— Então, Hinata, acha que vai conse guir ser uma boa esposa grega… se você e Sasuke realmente se casarem?

Sakura prendeu a respiração, indignada com a provo cação da prima Kurenai, mas felizmente Hinata não se dei xava intimidar. Desde que se sentaram à mesa para jantar, Kurenai fizera de tudo para aborrecê-la. Antes que pudesse responder, porém, Sasuke adiantou-se:

— Não há dúvida de que vamos nos casar, Kurenai — declarou, implacável. — Hinata será minha esposa.

Hinata mal disfarçou o choque ante a convicção na voz dele, e teve de olhá-lo ansiosa. E quando tivessem que en cerrar a farsa e informar a todos que não iriam mais se casar? Tentou manter em mente que o problema era dele, não seu.

Ao mesmo tempo, algo estranho se passava entre os dois. Pouco antes de se juntarem à família para a refeição, Sasuke saíra do escritório adjunto ao quarto "deles", parara diante dela e afirmara:

— Duvido de que um homem que a visse agora pudesse desejar outra coisa que não possuí-la, Hinata.

Ela com certeza nunca desejara pisar no palco… longe disso… mesmo assim, desde aquele momento, sentia-se trans formada em outra pessoa. De repente, era como se fosse mesmo noiva de Sasuke e, como qualquer mulher apaixo nada, não só se orgulhava de ter o homem que amava, como se sentia femininamente protetora em relação a ele. A an siedade em seu olhar era por ele e por causa dele.

— Viúvas. Adoro viúvas. — Orochimaru, o contador de Kurenai, sorriu mordaz e se inclinou para- Hinata, tocando em seu braço.

Hinata partilhava a opinião de Sakura sobre o contador de Kurenai. Tratava-se de um homem alto, corpulento, de estrutura quase quadrada. Os cabelos pretos pareciam grudentos, besuntados com gel fixador, e o terno branco que usava sobre a camisa preta não o favorecia. Sasuke por sua vez, parecia despojado e sexy em calça social elegante feita sob medida, com camisa de algodão branca.

A princípio, considerara o vestido preto sofisticado demais para a ocasião, mas reconheceu que Sakura estava correta ao ver o traje de Kurenai.

O vestido branco e justo que a mulher mais velha usava não deixava nada à imaginação.

— Foi feito especialmente para mim — comentou Kurenai com Sasuke. — Para ser usado exatamente do jeito que mais adoro… junto à pele — acrescentou, alto o bastante para Hinata ouvir. — O que me lembra… Espero que tenha alertado sua noiva de que gosto de nadar pela manhã com você… para ela não ficar chocada… — Voltou-se para Hinata. — Sasuke é como eu, gosta de — esclareceu, maldosa.

Nadar nu! Hinata não conseguiu evitar a expressão de choque, que felizmente Kurenai interpretou como ciúme à idéia de outra mulher nadando nua com seu noivo.

Sasuke contra-atacou rápido:

— Só me lembro de uma ocasião em que tentou se juntar a mim na minha sessão de natação matinal, Kurenai. Foi quando lhe disse que não gostava de ter minha paz matinal corrompida.

— Oh, querido… — Kurenai fez beicinho, sem se abalar, e pousou a mão no braço dele. — Será que eu disse algo que você não queria que sua noiva soubesse? Sasuke, ela deve perceber que um homem tão bonito quanto você… tão viril quanto você… sempre terá amantes além dela…

Hinata quase perdeu o fôlego ante tanto descaramento. Imaginava como se sentiria se Sasuke fosse mesmo seu noivo. As palavras de Kurenai a deixariam enciumada e in segura. Nenhuma mulher gostava de ser lembrada dos re lacionamentos íntimos que seu amado tivera antes.

Mas Sasuke, ao que parecia, era completamente imune às provocações da prima. Desvencilhando a mão, abraçou Hinata, trazendo-a para junto de si. Em contato tão direto, ela não teve dúvida de que ele sentira seu estremecimento. Um tremor que chegou quase à convulsão quando ele passou a acariciar seu ombro desnudo distraidamente.

— Hinata sabe que é a única mulher que já amei… a mulher com quem quero passar o resto de minha vida.

Quanto mais ouvia e via a reação de Kurenai, mais Hinata concordava com a opinião de Sakura de que a prima não era motivada por amor. Às vezes, Kurenai olhava para Sasuke como se o odiasse e quisesse destruí-lo.

Orochimaru ainda tentava capturar sua atenção, mas deliberadamente o ignorava. Havia algo asqueroso nele, e es tremecia só de pensar naquela mão úmida em sua pele. Entretanto, as boas maneiras forçavam-na a responder às perguntas do homem tão educadamente quanto possível, embora as achasse impertinentes. Ele já dissera até que, se fosse o contador de Sasuke, insistiria num contrato pré-nupcial, para garantir que o dinheiro dele ficasse a salvo, caso o casamento acabasse.

Sasuke declarou a Orochimaru que nunca imporia tal contrato à mulher que amava.

— Dinheiro não é nada comparado ao amor — afirmou ao contador, num tom firme e implacável.

Então, Sasuke fitou Hinata, e ela recordou como haviam se conhecido e o que ele pensava dela. Com um gosto amargo de desespero na boca, desejou poder convencê-lo do quanto estava enganado.

Ao menos, tinha o conforto de saber que a mãe e a irmã dele haviam simpatizado com sua pessoa. Sakura assegu rara que a irmã mais velha estava igualmente satisfeita por Sasuke ter se apaixonado e ansiosa para conhecê-la quando ela, o marido e as crianças viessem para a ilha, mais para o final do mês.

— O marido de Lídia é diplomata, e eles estão em Bru xelas no momento, mas ela está louca para conhecer você!

Seria horrível se a família de Sasuke a desaprovasse e não a recebesse bem.

Hinata enrubesceu. Em que pensava? Apenas fingia ser noiva de Sasuke. O compromisso era invenção, uma farsa… uma mentira que ele criara para escapar da armadilha que Kurenai armara para agarrá-lo. Além disso, ele usara de chantagem para conseguir sua colaboração.

Inconveniente, Orochimaru agora a convidava a um pas seio nos jardins da vila. Recusou polidamente e se assustou com a fúria nos olhos de Sasuke. Ele não acreditava que ela estivesse ansiosa em ficar a sós com Orochimaru, certo?

— Hinata teve um dia longo. Está na hora de nos reco lhermos — explicou Sasuke, levantando-se abruptamente.

Em torno da mesa, era evidente, pela expressão de todos, a interpretação quanto ao motivo da iniciativa de Sasuke. Com seu rosto enrubescido, Hinata só confirmava as sus peitas. Ela ainda tentou consertar a situação:

— Sasuke, eu não…

— Está perdendo tempo, Hinata. — Sakura riu. — Por que meu querido irmão obviamente está decidido! Oh, não precisa fazer essa cara, Sasuke. Aposto como não vai nadar logo cedo amanhã…

— Sakura! — protestou a mãe, constrangida, enquanto Kurenai lançava um olhar de ódio concentrado a Hinata.

Assim que o casal se levantou, Orochimaru fez o mesmo e insistiu:

— Devo reclamar o privilégio, como amigo da família, de dar um beijo de boa-noite em Hinata.

Ela não teve tempo para se esquivar, mas, antes que o contador realizasse o intento, Sasuke colocou-se entre os dois.

— Nenhum homem além de mim pode beijar minha noiva.

— Se quer meu conselho, mantenha-se longe de Orochimaru. Ele tem uma reputação lamentável com mulheres. A ex-esposa o acusa de ser violento e…

Hinata voltou-se ao entrar no quarto, demonstrando toda a revolta.

— Não pode estar pensando no que eu acho que está! — Como Sasuke podia imaginar que ela sequer contem plaria a idéia de se interessar por um homem como aquele contador? Era um insulto que não estava preparada para engolir.

— Não posso? — questionou Sasuke. — Você está aqui por um motivo e só um motivo, Hinata. Para fazer o papel de minha noiva. Mas imagino que, sendo o que é, fique tentada a se envolver com todo homem que vê pela frente. Só estou avisando que resista à tentação. Porque, se ceder…

Que absurdo! Ela preferiria morrer a se envolver com um sujeito viscoso como Orochimaru. E pensar que, durante o jantar, solidarizara-se com Sasuke, quisera protegê-lo. Agora, sentia a raiva se transformar em orgulho.

— Se quer saber, acho Orochimaru tão repugnante quanto você!

— Ousa incluir a mim na mesma sentença em que fala daquele réptil? — Furioso, Sasuke a agarrou pelos ombros.

Os olhos negros faiscavam com a intensidade das emo ções, e Hinata percebeu que a situação escapava ao controle.

— Aquele sujeito é um animal… pior do que um animal. No ano passado, escapou por pouco de ser indiciado criminalmente. Não entendo por que Kurenai o tolera e até já lhe disse isso.

— Talvez ela queira provocar ciúme.

Hinata arrependeu-se imediatamente da sugestão ao ver labaredas nos olhos negros.

— Ela? Ou você? Oh, sim, vi como ele olhava para você no jantar… como tocou em você…

— Eu não fiz nada para chamar a atenção dele! — pro testou Hinata, mas sabia que as palavras não o convenciam, que algo mais alimentava seu ódio, algo que ela desconhecia, mas que ele considerava intolerável.

Gélido de repente, Sasuke estreitou o olhar ao observar:

— Talvez seja deselegante, pouco cavalheiro da minha parte lembrar o fato, mas não foi repugnância o que vi em seus olhos hoje. Não foi repugnância o que ouvi na sua voz, o que senti no seu corpo…

Hinata ficou trêmula.

— Não sei do que está falando — disfarçou. Segundos depois, arrependeu-se. Porque Sasuke a se gurou com força e apertou contra o peito, desafiando:

— Não? Talvez eu deva refrescar sua memória…

Hinata ainda tentou protestar, mas de algum modo as pa lavras se perderam… não porque Sasuke se recusasse a ouvir, mas porque ela perdia o comando dos próprios lábios.

— Será que me acha mesmo repugnante Hinata? — Ele a aprisionou de tal forma entre os braços que seria impos sível fugir. — Quando fiz isto? — Passou os lábios sobre os dela, provocando, seduzindo, dando origem a uma tor rente de sensações que ela não queria experimentar. — Ou quando fiz isto?

Ele passou a provocar com a língua. Hinata tentava desesperadamente manter os lábios comprimidos, mas conti nuou provocando-os, umedecendo-os, até que ela gemeu e os entreabriu. Mas ele não parecia satisfeito ainda.

— Como? Ainda sem resposta? Não sei por quê — provocou. — Ou preciso questionar? É uma mulher acostumada a se entregar a homens, Hinata, que está acostumada a sentir pra zer. E, neste momento, você quer ter prazer comigo.

— Não… — gemeu ela, virando o rosto, tentando se desvencilhar.

— Sim — insistiu Sasuke, impiedoso. — Sim. Admita, Hinata… Você me quer. O seu corpo quer o meu. O seu corpo quer a satisfação sexual ao qual está acostumado… pelo qual anseia e arde.

Hinata estremeceu ao reconhecer a verdade do que ele dizia. Desejava-o, sim, mas não da forma que ele sugeria. Desejava-o como uma mulher desejava o homem amado, percebeu, abalada. Desejava-o como amante, não apenas como um parceiro sexual, para satisfazer uma necessidade física. Mas como podia amá-lo? Era impossível! Mas amava.

Apaixonara-se por Sasuke Uchiha praticamente à pri meira vista, reconheceu, desanimada, porém convencera-se, por lealdade à amiga, que não podia nutrir sentimentos por ele, assim como não os admitia naquele momento, mesmo sabendo que não se tratava de Lee. Não era mais sua amiga a barreira ao amor que sentia por Sasuke, mas ele mesmo e o que pensava dela.

— Solte-me, Sasuke.

— Não até admitir que estou certo e que você me quer — desafiou ele. — Ou será que vou ter de provar?

Hinata encolheu-se ao sentir a mistura perigosa e sufo cante de medo e excitação.

Hesitante, tentou formular a resposta certa, a única res posta sã e sensata que podia dar, mas percebeu que demo rara demais quando Sasuke avisou:

— Você se arrisca, Hinata. Eu a quero, mas você já sabe disso, não é? Como você não saberia? Afinal, sente isso no meu corpo, não sente? Aqui…

Hinata apoiou-se nele, abalada de choque quando ele a obrigou a encaixar a mão em sua masculinidade. Se ao menos encontrasse forças para remover a mão e afirmar que não desejava a intimidade que ele impunha… No en tanto, para seu desespero, percebeu que era fraca demais, que não havia como deter o desejo. Não podia perder a oportunidade que ele lhe dava para tocá-lo, explorá-lo, co nhecê-lo… conhecer seu membro viril… para…

Emitiu um gemido fraco, trêmula de luxúria. O coração de Sasuke pulsava com tanta energia que quase sentia a pulsação dele dentro de seu próprio corpo. Antes, quando ele acariciara seu ombro… o toque de um amante na ama da… estremecera de prazer, mas aquilo não fora nada com parado ao que sentia naquele instante.

Desejava Sasuke, sentia fome dele. Fechando os olhos, imaginou-o como Kurenai maldosamente o descrevera… na dando orgulhoso e nu nas águas da piscina. Gemeu nova mente, um som agudo e breve que fez Sasuke exigir seus lábios. Ele grunhiu, enlouquecido, o que também a excitou.

Ela mantinha os lábios entreabertos. Sasuke usava a língua para acariciá-la, deixando-a tonta de prazer.

— Você me quer… Você precisa de mim…

Hinata sentia as palavras contra a pele e não podia negá-las. Seu corpo se saturava de emoções intensas em resposta. Aquilo era novo demais, e ela não tinha defesas.

Tudo foi esquecido, nada era importante. Tudo e todos. Tudo de que ela precisava… Tudo o que queria… Tudo o que desejara um dia estava bem ali a seu alcance.

Com um novo gemido, estremeceu ao sentir Sasuke tatear seu corpo sobre o vestido, exigente, faminto… excitante, masculino, intimidade do corpo dele tirava-lhe a habili dade de pensar racionalmente. Não havia lugar para a razão naquele mundo novo que passara a habitar.

— Quero ver você… quero fitar seus olhos enquanto faço amor com você — sussurrou Sasuke. — E quero que você me veja… Agora entendo por que todos os outros homens caíram como suas vítimas. Há algo em você, um feitiço, um… O que foi? — indagou, ao sentir que ela se enrijecia.

Hinata era incapaz de encará-lo.

Com aquelas poucas palavras, Sasuke destruíra tudo, arrasara seu mundo novo e a trouxera de volta à antiga realidade. Sentia-se enojada com seu próprio comportamen to, com a loucura que quase cometera.

— Não, não quero isso! — protestou freneticamente, em purrando Sasuke.

— Que raios…

Sem entender e furioso, ele a soltou.

— Se isso é algum tipo de jogo… — Detendo-se, meneou a cabeça, incrédulo. — Céus, eu devia estar fora de mim para pensar em… Suponho que anos de celibato façam isso a um homem — ponderou. — Nunca pensei que seria idiota o bastante…

Ele se voltou novamente e estacou ao ver que Hinata se paralisava de medo.

— Você está a salvo — garantiu, sombrio. — Não tocarei em você. Não há como… — Meneando de novo a cabeça, foi

para o escritório contíguo ao aposento: — Tenho trabalho a fazer.

O quarto estava mergulhado na escuridão quando Hinata despertou, a princípio sem saber por quê. Então, identificou o som, o ritmo compassado de braçadas na água. As portas que davam para a piscina estavam abertas e luzes discretas iluminavam a água.

Sasuke estava nadando… Olhou para o relógio. Eram três horas da madrugada e Sasuke nadava… vigorosamen te, de um lado a outro na piscina. Sentou-se na cama para vê-lo melhor, admirando as braçadas potentes que o impul sionavam de uma extremidade a outra na piscina. Quando ele executou a virada, deitou-se. Não queria que ele a fla grasse observando-o.

Por baixo da coberta, estava nua, com exceção da calcinha. Aparentemente, Sasuke se esquecera de lhe comprar ca misolas ou pijamas. Por isso, permanecera quinze minutos trancada no banheiro, imaginando o que fazer, até final mente criar coragem para abrir a porta e correr até a cama enrolada na toalha. Não que tivesse de ficar tão preocupada. Sasuke permanecera o tempo todo trancado no escritório.

Agora, ele nadava feito louco na piscina.

Debaixo da coberta, Hinata raciocinava freneticamente. Recomendava-se nadar sozinho à noite? Seria seguro? E se… Enquanto pensava nos perigos, um som diferente a informou de que Sasuke interrompera o exercício. Esticou-se para fora da coberta e olhou ansiosa para a piscina. A água estava parada, calma… e sem seu único nadador.

Sasuke! Onde… Puxou a coberta ao vê-lo sair da água… totalmente nu… totalmente! Hinata tentou desviar o olhar, mas não conseguiu. Seus músculos não obedeciam, o cérebro parecia querer apreciar a beleza masculina de Sasuke.

Com certeza, qualquer mulher acharia aquela visão ex citante. Mal capaz de raciocinar, tamanho o frenesi, devorou com o olhar a pura sensualidade das costas dele ao percorrer o piso de mármore. A pele brilhava, molhada, e os músculos poderosos em ação provocavam uma reação intensa em seu próprio corpo!

Ingenuamente, Hinata sempre imaginara que haveria pe quena diferença entre apreciar uma estátua ou pintura de homem nu e ver um homem nu ao vivo, mas, naquele mo mento, entendeu o quanto se enganara. Talvez a diferença fosse o amor que sentia por ele, talvez fosse… Prendeu a respiração quando ele se voltou. Sasuke parecia olhar direto para o quarto. Podia vê-la? Sabia que ela o observava? Permaneceu imóvel, rezando para ele não a visse… não su portaria a humilhação se ele fosse a seu encontro naquele instante. Se ele…

Conseguiu suprimir um gemido, devastada pelo próprio desejo. Se ele se aproximasse naquele instante e a abraçasse, a tocasse, a beijasse… e a possuísse, cheio de desejo, assim como ela o desejava, não seria por amor e, sim, por luxúria. Era isso o que queria?, indagou a si mesma, severa. Não claro que não, foi a resposta evidente. Queria que Sasuke a amasse como ela o amava.

Ele se voltara, a silhueta do corpo destacada contra a luz. Hinata prendeu a respiração, à mercê do instinto feminino, que não respondia ao controle. Ele parecia… Ele era… Sasuke era perfeito, reconheceu, sufocando um sus piro quando, de olhos arregalados, constatou que a realidade da masculinidade dele suplantava qualquer idealização vir ginal anterior.

Mais uma vez, ele olhou na direção do quarto, e Hinata prendeu a respiração, rezando… esperando… aguardando… Expirou silenciosamente quando ele se inclinou, pegou o robe e o vestiu antes de se afastar. Sasuke não vinha para o quarto. Aonde estava indo? Para o escritório?

Por um bom tempo, Hinata permaneceu imóvel, com medo de se mexer, incapaz de dormir e com medo até de pensar. Qual era seu problema? Como podia amar um homem que a destratava como Sasuke, um homem que a chantageara, que a obrigava a mentir sobre si mesma? Um homem que tinha a pior opinião possível dela e que, mesmo assim, a beijara? Como podia amá-lo? Hinata fechou os olhos. Não sabia a resposta. Só sabia que suas emoções, seu coração, seu íntimo gritavam… como podia não amá-lo?

— Banho de sol? Nunca pensei que veria o dia em que apenas relaxaria na piscina — provocou Sakura ao irmão, vindo de casa com o biquíni mais ínfimo que Hinata já vira.

— Hinata não dormiu bem. Ela precisa descansar e eu não quero que ela faça esforço, nem que fique muito tempo ao sol — mentiu Sasuke, imperturbável.

— Oh, pobrezinha… — Sakura deitou-se em uma espre guiçadeira, solidária com Hinata, enquanto avaliava sua pele clara atentamente.

Sentindo-se culpada, Hinata não comentou nada. Afinal, não podia admitir que, o motivo de seu ar cansado era p fato de ter rolado na cama o resto da madrugada, fanta siando sobre ter aquele homem deitado a seu lado. À luz do dia, não ousava recordar as fantasias íntimas e pessoais. Sabia que, se fizesse isso, enrubesceria. Felizmente, Sasuke atribuíra suas olheiras e palidez ao cansaço da viagem.

— Bem, é um avanço no estilo de vida do meu irmão, Hinata — aprovou Sakura, com um sorriso. — Normal mente, quando ele vem à vila, não conseguimos tirá-lo do escritório. Quando vovô disse que chegaria? — indagou a Sasuke.

— Estou surpresa por seu avô pretender vir à ilha nesse momento — comentou Kurenai, chegando à piscina com o contador.

Hinata desanimou-se um pouco ao vê-los. Durante o café da manhã, Orochimaru fora tão exagerado nos elogios im próprios que se sentira compelida a abandonar a mesa.

Quando Sakura franziu o cenho, Kurenai acrescentou ma liciosa:

— Ele não está contente com você, Sasuke…

— Meu avô nunca fica contente com ninguém que não tenha a mesma opinião que ele — rebateu ele. — É genioso e irritadiço, mas felizmente tem memória curta…

Sasuke insistiu para que Hinata se deitasse sob a proteção de um guarda-sol, por causa da pele muito clara, mas quando Kurenai despiu a saída de banho revelando um biquíni anda menor que o de Sakura, Hinata sentiu inveja da pele bronzeada.

— Como você deve estar desconfortável deitada aí na sombra — provocou Kurenai. — Eu detestaria ter uma pele tão clara. Parece sempre tão…

— A pele de Hinata me lembra o mais puro alabastro — opinou Sasuke, em tom de admiração.

— Alabastro… oh, mas é tão frio. — Kurenai sorriu e lançou um olhar avaliador a Hinata. — Oh, você está abor recido e zangado… e eu conheço a cura para isso. Deixe-me colocar o bronzeador em você, Sasuke, e então…

Hinata mal reconheceu a própria voz ao intervir:

— Eu faço isso, querido. — Encarou Kurenai irritada. — Um privilégio da noiva. — Então, ignorando o espanto de Sasuke e as próprias mãos trêmulas, levantou-se, pegou o frasco de bronzeador que Sakura lhe oferecia com um sorriso e se achegou à espreguiçadeira dele.

Com cuidado, Hinata despejou um pouco de bronzeador na palma da mão e, com mais cuidado ainda, inclinou sobre o corpo de Sasuke, atentando para ficar entre ele e os seios fartos de Kurenai.

Os cabelos caíram sobre seu rosto enquanto, nervosa mente, distribuía o bronzeador nos ombros de Sasuke. A pele dele era quente e lisa. Tão lisa quanto lhe parecera na noite anterior. Oh, não devia recordar o episódio! Apesar da excitação, porém, passou a mover a mão de forma sensual sobre os músculos duros de Sasuke, alisando, até massageando instintivamente quando descobria um ponto de tensão.

Ele se manteve de bruços e de olhos fechados, mas de repente se levantou.

— Basta. Eu já ia nadar mesmo.

Apesar da brusquidão, demorou alguns segundos até se afastar de Hinata. Do extremo da piscina, mergulhou e emergiu no meio da água, de onde começou a dar bra çadas vigorosas.

Sasuke tentou se concentrar no que fazia, esvaziar a mente de qualquer pensamento, como sempre fazia quando nadava. Era sua forma preferida de relaxar… ou, ao menos, fora. Naquele momento, não se sentia nada relaxado. Mesmo sem fechar os olhos, ainda se lembrava exatamente de como era ter Hinata massageando, acariciando seu corpo…

Submergiu novamente, nadando junto ao fundo enquanto tentava controlar o desejo. Céus, como queria Hinata, como a desejava, como sentia luxúria por ela! Nunca experimen tara nada semelhante antes, nunca precisara de uma mu lher com tanta intensidade, nunca se vira numa situação em que não pudesse se controlar física nem emocionalmente. Hinata devia saber o poder que exercia sobre ele, uma mu lher com tanta experiência… uma mulher que vagava pelos bares à noite em busca de homens. Claro que ela sabia. Mesmo assim…-

Mesmo assim, não parava de comparar o que sabia ra cionalmente com a sensação de tê-la nos braços, pura Inocência, maciez, doçura, o desejo nos olhos dela substituído por espanto. Ela o surpreendera pouco antes, ao impedir que Kurenai o tocasse… e enchera-se de orgulho e triunfo masculino por ela se sentir possessiva em relação a ele. Mas, com certeza, Hinata não se sentia possessiva… sentia? Estava apenas representando o papel ao qual ele a forçara.

Sasuke franziu o cenho. O uso da palavra "força" e a admissão embutida incomodavam sua consciência. Trata va-se de atitude totalmente estranha a seu caráter, que de encontro a suas crenças mais arraigadas: forçar alguém a fazer qualquer coisa, mas temia não ter alternativa naquela situação sem ameaçar a saúde do avô. Procurava uma ex plicação, não uma desculpa, censurou-se severamente. Além disso, só podia culpar a si mesmo se descobrisse que apenas trocara uma ameaça por outra potencialmente mais perigosa.

Hinata percebera a reação em seu corpo antes que lhe desse as costas? Kurenai percebera. Kurenai…

Aos quinze anos, ainda garoto, tentara se convencer de que era maduro o bastante para assumir o lugar do pai, forte o bastante para dar apoio e proteção à mãe e às irmãs. Mas parte dele ainda era criança e, com frequência, chorava sozinho à noite na cama, confuso, zangado e saudoso do pai, imaginando por que ele morrera.

Aquele período com certeza foi o pior de toda a sua vida, em que perdera o pai e, em seguida, fora objeto de uma tentativa de sedução de Kurenai. Dois eventos marcantes que o lançaram à vida adulta, exigindo uma maturidade que ainda não possuía.

No caso de Kurenai, não se tratara tão somente do clássico fascínio por uma mulher mais velha e experiente. Ela o assediara por semanas, desde a volta ao lar para as férias de verão, mas ele jamais sonhara que ela estivesse fazendo algum jogo adulto misterioso, na época incompreensível a sua ingenuidade… até o dia em que a encontrou em seu quarto… totalmente nua!

Quando ela lhe passou o vibrador que estivera usando, instruindo como usá-lo nela, Sasuke mal conteve o impulso de dar meia-volta e fugir correndo. Meninos tinham medo e fugiam, mas ele queria ser um homem… o homem que o pai sonhara vê-lo se tornar, o homem que a mãe e as irmãs precisavam que ele fosse.

— Não acho que deveria estar aqui — afirmara, impas sível, desviando o olhar do corpo dela. — Você está noiva e vai se casar.

Kurenai rira, reagindo incrédula quando ele segurou a porta do quarto aberta e a mandou se retirar, avisando que não hesitaria em chamar os seguranças para removê-la fisicamente.

Ela saíra, mas não imediatamente, não sem antes tentar mudar sua opinião.

— Você tem o corpo de um homem — elogiara, persuasiva. — Mas, menino idiota, ainda não sabe o que fazer com ele. Por que não deixa que eu lhe mostre? Do que tem medo?

— Não estou com medo — respondera ele, implacável e determinado. Não se aproveitara do que ela oferecia não por medo, mas por raiva e nojo.

Kurenai nunca se conformara com a rejeição do então adolescente Sasuke. Seus sentimentos, se tinha algum… do que ele duvidava… eram o problema. O avô representava outra questão sensível. Embora a saúde do ancião estivesse sob controle, não queria discutir com. ele, sabendo o quanto era teimoso e genioso. Não sabia quanto da culpa por aquela situação cabia a Kurenai e quanto cabia ao avô e seu medo de envelhecer sem ver a descendência assegurada na forma de um bisneto.

Era irônico que sua medida no sentido de resolver os problemas causasse ainda mais transtornos. Um exemplo, talvez, da ética moderna por trás da mitologia grega, pela qual Hinata demonstrara interesse. Ela podia admirar a mitologia grega, mas, com certeza, não admirava o grego com quem se envolvera. Jamais o amaria.

— E um anelzinho muito bonito o que está usando — comentou Kurenai, desdenhosa, deixando a espreguiçadeira para se aproximar de Hinata.

Estavam sozinhas na piscina. Orochimaru, o contador, fora dar uns telefonemas, e Sakura ajudava a mãe a preparar a casa para a chegada do avô.

— Mas um anel de noivado não é garantia de casamento — advertiu Kurenai. — Você me parece uma garota inteli gente, Hinata. Sasuke é muito rico e vivido. Homens como ele logo se aborrecem. Você já deve ter percebido. Desconfio de que suas chances de entrar na igreja e se casar com Sasuke são ínfimas e diminuirão ainda mais quando vovô chegar. Ele não quer que Sasuke se case com você. É an tiquado e muito grego. O velho tem outros planos para o único neto e para o futuro dos negócios que ele construiu.

Hinata a ouvia de olhar estreito, interpretando o discurso. O que Kurenai não explicava era que também tinha outros planos para o futuro do primo mais novo e herdeiro de uma fortuna incalculável.

— Se ama mesmo Sasuke, ele deve ser mais importante para você do que seus próprios sentimentos. Sasuke é de votado ao avô. Oh, sei que ele não o demonstra, mas garanto que ele é. Pense nas consequências emocionais, sem falar nas financeiras, de uma briga entre os dois. A mãe e as irmãs de Sasuke são financeiramente dependentes do avô…

Se ele banir o neto de sua vida, Sasuke será banido da vida delas também.

Kurenai suspirou profunda e teatralmente e então inda gou, com falsa gentileza:

— Quanto tempo acha que ele vai continuar querendo você quando isso acontecer? E eu posso fazer com que isso aconteça, Hinata… sabe disso, não sabe? O avô me ouve, porque quer juntar nossos negócios, claro. Essa é a forma grega de fazer as coisas. — Kurenai esboçou um sorriso ar rogante. — Permitir que um milionário se case com uma estrangeira pobretona não é a forma grega de fazer as coisas.

Ela continuou:

— Mas vamos conversar sobre algo mais agradável. Não há motivo para não chegarmos a um acordo profícuo para as duas partes… você e eu. Poderia assistir de camarote, esperar Sasuke abandonar você, mas serei honesta: estou me aproximando de uma idade em que pode ser mais difícil dar a Sasuke os filhos que ele quer. Então, para facilitar para nós duas, tenho uma proposta. Dou-lhe um milhão de dólares para você sair da vida de Sasuke agora… para sempre.

Hinata sentiu o sangue lhe fugir do rosto ante o choque. De algum modo, conseguiu sentar-se na espreguiçadeira e então levantar-se, para ficar frente a frente com Kurenai.

— O dinheiro não compra o amor — replicou, colérica.

— E não pode me comprar. Nem por um bilhão de dólares!

— As lágrimas brotaram, e Hinata convenceu-se de que o motivo era a ofensa. — Se a qualquer momento Sasuke quiser encerrar nosso noivado, será outra história, mas…

— Você é uma idiota… sabia? — Kurenai respirou fundo, o rosto distorcido de fúria e malícia. — Acha mesmo que Sasuke estava falando a sério sobre não exigir um contrato pré-nupcial? Ha! O avô o obrigará a preparar um, e, quan do Sasuke se cansar de você, como sem dúvida se can sará, você não terá nada… nem mesmo os filhos que por ventura nascerem. As famílias gregas não abrem mão de seus herdeiros.

Hinata não queria ouvir mais nada. Sem se importar em pegar a saída de banho, dirigiu-se para a casa, controlan do-se para não correr.

Deparou com Sakura na porta que dava acesso ao pátio.

— Hinata… — Ela demonstrou preocupação, mas Hinata meneou a cabeça, sabendo que não estava em condições de conversar… com ela nem com ninguém. Sentia-se diminuída pelo que Kurenai dissera, diminuída e zangada. Como a mu lher podia supor que seu amor estava à venda… que dinheiro importava mais do que Sasuke… que ela seria capaz de… Só então deu-se conta de que reagira como se fosse mesmo noiva de Sasuke e o amasse, como se não desempenhassem uma farsa! Mudou de direção, não rumo à piscina, mas para bem longe da casa… pela trilha que acompanhava o penhasco junto ao mar. Precisava ficar sozinha.

A ironia do que acontecera só começara a se delinear. Concordara em ir àquela ilha porque Sasuke a chantageara, ameaçara lhe tirar o emprego. Contudo, diante de uma oferta de dinheiro fantástica, que lhe garantiria conforto por toda a vida e a segurança de sua amada avó, além de um meio de fuga imediata daquela situação intolerável, declinara.

Zangada, Sakura tomou o rumo da piscina, ao encontro de Kurenai. Após o que ouvira sem querer, tinha de lhe dizer umas verdades. Como ela se atrevia a tratar Hinata daquela forma? Tentara subornar a noiva de Sasuke para que o deixasse?

Estacou. Talvez devesse contar ao irmão o que Kurenai estava tramando e deixá-lo lidar com a megera. Hinata pa recera tão preocupada, e com razão. Relutante, ouviu sua consciência alertando-a de que Sasuke detestaria não ser o primeiro a exigir satisfações da prima. Dando meia-volta, voltou para casa, à procura do irmão.