Titulo: Unconditionally
Sinopse: Harry, aos seus 106 anos, vê a destruição em massa de sua espécie. Sim, os trouxas descobriram sobre o mundo mágico e como os bruxos eram minorias e ficavam completamente desarmados sem suas varinhas, foi "fácil" acabar com a maioria dos bruxos.
Harry, um dos últimos sobreviventes, morre, mas ele não vai para a estação de King's Cross – como da ultima vez. Não... Ele volta no tempo, mas não exatamente como ele...
Cheio de perguntas, com um novo nome e sua memória intacta, Harry vai tentar entender o que aconteceu com ele e talvez, salvar o mundo mais uma vez.
Disclaimer: Harry Potter não pertence a mim e sim a J.K. Rowling. Essa é apenas uma fanfic e a estou fazendo por diversão.
Avisos: Tortura, violência.
Emparelhamento: Harry x Tom
Gêneros: Fantasia, Slash, Mistério.
– Unconditionally –
Repentinamente, ele sentiu calor. Não que antes estivesse muito aquecido, mas parecia que agora estava bem quente, sentiu-se queimando.
Se mexeu desconfortavelmente, retirando rapidamente a coisa que envolvia seu pescoço. Ele espiou, pra ver se não era algum tipo de corda ou algo ainda mais perigoso que os trouxas poderiam ter inventado, mas era apenas um cachecol preto.
– Prince... Ei, Prince... Acorde! – a voz suave de uma criança o incomodava com leves cutucões, deixando-o levemente mal-humorado.
– Hmmm – murmurou Harry, soando mais aborrecido do que realmente estava. Ele franziu o cenho para a alta iluminação, já que havia aberto os olhos rápido demais.
– Desculpa, mas o trem já esta chegando à estação de Hogsmead – Harry se virou para o garoto, dando de cara com um menino baixinho e de cabelos castanhos e arrumados comportadamente. – Você me disse para acordá-lo assim que chegássemos. E você ainda nem colocou sua roupa...
Do que o garoto estava falando?
Ele bocejou, colocando a mão rapidamente sobre a boca, não se importando muito em olhar ao redor. Faziam meses, talvez até anos em que ele não descansava tão bem em um lugar quente como aquele.
Um click soou em sua mente.
Ele se ajeitou no... Banco, sentando-se propriamente, já que estava meio escorado na janela de um trem. Sim, ele conseguia reconhecer os barulhos dos trilhos e o leve chacoalhar que o vagão dava, mas não era realmente possível que ele estivesse indo para Hogsmead, principalmente naquele trem, sendo que ambos haviam sido destruídos a muito tempo...
Estranho.
Resolveu não apenas pensar e sim olhar ao seu redor, começando pelo próprio banco.
Isso aqui não era pra ser azul?, pensou enquanto olhava para o acento verde escuro.
Balançou rapidamente a cabeça, observando o seu redor. Tudo parecia muito mais "vivo" do que da ultima vez que havia visto aquele trem, até mesmo de quando o viu pela primeira vez. Existiam alguns quadros e luminárias que Harry sabia que eram extremamente antigas, mas que pareciam novas.
Algumas balas estavam a sua frente, no local onde o garoto estava sentado e o menino olhava pra ele de uma maneira preocupante. Harry até pensou em sorrir, percebendo que aquilo só poderia ser um tipo de ilusão da sua mente insana.
Bom, já estava na hora dele ficar louco. Até mesmo suspirou com a ideia de que realmente estivesse certo, mas algo o parou. Uma lembrança...
Ele sabia que havia visto um maldito trouxa apontando um tipo de arma grande – que Harry sabia que vinha embutida com radar anti bruxos – em seu rosto e até mesmo sentiu a dor intensa e rápida se transformando em total escuridão.
– Você está bem, Prince?
– Porque está me chamando desse jeito? – ele perguntou, apertando um pouco sua cabeça por conta da dor que se instalava bem na região do tiro.
O barulho do trem era quase ensurdecedor. Aquele tcheck-tcheck a todo o vapor o deixava ainda mais irritado. Fazia tempo que não escutava algo tão alto.
Porque ele estava ali? Era um tipo de sonho ou céu?
– Porque esse é seu nome... Harry Prince. – o garoto falou, dando de ombros, olhando-o ainda receoso.
Ele ficou confuso. Uma parte dele queria corrigir o garoto, mas outra – muito maior – o mandava ficar calado e apenas acompanhar a maré. Essa parte, normalmente, sempre tinha razão.
Ele olhou para fora do vagão, vendo algumas árvores tocando-o levemente. O céu estava escuro e nuvens pesadas evitavam que a luz da lua iluminasse o caminho, era tempo de tempestade... Mas o que mais o intrigou e horrorizou, foi sua aparência.
Quando ele realmente se olhou, percebeu que não parecia mais o velho de 106 anos que vivia aparatando em todos os lugares seguros da Grã-Bretanha – não que naquele momento houvessem muitos – ele parecia um garoto de onze anos.
Cabelos pretos e levemente bagunçados, mas estranhamente arrumados e alinhados, rosto um pouco mais redondo e aristocrático, lábios mais grossos e até mesmo as maças do rosto eram um pouco mais cheias. A única coisa que não mudou foi a cor dos olhos. Verdes e brilhantes.
Tão brilhantes... Fazia tempo que Harry não os via tão vivos assim.
Ele parecia meio andrógino. Não que isso fosse realmente um grande problema.
Uma coisa que ele notou também, foi que não precisava de óculos. O que foi um grande alivio, já que no outro mundo a perca dos malditos óculos havia lhe rendido muitos momentos ruins.
Ele se levantou, observando a mudança em seu corpo. Comparado ao que ele era quando tinha onze anos, Harry parecia mais encorpado num magro natural e não num quase-esquelético, fruto dos anos de abusos dos Durleys.
– Vamos. Daqui a pouco chegamos em Hogsmead.
Harry olhou em volta, percebendo que uma pasta estranha e com seu nome estava logo acima de sua cabeça. Ele a pegou e a abriu no fecho, encontrando suas roupas, uma varinha e um bilhete dizendo "aproveite sua segunda chance" escrita em um pequeno pedaço de pergaminho. A letra era singela e bonita.
Então alguém sabe o que está acontecendo. Mas quem?
Ele suspirou. Como passaria por aquilo sem atrair atenção?
Pensando em tudo brevemente, ele chegou a conclusão de que aquilo só poderia ser um tipo de troca de mente, algo feito com magia das trevas e que só acontecia em casos específicos, num curto período de tempo.
Ele nunca ouviu que tal coisa poderia acontecer entre pessoas sem qualquer ligação e de diferentes épocas, mas essa era a única explicação válida que ele achou por agora. Bom, ele poderia aguentar até voltar a sua realidade, o problema todo era o garoto Prince...
Harry suspirou pesadamente.
Ele começou a tirar as vestes da bolsa e pediu para o garoto – que o observava confuso – fechar a cortina.
– Está louco? Você deveria ir ao banheiro.
– Só feche essa maldita coisa e tape os olhos. Eu não tenho que ficar me explicando pra você – Harry respondeu entre dentes.
Ele não queria falar assim com o garoto. Aliás, ele não queria soar tão grosseiro com uma criança, mas a pressão de ser uma e – aparentemente – estar numa época diferente, o estava deixando agoniado.
A qualquer momento ele voltaria para o caos do futuro e ele já estava se preparando mentalmente para aquilo.
O menino, ao contrário do que Harry pensou, sorriu e disse:
"Agora sim parece você mesmo, Prince. Por um momento, achei que haviam tomado polissuco e se transformado em você".
– E porque fariam isso? – Harry perguntou, ainda duvidando de que o garoto tivesse perdoado sua explosão tão facilmente.
O garoto apenas deu de ombros e Harry voltou a se vestir, percebendo que o trem estava diminuindo seu ritmo.
– Chegamos.
Ele sabia, mais ou menos, em que ano estavam. Uma garota atrapalhada havia tropeçado em si enquanto lia um jornal que – aparentemente – falava sobre Grindelwald e sua era de terror e caos.
Lembrando-se de algumas coisas nas quais Hermione havia dito enquanto eles conversavam sobre os últimos Lordes da Trevas, ele sabia que o período em que tal ataque aconteceu era em torno de 1937 ou 1938. Passado o choque inicial, ele precisava saber o porquê dele estar ali. Se ele estava nesse período, então Prince deveria ter nascido em 1926 ou algo assim.
Ainda era um tanto inacreditável estar em Hogwarts novamente. Ele achou que nunca mais veria o castelo, não depois do que os trouxas fizeram com ele.
A tecnologia trouxa é fascinantemente mortal, ele pensou, amargurado.
Harry, no inicio de tudo, não havia entendido porque era tão ruim os trouxas saberem da população mágica. Era algo tão obvio, mas parece que o espirito de Dumbledore se apossou dele e - mesmo toda a sua experiencia como auror não havia lhe preparado para o que estava por vir. Ele só foi entender realmente quando a primeira morte aconteceu... Fechou os punhos na lateral do corpo com força, fazendo marcas dolorosas nas mãos.
Eles estavam indo para os barcos, sendo guiados por um homem que Harry nunca havia visto na vida, mas que se apresentou como sendo um guarda caças chamado Ogg.
Entrou no barco com outros três garotos que o olharam um tanto receosos, mas ele não ligou. Não queria entender porque pareciam temê-lo.
– Unconditionally –
Chegando à entrada do castelo, ele mal pode conter suas memórias. Coisas que haviam acontecido ali e que, ao mesmo tempo, não haviam acontecido ainda. Era algo confuso, mas bem lógico.
Ver tudo aquilo o fazia pensar que boa parte havia sido destruída. A dor de perder seu primeiro lar estava corroendo dentro de si. Ele precisava voltar ao seu tempo.
Balançou a cabeça e se concentrou no grupo de alunos que estava em volta de si. A turma era particularmente igual aos do seu primeiro ano, pelo menos em numero.
Ele viu um extremamente loiro, provavelmente algum Malfoy que ele não conhecia. Viu também alguns ruivos, mas ele não acreditava que eram Weasleys, Harry nem sabia se existiam Weasleys nesse ano.
O garoto que estava junto com ele no trem, estava ao seu lado. Ele não havia falado nada. Ficou mudo, observando tudo ao redor e, furtivamente, Harry também.
– Avery – falou o loiro que Harry havia observado anteriormente.
A voz um tanto quanto grossa demais para um menino de onze anos contrastava com a beleza frágil dos curtos cabelos loiro-platinados. Era praticamente uma cópia do Draco de onze anos, só que tinha um tipo de brilho estranho no olhar acinzentado.
Aquilo era... Curioso.
– Malfoy... Como foi o verão? – respondeu o menino ao lado de Harry, o fazendo grunhir.
Ele não conseguia acreditar que o maldito garoto era um dos Avery. Nas suas lembranças, ele sabia que existiam dois e ambos – pai e filho – haviam sido comensais da morte e participado de ambas as guerras bruxas.
– Particularmente bom e o seu? – o loiro perguntou sem se importar muito.
Harry se surpreendeu um pouco pois, se realmente fosse para Draco essa pergunta, o garoto falaria sem parar como sempre fazia no inicio de cada ano.
– Não fiz nada, meu pai foi pra França por causa... Daquilo... A prisão dele foi noticiada, você sab-
– Shh, – o loiro falou, olhando em volta e parando os olhos em Harry por um momento – tem muitas pessoas aqui, seu imbecil. Falando desse jeito, você nem parece sangue-puro... Não pode esperar até sermos selecionados para a sonserina?
O tom cortante quase fez Harry sentir pena do garoto. Quase... No fundo, ele estava rindo e tentando se lembrar do que aconteceu em 1937-38 para deixar ambos sangues-puros tão agitados.
– E você, Prince? – ouviu o garoto perguntando e olhando para si de um jeito meio suspeito.
Harry estava com esperança de passar despercebido na conversa e quando ia responder a pergunta o professor Dumbledore, o mesmo que os havia recebido no castelo, voltou chamando atenção de todos.
– Muito bem, crianças... Agora teremos a seleção. Sigam-me – ele disse, já se dirigindo para uma porta lateral.
Dentro da porta, ele conseguia escutar os diversos barulhos tão conhecido por ele. O salão estava repleto de alunos e Harry parecia um tanto emocionado com tal coisa, mas segurou as lagrimas, já que aquilo não seria algo que o garoto Prince deveria fazer – não que se importasse muito.
Alinhados, eles andaram, escutando o salão cair num silencio profundo.
Ele olhou para os lados, se interessante em ver algum rosto fracamente conhecido. Talvez de algum ancestral... Mas não conseguiu se concentrar muito, já que todos estavam caminhando um pouco rápido demais, na visão dele.
Os alunos mais da frente pararam e eles formaram um bolinho, observando Dumbledore pegar um pergaminho e olhar diretamente para ele.
– Assim que seus nomes forem chamados, vocês devem vir até aqui na frente e sentar aqui – ele apontou para um banquinho no qual continha o chapéu seletor – eu colocarei o chapéu seletor em suas cabeças e ai vocês serão designados para suas casas.
Harry ficou um tanto surpreso com a seriedade do homem.
Sim, no inicio ele estava tão concentrado e maravilhado com Hogwarts que nem havia percebido a mudança de personalidade de Albus, mas ai ele entendeu... Eles não estavam mais em 1991, na sua primeira seleção. Eles estavam no passado. Dumbledore era relativamente novo e estranhamente suspeito.
Sua meia barba castanha e os cabelos curtos, indicavam a jovialidade do futuro diretor de Hogwarts, mas era mais que isso. O homem aparentava ser duro e preciso, sem falar dos olhares que ele lançava para certo ponto logo atras de Harry.
Por um momento, ele achou que havia sido reconhecido, mas não era isso.
Aquele olhar... Ele sabia o que aquele olhar significava, mas iria pensar nisso mais tarde, por hora, uma coisa estava em sua mente e deixou que aquilo se fixasse plenamente em sua cabeça:
Eu não gosto dele.
Aliás, Harry aprendeu a não gostar de Dumbledore muito antes dele vir ao passado.
– Araan Avery
– Te vejo lá – o garoto falou, fazendo com que Harry se arrepiasse em desgosto.
Deixando Dumbledore de lado, não era possível que ele tivesse que ficar junto com um Malfoy e com o tal de Avery, ele queria tanto voltar ao seu mundo... Nesse exato momento.
Ele não queria mais estar ali. Não queria ver seu povo totalmente ignorante a algo que já estava acontecendo lá fora.
Tecnologia.
– SONSERINA – o maldito chapéu gritou, fazendo com que ele pulasse em seu lugar.
– Lorion Tuft
Ele cruzou os braços e esperou por um milagre divino, como ele mesmo gostava de chamar.
Pensando agora em Harry Prince, ele sentiu um pouco de pena do garoto. Se suas suspeitas estavam certas, ele estava em seu velho corpo e – provavelmente – assustado com as coisas que aconteciam a sua volta. Bom, pelo menos ele terá uma boa história pra contar para os amigos... Isso se ele ainda estiver vivo.
O rosto de Harry caiu e seus olhos brilharam assombrosamente.
Malfoy o olhava intrigado, ele sabia que algo estava de errado com Harry, mas não sabia o que era. O garoto estava assustador.
– LUFA-LUFA.
– Abraxas Malfoy – Dumbledore soou, enquanto o menino lufano passava em sua frente.
Ele empurrou algumas pessoas e foi até o banco. O chapéu ficou apenas alguns segundos em sua cabeça e gritou "SONSERINA", não pegando Harry de surpresa.
Claro, ele é um Malfoy... Onde mais estaria?
Mais alguns sobrenomes, tanto conhecidos como desconhecidos, foram até o chapéu até que chegou a vez de Harry.
Pra falar a verdade, ele teve que ser chamado duas vezes por conta do sobrenome. Era meio frustrante. Ele se sentou no banquinho, o chapéu foi quase colocado em sua cabeça, mas antes disso ele gritou "SONSERINA".
Ele estava em choque. Não queria ter sido selecionado para a casa. Achou que se conversasse com o chapéu por alguns momentos, ele o mandaria para Grifinória ou Corvinal.
Ele suspirou e saiu do banco, indo para a mesa da Sonserina.
O amigo... Amigo? Tanto faz...
O amigo de Prince lhe deu um sorriso e ofereceu um lado para ele sentar, já que mais alguns sonserinos – antes de Harry – haviam sido selecionados.
Harry se sentou, mas não conversou. Achou melhor olhar em volta por alguns minutos.
Até que ele escutou Dumbledore chamando o ultimo garoto que havia restado ali.
– Tom Marvolo Riddle.
Harry gelou e tremeu.
Era por isso que ele estava nesse ano. Obvio.
Que burrice achar que nada disso tinha a ver com Voldemort.
Ele não é Voldemort.
Uma voz interior soou em sua cabeça e ele teve que concordar, mesmo sabendo que o garoto já mostrava resquícios de crueldade. Coisas que Dumbledore o havia dito e mostrado.
Mostrou?
A voz perguntou, fazendo Harry pensar. Sim, Dumbledore havia mostrado que o garoto era cruel, não?
Não... Ele mostrou um garoto em um orfanato. Um garoto brilhante, mas que tinha sérios problemas de comportamento.
Então era certo afirmar que Dumbledore lhe mostrou apenas a conversa deles e uma caixa cheia de utensílios roubados e ainda falou sobre um garotinho que perdeu seu animal de estimação por causa do temperamento de Riddle. Pronto, assim está melhor.
O problema é que Harry não achou que essa era a melhor resposta que ele poderia arranjar.
– SONSERINA – o chapéu gritou e alguns resmungos foram escutados em torno da mesa.
– Você consegue acreditar? Vamos ser da mesma casa que um sangue de lama – Avery falou alto, mostrando que ele não tinha medo de ser repreendido por tal xingamento.
Na verdade, Harry o achou bem burro... Se ele soubesse do que esse "sangue de lama" era capaz de fazer, ficaria quietinho.
Harry deu de ombros e Abraxas, que estava de frente aos dois apenas revirou os olhos, assistindo Riddle sentar ao seu lado. Olhando o garoto com desgosto, ele se distanciou levemente, como se o mesmo tivesse algum tipo de praga.
Harry suspirou e esperou a finalização dos avisos do Diretor Dipett e a apresentação dos professores para, enfim, comer alguma coisa.
– Unconditionally –
A chegada no dormitório foi mais interessante do que imaginava.
Ele já havia estado na sala comunal da sonserina no seu quarto ano, mas nos dormitórios era a primeira vez.
Ele sabia que não seria igual ao da grifinória. Até porque o outro dormitório era totalmente redondo e ficava no alto. Esse ficava praticamente ao lado do Lago Negro.
Harry sabia que sentiria falta de abrir as janelas, já que as mesmas do dormitório estavam e permaneceriam totalmente trancadas, apenas mostrando o fundo do lago e algumas sombras de criaturas que passeavam por ali durante aquela noite.
Ele não tremeu.
O dormitório, como imaginava, era diferente mesmo. Não apenas pelo verde e prata protuberantes e que contrastavam com alguns detalhes em roxo ou pelas tapeçarias interessantes que mostravam o nome de alguns sonserinos renomados e que ele jamais conheceria se não estivesse ali, o que o intrigava eram as camas.
Havia o numero normal de camas, cinco, mas as semelhanças paravam por ai.
Além delas serem maiores que os da outra casa, aparentemente, elas eram mais confortáveis e belas.
Harry mesmo se viu mergulhando em uma delas enquanto outros três garotos apenas entravam no quarto.
Ele não queria ficar exatamente ao lado da porta que dava ao banheiro de uso comum do quarto, mas também não desejava ficar perto da janela, então se deitou na quarta cama depois do lavabo.
Os outros garotos... Malfoy, Avery e um estranho que ele não conhecia, parece que partilhavam do seu receio de ficar perto das enormes janelas esmeraldinas.
– Você mal escutou o que o monitor falou, Prince... Nott ficou resmungando atrás de mim por sua causa – Avery falou, irritado.
– Como se eu me importasse com o que Nott fala – Harry respondeu, dando de ombros. Se era pra continuar ali, ele não precisava ser amigável, né? O garoto Prince poderia cuidar de algumas desavenças.
Malfoy apenas olhou pra ele com um olhar mais suavizado, coisa que Harry estranhou e Avery riu.
O outro garoto que Harry não conhecia, estava indo até o banheiro, mas parou assim que Malfoy falou com ele.
– Lestrange, pode ir parando ai. Meus galeões...
– Está tão pobre assim que precisa do meu dinheiro pra se sustentar, Malfoy? – o garoto riu, mas logo suas expressões ficaram pesadas.
Harry tentou entender o porquê, mas assim que olhou para Abraxas ele entendeu. Nem Lucius e nem mesmo Draco conseguia superar aquele olhar de ira. Harry se arrepiou e Lestrange, mais do que rápido, pegou duas moedas em seu bolso e jogou na cama que o loiro havia escolhido como sua.
Assim como a ira subiu a superfície, ela também desceu.
Abraxas sorriu, lembrando vagamente um felino e piscou para Harry.
– Era assim que você deveria ter feito com Rosier, quando ele pegou aquele livro do seu pai sem seu consentimento, no inicio do verão – disse, ainda sorrindo e se jogando na cama.
Lestrange parecia um pouco irritado, mas acabou indo até o lugar em que queria ir antes de ser interrompido.
Harry deu de ombros, se lembrando momentaneamente que estava cercado por comensais ou por ancestrais de comensais. Perfeito.
Como sobreviver nesse mundo sem realmente mostrar o que ele era?
Ainda deitado, ele olhou para a única cama vaga, pensando em qual dos garotos iria dormir ali.
Se ele bem lembrava, ainda tinha um Travers, Pyrites em Sonserina. Achava que haviam mais alguns, mas definitivamente ele não se lembrava de seus sobrenomes.
Ele só esperava ter sorte e não pegar-
– Riddle... – falou Avery, com certo desgosto. Harry nem mesmo olhou para o garoto, que parecia estar bem ao seu lado. – O que você faz aqui, sangue-ruim?
Otimo... Sério, isso é realmente perfeito. Olha, está de parabéns quem orquestrou tudo isso.
Harry murmurou com puro desgosto.
Merda.
– É meu dormitório.
– Não, definitivamente não... Eu não aceito isso – o garoto baixinho começou a se queixar, sabendo que ainda teriam mais sete anos pela frente e que, consequentemente, ele teria de dividir o quarto com um sangue de lama.
Malfoy apenas assistia tudo com certo nojo no olhar, mas a pose aristocrática evitava que a maioria visse seu repudio. Harry reconhecia porque conviveu com Draco por muitos anos, quando criança, e muitos outros, logo depois da guerra entre os trouxas estourar.
Eles ficaram amigos uns anos depois em que Albus e Scorpius se casaram. Também, a cada reunião de família eles eram convidados e tinham que conviver por horas a fio. Ele aprendeu a ler o loiro como ninguém e percebeu que ele conseguia realmente ser alguém bom, mesmo com tanta desgraça em sua vida.
Astoria, sua esposa, havia falecido quando seu único filho estava no colégio e foi duro. Existiam rumores de que o menino não era seu filho de verdade e seus pais e parentes vivos já estavam todos mortos.
Draco, ao contrario do que todos pensavam, ficou bem. Quebrado, mas bem. E anos depois, os dois magos lutaram juntos, lado a lado, para derrotar aqueles que Harry um dia protegeu do Lord das trevas.
Maldita ironia.
Ele riu, alheio a tensão que se instalava no quarto.
Riddle olhou pra ele em um curto período de tempo e foi até sua cama. Ele faria tudo do jeito que o professor Dumbledore havia dito, tentaria ser sociável com seus colegas de quarto, mas se houvessem muitos deslizes, ele sabia exatamente como retalhar.
– Venha, Prince. Vamos falar com Slughorn... Sei que quando ele souber do seu status, vai fazer esse sangue de lama sair daqui – Avery disse, sorrindo amplamente.
Malfoy continuou observando, mas Harry deu de ombros. Evitando falar com o futuro comensal.
O garoto, percebendo que estava sendo ignorado, apenas bateu o pé e saiu do quarto. Provavelmente indo falar com Slughorn. Harry quase gemeu quando se lembrou que o maldito professor era, agora, chefe de sua casa.
Que bosta.
Não que não gostasse do homem, ele só era extremamente chato e inconveniente.
Claro que ele foi de grande ajuda na Batalha de Hogwarts e era um pocionista fantástico, não tanto quanto Snape, mas ainda o era. Só que... Ah, sei lá, ele murmurou, atraindo momentaneamente a atenção de Abraxas que estava olhando para a cama de Lestrange.
Ele precisava pensar.
Ele estava ali por alguma razão. Talvez para mudar a ascensão do Lord das Trevas, mas isso não fazia tanto sentido assim. O Lord estava morto. É obvio que ele havia matado muitas pessoas, mas nesse momento ele não existia e no futuro em que Harry estava vivendo também não.
Talvez... Precise ajudá-lo a chegar ao poder.
A voz dentro dele falou e Harry já estava imaginando que aquela maldita voz não fazia parte dele. Mas não, era ele mesmo, pensando em todas as possibilidades. Só que isso não cabia também. Harry sabia que Tom havia conseguido seus primeiros comensais no colégio.
Então, a mais provável... Se juntar a ele...
Ah, claro... Como se ele quisesse. Voldemort jamais quis um igual.
Ele ainda não é Voldemort. A voz falou, como se ele precisasse ser lembrado daquilo. Mas precisa ser para poder mudar o futuro...
De onde veio isso?
Esse pensamento... Ele sabia que não era realmente dele.
Harry não poderia ter pensado em algo assim. O pior é que, cada vez que ele negava tal pensamento, mais as palavras ficavam marcadas dentro de si. Voldemort precisava existir... Ele precisava existir para mudar o futuro deles. Ele era o único com poder suficiente.
Não, tem Dumbledore.
Dumbledore é a favor de trouxas por causa do que aconteceu entre ele e Gellert Grindelwald.
Oh, merda... Era isso.
Grindewald havia sido preso em 1937 na França. O pai de Avery foi pra lá por causa disso. Avery tinha uma boca grande, ele conseguiria tirar mais informações se quisesse, mas por hora, resolveu guardar aquilo pra si.
Retornando ao tópico que estava o deixando meio sonolento, Dumbledore ainda é a favor de trouxas e, pra ser sincero, ele é muito mais manipulador que Voldemort. Dumbledore era mais sujo porque ele não dava a cara a tapa, as manipulações dele eram dignas de um brilhante e grande sonserino – por mais que o velho fosse totalmente grifinório, desfavorecendo a sonserina em alguns momentos.
Bom, no futuro era assim... Vamos ver se no passado também será.
Harry suspirou enquanto ouvia a porta do banheiro ser fechada.
Olhou para o lado e Avery ainda não havia voltado. Malfoy já estava com as cortinas fechadas e Lestrange andava de um lado para o outro vestindo um tipo de roupa estranha e antiga, parecia um vestido longo.
Camisola feminina?
Harry só balançou a cabeça e voltou seu olhar para o outro residente. Riddle estava de costas para ele, olhando para a grande janela. Ele parecia estar em transe, já que não se movia e o único barulho que poderia se escutar dele era a sua respiração suave.
Harry achou melhor não interromper e nem o chamar, até porque não tinha o que dizer pro menino.
Levantou e foi até seu malão, que provavelmente havia surgido em algum momento enquanto ele estava deitado e pegou uma roupa de dormir, uma muito mais normal que a de Lestrange, a colocou e foi direto para cama.
Era obvio que ele precisava pensar em tudo o que estava acontecendo, mas faziam anos que ele não conseguia dormir em uma cama tão boa quantos as camas de Hogwarts. Ele poderia pensar em tudo numa outra hora.
– Unconditionally –
No outro dia, foi acordado ligeiramente cedo por um de seus "amigos".
Aquilo, pra ele, ainda não estava certo.
Harry sabia que deveria se comportar como o menino Prince, ou seja, soar como um sonserino idiota que vivia com o rei na barriga, mas ele não conseguia ser assim.
Sim, ele aparentava andar e agir como adulto, mas ainda não era o suficiente para convencer ninguém que realmente conhecia Harry Prince.
Aliás, pensando bem, ele nunca havia ouvido falar sobre um Harry Prince.
Logo após a morte de Snape, ele foi atrás da família do Diretor e até mesmo pesquisou a árvore genealógica, mas apenas encontrou a mãe – Eileen – e outros dois irmãos da mulher – Ziron e Ai... Alguma coisa. Do lado do pai, não existiam parentes vivos.
A família Prince renegou qualquer parentesco com Snape e ele deixou por isso mesmo.
Aquilo o deixava confuso.
– Por quanto tempo vai ficar ai, Prince? – Araan disse, jogando uma toalha molhada na cabeça de Harry, rindo logo em seguida.
Eca.
– Já estou indo – ele jogou a toalha no chão e foi até o banheiro, olhando-se pela segunda vez.
Agora sim ele poderia ver realmente o que havia mudado nele, dentro do trem e apenas por reflexo meio, não dava realmente para ver.
O corpo realmente parecia melhorado. Cabelos longos e meio enrolados... Ele poderia facilmente se passar por um Black, já que o cabelo até estava comportado em vista do que era na sua juventude.
Ficou mais alguns momentos no banheiro e saiu quase que correndo do local, não encontrando mais o garoto Riddle que havia acordado no mesmo horário que ele. Deu de ombros, não era como se lidar com Voldemort fosse muito importante agora.
– Unconditionally –
Avery estava irritado. Não apenas irritado, ele também estava apreensivo com a bipolaridade de seu melhor amigo, Harry.
Ele era uma total incógnita.
Harry Prince, o herdeiro principal da família Prince. Uma família renomada que era praticamente a base dos Sagrado 28. Pra ele foi ensinado muitas coisas, coisas que até mesmo Abraxas não sabia. Poderia-se dizer que os Prince eram totalmente neutros, aliás... Todos realmente achavam isso, até Araan ver com seus próprios olhos a interação do pai de Harry – Neel Prince – com Gellert Grindelwald, o Senhor das Trevas dois anos antes.
Isso fez com que Araan prestasse um pouco mais de atenção em seu amigo, no qual ele não dava tanta importância antes.
Diferente da irmã mais nova – Eileen – Harry era calmo e apenas respondia o que lhe perguntavam, tudo perfeitamente.
Obviamente, era o típico filho de sangue puro, mas havia muito mais nele. Coisa que ele comprovou naquela manhã, quando ambos estavam se preparando para chegar à primeira aula. O correio havia chegado minutos antes, trazendo o Profeta Diário e algumas cartas. Um pequeno saco de dinheiro também foi posto em cima da mesa por uma coruja totalmente branca com pintas amareladas e outra, uma totalmente preta, trouxe um pequeno recado, que mudou totalmente a face monótona de Prince.
Até mesmo no dia anterior, ele percebeu que Harry estava diferente, mal falando com Abraxas – que, se ele não se enganava, era primo de algum grau dele.
Tudo muito estranho, dado que ambos sempre ficavam juntos.
O Malfoy também havia dito que ele estava um tanto... Esquisito, mas que não estava insistindo sobre isso. Talvez seja a nova companhia de quarto, o loiro complementou. Avery tremeu em ânsia, mas não falou nada mais.
– Unconditionally –
Receber cartas foi inesperado, por mais que fosse um tanto quanto obvio que tal coisa acontecesse.
Uma era de seu pai e outra de sua irmã. Era estranho pensar em ambos dessa maneira, ele não sabia como responder, então apenas as deixou ali, intocadas.
Ainda tinha esperanças de voltar a onde pertencia e não seria legal abrir correspondência de outra pessoa.
O saco de dinheiro também ficou intocado, até porque ele estava no primeiro ano. Não precisaria daquilo até o terceiro, certo?
O jornal também era interessante. Ele conseguiu ver a data: 2 de Setembro de 1938, sexta-feira. Otimo. Algumas revoltas e mortes foram noticiadas e os movimentos dos seguidores de Grindelwald também foram mostrados, mesmo com o líder preso. Se ele se lembrava, dali a dois dias o homem iria estar a solta novamente.
Suspirou, pensando se poderia passar tal informação para alguém sem parecer muito suspeito, mas ai ele lembrou que ainda era um primeiranista e que não conseguiria ir a Hogsmead a tempo, mesmo sabendo sobre as passagens secretas.
Voltando a coruja preta, que estava batendo as gloriosas asas bem na sua frente, ele retirou o breve papel e franziu o cenho para o animal, que já estava erguendo vôo.
Se comporte no seu primeiro dia de aula, Potter.
O papel brilhou fracamente, desfazendo a ultima palavra pra Prince. Harry piscou, ele sabia que aquilo não poderia ter sido uma miragem. Era um feitiço, feitiço esse utilizado sempre por pessoas que estavam perto do seu alvo. Até porque, um feitiço comum não poderia se desfazer assim que o outro fosse atingido – a menos, claro, se fosse uma maldição ou magia escura, mas Harry poderia sentir que não era esse o caso.
Ele olhou para os lados, tanto para seus colegas de casa como para as outras casa e até mesmo para a mesa dos professores. Ninguém estava de olho nele. Avery estava, mas ele era apenas... Inofensivo.
Ele até mesmo pensou em Riddle, mas o garoto não tinha poder para tal coisa. Não ainda.
Mas que merda estava acontecendo ali?
– Unconditionally –
Ele estava morto.
Definitivamente morto.
Não esperava que a Hogwarts de antigamente fosse tão difícil. Como esses ensinamentos não foram dados a ele em 1991 eram um mistério mas, aparentemente, tudo era muito útil.
Ele voltou sozinho para as masmorras, afinal de contas, já sabia o caminho e desceu para o seu dormitório. Observou Lestrange, que não havia ido jantar, já isolado dentro de seu docel. Olhou para a cama de Riddle e suspirou.
O garoto mal havia chegado e já estava na aula hospitalar.
Por um momento, um bem breve, ele lembrou de si mesmo e da sua facilidade em se machucar, coisa que não diminuiu com o passar dos anos. Infelizmente.
Balançou a cabeça levemente, ele jamais seria como Voldemort...
Ele ainda não é Voldemort... A voz dentro de si soou raivosamente, fazendo-o revirar os olhos. Ele poderia concordar com a afirmação, mas isso o levaria a segunda frase icônica de seu subconsciente:
Ele não é Voldemort, mas precisa ser para salvar todos.
Harry bufou com puro desgosto, ele não estava afim de pensar no significado dessa merda toda agora, por mais que ele já soubesse exatamente do que se tratava.
Retirou a roupa e colocou um conjunto confortável de dormir. Com sorte, ele voltaria para a vida "maravilhosa" que ele tinha.
Ele sorriu entristecido.
Se realmente tivesse sorte, ele ainda estava vivo, mas – provavelmente – não tão inteiro...
Com um pensamento meio fúnebre, foi direto para a cama sem realmente aguardar Avery e Malfoy, já que ambos estavam em uma espécie de detenção com o professor Slughorn, fechou as cortinas e suspirou pesadamente.
Ele tinha que dar um jeito de voltar pra casa, mesmo realmente não querendo.
Andou de um lado para o outro três vezes, pensando na sala comunal da sonserina. Sala essa que ele mal ficou durante seus intervalos.
Preferiu ir para a biblioteca, se afundar em livros, ele precisava voltar pra casa afinal de contas...
Entrou no ambiente escuro, olhando para um dos sofás que continha detalhes de cobras nas pernas de madeira polida, eles eram confortáveis – Harry tinha comprovado isso anteriormente. Por um momento, um breve momento, ele teve certeza que eram melhores que os da sala comunal da grifinória, mas deixou o penamento morrer, lembrando-se que não deveria pensar tal coisa.
Não era certo.
Foi até uma das poltronas solitárias e sentou-se ali, pensando em tudo que havia acontecido nas ultimas 48h. Ele estar ali era outra coisa "não certa".
O que mais o estressava em tudo isso é que, nesse lugar, seus amigos nem haviam nascido ainda e – por Harry estar se comportando de tal forma – poderia mudar totalmente o futuro. Ele lutava em não querer isso, mas o futuro foi tão cruel com tantas pessoas que uma parte dele desejava poder mudar tudo o que aconteceu.
– Se é o seu desejo, então porque não o faz? – perguntou uma sombra que Harry não reparou que estava sentada quase que ao seu lado, em um dos grandes sofás.
Ele se assustou com a nítida interrupção de seus pensamentos. Olhou rapidamente para o local de onde vinha a voz e tentou pegar sua varinha por puro reflexo. Quem quer que fosse, havia entrado na Sala Precisa sem ao menos alertá-lo ou chamar sua atenção.
Ele deveria ter cuidado.
– Está procurando por isso – a sombra perguntou, com um misto de diversão e curiosidade. Ele apontava para a varinha de Harry que apareceu do nada e flutuava na neblina negra que deveria ser uma das mãos da... Pessoa? – Não funcionará aqui.
Desconcertado, mas não menos calmo, Harry perguntou avidamente quem ele era e a resposta veio com uma risada profunda.
– Depende... Alguns me chamavam de Donn, Ankou, Giltine, mas você pode me chamar apenas de Morte.
Harry olhou para a sombra horrorizado. Morte? Um Deus da Morte?
– Deus, Deusa... Existem várias representações de mim para os humanos em geral – o outro falou, como se pudesse realmente escutar os pensamentos de Harry.
– Porque está aqui?
O outro se levantou e caminhou em direção a Harry, tomando finalmente uma forma completa e não a escuridão enervante que o garoto havia visto anteriormente.
A sombra pareceu desbotar, dando lugar a uma silhueta feminina e pouco maior que Harry. Ela vestia um vestido longo e branco, que fez Harry lembrar muito de uma mortalha só que bem mais acinturado e de seda. A pele parecia muito branca, quase transparente e os longos cabelos eram tão brancos quanto sua pele.
O rosto era encantador e um tanto cruel. Sim... Cruel. Harry não conseguiu achar outra definição para ele, até porque o olhar dela o consumia.
–Aparentemente, sou Giltine – ela disse, ignorando prontamente sua pergunta. Ela o olhou por um curto período de tempo, pegando sua mão logo em seguida.
O toque gelado fez Harry recuar um passo, mas ela segurou o pulso dele firmemente, virando-o para cima e depositando a varinha em sua mão. Harry estremeceu e ela sorriu, retirando sua mão de cima dele.
–Porque você está aqui, Giltine? – ele perguntou, observando ela ainda.
No entanto, Giltine já havia voltado para um dos sofás, sentando imponentemente, não dando tanta importância para Harry ou para o poder que ele conseguia sentir que tinha quando empunhava sua nova varinha.
Claro que ela não ligaria para um simples humano.
– Você não é um simples humano, sabe? Um mestre da morte nunca seria um simples humano – ela falou calmamente, mostrando que realmente poderia escutar os pensamentos de Harry.
Ele suspirou, um pouco surpreso com as palavras da Deusa.
– O que eu sou então? – ele perguntou, não esperando realmente uma resposta já que ela apenas sorriu para si.
–O senhor da Morte. Você possuiu os três artefatos ao mesmo tempo e, mesmo se livrando de dois, seu titulo não foi revogado por outro – ela respondeu, se ajeitando um pouco mais no sofá estofado, indicando para que Harry se sentasse na poltrona em que estava anteriormente – Voltando ao tópico...
–Espera... – ele falou um tanto exasperado, acatando o pedido mudo anterior. Ele sentou e fitou pensativo – Como eu posso ser...?
– Eu já expliquei. Você é um mestre da ação da morte e não meu mestre ou de algumas das minhas outras faces, entende? – Harry acenou com a cabeça e ela continuou – Você também não irá retornar para aquele mundo condenado.
Aquele mundo? Ele não estava no passado? E quanto ao garoto Prince?
Harry confessava silenciosamente que só havia pensado no garoto em pouquíssimos momentos, porque nos momentos em que ele estava na aula, comendo ou até mesmo conversando rapidamente com os outros garotos para entender um pouco mais dessa realidade, ele não pensou em Harry Prince.
Se martirizou instantaneamente, pensando em algo que havia escutado por ultimo.
–Eu não tenho escolha. É isso?
– Oh, Harry! Você já escolheu. – Ela disse, apontando com um dos dedos pálidos ao redor da sala verde e prata – E não se martirize. Você está em uma outra realidade Harry. No passado sim, mas em outra realidade que não é tão diferente da qual você veio.
– O que isso quer...?
Ele foi cortado por um olhar penetrante, causando-lhe arrepios.
– Seu mundo, o original, está morrendo... Dou-lhes apenas algumas décadas para que todo o planeta morra ou para que os humanos que restaram se destruam. Bom, dá no mesmo – ela deu de ombros, olhando um tanto futilmente para seus longos cabelos.
Harry respirou fundo, apertando as palmas da mãos na poltrona.
Então, ele não tinha a mínima chance de salvar seu mundo... Nenhuma?
– Não – ela respondeu, cruzando as pernas.
– Poderia, por favor, parar de escutar meus pensamentos? – ele disse, esquecendo-se momentaneamente que a pessoa na qual ele dirigiu a pergunta arredia era uma Deusa.
Ela sorriu. Normalmente se irritaria com tamanha grosseria, mas algo em Harry a deixava alegre.
– E quanto ao garoto?
– Morto.
– Foi no meu...
– Não Harry, nesse mundo, ele já estaria morto. Ele só ficou com o corpo conservado e sem alma, até você vir para o corpo dele. Como... Imperius... Falando nisso, Laima me pediu para entregar algo. – Ela descruzou as pernas e estendeu a mão direita para cima elegantemente, fazendo com que uma bola pequena envolta em raios roxo-avermelhados surgisse.
Harry olhou para o ato com certo fascínio. Ele sabia que aquilo era pra ele, mas não sabia o que tal coisa fazia e nem o porquê de Laima – seja quem quer que fosse – dar isso a ele.
Ele suspirou e se levantou, com o intuito de tocar na esfera, mas Giltine a embrulhou em suas mãos suavemente, não deixando que Harry encostasse. Não ainda.
– Se aceitar, você terá todas as lembranças de Harry Prince e, obviamente, se transformará nele totalmente, mas continuará com sua memória intacta.
Bom, era algo a se pensar. Ele teria as memórias de Prince e entenderia um pouco melhor desse mundo alternativo. Se era... Ou melhor, sendo um mundo alternativo, então as coisas que aconteceram no futuro não iriam acontecer, certo? Era provável que ele nem mesmo precisasse alterar nada.
– Esse mundo é parecido com o outro, Harry. Os trouxas descobrirão sobre os bruxos, a guerra entre vocês ainda acontecerá, mas, dessa vez, Harry Potter não poderá ir para outro universo. Essa é sua única chance... Se quiser viver aqui passivamente sabendo que mundo vai perecer em 2052, você pode fazer isso. Me certificarei de deixá-lo vivo até lá.
Ele se assustou. Achava que, pela sua data de nascimento, até o mundo entrar em guerra, ele estaria morto.
– Bom, que bela atitude grifinória nós temos aqui, não? – ela disse, sorrindo afiadamente.
Covarde, ele pensou. Isso era covardia realmente. Viver uma vida boa e confortável e morrer antes mesmo da maldita guerra começar.
Harry não era assim. Ele não conseguiria fazer isso, mesmo se quisesse. O pensamento, obviamente, passou pela sua cabeça, mas foi tão rápido que, quanto percebeu, já não estava mais lá. Ele tentaria. Por ele mesmo e por todo o sofrimento que viu no outro mundo, ele tentaria.
– Em troca...?
– Você não voltará para lá, é uma constatação, mas você precisa viver o agora, senão de que adianta tudo isso aqui?! – ela disse intensamente. Harry a achou meio parecida com Hermione e Luna, era engraçado e um tanto triste - dado ao fim que ambas levaram.
Ele suspirou, deixando as lembranças afundarem em sua mente. Meditou por alguns minutos sobre o que Giltine lhe havia dito e ela esperou pacientemente.
Ele teria que esquecer seus amigos, seu futuro para se arriscar e tentar salvar o mundo. Se sacrificar novamente para tal tarefa, existe algo mais grifinório que isso?
– E se seu não quiser ficar?
– Você morre. – Ela respondeu, olhando pra ele seriamente.
Mesmo achando que ele merecia esse descanso por conta de tudo o que passou e tendo saudades de todos que o conheciam e que agora estavam mortos, ele finalmente tomou sua decisão.
– Dê-me as memórias.
