridade do sol nas janelas amplas cegou-a momen taneamente. Só discernia o contorno de um homem diante do vidro, de costas para a porta.
Sasuke não estava surpreso por vê-la chegar ao trabalho mais tarde do que os colegas. Afinal, sabia o que ela fazia à noite. Só não entendia a alta estima em que o gerente, superior imediato dela, e os demais colaboradores a tinham. Aparentemente, na necessidade de um esforço extra, de um serão no escritório, Hinata estava sempre pronta a ajudar.
— Sim, talvez isso seja incomum em recém-formados, mas ela foi criada pela avó, o que pode explicar seus valores e senso de obrigação em relação aos outros um tanto ultra passados — analisara Gordon Jarman. — Como pode ver em meu relatório, o trabalho dela é excelente, bem como suas qualificações…
Além de bonita, e capaz de usar seus atributos físicos em benefício próprio, refletiu Sasuke. Com base nos rela tórios, depoimentos e na foto anexa à ficha funcional, jamais teria acreditado se lhe dissesse que Hinata Hyuuga frequentava bares à noite.
Naquela manhã, por exemplo, já se metamorfoseara em funcionária-padrão, a construir a carreira sozinha… bem vestida, cabelos presos, maquiagem leve no rosto. Sasuke franziu o cenho ao se impressionar com a figura discreta tanto quanto se excitara com a moça insinuante no bar.
Já não tinha problemas bastante? Na noite anterior, ao chegar do bar, recebera um telefonema da mãe, aflita lhe contando que seu avô estava em pé de guerra.
— Ele jantou com velhos amigos ontem, todos se gabando de negócios engatados. Sabe como eles são… Um deles con fidenciou que esperava que o filho conquistasse a mão de Kurenai…
— Desejo-lhe boa sorte — respondera ele. — Espero que consiga. Assim, livro-me dela e da ladainha do vovô.
— Acontece que saber disso só fortaleceu a determinação dele em promover o casamento entre vocês dois. Claro, aposentado, tem tempo para planejar e arquitetar… Pena que ainda não tenha alguém especial em sua vida… — lamentou a mãe, zelosa. — Francamente, acho que a esperança de um bisneto o excitaria tanto que ele logo o perdoaria por não desposar a ardilosa da Kurenai! Sasuke bufara, ofendido.
— O que a faz pensar que não há ninguém especial em minha vida?
Pausa na outra ponta da linha.
— Quer dizer que há? — replicou a mãe, esperançosa. — Oh, Sasuke! Quem? Quando vamos conhecê-la? Quem é ela? Como você… Oh, querido, que maravilha! Seu avô vai ficar encantado. Olímpia, adivinhe quem…
Depois disso, ele só ouvira a mãe contando a novidade a uma de suas irmãs. O avô telefonara às cinco da madru gada para saber quando conheceria a noiva do neto!
Noiva… Sasuke não sabia como a notícia se desenvolvera tanto, mas entendia que, se não produzisse logo essa cria tura mítica, estaria encrencado.
— Quero que a traga para a ilha — decretara o avô.
E agora? Tinha oito dias para encontrar uma noiva de mentirinha. Oito dias, e teria de ser uma boa atriz, para enganar não apenas seu avô, como a mãe e as irmãs!
Irritado, saiu de debaixo do sol, permitindo que Hinata o visse direito, finalmente.
Ela não teve tempo para disfarçar o choque nem abafar o gemido de espanto. Empalideceu e depois enrubesceu.
— Você! — exclamou Hinata, recuando até a porta. As lembranças da noite anterior a atordoavam, bem como a certeza de que estava prestes a perder o emprego.
Ali estava uma atriz excelente, reconheceu Sasuke, aten to ao que considerava uma boa representação. Hinata usava uma máscara totalmente diferente daquela da noite ante rior. Mas devia estar realmente chocada por descobrir que o homem a quem assediara tão despudoradamente num bar era seu novo patrão. Já o olhar obscurecido de ansiedade, o lábio inferior trêmulo, apesar dos esforços em controlar-se… Oh, sim, tratava-se de uma atriz de primeira… uma atriz de primeira!
Hinata Hyuuga era a solução para seu problema corrente!
— Pois bem, Srta. Hyuuga — começou Sasuke, impes soal, optando por ser direto: — Li o relatório de Gordon Jarman sobre você e devo parabenizá-la. Parece que o per suadiu a falar bem de sua pessoa. É um feito e tanto para uma funcionária tão recente e jovem. Principalmente uma que adota uma atitude… digamos, pouco convencional e elás tica, em relação ao expediente… saindo mais cedo e chegando mais tarde…
— Saindo mais cedo? — Hinata franziu o cenho, confusa. Como ele soubera disso?
Como se lesse sua mente, o patrão esclareceu:
— Eu estava no saguão ontem à tarde, quando deixou o hotel… bem antes do fim do expediente.
Hinata expressou indignação.
— Mas…
— Sem desculpas, por favor. Podem funcionar com Gordon Jarman, mas, infelizmente para você, não darão certo comigo. Afinal, vi como se comporta quando não está tra balhando. A menos… a menos, claro, que esse seja o motivo para um relatório tão favorável…
Ofendida, Hinata conteve o impulso de esbofeteá-lo. De qualquer forma, precisava explicar:
— Não! Eu não… A noite passada foi um erro, eu…
— Sim, temo que tenha sido um erro — concordou Sasuke. — Para você, pelo menos. Sei que seu salário é pe queno, mas meu avô ficará triste se souber que uma cola boradora tem de reforçar o orçamento com uma atividade que pode se refletir mal na imagem da empresa. — Sorrindo desdenhoso, observou: — Felizmente, não estava num dos nossos hotéis… fazendo ponto e…
— Como se atreve? — interrompeu Hinata, furiosa.
— Como me atrevo? Eu é que devia lhe perguntar: como se atreve? — rebateu Sasuke, áspero. — À parte as im plicações morais do que estava fazendo, ou melhor, tentando fazer, chegou a pensar no perigo físico a que se expõe? Mu lheres como você…
Ele se deteve, controlou-se e retomou o tom de cinismo gentil:
— Soube, pelo seu gerente, que está ansiosa em relação a seu emprego.
— Sim, estou — admitiu Hinata, rouca.
Não adiantava negar. Já comentara com Gordon o temor de ser considerada dispensável do quadro de funcionários. Ele obviamente comentara com Sasuke. Negar a apreensão agora seria inútil.
— Ouça, por favor. Posso explicar sobre a noite passada
— prontificou-se, aflita, o orgulho substituído pelo pânico.
— ImagAnko a impressão que passei ontem, mas não era… eu não sou… —Hinata desistiu ante a expressão empeder nida do patrão. Ele não estava disposto a ouvi-la, muito menos a acreditar em suas justificativas.
Não podia culpá-lo… nem convencê-lo, tampouco, a menos que lhe apresentasse Anko e Tenten, para corroborarem a história, mas era orgulhosa demais para chegar a esse extremo. Além disso, Tenten só pensava na viagem com o noivo ao Caribe, e Anko… no mínimo, adoraria vê-la encrencada por conta do episódio.
— É melhor não inventar nada — opinou Sasuke, gélido.
— Desprezo as mentirosas ainda mais do que… — Não com pletou, mas Hinata fazia uma idéia do resto da sentença.
Antes que ela pudesse replicar, o patrão se adiantou:
— Tenho uma proposta para lhe fazer.
Sentado à mesa, Sasuke a fitava por entre um vão entre os dedos das mãos diante do rosto, como um predador ava liando a presa indefesa.
— Que tipo de proposta? — indagou Hinata, cautelosa, mas o coração disparado era um indicador de que já sabia a resposta… que lhe causava um misto de excitação e repulsa.
— Oh, não o tipo de proposta com que está familiarizada
— assegurou o patrão, sereno. — Sei que algumas mulheres apreciam o papel de prostituta…
— Eu não estava fazendo isso!
— Eu estava lá… lembra-se? — rebateu ele. — Se meu avô soubesse como se comportou, exigiria sua demissão sumária.
— Não precisa contar a ele — murmurou Hinata, engo lindo o orgulho. — Por favor…
— Não, não preciso — concordou Sasuke. — Mas isso depende da sua resposta à minha proposta.
— Isso é chantagem!
— Algo tão antigo quanto a profissão que você exercia ontem à noite — ponderou Sasuke.
Hinata entrava em pânico. Só havia uma coisa que o patrão poderia querer dela. Afinal, na noite anterior, dera-lhe motivo para presumir… para acreditar… Mas fizera aqui lo imaginando que ele fosse o noivo de sua melhor amiga, para testá-lo, e se tivesse uma chance para explicar… Mas a indignação a obrigava a reagir:
— Estou surpreso que um homem como você precise chantagear uma mulher para ter sexo. De forma alguma, eu…
— Sexo? — Sasuke a surpreendeu com uma gargalhada. — Sexo? Com você? De jeito nenhum! Não é sexo o que quero de você.
— Não é sexo? Então… então, o que é? — indagou Hinata, trêmula.
— Quero o seu tempo e sua concordância em se passar
por minha noiva.
— O quê? — Hinata parecia incrédula. — Você está louco.
— De jeito nenhum — garantiu o patrão, severo. — Ape nas determinado a não ser coagido a um casamento que meu avô arranjou. E, como minha mãe me lembrou, a melhor forma de convencê-lo é mostrando que estou apaixonado por alguém. Só assim conseguirei deter a campanha ridícula dele.
— Quer que eu… passe… por sua noiva? — Hinata ainda não conseguia acreditar. Como Sasuke parecia falar a sério, pensou na proposta e recusou: — Não. De jeito nenhum. Não mesmo!
— Não? — Sasuke deu de ombros. — Então, não me deixa alternativa senão informá-la de que é grande a proba bilidade de a dispensarmos, como parte das medidas de redução de gastos. Espero ter sido claro.
— Não! Não pode fazer isso… — começou Hinata, calan do-se ao perceber o olhar cínico dele.
Estava desperdiçando tempo. O patrão não ouviria suas justificativas, não queria acreditar nela. Não se adequava a seus planos acreditar nela. Se não concordasse em cola borar com ele, seria demitida. Engoliu em seco. Estava en curralada, sem possibilidade de escapatória.
— E então? — apressou Sasuke. — Concorda com a minha proposta, ou…
Hinata sentiu um amargo na boca, a derrota entalada na garganta. Era difícil falar, mas tentou erguer a cabeça ao se pronunciar:
— Concordo.
— Ótimo. Só para constar, sugiro que inventemos um encontro acidental… talvez quando vim a Hilford antes, para cuidar da incorporação. Devido às negociações, mantivemos nosso relacionamento… nosso amor recíproco… em segredo. Mas agora não há mais necessidade de segredo e, para pro varmos isso, além de comemorarmos nossa liberdade, eu a levarei para almoçar hoje.
Franziu o cenho, planejando os próximos passos:
— Iremos para a ilha de minha família no mar Egeu, no fim da próxima semana, e teremos de nos conhecer um pouco melhor até lá.
Hinata assustou-se.
— Iremos para onde? Não, eu não posso. Minha avó… Sasuke soubera por Gordon Jarman que ela morava com a avó.
— Estamos noivos, minha querida. Com certeza, sou mais importante em sua vida do que a sua avó. Ela também ficará surpresa com o nosso relacionamento, eu sei, mas entenderá por que tivemos de manter nosso amor escondido. Se quiser, estou preparado para ir com você… explicar tudo a ela…
— Não! — Hinata dodominou pânico. — Não há necessi dade, até por que ela se encontra em Bath no momento, com uma irmã, e vai permanecer lá por algumas semanas. Mas não pode fazer isso! — argumentou, agitada. — Seu avô vai descobrir que não somos… que não…
— Ele não vai duvidar de nada — assegurou Sasuke. — Você é uma atriz excelente, pelo que já vi, e tenho certeza de que conseguirá convencê-lo de que somos e fazemos tudo o que um casal apaixonado faz. Se precisar de auxílio…
O olhar do patrão obscureceu-se e Hinata recuou um pas so, enrubescendo à sugestão velada.
— Assim está melhor — aprovou Sasuke. — Mas talvez não seja sábio fazer o tipo tímido e virginal. Meu avô não é tolo. Duvido de que ele espere que um homem na minha idade se apaixone por uma mulher que não seja sexualmente tão vivida quanto eu. Afinal, sou meio-grego, e a paixão faz parte da personalidade e psique gregas.
Hinata queria fugir dali. A situação piorava a cada ins tante. O que aconteceria se Sasuke descobrisse que ela não era sexualmente vivida e que, na verdade, sua única experiência com sexo e paixão se limitava a uns poucos beijos e abraços? Agradecia aos pais, claro, a cautela com que permeara suas descobertas sexuais de adolescente. O comportamento inconseqüente deles a fizera temer repetir o erro. Mas Sasuke nem desconfiava disso!
— São quase dez horas — observou Sasuke. — Sugiro que volte a sua mesa. À uma hora, descerei e a levarei para almoçar. Quanto antes tornarmos nosso relacionamen to público, melhor.
De pé, Sasuke aproximava-se ao falar. Hinata reteve o fôlego, em expectativa, e mal conteve um grito de susto quando a porta se abriu e a assistente pessoal dele entrou, exatamente quando ele a segurava pelo pulso.
Ele tinha a pele branca porém bronzeada, mas não tanto a ponto de denunciar de imediato seu sangue grego, reconhe ceu Hinata. Os olhos eram negros, comprovava naquele ins tante, e não azuis, como ela sugerira na noite anterior, o que aumentava a confusão quanto a sua ascendência. Os cabelos eram pretos, lisos e grossos. Havia, entretanto, al gum traço da linhagem ancestral nas maçãs do rosto altas, no maxilar clássico e no nariz aaquilino As feições definiti vamente combinavam com um nobre grego aristocrático e arrogante. Sasuke Uchiha tendia a dominar aqueles a seu redor, a imprimir sua autoridade em tudo o que fazia… e em todos que conhecia.
A assistente embaraçou-se ao ver o patrão puxando Hinata de encontro ao corpo.
— Desculpe-me interrompê-lo, mas seu avô já ligou… duas vezes!
— Retornarei a ligação daqui a pouco — respondeu Sasuke, suave. — Oh, e não quero nenhum compromisso entre uma hora e duas e meia. Vou levar minha noiva para almoçar.
Com isso, lançou a Hinata um olhar sensual, de amante que mal continha o desejo. Ela se sentiu hipnotizada. Se ele tivesse lhe lançado aquele olhar na noite anterior… Pare com isso!, alertou a si mesma, abalada com tais pensamentos.
Mas ninguém parecia mais abalado naquela sala do que a assistente de Sasuke.
— E faça mais uma reserva no vôo para Atenas na se mana que vem — instruiu ele. — A meu lado… para Hinata… — Tocou-a no rosto, carinhoso. — Mal posso esperar para apresentá-la à minha família, principalmente a meu avô. Mas primeiro…
Antes que Hinata adivinhasse o que ele pretendia fazer, Sasuke levou sua mão aos lábios e beijou na palma. Ela ficou confusa, excitada e chocada… Era como se encarnasse outra pessoa, vivesse outra vida… uma vida muito mais excitante do que a sua, cheia de perigos, mistérios e expe riências extraordinárias, que jamais imaginara.
— Primeiro, minha querida, devemos adornar esse dedo. Meu avô não aprovaria se eu a levasse para casa sem um anel que simbolize claramente as minhas intenções.
Hinata ouviu a assistente prender a respiração, de choque. Sasuke elogiara sua capacidade de representação, mas ele também daria um ótimo ator. O olhar que ele lançava naquele instante… e as palavras…
Assim que a assistente saiu fechando a porta, Hinata questionou:
— Percebe que, à hora do almoço, todos no escritório já estarão sabendo?
— No escritório? — O patrão a soltou e olhou com desdém. — Minha querida, ficarei surpreso e decepcionado se a no tícia não tiver se espalhado para bem além das paredes deste hotel.
Hinata franziu o cenho, confusa.
— Na hora do almoço, espero que a notícia já tenha che gado a Atenas… — esclareceu Sasuke.
— Aos ouvidos de seu avô.
— Entre outros — concordou ele, sem explicar quem se riam os "outros".
De repente, havia dezenas de perguntas que ela gostaria de fazer sobre a família dele, o avô, a ilha à qual iriam e a mulher com quem o avô queria que ele se casasse. Cônscia de como os gregos protegiam os interesses da família, a tal prima pretendente dele devia ser riquíssima.
Como um autômato, Hinata se retirou da sala pela porta que o patrão lhe segurava aberta.
— Pronta, Hinata?
Hinata sentiu-se enrubescer ao ver o patrão se aproxi mando de sua mesa. Os colegas evitavam olhá-los aberta mente, mas os dois eram o foco da atenção de todos. Como poderiam não ser?
— Gordon, Hinata vai se atrasar na volta do almoço — avisou Sasuke ao gerente, atônito em sua divisória de vidro. Fitou a suposta noiva com doçura. — Já contou a novidade, querida?
— Eu… não. — Ela não conseguia encará-lo. O gerente saiu do cubículo.
— Hinata, não entendo…
Ele entenderia ainda menos se ela tentasse explicar o que estava acontecendo de verdade, reconheceu, desanima da. Era tão injusto enganar o homem que sempre a tratara com gentileza e reconhecimento…
— Não deve se culpar, Hinata — justificou Sasuke, protetor. — Acho que a culpa é minha. — Encarou o gerente. — Insisti em manter nosso relacionamento em segredo até a notícia da incorporação se tornar pública. Eu não queria que Hinata fosse acusada de estar em conflito de lealdades… e, devo lhe dizer, Gordon, ela insistiu em manter qualquer discussão sobre a negociação fora de nossa pauta… Se bem que conversar sobre trabalho não era a minha prioridade quando estávamos juntos… — completou, insinuante, com um olhar sensual a Hinata.
Ela enrubesceu e os colegas emitiram sons abafados de surpresa e inveja.
— Por que fez aquilo? — indagou Hinata, assim que fi caram sozinhos.
— O quê? — retrucou Sasuke.
— Sabe muito bem do que estou falando. Podíamos ter nos encontrado em outro lugar.
— Em segredo? — Ele franziu o cenho, impaciente. Sasuke era bem mais alto do que Hinata, passava de
um metro e oitenta, e ela já estava com torcicolo devido ao esforço para encará-lo. E gostaria que ele não caminhasse tão próximo… a atitude, de algum modo, a deixava mais ciente de sua condição de mulher.
— Já não deixei claro que o objetivo deste exercício é tornar nosso relacionamento público? — questionou Sasuke, irritado. — Por isso mesmo, reservei uma mesa no restaurante do bar de executivos. Jantei lá ontem e a comida é excelente… embora o que aconteceu depois não tenha sido tão… satisfatório.
Hinata não suportaria mais as ofensas.
— Ouça, ontem à noite, não aconteceu o que está pen sando. Eu…
— Claro que não — concordou Sasuke, irônico. — Mas, já que estamos falando disso, deixe-me alertá-la, Hinata: se se comportar daquela forma enquanto for minha "noiva", se sequer olhar para outro homem… Ela arregalou os olhos.
— Sou metade grego, minha querida — lembrou ele. — E, quando se trata da minha mulher, sou mais grego do que britânico… muito mais!
— Mas eu não sou a sua mulher!
— Claro que não — concordou Sasuke, cínico. — Você pertence a qualquer homem que possa pagar o seu preço, não é? Mas…
— Você não tem o direito de falar assim comigo!
— Como seu noivo, tenho todo o direito. — Sasuke pas sou um dedo no rosto dela e recolheu uma lágrima. — Cho rando? Minha querida, você é uma atriz ainda mais talen tosa do que eu imaginava…
Chegaram ao bar, e Hinata esforçou-se para controlar as emoções enquanto adentravam o estabelecimento.
— Eu não quero nada — declarou, à mesa. — Não estou com fome.
— Não posso forçá-la a se alimentar, mas com certeza não vou me negar o prazer de uma boa refeição.
Sasuke abriu o menu, mas continuou tratando do ne gócio em pauta, o "noivado" deles:
— Precisamos discutir alguns assuntos. Conheço a maior parte de seus dados pessoais pela ficha funcional, mas, se pretendemos convencer a minha família e principalmente meu avô de que somos amantes, há detalhes que preciso saber a seu respeito… e vice-versa.
Amantes… Hinata controlou um tremor. Agora que cedera à chantagem, devia aprender logo a jogar, para não ser destruída.
— Amantes… — repetiu, desolada. — Pensei que as fa mílias gregas não aprovassem sexo antes do casamento.
— Não quando se trata das próprias filhas — confirmou o patrão. — Mas, como você não é grega e eu sou meio-britânico, tenho certeza de que meu avô será mais… tolerante.
— Ele não seria tolerante se você ficasse noivo de sua prima? — replicou Hinata, sem saber por que pensar na tal prima dele lhe provocava dor e hostilidade.
— Kurenai, minha prima, é viúva — explicou Sasuke.
— Além disso, Kurenai nunca aceitaria a interferência do meu avô em nenhum aspecto de sua vida. É uma mulher muito determinada.
Hinata mal podia acreditar.
— Ela é viúva?
— Com duas filhas adolescentes — completou ele.
— Adolescentes!
— Ela se casou aos vinte e dois anos — explicou Sasuke.
— E isso já faz quase vinte anos.
Hinata fez um rápido cálculo mental. Kurenai obviamente era mais velha do que Sasuke. Tratava-se de uma mulher solitária, vulnerável, pressionada a um segundo casamento que talvez nem quisesse, ponderou, solidária.
— Não precisa se preocupar com Kurenai, até porque pro vavelmente não irá conhecê-la. Ela mantém residências em Atenas, Paris e Nova York, vive viajando e administrando a companhia de cruzeiros que herdou.
Uma companhia marítima e uma cadeia de hotéis. Não era de admirar que o avô de Sasuke desejasse tanto aquele casamento. Difícil entender por que Sasuke não estava igualmente ansioso, após a dura batalha de negociação para incorporar a pequena rede de hotéis britânica ao Grupo Demétrios.
Ele pareceu adivinhar seus pensamentos:
— Ao contrário de você, não estou preparado para me vender.
— Eu não estava me vendendo — declarou Hinata, alterada. Interromperam a discussão quando o garçom trouxe dois
pratos com receitas requintadas.
— Eu não pedi nada — protestou Hinata.
— Mas eu pedi por você — replicou Sasuke. — Não gosto de mulheres esqueléticas. O homem grego pode bater na mulher, se quiser, mas não pode deixar de alimentá-la.
— Bater… — Hinata já ia protestar, mas percebeu que Sasuke estava brincando.
— Desconfio, Hinata, de que você faria um santo, quanto mais um mero mortal, desejar subjugá-la, dominá-la, e então invocar forças para controlar a si mesmo.
Hinata estremeceu ante a sensualidade crua das palavras. A fim de disfarçar, começou a saborear a refeição.
Sasuke passou a dar informações sobre sua família num tom comercial:
— Agora que se aposentou, meu avô teme morrer sem que eu lhe dê um bisneto, por isso me pressiona. Se isso não é chantagem, não sei o que é.
— Então, ele é o vice-campeão da família — provocou Hinata.
Sasuke não achou graça.
— No final, claro, vamos romper este noivado de mentira — esclareceu, desnecessariamente. — Durante a viagem à ilha, descobriremos aspectos incompatíveis entre nós. Na volta à Inglaterra, desmanchamos o compromisso. Mas, ao menos, terei ganho algum tempo e, com sorte, Kurenai já terá aceito a proposta de um de seus inúmeros pretendentes.
— E se ela não aceitar?
— Teremos que retardar nosso rompimento, até Kurenai se casar ou até eu convencer meu avô de que uma das minhas irmãs pode lhe dar o bisneto desejado.
— Você não vai se casar nunca?
— Digamos que já estou velho demais para acreditar no amor.
— Meu pai se apaixonou pela minha mãe aos dezessete anos — comentou Hinata. — Eles fugiram juntos. Foi um erro. Já se detestavam antes de eu nascer. Um homem mais velho ao menos teria senso de responsabilidade em relação à vida que ajudou a gerar. Mas meu pai era um garoto.
— Ele a abandonou?
— Os dois me abandonaram. Não fosse a minha avó, eu teria acabado num orfanato.
Sasuke fitou-a, analítico. Por isso, ela frequentava bares atrás de homens? Estaria procurando o amor que o pai lhe negara? Irritou-se com o desejo de justificar seu comporta mento vil. Por que tentava encontrar desculpas para ela? Com certeza, não se comovera com suas lágrimas naquela manhã.
— Vamos voltar para o hotel — decidiu, de repente.
