Capítulo 02 – Primeiras Tentativas

O dia seguinte amanheceu com uma nevasca. Durante a noite haviam caído cerca de trinta centímetros de neve. Isso faria as aulas de Trato de Criaturas Mágicas e Herbologia serem canceladas.

Na Torre da Grifinória, Ametista Callaham terminava de se pentear. Seus cabelos, de um castanho intermediário, desciam lisos e levemente repicados até pouco abaixo dos ombros. Seus olhos eram do exato mesmo tom de castanho. Era uma das melhores amigas de Lílian, se não era a melhor, e por isso andava muito preocupada com a ruiva nos últimos tempos.

Como demorara no banho, Amy achava que seria a única pessoa ainda no dormitório. Mas ao sair do banheiro, viu que o cortinado da cama de Lily ainda estava fechado.

-Lily! – Amy abriu as cortinas inundando a cama da amiga de luz – Lily, já são… você está bem? – perguntou ao ouvir um gemido de Lily ao mesmo tempo em que ela cobria os olhos com a mão tentando se proteger da luz

-Acho que minha cabeça vai explodir. – Lily respondeu com a voz fraca.

-Quer ir até Madame Pomfrey? – Amy se abaixou ao lado dela

-Não. Vou só tomar uma poção analgésica e esperar o efeito.

-Você não está pensando em descer para assistir aula, está?

-Não. E não é como se eu tivesse escolha. – a ruiva disse fechando os olhos

-Menos mal. Vou descer e pedir a um elfo doméstico pra trazer alguma coisa pra você comer.

-Hum, hum… Amy, anota a matéria pra mim?

-Anoto. Só se você garantir que vai se cuidar – ela exigiu já perto da porta

-Está bem.

Amy saiu do quarto deixando uma Lílian cambaleante à procura de um fino vidro de poção amarelada em sua frasqueira.

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Ametista chegou em cima da hora para a primeira aula, Transfiguração, e sentou-se à frente de Alice. Mal teve tempo de tirar o livro da mochila e a professora entrou.

-Classe, abram seus livros na página 150 e analisem os esquemas de transformações de seres animados.

Aproximando-se da primeira carteira, McGonnagal perguntou:

-Senhorita Callaham, onde está a senhorita Evans?

-Ela acordou não se sentindo bem, professora. Achou melhor ficar descansando um pouco.

- Muito bem. Se ela não melhorar, diga que vá até a Enfermaria.

-Sim, professora.

Depois que Minerva se afastou, Alice perguntou com a voz baixa:

-O que aconteceu com a Lily?

-Mal conseguiu levantar de tanta dor de cabeça.

-Ela precisa relaxar, está trabalhando demais.

-Eu também acho, mas quem consegue convencer aquela teimosa?

Duas carteiras de distância, fingindo prestar atenção aos esquemas de ratos se transformando em tartarugas, Tiago mantinha o ouvido voltado para a conversa das duas garotas. E em resposta ao comentário de Amy, pensou: "Se tudo der certo, eu consigo".

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Após um tempo de Feitiços, - em que Grifinória e Corvinal assistiam juntas – Alice, Mila e Amy chegaram ao Salão Principal. Viram Lily quase na ponta da mesa.

-Passou a dor de cabeça? – Amy perguntou com ar de preocupação

-Quase. – Lily respondeu – Ainda dói um pouco.

-E por que não ficou no dormitório mais um pouco? – Lice perguntou servindo-se de suco de abóbora

-Não, já perdi aulas demais hoje.

Amy guardou seus protestos para si e o almoço se passou tranquilamente.

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À tarde, na Aula de Defesa Contra as Artes das Trevas, Lílian não conseguia se manter concentrada por muito tempo. Uma hora escutava o professor falar a respeito das maldições recorrentes, outra hora pensava nas aulas da manhã que tinha perdido, outra hora…

Isso se misturava ao fato que a maioria das coisas que ela costumava gostar de fazer (não que sobrasse muito tempo pra elas) estavam se tornando uma sobrecarga.

Além disso, fazia alguns meses que Lily não sabia o que era um fim de semana. Era impressionante como suas tarefas pareciam se multiplicar. Por mais que ela fizesse, o tempo nunca era suficiente. E agora, Lílian começava a fazer tudo mecanicamente, pois tudo se tornava monótono.

De pouco em pouco, as três amigas olhavam para o lado para ver se a ruiva estava bem e tudo o que podiam ver era que ela estava muito cansada.

Na aula seguinte – teórica de Feitiços – Lily começou a sentir palpitação.

"Ótimo, mais uma coisa pra me desconcentrar", pensou.

Tiago observava tudo de longe. Na verdade, ele tirara o dia para observar Evans e ter algumas idéias do que fazer. No entanto, por vezes se esquecia da aposta ao ver aquele rosto tão lindo (enfezado pra ele em boa parte do tempo, é verdade, mas ainda assim, lindo) tão exausto, com olheiras emoldurando olhos sem brilho. E começava a achar que seu plano além de fechar a boca de Sirius acabaria servindo para ajudar aquela ruiva teimosa.

Na última aula do dia (nem dava pra acreditar que era a última), Lílian dividia a mesa da sala de Poções com Mila.

Estava já a cerca de dez minutos picando raízes de cacto quando começou a sentir falta de ar. Mila estava abaixada acendendo o fogo de seu caldeirão e quando levantou e bateu o olho na amiga, a pergunta foi imediata:

-Lily, você está bem?

-Só estou um pouco cansada. – respondeu jogando as raízes no caldeirão com certa dificuldade

-Você está tremendo! Vai até Madame Pomfrey.

-Não, eu…

-Não vou nem considerar essa resposta. – em seguida, levantando a voz, disse – Professor Slughorn, pode me dar licença para levar Lílian até a Ala Hospitalar?

-Claro, claro. Vá, Lílian, cuide-se.

Mila acertou em contar com a consideração que o professor de Poções tinha pela amiga.

-Vamos. – foi tudo o que disse antes de ajudar Lily a se levantar.

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Depois de quinze minutos sentada em uma cama da Ala Hospitalar respirando fundo por orientação de Madame Pomfrey e de mais quinze respondendo perguntas, Lílian escutou da enfermeira:

-Você está estressada, senhorita Evans.

-Estressada? E o que eu faço?

-Bem, a solução é consideravelmente óbvia, mas nem por isso fácil: mudar hábitos. Coisas como dormir mais, passar mais tempo com os amigos, descansar.

-Mas, Madame Pomfrey, não vai dar tempo de fazer tudo.

-Pense assim: fazer o que está fazendo também não está adiantando, só está deixando-a cada vez mais exausta.

-É, eu sei… - disse a garota encostando a cabeça para trás

-Muito bem. – disse a enfermeira entregando-lhe um frasco com uma poção azulada – Antes de dormir, beba isso. Vai acabar com os sintomas físicos e melhorar o sono.

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Cerca de dois dias depois, Lílian estava um pouco mais calma. Um pouco. Conservava ainda certa irritação que agora se unia a um difícil empenho em "mudar seus hábitos". O que ela não imaginava é o que se somaria a tudo isso.

Naquela manhã, Lily estava no Salão Principal adoçando seu chá quando Potter chegou:

-Bom dia.

Tendo certeza de que não era com ela, a garota continuou mexendo o chá.

-Bom dia. – ele repetiu sentando-se na frente dela

Sentindo um olhar sobre si, ela o encarou desconfiada.

-É comigo? – levantou uma sobrancelha

-E com quem mais? – ele disse simpático

-Não. – ela respondeu antes de beber o chá

-Como assim, "não"? – perguntou confuso – Não é um bom dia?

-Não sei o que está aprontando e não estou interessada. – Lily disse em um tom de "ponto final" (pelo menos era terminar esse estranho diálogo o que ela queria que fazer)

-Evans, eu não estou ap… - ele queria dizer com um sorriso, mas foi interrompido

-Potter, me poupe de escutar uma mentira deslavada antes da oito da manhã.

Para evitar qualquer chance de réplica, ela se levantou e saiu.

Dirigindo-se para a sala de Transfiguração, Lílian nem imaginava que aquela não seria a única importunação do dia.

Quanto a Tiago… Bom, ele não esperava conseguir de primeira e não iria desistir. Passando manteiga em uma torrada, pensava em sua próxima tática: perseguição.

Entrando na sala, não teve problemas para sentar na cadeira ao lado de Lílian, ela geralmente sentava sozinha mesmo que as carteiras estivessem organizadas em duplas.

A seguir: tentar diálogo amigável.

-Dia frio hoje, não acha?

Ela olhou para o alto.

-Estamos em janeiro, Potter, o que esperava?

Para a sorte de ambos, McGonnagal entrou nesse momento.

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Após o sinal de término da aula, a garota arrumou suas coisas e saiu. Para sua completa incompreensão, Potter a acompanhou.

-Aula difícil, não foi? – ele disse enquanto caminhavam

-Potter, - ela estacou e já ficando irritada, falou – eu já disse: o que quer que esteja maquinando, não quero saber. Então por que não procura outra cobaia. Me deixa em paz.

Ela voltou a andar acreditando que ele não a acompanharia. Para seu desgosto, viu que estava errada. E a cada esquina que virava e ele virava também, sua impaciência aumentava. Até que teve uma idéia: banheiro.

Apressou o passo até o fim do corredor e entrou na segunda porta à esquerda.

-Ahh... – respirou como alguém que tivesse ficado alguns minutos submerso

Olhou ao redor e viu que estava sozinha. Abriu uma torneira, encheu as mãos de água e jogou no rosto.

-Isso tem de ser um pesadelo.

Em seguida, foi até a janela pra ver se tinha alguma chance de…

-Droga de janela alta. – reclamou

Nessa hora, a porte se abriu e Mila entrou.

-Lily, o que o Potter está fazendo lá fora ao lado da porta?

-Por que eu saberia o que Potter tem na cabeça?

-Porque ele me pediu pra conferir se você ainda estava aqui.

-Ele o quê? – a voz de Lily ficou repentinamente aguda

-O que aconteceu? – Mila perguntou

-Eu sei lá. Ele deu pra me perseguir hoje. Você assistiu o treino de ontem à noite. Por acaso um balaço bateu na cabeça dele?

-Não que eu tenha visto. – ela respondeu em um meio sorriso

-Que seja. Mas é melhor ele parar ou a Ala Hospitalar vai ganhar um paciente.

-Não vai, não. É bem provável que você não esteja a fim de ganhar uma detenção, mesmo em troca de esganar Potter.

-Ahhhhh. – ela bufou, abriu a porta tempestivamente e saiu

Andou dois corredores com o garoto em seus calcanhares até que estacou de novo.

-Quer mesmo me seguir? Como pareço não ter realmente como impedir, você fica por sua conta e risco. – disse com os olhos cintilando de contida irritação

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O dia se passou como um treino para disputa da maratona para Tiago. Querendo manter sua boa educação e não mandando o garoto às favas, Lílian tentava cansá-lo para que desistisse de persegui-la. Passava por aglomerados, mudava de direção o tempo todo e até uma janela do primeiro andar tinha pulado.

Sem contar que resolvera ignorá-lo por completo: não respondia a comentários e perguntas e sequer olhava para ele. Mas ainda assim, ele continuava ao lado dela.

Pouco antes do jantar, Lily pôde exercitar suas respostas ácidas. A caminho do Salão Principal, Tiago começou:

-Evans, eu queria…

-Um curso básico de educação? – ele o interrompeu

-Quem é que está falando em educação? Você nem me deixa falar.

A garota estreitou os olhos antes de dizer:

-Está bem. Em um esforço da minha boa educação, - cruzou os braços – diga.

-Ah, obrigado. Bom, eu queria dizer que acho que podíamos passar mais tempo juntos já que somos da mesma casa e…

-O quê? – ela desviou dele e saiu andando

-Espera! Você não me deixou terminar de… - ele correu e entrou na frente dela

-Nem preciso. – ela o cortou – Eu vou dizer mais uma vez porque parece que você ainda não entendeu, mas é a última vez: eu não sei o que está tramando, mas por gentileza, me deixe fora disso.

Ela tentou se desviar mais uma vez, mas ele a impediu.

-Olha, acho que começamos errado.

-É, até que concordamos em alguma coisa. Você começou errado: tirando a minha paciência. – dizendo isso, saiu

Quase correndo, Lílian chegou ao Salão Principal. Avistou Remo ainda de pé e puxou-o pelo braço, pouco se importando com olhares que se viraram para ela – sua sanidade vinha em primeiro lugar.

-Remo, me faz um favor? – perguntou com certa urgência

-Faço, o que foi?

-Senta ao lado da Mila?

-Sento, claro. – Remo respondeu já sendo empurrado de leve e com certa pressa pela ruiva.

Lily abriu espaço no banco entre Amy e Lice. À sua frente estavam Mila e Remo. Certo. Isso diminuiria as chance de alguém sentar perto dela. Já se servindo de purê de batatas, ela virou-se para o amigo:

-Remo, como eu faço pra me livrar de uma pulga incômoda?

-Hum, essa pulga teria nome? – ele perguntou já imaginando de quem se tratava

-Nome, sobrenome, apelido, cabelos espetados e óculos redondos.

-Então acho que não posso te ajudar. Também não sei como. – sorriu bem humorado

-Você não saberia o porquê essa pulga está me perturbando, saberia?

-Também não, Lily. Pra falar a verdade, também estou curioso.

-Oh, Merlin. – ela suspirou – Tomara que eu consiga jantar em paz

-Acho que isso você pode ficar sossegada. – Lice interferiu – Tiago acabou de sentar na outra ponta da mesa

-Graças! – disse com alívio

-Você sumiu hoje. – Mila comentou

-Eh, estava tentando despistar a pulga, mas pra quem encontra aquela bolinha alada no meio de uma tempestade, me encontrar no castelo não deve ser muito difícil.

Remo partiu um pedaço particularmente grande de bife nessa hora e colocou na boca. Achou desnecessário comentar a existência de um Mapa do Maroto e o detalhe de ele localizar todas as pessoas que estivessem em Hogwarts...

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Mais tarde, quase todos já estavam indo dormir na Torre da Grifinória. Exatamente por esse motivo, Amy estava insistindo com a amiga.

-Lily, você não está pensando em ficar aqui até tarde, está?

-Na verdade, estou.

-Lily, lembra do que Madame Pomfrey falou. Você precisa descansar.

-Eu lembro. E lembro também que eu deveria fazer coisas que gosto. Esse é um livro que quero ler há muito tempo. E como amanhã é sábado, posso acordar mais tarde. Então não vai ter problema eu ir dormir um pouco mais tarde hoje.

-Bem, se é assim… Boa noite. – disse Amy contraindo de leve os lábios

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Tiago observava o Mapa do Maroto contando que logo Evans estaria sozinha no Salão Comunal. E não se enganara.

Pouco depois da meia-noite, Lílian se encontrava sentada no chão, em frente à lareira no meio do segundo capítulo de "Poliana Moça".

"Todavia, nada lhe interessa, nada lhe agrada. Della acha que é hora de tira-la dessa vida sombria…"

Nesse trecho, percebeu a presença de mais alguém. E quando levantou o rosto, viu que Potter sentara ao seu lado.

-Já deu tempo de regenerar uma parte da paciência? – ele perguntou em uma voz suave

Ela mal teve tempo de abrir a boca para protestar quando o viu levantar as duas mãos como em um sinal de rendição.

- Vim em missão de paz.

Lílian estreitou levemente os olhos.

-O que está lendo? – Tiago tentou uma conversa

-Poliana Moça.

-Ah. É bom? - ele perguntou tentando manter a conversa

-Comecei agora. – a garota respondeu quase formalmente

-Hum... E você está melhor? – entrando no assunto que lhe interessava, Tiago redobrou o cuidado com as palavras

-Melhor? – Lily se fez de desentendida

"Ela realmente não ajuda", ele pensou

-Eu vi que esses dias você não se sentiu bem, até saiu mais cedo da aula do Slughorn.

-Ah, isso. Sim. Estou melhor. Obrigada por perguntar. – agradeceu no mesmo tom meramente formal

-Fui visitar você na Ala Hospitalar, mas você já tinha saído. E eu fiquei meio preocupado, então conversei com Madame Pomfrey. Gostaria de te ajudar.

-Gostaria de me ajudar? – ela estreitou os olhos

-Sim.

-Ficou preocupado comigo?

-Fiquei.

-Falou com Madame Pomfrey?

-Falei. Por acaso você sempre repete todas as informações que te falam?

-Ah, não. – disse com um sorriso pseudo-simpático – Geralmente só das fontes que desconfio. Além disso, me desculpe a franqueza, mas não acho que esteja, hum, qualificado pra me ajudar.

-Na verdade, eu acho que posso, sim. Alice disse que você precisa "mudar de hábitos". E não era essa umas das coisas que você costumava jogar na minha cara: que eu não levava a vida a sério? Quem sabe você não me ensina a levar a vida a sério, enquanto eu te ensino a não levar tão a sério.

Quem sabe… Os últimos dois dias tinham sido sofridos com seus constante pequenos fracassos em "mudar de hábitos" como dissera a enfermeira. E se não resolvesse, não conseguiria estudar devidamente. Se essa história de Potter tivesse alguma chance de dar certo, talvez valesse a pena tentar. Mas Lílian Evans não iria dizer simplesmente "sim".

-Eu volto a repetir: - ela falou em seu tom de sempre – você está por sua conta e risco.

-Está bem. – Tiago tentou conter um sorriso de satisfação

Logo depois, Lily foi dormir com um "até amanhã" proferido por Tiago ecoando em seus ouvidos. Tinha alguma coisa errada em tudo aquilo…

N/A

Observações:

Poção analgésica amarelada foi no estilo Paracetamol ou Novalgina mesmo.

O trecho de Poliana Moça de Eleanor H Porter foi escolhido a dedo.

As informações sobre stress são do site .