CAPÍTULO 7 – CONFRONTOS (PARTE 6)
Ren não poderia mais adiar o reencontro com seus pais. O que também significava o reencontro consigo mesmo. Não poderia; não após sentir na carne como era doloroso permanecer impassível diante do afastamento voluntário de um ente querido.
Quantas vezes perdera o controle no consultório da doutora Hamada? Quantas vezes quase destruíra a cadeira em que sentava, quando se levantava de ímpeto e esbravejava que iria encontrar Kyoko e traze-la de volta, faze-la entender que o lugar dela era ali, ao lado das pessoas que a amavam. Ao lado dele.
A terapeuta nunca perdia a calma nesses momentos. Nunca sequer se sobressaltava. Dirigia-se a ele como se fosse uma criança birrenta, e não um homem com o dobro do seu tamanho e pelo menos três vezes a sua força, em pleno descontrole. Não, tudo que a doutora precisava dizer era que ele esperaria Kyoko retornar, exatamente como seus pais esperavam o retorno dele. Esperaria, porque a amava; exatamente como seus pais o esperavam porque o amavam.
Foi necessário enfrentar Sho para que visse a si mesmo e entendesse que parte da animosidade que sentia em relação ao cantor se devia à sua recusa em aceitar Kuon. Foi necessária a partida de Kyoko para que ele compreendesse a dor que estava infligindo a seus pais. Agora, sentia-se pronto. Após passar o último ano deixando Kuon correr livre e solto no consultório da terapeuta, Ren aceitava que precisava se reconciliar com o passado para se fundir com seu outro eu e se tornarem um. Faltava apenas uma peça fundamental, que era o retorno ao momento em que Kuon abrira mão de si mesmo para se tornar Tsuruga Ren.
Falou com o presidente, que novamente recrutou Ten para transforma-lo em Kuon. Levou consigo algumas perucas, afinal, não queria que sua chegada aos Estados Unidos fosse notada, muito menos que fizessem a conexão entre a saída de Ren do Japão e a chegada de Kuon na América. Seria trabalhoso fazer várias trocas de disfarces e assumir vários personagens diferentes, mas valeria a pena. E ele era um excelente ator, diga-se de passagem.
Sua chegada foi uma surpresa ao casal Hizuri. Kuu abrira a porta com a intenção de dar uma surra no espertalhão que se fazia passar por Kuon no interfone da residência, apenas para deparar-se com o sorriso que conhecia tão bem e tanta falta lhe fizera nos últimos anos. Julie atirou-se sobre o filho e passou vários minutos soluçando em seu peito antes de ser finalmente removida por Kuu, afinal, havia muita coisa que precisavam conversar.
Conversaram sobre tudo e sobre nada. Pediram desculpas e desculparam-se. Aceitaram que cada um fez o que julgava melhor, e se fracassos ocorreram, pelo menos resultaram em aprendizado. Contaram sobre as carreiras e Ren pôde constatar o que já previra: independentemente de prêmios, indicações e bilheterias, Tsuruga Ren era o ator favorito de Hizuri Kuu e Julienna. O fato de ser Kyoko a atriz favorita de ambos fez o coração de Ren apertar.
"Ela vai voltar, meu filho. Ninguém com aquela determinação e talento assustadores desiste da atuação. E quando voltar, estará assombrosa!", afirmara Kuu.
Ren queria acreditar que sim. Mas como o assunto lhe doesse e não fosse aquele o motivo que o trouxera até ali, tratou de mudar o caminho da conversa para um terreno não menos perigoso: Rick. Não foi surpresa descobrir que Tina havia se graduado em moda, afinal, era isso que ela estudava quando a conheceu; mas foi um choque descobrir que ela trabalhava para a concorrente direta de Julie nos Estados Unidos.
"Eu ofereci emprego a ela, mas ela recusou", Julie tentara se explicar. "Sim, eu aposto que ela odeia absolutamente tudo que tenha a ver comigo", pensou Ren resignado.
Na manhã seguinte ele fez exatamente o que o impulsivo e destemido Kuon faria: foi ao local de trabalho de Tina para tentar conversar com ela. "Ela não vai me odiar menos se eu for atencioso; no mínimo ficará ainda mais irritada se parecer que estou tentando amolece-la com amenidades...", ponderou Ren.
Quando disseram a ela que o senhor Tsuruga estava aguardando na recepção da agência para falar com ela, Tina soube muito bem de quem se tratava e não perdeu tempo em ir atende-lo.
"Finalmente você veio. Eu o esperava mais cedo!"
Uma sobrancelha erguida foi a única resposta do homem diante de si.
"Por favor, venha comigo. Aqui não é lugar para termos essa conversa"
Levou-o ao que parecia ser o escritório dela, e após se desculpar pela bagunça em um claro gesto automático, afinal, Ren podia dizer que ela não lamentava coisa alguma, Tina se reservou alguns momentos para observa-lo dos pés à cabeça. Ele apenas se deixou observar; aliás, ele a deixaria esmurra-lo, se quisesse, então o escrutínio não era de todo ruim. Quando ela finalmente falou, não poderia tê-lo surpreendido mais.
"Sabe, eu recrutaria você para ser nosso modelo, mas tenho certeza que Julie teria a preferência".
O assombro evidente em Ren fez Tina abrir um largo sorriso.
"Você pensou que eu não reconheceria você? Achou que eu não perceberia que você está copiando Rick?"
O assombro de Ren apenas aumentou. Por mais ridículo que fosse admitir, ele mesmo não se dera conta de que estava imitando Rick! Apenas se apegou à vontade de suprimir Kuon, e para tanto criou um personagem capaz de fazê-lo, então pensando com calma não seria estranho que seu subconsciente o tenha induzido a copiar a aparência de seu falecido amigo.
"As roupas que está usando, o colar, o corte e a cor do cabelo, a cor dos olhos, até o velho relógio... você é uma cópia de Rick. Mas a postura e o jeito de andar são seus, Kuon. Eu perdi o seu paradeiro quando você foi ao Japão, mas desde que Tragic Mark se tornou internacional, e eu o vi se revelando como Cain Heel, descobri que Tsuruga Ren era Hizuri Kuon".
"Tina, por favor..."
"Não se preocupe, eu não tenho intenção de revela-lo. Você fará isso se e quando quiser. Mas diga-me, todo esse segredo é por conta de Rick?"
Ao sinal afirmativo de Ren, Tina ficou muito séria.
"Isso não é bom, Kuon. Nada bom"
"Tina, eu vim aqui pedir perdão". Como a mulher apenas o olhava, Ren continuou. "Eu sei que eu a privei de ter um futuro com o homem que você amava. Eu sei que para você eu não passo de um assassino e que você tem todo o direito de me odiar e de não querer contato com tudo que diga respeito a mim, mas por favor, não se feche aos meus pais. Eles sentem a sua falta! Qualquer punição que queira me dar, diga e eu aceitarei; só não posso lhe dar o que envolver outras pessoas, mas qualquer outra coisa, diga e eu farei. Eu..."
Ao perceber a mão estendida de Tina, em um gesto universal que pede pausa, Ren imediatamente interrompe seu discurso.
"Não existe limite para sua prepotência, Kuon?"
"Hum?", pergunta ele estupefato.
"Meu Deus! Eu consigo entender você vir até aqui e interromper o meu trabalho sem marcar uma hora, mas esse monte de bobagens que você está dizendo... francamente! A vida não parou porque você foi embora, Kuon! A morte de Rick está longe de ser a única tragédia que aconteceu no mundo! A mera insinuação de que tudo se resume a um acidente é absurda!".
Ren não entendia, não conseguia entender. Ela estava furiosa com ele ou não? Ela o tinha perdoado ou não? Acidente? Ela chamava o que acontecera a Rick de acidente?
"Em primeiro lugar, pare de depender de Rick para tudo! Deixe-o descansar em paz, pelo amor de Deus! Por quanto tempo mais ele terá que ser pretexto e explicação para o que você faz ou deixa de fazer? Por quanto tempo mais ele será sua muleta? Você o carrega por aí o tempo todo, chega a ser mórbido!"
"Mórbido? Eu cheguei ao ponto de ser mórbido?"
"Em segundo lugar, eu não quero seu pedido de perdão. Já imaginou a droga de vida que eu estaria tendo se eu tivesse ficado todos esses anos esperando você aparecer para se desculpar? Não, aposto que não pensou. Aposto que você achou que o tempo parou quando você foi embora e a única expectativa que eu tinha na vida era poder finalmente punir você. Ou ouvir o seu pedido de desculpas, como se você fosse algum maldito ser sobrenatural capaz de restaurar a cor à minha pobre vida com o seu arrependimento. Aqui vai uma novidade para você, Kuon: o mundo não gira a seu redor!"
Ren estava pasmo. Aturdido. Boquiaberto. Chocado.
"Em terceiro lugar, se você tivesse feito perguntas no lugar de simplesmente sair por aí assumindo coisas, eu teria lhe contado que não estou evitando sua família; eu apenas cansei de ficar constrangida pelas milhares de vezes em que eles me olhavam com pena e pediam desculpas em seu lugar".
"Eu não sabia disso. Eu realmente não sabia". "Claro que não, eu nunca perguntei!"
Como se não tivesse sido interrompida, a mulher continuou a falar. "Sabe como é difícil seguir em frente quando todos do seu passado nada fazem além de lembrar os acontecimentos dolorosos? Não, não sabe: você foi embora e criou uma nova vida para si. Mas apesar de ter ficado exatamente onde sempre estive, eu também criei uma nova vida para mim, Kuon, e uma da qual eu me orgulho muito! E como eu não queria pensar que sua mãe estava me oferecendo emprego por pena, recusei o convite dela. Não pense nem por um segundo que eu aceitei esse cargo porque é em uma concorrente direta à sua mãe; eu aceitei porque é uma das melhores empresas de moda da América! Eu já disse que o mundo não gira ao seu redor, Kuon Hizuri?"
Ao sinal afirmativo de Ren, que permanecia aturdido, Tina continuou. "Eu segui em frente, Kuon. Deu trabalho e foi difícil, mas eu segui em frente. Não faça pouco caso de mim; não se atreva a pensar em mim como uma pobre coitada, especialmente depois de eu ter me esforçado tanto para chegar onde cheguei, nem me venha com essa bobagem de ter me privado do meu futuro, porque ninguém tem tanto poder. Estou casada e tenho uma filhinha. Amo minha família e sou uma mulher muito feliz!"
"E eu fico muito feliz em ouvir isso, Tina. Parabéns!"
Realmente ficava. Ren sentia um peso enorme ser removido de seus ombros.
"Obrigada". Um pouco mais calma, Tina prosseguiu. "Eu sei o que eu disse àquela noite, Kuon, e não vou ofender sua inteligência dizendo que me arrependo. Eu estava desesperada e sofrendo como nunca, então falei o que me veio à cabeça. Não vou pedir desculpas por ter sido espontânea, porque é assim que eu sou. Também não vou me culpar caso você tenha sofrido todos esses anos por conta do que eu disse naquela ocasião, já que foi escolha sua não me procurar depois daquilo. Tivesse feito, saberia que não guardo rancor".
Ao ouvir essas palavras, Ren finalmente saiu do estupor. "Você não me culpa pelo que aconteceu a Rick?"
"Eu realmente acho que Rick morreu por sua causa, mas não foi por sua culpa"
"Não é a mesma coisa?"
"Não, Kuon, não é. Você não sabe quantas vezes eu disse a Rick que discordava da forma como ele influenciava você. Sempre lhe dizendo para reagir, para revidar, para se impor. Eu concordava que você precisava sair do lugar em que estava, mas não da forma como Rick incentivava. Eu discordava de como ele mexia com seu brio, com seu orgulho como homem para estimula-lo a combater seus agressores. Eu já previa que era questão de tempo até os conselhos dele e o abuso que você sofria lhe subirem à cabeça e você terminar por fazer algo estúpido e violento. Quando ficamos sabendo que você estava revidando, Rick comemorou; acreditou que finalmente o deixariam em paz. Até ouvir os rumores de que você havia tomado gosto pela violência e estava deixando alguns sujeitos à beira da morte".
Os dois fazem uma pequena pausa, assolados pelas recordações da época.
"Quando Rick veio me dizer que estava arrependido e que eu tinha razão, recebemos um telefonema falando sobre você ter se transformado em um monstro sanguinário descontrolado. Não perdemos tempo em ir até você. Posso afirmar com segurança que Rick se sentia responsável pelo que estava acontecendo".
"Mas não era culpa dele! Nunca foi culpa de Rick!".
Tina sorriu satisfeita; finalmente Kuon começava a compreender o que ela queria dizer.
"Também acho. Você começou a revidar por causa das recomendações de Rick, mas não foi culpa de Rick que você tenha se descontrolado. Da mesma forma que foi por sua causa que Rick atravessou a rua impetuosamente, mas não foi sua culpa que ele tenha sido atingido por um carro"
Compreensão, a mais perfeita compreensão se abateu sobre Ren. Seu único grande amigo agira imbuído de uma culpa que não lhe pertencia, da mesma forma que ele agia imbuído de uma culpa que também não era sua. A culpa de Rick o guiara até a morte, a culpa de Kuon o guiara até a quase autodestruição. Sorriu, um sorriso aliviado que nunca dera na vida. Finalmente sentia que poderia se perdoar pelo que havia acontecido, não para esquecer a própria responsabilidade nos acontecimentos, mas para aceita-los como eram e seguir em frente, deixando Rick descansar.
"Tina, muito obrigado. Eu vim até aqui imaginando que de alguma forma eu amenizaria a sua dor, mas sairei daqui com um valioso aprendizado. Realmente, eu estava sendo prepotente. Você é, de fato, a mulher extraordinária que Rick sempre falou"
"Não tão rápido, Kuon. Diga-me, quem é ela?"
"Hum?". "Ela não pode estar falando o que eu penso que está falando... pode?"
"Quem é a mulher que conseguiu convence-lo a sair da concha na qual você se enfiou?"
"E o que a faz crer que existe uma mulher?", respondeu Ren com outra pergunta, fazendo um enorme esforço para não retribuir o sorriso malicioso de Tina.
Pela primeira vez no dia, Tina riu com gosto.
"Ora, é como Rick sempre dizia: tudo que você precisa é de alguém especial para espalhar sua mágica e fazer tudo ficar bem!"
Os dois compartilharam um sorriso cúmplice e cuidaram de ficar mais confortáveis. A tarde, que Ren previra ser angustiante, agora prometia ser de uma longa e prazerosa conversa.
N/A – Eu sempre imaginei como Tina seria, mas a julgar pelos flashbacks de Rick, acho que ela é uma pessoa muito enérgica e direta. Foi divertido criar essa surra verbal! XD
