CAPÍTULO 5 – A VIDA SEGUE SEU RUMO
À estreia de Tragic Mark seguiu-se a revelação de Cain Heel como Tsuruga Ren, para assombro tanto da equipe de filmagem quanto dos telespectadores. O respeito que o ator já possuía no mundo do entretenimento apenas aumentou com mais uma faceta descoberta – sua capacidade de interpretar vilões aterrorizantes – mas entre o público a opinião se dividia: enquanto Ren adquiria alguns seguidores dentre os aficionados por suspense e terror, uma boa parcela da audiência feminina, especialmente aquela mais "adocicada" que se agradava mais dos papéis de protagonista do ator, recusavam a nova imagem que Ren adquirira.
Tal fato, somado à crescente popularidade de Hiromune Koga em "Lotus", garantiria ao ator o tão sonhado primeiro lugar na lista dos solteiros mais cobiçados do Japão no ano seguinte, deixando Tsuruga Ren em segundo lugar e Fuwa Sho em terceiro.
Ele não poderia se importar menos com a perda da coroa, mesmo se tentasse. A Ren nunca interessou ser cobiçado, muito menos por sua aparência. Enquanto estivesse satisfeito com o trabalho, e este fosse reconhecido, estaria feliz. A importância que dava ao próprio físico se limitava a manter-se forte e flexível e chamar atenção suficiente para conseguir trabalhos como modelo e ator.
Murasame Taira, ao saber com o resto da equipe sobre a verdadeira identidade de Cain Heel, não perdera tempo em perguntar quem seria Setsuka Heel, afinal. Era como se a única relevância da identidade de Cain fosse o fato de que Setsu também era uma invenção.
Ren sentia o sangue pulsar sempre que lembrava a expressão esperançosa de Taira ao indaga-lo sobre Setsu. Fora a única vez em que Ren ficara feliz por Kyoko estar bem longe dali. Taira, por sua vez, conectava o nome "Kyoko" a "Mio" e "Natsu" com a facilidade de um ator bem informado que se mantinha atualizado sobre o mundo do show business. "Aquela garota é ainda mais interessante do que eu imaginava! Não só atuou duas vilãs completamente diferentes em sequência, como ainda deu vida a um mascote amigável e a uma ninfeta gótica!".
Mal sabia Taira que as chances dele eram ainda piores com Tsuruga Ren no páreo do que eram com Cain Heel.
As horas se convertiam em dias, os dias em semanas e as semanas em meses. Logo o nome de Kyoko esfriou e a vida seguiu seu curso normal para a LME. Novos talentos surgiam enquanto outros se consolidavam e outros se debatiam para permanecer ao sol. Ren prosseguia com sua agenda lotada e com as sessões da doutora Hamada, que ficara muito contente ao ouvir o relato do ator sobre seu último confronto com Sho.
Quando deu por si, era dezembro. Lembrou-se que apenas um ano antes estava encomendando o presente de aniversário de Kyoko. "Faz apenas um ano? Parece que foi em outra vida...". Conversando com o presidente, descobriu que Maria passaria o aniversário e o natal com o pai nos Estados Unidos, então a festa do ano passado não se repetiria. "Nem poderia, já que a responsável não está aqui", era o pensamento compartilhado entre Ren e Lory. No íntimo, Ren guardava a esperança de que Kyoko surpreenderia a todos retornando no dia de seu aniversário, mas assim como todos os outros dias, 25 de dezembro também passou.
Trabalho e Hamada, Hamada e trabalho. A vida de Ren seguia a galope, até que seu 22º aniversário também chegou, e com ele uma nova esperança de um sinal de vida de Kyoko.
Nada.
Ren sentia-se passar por vários sentimentos: raiva, frustração, ansiedade, medo, impotência. Foi a doutora Hamada que o alertara para o fato de que tudo aquilo, que era novo para ele e vivido por apenas um ano, Juliena e Kuu sentiam há sete anos. Quantos aniversários e natais ele também ignorara sem sequer uma ligação para os pais?
"A vida passou rápido para você, mas para seus pais, que aguardam o seu retorno, é provável que ainda estejam vivendo o mesmo suspense que você sente agora".
Ren se deu conta, então, como era diferente estar naquela situação. Quantas vezes ele acordara no meio da noite com ímpetos de revirar o mundo atrás de Kyoko, apenas para lamentar o fato de que não era isso o que ela queria, o que ela precisava? Mal conseguia cogitar como deveria ser para seus pais, que sabiam seu paradeiro mas estavam impossibilitados de ir até ele por conta da condição que ele impusera.
"Você prometeu que voltaria por suas próprias forças, não é mesmo? Quando finalmente se tornasse o filho que eles se orgulhariam de ter. Mas em que momento eles disseram não aceitar você? Kuon, você impôs uma condição para retornar a seus pais e fez isso sozinho. Para ser capaz de olha-los nos olhos. Mas de que maneira ser tão bem-sucedido quanto seu pai fará de você um homem digno? Haveria indignidade se você fosse um cinegrafista ou contrarregra? Ou se você sequer pertencesse ao show business, como um assistente de cozinha ou policial? Você deixaria de reencontrar Kyoko se ela não ingressasse no show business, mas se ela não voltar a ser uma atriz e se tornar uma garçonete, por exemplo, você deixará de ama-la? Dirá que ela é indigna de você?"
Ren percebia, aos poucos, que sua ignorância no amor o levara a assumir conclusões equivocadas quanto ao que deveria fazer. Não, Kuu jamais quis que Kuon rivalizasse com ele. Pelo contrário, sempre o apoiou em tudo e o elogiou até mesmo por tarefas mundanas e corriqueiras. Sua necessidade de sair da sombra do pai se devia exclusivamente à maledicência das pessoas invejosas que nada sabiam sobre ele e sua família. Pessoas que não suportavam a felicidade e o sucesso deles porque isso as lembravam do quanto eram infelizes. Pessoas que, enfim, não mereciam sequer um segundo de atenção.
"Aceitei as provocações", concluía ele. "Aceitei as provocações e comprei cada uma das brigas que me venderam. Permiti que pessoas desimportantes contaminassem minha mente e me manipulassem através da minha ira!", constatava impressionado.
"Não seja tão duro consigo mesmo, Kuon. Você era uma criança. Estava sozinho, confuso e rodeado por covardes que se aproveitaram da sua vulnerabilidade. Era uma péssima combinação, fadada ao fracasso. Eu lembro de Lory falando sobre você naquela idade, como ele elogiava seu coração gentil e caridoso! Posso ver muito daquele menino que Lory descrevia no homem de agora. Tentaram sufoca-lo, Kuon; tentaram diminui-lo não porque você era um Hizuri, mas porque você tinha algo que pessoas mesquinhas não suportam, e por um momento acredito que conseguiram. Você foi rebaixado ao mais baixo dos níveis e se comportou como eles. Mas você não é um deles, meu jovem. E a maior prova disso está no seu arrependimento. Você consegue imaginar qualquer um deles se arrependendo com sinceridade pelo que fizeram a você? Pode apostar que assim que as feridas deles cicatrizaram, procuraram outra pessoa para vitimar. Você, por outro lado, procurou redenção. Eles fizeram você cair ao nível deles, Kuon; mas jamais poderiam fazê-lo permanecer lá. E não poderão alcança-lo agora, que não é mais uma criança solitária e inexperiente".
Ao discurso inflamado da doutora Hamada, Ren destinou várias horas de reflexão. Até que finalmente decidiu, por ter sentido na pele a dor do afastamento de uma pessoa amada e pelos novos significados que dava ao doloroso passado, fazer uma visita aos seus pais.
