CAPÍTULO 4 – CONFRONTOS (PARTE 4)
Como um viciado em recuperação, Ren estava vivendo um dia de cada vez. Fazia apenas duas semanas desde a partida de Kyoko, mas o ator sentia como se coubesse uma vida inteira nesse período. Ou coisa nenhuma. Experienciava um daqueles momentos icônicos em que várias situações inesperadas ocorrem, mas nenhuma delas era o que ele mais desejava, então era como se nada estivesse acontecendo.
Ela não havia voltado. Ele ouviu e leu o nome dela em todos os lugares: na surpresa dos telespectadores sobre ela ser Bo, quando a postagem descuidada dos irmãos Ishibashi divulgou ao mundo a identidade do mascote; nos corredores e backstages dos canais de televisão, quando produtores e diretores passaram a procura-la freneticamente; nas entrelinhas das infindáveis entrevistas que ele deu, quando o Japão inteiro quis saber o que estava acontecendo com Tsuruga Ren e qual a identidade de seu amor proibido; e em cada uma das sessões que ele teve com a doutora Hamada, já que ele sempre se lembrava de que se não fosse por Kyoko, provavelmente ele não teria aceitado procurar ajuda profissional.
Sim, cabia uma vida inteira naquelas duas semanas e ele tinha o próprio cansaço para confirmar isso. Mas ela não havia voltado, então era como se nada tivesse acontecido.
Ele estava a poucos dias de enfrentar a estreia de Tragic Mark. Sozinho, completamente sozinho. Como também seria sozinho que ele enfrentaria a coletiva de imprensa para desvendar a identidade de Cain Heel alguns dias após a estreia do filme. "Um homem interpretando um ator japonês interpretando um ator inglês interpretando um assassino em série". Ren sabia bem que somente mostraria ao mundo quem era o ator japonês; o homem ele estava guardando para mostrar a Kyoko, quando ela retornasse. "Quando ela retornar, quando ela retornar, quando ela retornar", entoava como se fosse um mantra; precisava disso para se convencer que a palavra chave era "quando", e não "se".
Ao final de mais uma entrevista, em que ele novamente garantira ao público que seu ânimo era devido apenas a cansaço, nada tendo de relação com um sentimento platônico por uma mulher casada, Ren suspirou aliviado por finalmente poder desfrutar de uma pausa em seu camarim antes do próximo compromisso, até ouvir a voz agitada de Yashiro explicando que até as pausas de Tsuruga Ren eram estrategicamente planejadas e que qualquer tipo de conversa, por mais breve que prometesse ser, deveria ser previamente agendada.
De alguma forma, antes mesmo de conseguir ver o rosto ou ouvir a voz da pessoa que interpelava o agente em busca de um momento com Ren, o ator já sabia de quem se tratava. "Demorou mais tempo do que eu previa", pensou resignado ao ver sua preciosa chance de descanso escoar pelo ralo. Dando seu melhor sorriso falso, respirou fundo e preparou-se mentalmente para colocar em prática todo o autocontrole que estava desenvolvendo na psicoterapia.
"Fuwa-san, que surpresa agradável. A que devo a honra de sua visita?".
O cantor parecia verdadeiramente furioso. "Ótimo, com fúria eu sei lidar melhor do que com aquele arrogante sorriso vitorioso".
"Dispenso o seu sarcasmo, Tsuruga. Você sabe muito bem por que estou aqui!".
"Sho, fale baixo! Onde estão seus modos?"
Somente então Ren percebeu que a agente estava com o cantor, segurando-lhe pelo braço. "Como se isso fosse capaz de impedir Fuwa de fazer algo estúpido..."
"Agente-san, boa tarde! Percebo que continua incapaz de fazer seu trabalho corretamente!", disse Ren a Shoko com um sorriso brilhante, fazendo questão de demonstrar que não sabia o nome da mulher. Nem queria saber. Apenas se satisfez com a expressão chocada que recebeu em resposta.
"Ren, eu não acho que isso seja...", tentou interferir Yashiro.
"Não a culpe pelo que eu faço!", esbravejou Sho, interrompendo Yashiro e tentando defender Shoko.
"Claro que não! Eu dei esta impressão?", respondeu Ren dramaticamente, colocando a mão no peito e aparentando estar profundamente arrependido. E imediatamente endurecendo a expressão, prosseguiu. "Eu culpo somente você, Fuwa, pelas coisas que você faz. E a você, agente-san, eu confiro sua devida parcela de culpa por ser negligente e não conseguir separar o pessoal do profissional".
Ao ouvir essas palavras, Shoko solta o braço de Sho e dá um passo para trás, aturdida. O cantor parecia prestes a desferir todo o arsenal de impropérios conhecidos pela humanidade, e mais alguns que ele pretendia criar de improviso, quando o sorriso cansado de Ren desarma a todos.
"Fuwa-san, eu tenho mesmo alguns minutos de folga. Por que não conversamos em meu camarim? Parece que, dessa vez, nós dois temos interesse nessa conversa".
Ren simplesmente começou a andar, certo de que os três o seguiriam. Fazia uma prece silenciosa para que conseguisse conduzir a conversa de maneira satisfatória, de forma a obter as informações que precisava e, quem sabe, não transformar o rosto do cantor em uma massa disforme. Sho fazia questão de deixar sua irritação clara a cada passo que dava. Yashiro somente repetia mentalmente "má ideia, má ideia", enquanto torcia para que os dois, ator e cantor, conseguissem manter um mínimo de civilidade. Shoko era a última da fila e praticamente arrastava os pés, perguntando-se quão pessoal Ren sabia que era o relacionamento dela com Sho.
Ao chegarem, Ren pediu aos agentes que esperassem do lado de fora, na sala de café, pois o assunto que havia para tratar com Sho era meramente pessoal. O cantor irritou-se ao se dar conta da forma como todos pareciam simplesmente obedecer ao que Ren falava; depois, irritou-se mais ao perceber que nem sabia que existia um camarim tão confortável quanto aquele. "Então é assim que tratam esse ator medíocre?", pensou inconformado.
"Muito bem, Fuwa, estamos a sós. Diga o que veio dizer"
"Sem rodeios? Ótimo, então!". "Onde ela está?"
"Oh. O que o faz acreditar que eu saiba?"
"Não foda comigo, Tsuruga! O pai dela disse que ela mandou uma mensagem a alguém antes de partir!"
Ren observava com satisfação como o rapaz parecia prestes a espumar pela boca. Os punhos fechados, o centro de gravidade ligeiramente abaixado, pronto para desferir um ataque. "Ira, pura ira. O que foi mesmo que Hamada-san disse sobre a ira? 'Quando você não a controla, ela controla você'. Perfeito, consigo ver com clareza: ele já está descontrolado e nem percebe".
Ren era, afinal de contas, um lutador habilidoso. Sabia muito bem que ter controle mental em qualquer disputa era um trunfo. Às vezes vencia o mais forte, às vezes o mais habilidoso; ali, venceria o mais controlado. Quem tivesse melhores condições de analisar as informações verbais e não verbais que o outro fornecesse, já que os dois disputavam tudo que estivesse relacionado a Kyoko e nenhum deles estava disposto a reconhecer derrota.
Observando Sho, Ren teve uma epifania. "Lidar com ele é como... lidar com Kuon! Um Kuon enfurecido e confuso! Sim, posso ver claramente. Posso ME ver claramente!". Respirou fundo. Quanto mais furioso Sho ficasse, mais ele revelaria. E nada deixaria Sho mais furioso do que não conseguir irritar Ren. "Eu sei disso, porque o que mais me enfurecia era quando não me levavam a sério. Quando eu os ameaçava e eles não retrocediam, acreditando que tinham uma vantagem sobre mim". Com tais constatações, Ren percebeu que sabia exatamente o que fazer.
"Por 'pai dela' eu suponho que você esteja se referindo ao Taisho. Muito apropriado, tenho que conceder isso a você".
"Por que esse maldito está tão calmo?", pensava Sho. Ren estava certo: nada enfurecia mais o cantor que a sua sobriedade.
"Mas você está enganado numa coisa", continuou Ren. "Eu não sei onde ela está".
"Você está mentindo! Aquela idiota nunca iria embora sem lhe dizer para onde!". Em sua fúria, Sho acabava por revelar a seu rival que estava ciente da importância de Ren no coração de Kyoko. Por mais que ele quisesse se enganar quanto a isso; por mais que ele tenha tentado se convencer que não, o inconsciente de Sho o levara até ali, ao camarim de Tsuruga Ren, para procurar informações sobre Kyoko, a amiga de infância que ele desprezara, a garota cujo coração e mente ele se convencera de que dominava. Se era ele a maior autoridade quando o assunto era Kyoko, por que estava procurando informações com Ren, então?
Sho percebeu instantaneamente que havia revelado bem mais do que pretendia, e não só para o ator, mas também para si mesmo. Estava evidente no sorriso enlevado de Ren, que ele enxergava com os olhos arregalados de assombro.
Ren viu a expressão assustada de Sho se transformar em um esgar de ódio, mas não se importou. Estava tão satisfeito com o desenrolar dos acontecimentos, que nada poderia estragar seu contentamento. Nem mesmo a enxurrada de bobagens que deixou a boca do cantor logo em seguida.
"Você acha que conseguiu alguma coisa apenas porque aquela estúpida lhe deu um pouco de consideração? Você é um sujeito muito patético por se encantar por tão pouco! Aquela idiota me pertence! Ela é minha propriedade!"
A expressão extasiada de Ren se converteu em uma expressão irônica quando o ator não perdeu tempo em rebater. "É tão sua que partiu sem lhe dar qualquer satisfação".
De tão furioso, Sho já não conseguia mais falar sem cuspir, fazendo Kuon se perguntar se ele próprio parecia tão patético quando perdia o controle. "Cante vitória enquanto pode, seu maldito! Por enquanto você só se alimentou das sobras que caíram da minha mesa, como o cão que você é, mas assim que eu a encontrar, farei questão de lembra-la a quem ela pertence! Eu vou AAAAAAHHHHHHHH!".
Ao grito de Sho, Yashiro e Shoko invadem o camarim e se deparam com Sho de cara no chão, com Ren segurando-o nesta posição por um joelho em suas costas, uma mão em sua nunca e a outra mão torcendo o braço direito do cantor. A expressão de Ren era furiosa, mas a voz estava completamente calma quando o ator falou.
"Meu erro foi aturar demais a sua boca suja denegrindo uma pessoa tão superior a você. Falarei apenas uma vez, Fuwa: nunca mais ameace Kyoko. Esteja grato a ela pelo fato de que não quebrarei seu braço". E com um movimento fluido, levantou o cantor e o arremessou em direção a Shoko.
"Isso é um absurdo!"
"Mas o que está acontecendo?"
"Seu maldito, eu vou acabar com você!"
A situação prometia evoluir para um pandemônio, até os agentes finalmente intervirem e darem um basta. Shoko ficou diante de Sho, impedindo-o de avançar sobre Ren e empurrando-o porta afora, enquanto Yashiro se posicionou diante de Ren, perguntando-se como o ator poderia estar plácido como um lago no inverno, protegendo-o de qualquer possível investida de Sho. Não que ele achasse realmente necessário, pois estava óbvio quem perderia em uma briga entre os dois, mas ainda assim Yashiro queria evitar uma troca de socos. Do jeito que a situação estava, era possível impedir que a cena deixasse o camarim e chegasse à mídia, o que seria quase impossível de acontecer se os dois artistas consagrados se engalfinhassem de vez.
Parecia que Shoko havia conseguido transmitir exatamente aquela informação a Sho, já que o rapaz parara de se debater tão logo atravessaram a sala de café e alcançaram o corredor, deixando os três aliviados e ligeiramente impressionados que o cantor tivesse aquele nível de profissionalismo, afinal de contas. Tal profissionalismo, contudo, apenas impediria que ele prejudicasse a própria imagem; Shoko sabia, e com razão, que o garoto ficaria dias com um humor péssimo. Conviver com ele publicamente já seria ruim, mas pelo menos os outros entenderiam como peculiaridades de artistas e relevariam, mas privadamente a convivência com Sho seria absolutamente desagradável, e desta vez ela teria que lidar sozinha com o problema. "Onde está Kyoko, afinal?", choramingou em pensamento, lamentando o fato de que não conseguiria soltar a 'fera' sobre a garota para fazer o que quer que ele fizesse com ela que sempre o fazia retornar para casa apaziguado e com ânimo para o trabalho.
No camarim, Yashiro, ajeitando o terno, olha para Ren, que apenas o olha de volta e sorri.
"Você parece extremamente satisfeito consigo mesmo. Sua expressão lembra o meu gato, quando conseguiu engolir um canário".
Seguindo o exemplo do agente, Ren também realinha as próprias roupas, mas não dá outra resposta ao comentário de Yashiro além de alargar o sorriso.
"Então", continuou o agente, "qual foi a sensação de colocar aquele merdinha no lugar dele?"
Ren demorou apenas um segundo para se recobrar do linguajar inesperado de Yashiro. Um segundo apenas, para se lembrar do fato de que Yashiro sabia o que Sho havia feito a Kyoko, pois a garota mesma lhe contara. Olharam-se e dividiram um sorriso cúmplice.
A resposta de Ren não poderia ser outra. "Maravilhosa!"
N/A – Eu tenho vários capítulos chamados "CONFRONTOS" porque realmente os considero importantes. Notem que em cada um deles algo realmente significativo aconteceu: novos limites foram estabelecidos, sentimentos foram revelados e compreensões foram alcançadas. Calculo que esta fic terá pelo menos mais dois confrontos. Até lá!
