Capítulo 3, Bellatrix
"Você é o especialista em sarjetas por aqui, primo. Que bom que parou de se esconder, ouvi dizer que andou comendo ratos durante sua fuga. Diga, esse apetite particular é para compensar não ter matado seu amiguinho traidor? Você se sentia vingado enquanto mastigava toda aquela carne nojenta?" O sorriso estava de volta ao rosto dela, o amarelo dos dentes parecendo mais forte a cada palavra dita.
O rosto de Sirius se contorceu de raiva e Bellatrix notou que suas mãos começaram a tremer. "Opa, eu toquei em um assunto sensível para você, primo? Será que é por ter que comer esses animais asquerosos ou é por finalmente se livrar dos dementadores e cair direto na decadência que é morrer lentamente de fome?"
"Cala a boca, Bellatrix!"
"Mas por que você saiu mesmo? Os dementadores e você tinham um relacionamento bem íntimo, se bem me lembro. Lembro que gostavam especialmente de ficar perto da sua cela. Parece que esse seu coração grifinório afinal não te trouxe muitas coisas boas na vida, não-"
"CALA A BOCA, BELLA!" As mãos dele agora estavam cerradas em punhos apertados, os nós dos dedos brancos tamanha força do aperto. Sirius estava pálido, os lábios brancos e os olhos atormentados e distantes, como se revivesse os pesadelos que Azkaban lhe proporcionou.
Bellatrix pensou por um momento se não havia ido longe demais, se não cruzara aquela linha invisível que nunca foi dita por eles, mas que esteve sempre presente em seu relacionamento doentio. O pensamento passou rápido; eles estavam em lados opostos de uma guerra e ela lutava para vencer, o tempo de poupá-lo já havia passado há muito tempo, mas ela não pode negar o pequeno sobressalto em seu coração quando ele a chamou de 'Bella'. Ele deveria estar muito fora de si para escorregar assim, já fazia tantos anos que não ouvia o apelido sair de seus lábios...
Sirius sempre foi mais inteligente que os garotos da sua idade, mas a inteligência veio com uma arrogância e uma vontade de desafiar as regras que a irritava e assustava. Ele estava constantemente enfrentando seus pais, brigando com Reg e gritando com Monstro, e quanto mais perto de primeiro de setembro chegava, mais Sirius parecia irritado. Felizmente com ela ele era só Sirius, a pessoa especial dela.
Bella não sabia como iria se despedir dele quando chegasse a hora de embarcar para Hogwarts.
Ela não queria ir sem ele. Ela queria abandonar a casa escura e cheia de cabeças de elfos domésticos – sério, quem teve essa ideia brilhante? Elfos são para servir, não para ser lembrados -, os gritos da tia Walburga, ter sua mãe sempre por perto, sempre atenta, sempre esperando para corrigi-la (todos diziam que ela era uma cópia de sua mãe, e Bella sentia que Druella não gostava de ter um 'eu' seu mais novo e mais brilhante do que ela havia sido tomando os holofotes dela – Andrômeda sempre foi muito estranha e nunca chamou atenção e Narcisa era muito jovem e delicada demais, quase quebradiça, Bella sempre foi o destaque desde seus primeiros sinais de magia). Ela queria explorar o castelo, ver os quadros, mostrar aos outros quem era ela, queria tudo o que Hogwarts prometia.
Mas ela não queria deixar Sírius.
Apenas o pensamento de vê-lo somente nos feriados e férias de verão por dois anos inteiros a deixava aflita. O ela faria sem ele? Com quem ela exploraria? Em quem ela se apoiaria?
"Bella?"
"Oi, Siri." Ela estava sentada em sua cama, os pés pequenos balançando para frente e para trás nos sapatos de couro muito brilhantes e muito caros. Sirius entrou parecendo qualquer um, menos ele mesmo. Toda a raiva que o impulsionava nas últimas semanas parecia ter ido embora.
"Não vou com você para a estação."
"O que?" A cabeça de Bella levantou-se rápido, a dor no pescoço causada pelo movimento brusco era insignificante perto da dor que as palavras dele causaram "Por quê? Sirius, você não pode fazer isso!"
"Eu não quero que você vá!" A boca dele tremeu e o nariz ficou vermelho e Bella pensou que ele fosse chorar e tudo bem, ela estava começando a sentir uma dor nos olhos que lhe disse que ela poderia começar a chorar também "Eu não quero que você vá, tá legal? Por que você tem que ir? Por que você não pode pedir para ficar comigo aqui?"
"Eu tenho que ir, Siri. Eu tenho que aprender, ser uma grande bruxa. Não posso ficar. Eu queria que você pudesse ir comigo, mas eu tenho que ir." Respirando fundo, Bella tentou lembrar das palavras que seu tio lhe dissera quando conversaram. Órion Black havia falado com ela pessoalmente sobre seu relacionamento com Sirius, pediu para ela agir de forma madura, como a moça de onze anos de idade que ela era, pois ele sabia que Sirius e ela eram os melhores amigos do mundo inteiro e eles ficariam tristes quando ela partisse, mas que ela tinha que ir.
"Não quero te ver ir enquanto eu fico aqui com eles. Não é justo."
"Mas logo você vai estar em Hogwarts comigo e eu vou te mostrar todos os lugares legais e eu vou deixar alguns para a gente explorar juntos! A Sonserina só vai estar completa com você lá. Vai passar rápido, você vai ver!" Mentira. Dois anos pareciam uma eternidade para ela.
"Mentirosa"
"Bella! Bellatrix! É hora de ir, querida! Vamos!" A voz de sua mãe parecia muito alta mesmo vindo do andar de baixo.
"Por favor Sirius, por favor, vamos até a estação! Por favor!"
"Não posso, Bella." Ele estava chorando agora. O rosto todo vermelho do esforço de tentar se conter, o cinza dos olhos brilhando das lágrimas. Ele chegou mais perto quando ela se levantou da cama "Mas eu vou sentir sua falta cada hora e cada dia aqui sem você!"
Bellatrix negaria no futuro, mas o sentimento súbito de que nada mais seria o mesmo a partir daquele momento a deixou em pânico e em um segundo ela estava abraçando o primo. "Eu vou escrever para você todos os dias! Não vou esquecer de você nunca!"
As duas crianças se abraçaram com força e a menina desejou poder ficar, desejou que o tempo parasse e ela não deixasse sua outra metade para trás. Desejou, acima de tudo, que esse sentimento ruim de que nada seria o mesmo desaparecesse, ficasse esquecido assim como todos os pesadelos que ela teve durante a infância, apenas uma parte de algo que não existe fora de sua imaginação. Fechou os olhos sentindo o choro de Sirius o fazer tremer e desejou poder acreditar.
