CAPÍTULO 2 – TREINAMENTO (PARTE 1)

"Queridos Okami-san e Taisho, como vão?

Gostaria de agradece-los mais uma vez por me indicarem o templo Risshaku-ji! Apesar de chover muito nesta época do ano, a paisagem a partir do Godaido é sempre deslumbrante! Mas tenho certeza que vocês sabem disso...

Estou muito bem instalada na casa de Akemi-san. Vocês não me disseram que Akio-san era o filho mais novo dela, apenas que ela teve quatro filhos que eram o orgulho do vilarejo. Bem, não sei se vocês sabem, mas Akio-san está casado e muito feliz! Ele tem três filhos, sendo que os dois mais novos querem prosseguir com as tradições do vilarejo. Incrível, não? Inclusive a mais nova, Ayumi-chan, é visitada por sacerdotes do mundo todo por seu incrível talento mediúnico. Ela não pode saber que eu estou falando dela como 'Ayumi-chan', já que faz questão que eu a chame de 'Ayumi-sensei', então este será nosso segredo. Na verdade, a pequena prodígio é minha tutora no templo, e disse que não vai me deixar partir enquanto eu não aprender a controlar meu ki!

Talvez demore um pouco.

Meu treinamento começa antes do sol nascer, mas eu nunca reclamarei disso; subir a montanha enquanto a cidade está vazia é um privilégio. Eu durmo na casa de Akemi-san, ao pé da montanha, mas passo o dia treinando no templo principal. Tudo começa com a subida ao templo, onde eu faço a limpeza antes mesmo do desjejum. Quando eu termino e os primeiros turistas começam a aparecer, já é hora de me recolher à parte privativa do santuário, onde Ayumi-chan passa horas comigo tentando me ensinar sobre ki, meditação, purificação e equilíbrio espiritual. O resto do dia eu passo conversando com os demais moradores e fazendo pequenas tarefas, retornando à casa de Akemi-san quando anoitece.

Assistimos televisão juntas todas as noites. Ela é fã de Tsuruga Ren.

Voltando ao meu treinamento no templo, acho que eu sou uma péssima aluna. Posso saber pela frequência com que Ayumi-chan fica irritada. Akio-san me disse que ela é muito sensível a um ki desorganizado, comparável a um maestro em relação ao som de um instrumento desafinado, só que em maior nível. Akio-san é o sacerdote principal, mas ele mesmo admite não ter o dom que a filha tem. O que ela faz naturalmente ele só consegue com muito esforço e concentração, e como é muito ocupado com os afazeres do sacerdócio, Ayumi-chan assumiu o papel de ser minha tutora. Madura, não? E só tem oito anos!

Eu fiquei comovida pela forma como todos se dispuseram a me ajudar mesmo antes de saberem da minha conexão com vocês. Por isso, entendo o motivo de vocês terem sugerido Yamadera como um bom lugar para se encontrar respostas.

Okami-san, Taisho, se me permitirem a ousadia, acho que vocês estão com uma imagem errada a respeito da reação do vilarejo à fuga de vocês. Todas as pessoas que encontrei se mostraram saudosas e preocupadas, ávidas por qualquer tipo de informação que eu pudesse fornecer. Akemi-san me contou que alguns membros da comunidade realmente tentaram difama-los, mas eram pessoas ressentidas pelo fato de nunca terem tido coragem de partir.

A minoria. Nas palavras dela, "barril vazio produz mais som", então, ela não se surpreendeu com o fato de que vocês apenas ficaram sabendo das coisas maldosas que eles disseram. A maioria, ao contrário, entendeu todo o acontecimento como um pedido de ajuda de uma geração farta de ter o próprio destino controlado. Farta do isolamento cultural. Logo os membros mais importantes da comunidade começaram a se reunir para reavaliar como proteger a tradição sem restringir os sonhos dos habitantes. Decidiram pelo fim dos casamentos arranjados. A comunidade começou a se abrir, e com isso muitos casais que queriam uma vida mais sossegada passaram a fixar residência em Yamagata, a trabalhar para o Risshaku-ji e a incorporar a cultura de Yamadera. Atualmente, o que sobrou da comunidade original defende que é mais valioso ter membros novos inseridos na cultura local por vontade própria, do que os antigos membros que só cumprem a tradição por se sentirem obrigados.

Akio-san se casou com uma mulher que veio de Tóquio com os pais doentes. Procuravam um local menos movimentado para passarem os últimos anos de vida. Fico pensando sobre os sinais que vocês me falaram... Se não fosse o escândalo da fuga de vocês, a comunidade não revisaria seus conceitos; não haveria abertura, Akio-san não conheceria a esposa e Ayumi-chan, a grande promessa de Yamadera, não teria nascido.

Taisho, muito obrigada por ter segurado firme a mão de Okami-san.

Yamagata floresceu muito nos vinte anos em que vocês estiveram fora, ao ponto de Yamadera se tornar um ponto turístico. Mesmo os habitantes que sentem falta da calmaria de antigamente concordam que a comunidade estaria fadada ao fracasso se não tivesse optado pela abertura. Akio-san tem as mãos sempre ocupadas mantendo a ordem de tudo, mas ele me disse que faria questão de reservar um tempo especial para vocês, caso vocês façam uma visita.

Obviamente, depende de vocês. Mas eu torço para vê-los em breve!

Com amor, Kyoko".

Okami-san relia pela décima vez a carta de Kyoko quando recebeu a visita de Sho. O rapaz não conseguia disfarçar a irritação por ter que se deslocar até o Darumaya para conseguir falar com a garota. "Não há como evitar, a inútil não atende minhas ligações!".

O cantor estava passando pelo constrangimento de pensar em Kyoko a todo instante. Primeiro, seus pais haviam ligado para informar que estavam com data marcada para chegar em Tóquio. De jeito nenhum ele enfrentaria os dois sem a escolta da "favorita" deles. E de jeito nenhum ele admitiria a própria covardia em voz alta.

Segundo, o presidente da Akatoki fora procura-lo por ter deduzido o envolvimento pessoal entre ele e Kyoko a partir da foto do beijo que o paparazzi enviara aos presidentes das respectivas agências. "Não acredito que ele quer contrata-la, agora que ficou sabendo que a idiota não pertence mais à LME! O que ela tem de especial, afinal?".

Em terceiro lugar, Lory errara ao acreditar que ninguém fizera a conexão entre a melancolia de Ren e o desaparecimento de Kyoko. "Se Tsuruga está agindo como um cachorro chutado, ela foi embora sem lhe dar uma chance. Deve ter percebido que o amava. Mas então, ela iria para Kyoto como me prometeu, e se ela estivesse lá, meus pais não estariam vindo para Tóquio. A menos que Tsuruga tenha feito algo para irrita-la ao ponto de querer ir embora de Tóquio, mas não para Kyoto, mas neste caso ela iria odiá-lo ainda mais do que me odeia, e eu perderia meu espaço no coração dela. Argh! Que confusão! Será que ela se apaixonou por outra pessoa? Por isso eu detesto mulheres estúpidas que só pensam em romance! Onde aquela idiota se enfiou?".

Sho não queria admitir que estava ansioso por tudo que estava acontecendo. Não conseguia discernir o que considerava pior: ela desaparecer sem deixar vestígios ou ela admitir que estava apaixonada pelo "medíocre ator superestimado". Quando recebeu a ligação dos pais, sentiu alívio ao deduzir que Kyoko não estava com eles, significando que não estava apaixonada por Ren, apenas para se preocupar em seguida com o paradeiro dela. "E por que ela sumiria assim, sem me dizer nada? Como ela ousa desistir do desafio que me fez e partir como se eu não significasse coisa alguma?".

Foi nesse estado de nervos que ele adentrou o Darumaya e se deparou com Okami-san enxugando as lágrimas e lendo uma carta. Reconheceu a letra de imediato. "Onde ela está?", perguntou sem rodeios ou modos.