CAPÍTULO 3 – VERDADES DOEM (COMO CHUTES NOS BAGOS)
Da cozinha do Darumaya, Taisho ouve a voz de Okami conversando com alguém. Intrigado pela identidade do visitante, já que não esperavam alguém àquela hora, seca as mãos em seu avental e se dirige à sala de refeições dos clientes.
"... sumiu deixando meus pais muito preocupados. E agora eles estão em Tóquio exigindo que eu os leve até ela. Esta carta é dela, não é? Eu reconheço a letra, diga-me onde ela está!". Taisho apenas acompanhara uma parte do que Sho, muito estressado, dizia, mas não foi difícil concluir o que estava acontecendo. Colocou a mão sobre o ombro da esposa e pediu a ela para continuar o que ele estava fazendo na cozinha. "Eu cuido da situação", garantiu ele quando a esposa relutou em sair.
Taisho sabia bem que sua esposa possuía o tipo de coração generoso que se deixa levar facilmente. Do tipo que ele tinha a impressão que o jovem à sua frente estava acostumado a manipular. Taisho vinha de uma família de sacerdotes, afinal de contas, e apesar de não ser exatamente um médium, tinha uma intuição muito aguçada. Sho tivera sorte de falar apenas com a Okami das outras vezes que viera; sorte que não iria se repetir.
O cantor sentiu-se desanimar assim que o senhor taciturno apareceu. Era óbvio que haveria mais pessoas no Darumaya além de Kyoko e Okami, mas ele não esperava que fosse um homem tão ameaçador. Tão... paternal. Okami era fácil de lidar, mas o homem diante de si pertencia ao grupo que Sho mais temia: protetor, irritadiço e habilidoso com instrumentos cortantes.
"Diga-me a que veio"
"Errr... Kyoko, ela... prometeu que encontraria meus pais quando eles viessem a Tóquio, mas agora ela sumiu e eles estão muito preocupados"
Como Taisho apenas permanecia calado e observando com olhos de falcão, Sho continuou a falar, cada vez mais desconfortável.
"Entenda, senhor. Meus pais criaram Kyoko como se fosse filha!". Adicionou uma boa dose de dramaticidade à voz. "Já vi que com esse eu vou ter que usar todos os meus recursos!"
"Se aquela garota tivesse sido criada como filha por alguém, certamente hoje ela não seria tão carente".
Sho é tomado de susto pelo comentário de Taisho. Sempre considerou Kyoko uma afortunada por ter sido criada pela família dele, e tal pensamento sempre contribuiu para lhe convencer de que ela era uma propriedade, afinal, tudo que seus pais sempre fizeram foi lhe dar presentes. Coisas que ele queria. Mas agora aquele homem estava plantando sementes incômodas em sua cabeça, fazendo-o refletir sobre as diferenças na criação que ele e Kyoko tiveram.
Às vezes bastam algumas poucas palavras de um homem sábio.
"O senhor está falando de coisas que não sabe! Kyoko foi muito bem tratada e tem a obrigação de ser leal e grata à família Fuwa!"
"Você não teria a mesma obrigação, garoto?"
Na mosca. Sho dá um passo para trás para recuperar o equilíbrio. Sentia como se tivesse levado um golpe do homem parado com os braços cruzados diante de si. Se Sho realmente acreditasse que Kyoko fora criada como filha pela família dele, e que deveria ser grata e obediente pelo resto da vida por conta disso, quão grato e obediente não deveria ser ele, por ter recebido muito mais que ela?
"Não... não éramos iguais". Sho, perplexo, dava-se conta naquele momento do que sempre estivera óbvio: Kyoko trabalhara no ryoukan Fuwa desde os seis anos de idade. As tarefas dela somente aumentaram com o passar dos anos, mas a garota nunca fora paga. Ele não poderia sequer dizer que ela trabalhava pelo abrigo, comida e escola, já que Saena sempre pagou pelas despesas dela. Por dez anos de sua vida, Kyoko foi menos até que uma empregada, pois essas recebiam salários e férias, enquanto a garota, até nos momentos de folga, precisava entretê-lo.
Tudo que Kyoko queria eram elogios. Reconhecimento. Um lugar no mundo. Enquanto ele tinha tudo isso, não precisava se preocupar com nada além de passar os dias fazendo o que queria: convivendo com os amigos, com as namoradas, tocando guitarra e compondo músicas. Dissera a Kyoko que ela era simplória e sem sonhos. Mas que outro sonho era permitido a ela ter, se estava batalhando pelo mínimo existencial? Não estar só, não ser abandonada, estas eram as preocupações de Kyoko. Preocupações que ele nunca teve.
Colocou a mão na cabeça; seus pensamentos desgovernados chegavam perigosamente perto do dia em que eles fugiram para Tóquio. Lembrou como fizera a proposta para que ela o acompanhasse, certo que ela diria sim. Certo que não sobreviveria sem o apoio de alguém para se preocupar com todo o resto enquanto ele se concentrava somente na música. Para continuar fazendo em Tóquio o que fazia em Kyoto, faltaria apenas Kyoko, e ele sabia que ela não recusaria se ele a oferecesse exatamente o que ela queria: um lugar no mundo.
"Ela não passa de uma empregada", ele mesmo dissera a Shoko. Então, por que estava ele naquele exato momento enfrentando aquele homem ameaçador, decidido a encontrar Kyoko? Por que fazia ele tanta questão de saber onde e como ela estava, e o mesmo ocorria aos seus pais?
Eram perguntas que ele ainda demoraria meses para encontrar as respostas. No momento, Taisho se cansava de observar o garoto tentar sair da armadilha que ele próprio criara e encerrava o assunto. Respirou fundo, porque havia muito tempo que ele não falava tanto e de uma vez só.
"Eu vi quando Kyoko escreveu uma mensagem para avisar alguém sobre a viagem dela. Imagino que tenha escrito muitas outras. Mas não avisou você e isso me diz muita coisa. Como também me diz muita coisa o fato dela ter jogado fora um cartaz enorme seu que estava no quarto dela. Eu consigo pensar em poucos motivos para uma garota jogar fora o cartaz de um rapaz, ainda por cima amigo de infância, e todos são péssimos. Portanto, não direi a você, nem a qualquer pessoa que venha perguntar, onde ela está. Se seus pais quiserem vir falar conosco, serão muito bem-vindos. Poderei garantir a eles que Kyoko está bem e sendo tratada como membro da família onde ela está. Agora voltarei aos meus afazeres; você conhece o caminho da saída".
Sho voltou ao carro completamente aturdido. No seu entendimento o dia estava desastroso e injusto: praticamente enfrentara um touro, que agora ele chamava de "pai da Kyoko" e que o deixara plenamente confuso, com pensamentos que ele não queria ter, muito menos aprofundar; seus pais haviam chegado e ele não sabia onde Kyoko estava; e as únicas pessoas que pareciam ter as respostas se recusavam a falar. "Espera um momento... Únicas pessoas, não! Aquele homem disse que Kyoko enviou uma mensagem a alguém... Tsuruga!".
Enquanto Sho planejava fazer a sua segunda grande estupidez do dia, que era basicamente despejar sua frustração quanto à primeira grande estupidez sobre alguém, do outro lado da rua uma figura anônima falava ao celular.
"Não, pela cara ele não conseguiu descobrir. E parece ter levado uns bons chutes nos bagos". Risos. "Ok, ficarei de olho".
N/A – Ok, talvez eu tenha ficado um pouquinho feliz escrevendo este capítulo. Eu sempre quis ver como o Sho se sairia enfrentando uma figura paterna (por algum motivo eu sempre o imaginei como o tipo de cara que termina o namoro assim que a garota diz que os pais querem conhece-lo), e quem melhor que o Taisho para o trabalho?
