Capítulo 03 – "Vá a mais lugares"
Ah… Sábado. Um dia que no mínimo, no mínimo não haveria aulas para serem assistidas. Parara de nevar, o dia estava claro e ela estava indo tomar seu café da…
-Bom dia, Evans.
-Ahh! – Lílian estremeceu com o susto
-Desculpe, não era a intenção te assustar. – Tiago disse simpático
-Ah, não. – ela lamentou – Eu tinha tanta esperança que tivesse sido só um pesadelo
-Não, foi real, mesmo. – disse ele displicente – Vamos tomar café? – oferecendo-lhe a mão
-Isso não está acontecendo. – Lily fechou os olhos sacudindo de leve a cabeça
Ela ignorou o gesto de Potter por completo e seguiu para o Salão Principal, onde deveriam estar suas amigas. Seguindo a idéia da noite anterior, Lílian sentou-se entre Amy e Lice, mas como Mila estivesse à mesa da Corvinal, o lugar à sua frente ficara vago – o que Potter pareceu achar bem interessante.
-Aqui, Lily, seu chá de camomila. – Amy passou a ela o bule
-É impressão minha ou você gostou de enfatizar que é de camomila? – a ruiva perguntou bem-humorada
-Não, foi impressão sua. – a amiga respondeu em um meio sorriso
Por alguns instantes, tudo o que se ouviu naquele trecho da mesa foi o tintilar de copos e talheres além do burburinho que vinha do resto do salão.
-Por que está tão quietinha, Lice? – Lily notou
-Frank não escreveu – a amiga mexia cabisbaixa a colher – ele sempre escreve combinando uma hora para nos encontrarmos em Hogsmeade
-Por que você não escreveu? – Amy perguntou
-Eu ia, mas fiquei esperando… e com minha última nota "excelente" em Transfiguração, eu acabei esquecendo. E também, ele deve estar com provas lá na Academia de Aurores, é melhor mesmo ele ficar estudando. …
-Bom, sendo assim, - Amy tentou melhorar a situação – vai ser uma visita a Hogsmeade só de nós três. Você vai, né, Lily?
-Amy não estou muito afim de sair do castelo.
-Mas você não foi da última vez. E não vem com essa história de "não estou afim" porque você sempre gostou de ir ao povoado.
-Amy… - Lily começou, mas foi interrompida
-Claro que ela vai.
As três viraram a cabeça (a ruiva erguendo uma sobrancelha) para algo que até aquele momento era apenas parte da decoração: Tiago.
-O que o faz pensar que eu iria, Potter? – ele perguntou em um tom acidamente suave
-Vamos ver: o fato de você ter de mudar sua rotina. E… ah, sim, se você ficar no castelo será para estudar e me parece que estudar no fim de semana está quase proibido para você. – Tiago despejou sua frase calculada
Após um segundo e lançando ao garoto um olhar penetrante, Lílian respondeu no mesmo tom:
-Muito bem. Um a zero.
Então se levantou acompanhada de duas amigas de olhos arregalados.
Uma vez vendo-a fora do Salão Principal, Tiago sorriu convencido pelo que consideraria a primeira batalha ganha. Mas se ele estivesse menos animado, teria percebido que no olhar de Lily estava embutido que na primeira oportunidade ela deixaria o placar, no mínimo, 1x1.
Minutos depois, as meninas pegavam agasalhos extras. Amy e Lice se arrumavam passando uma maquiagem leve, colocando um brinco mais bonitinho. Já Lílian não se dava a esse trabalho e, em vez disso, tirava um cachecol preto do malão.
-Lily, preto? – Amy torceu o nariz
-Da cor da capa do uniforme, qual o problema?
-Não mesmo. – Alice abriu o malão da ruiva – Vai com o verde.
-Qual a grande diferença entre o verde e o preto? Os dois esquentam.
-O verde é mais colorido, realça os seus olhos. – argumentaram
Não querendo discutir, Lily aceitou a "sugestão".
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Já em Hogsmeade, as três entravam na rua da Dedosdemel, quando uma estrelinha roxa brilhante caiu na frente de Alice chamando a atenção dela.
-O que é isso? – Lice abaixou no chão
Imediatamente a estrela começou a deslizar no chão e ela percebeu que o brilho devia ser por causa de um feitiço.
As três acompanharam de longe o caminho que o objeto fazia passando pelos ladrilhos da rua recém limpa da neve. Cerca de cinqüenta metros depois, um rapaz saiu de trás de uma árvore próxima e a estrelinha 'pulou' em sua mão. Alice abriu um sorriso com a surpresa.
-A gente se vê depois. – Amy falou antes de a amiga correr ao encontro do namorado.
Chegando ao pé do carvalho, Alice o beijou.
-Frank, não sabia que vinha.
-Quis fazer uma surpresa. Gostou?
-Claro. Roxo é minha cor preferida.
-Eu sei, mas gostou só por causa da cor? – fingiu ressentimento
-Claro que não. – ela riu
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Após saborear um chocolate flambado na Dedosdemel, Lily e Amy seguiam para o bar Três Vassouras. A caminhada não era de todo fácil. Além do vento frio ocasional, que fazia o rosto das duas congelar, a neve não havia sido retirada das ruas com muito capricho. Aqui e ali pequenos amontoados brancos podiam esconder buracos ou pedaços de galhos. Em uma dessas raízes parcialmente encobertas, Lily tropeçou e caiu.
Tiago, que estivera seguindo a garota discretamente todo o tempo não perdeu a oportunidade e se adiantou para estender-lhe a mão.
Aceitando a ajuda que lhe era oferecida, Lílian levantou espanando os flocos de neve de sua capa com a mão livre.
Quando ela enfim levantou o rosto, ele parou. Já ouvira que ela era bonita. Ele mesmo dissera isso inúmeras vezes em seu quinto ano. Mas aquilo era diferente. Era mais do que simplesmente falar de sua beleza, era…
Sua face corada do frio e os poucos fios de cabelo que o vento conseguira soltar e que agora dançavam na frente do seu rosto a deixavam linda…
-Ãhn, Potter, será que poderia devolver minha mão?
-Ah, claro, Evans. – Tiago voltou a si soltando a mão dela
Uma vez dentro do Três Vassouras, Tiago estava impaciente: procurava escolher o melhor momento para uma nova abordagem. Mas à mesa estavam sentadas apenas Evans e Amy. E Evans não deixaria a amiga sozinha.
Depois de um tempo tamborilando os dedos no balcão, entraram duas pessoas que, sem querer, ajudaram-no. Frank e Alice, andando de mãos dadas, se aproximaram da mesa das duas grifinórias.
-Oi, Frank. – Amy cumprimentou – Sentem.
Tiago esperou mais alguns minutos se concentrando para ser simpático, mas não demais para não levantar suspeitas. Levantou, deu alguns passos com calma, calculou a voz e disse:
-Evans, você podia vir comigo? Quero te mostrar uma coisa.
Em um movimento muito comum para ela, a garota ergueu uma sobrancelha
-Talvez um outro dia…
-Por favor? – ele tentou mais uma vez
Ela estreitou os olhos e por fim levantou.
-Está bem.
Novamente na rua, e antes que ela pudesse esboçar qualquer reação, Tiago a pegou pela mão e saiu correndo.
-Potter, o que está fazendo? – Lily perguntou com certa dificuldade
-É pra esquentar. Vem.
Passaram pela Casa dos Gritos e viraram à esquerda. Pararam de correr ao subir uma pequena elevação, embora Tiago ainda a puxasse na caminhada.
Tomando cuidado com pedras, galhos e mais neve, os dois chegaram ao topo. Lílian nem percebera o quanto subira preocupada em não cair outra vez. Apenas entendeu que tinham chegado (onde quer que fosse) quando quase colidira com Tiago que brecara repentinamente.
-Então? – ela perguntou
-Evans, me responde uma coisa, sem olhar pra cima. Como está o tempo hoje?
-Quente, Potter. Eu adoro usar cachecóis quando está calor. – disse quase tremendo o queixo de frio e na sua ironia de sempre
-Sim, Evans, - ele conteve-se para não retrucar – eu sei que estamos no inverno. Mas como está o céu hoje?
-Está… - ela começou olhando nos olhos dele – Não me lembro.
-Foi o que eu pensei. Agora olhe em volta.
Lily virou a cabeça com impaciência, mas foi com vislumbre que contemplou a paisagem. Dali se via boa parte do povoado e Hogwarts mais atrás. Ao fundo, colinas.
-Eu não sabia que havia um lugar assim em Hogsmeade. É uma bela vista. – a garota se encolheu um pouco por causa do vento
-Então você gostou? – Tiago tentou provocar uma resposta afirmativa
-É, por incrível que pareça, gostei.
Ah, para Tiago, Evans parecia incapaz de dizer apenas "sim" ou algo semelhante.
-Evans, eu meio que observei você no Três Vassouras e não pude deixar de ouvir umas partes de sua conversa com Amy.
-Não pôde?
-E pelo que entendi, mesmo aqui, você continua com a cabeça no castelo, nas coisas que tem pra fazer. Estou certo?
-E se estiver? Eu estou aqui, não estou? Não estou estudando.
-E o que adianta? Evans, você não descansa.
-Potter, os examinadores dos N.I. não estão preocupados se eu estou estressada ou não. Eles simplesmente vão aplicar as provas.
-Só que o seu método de estudo já se mostrou ineficiente: como você mesma disse, está estressada. Por que não se dá uma chance de tentar outro caminho?
-É fácil falar. – ela desviou os olhos para a paisagem mais uma vez
-Eu não estou só falando. Estou te oferecendo ajuda. Aceita?
-Parece que não vai ter outra solução. – disse mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa ouvir
Tiago se animou internamente ao ouvir isso. Mas para seu desânimo, a garota lançou-lhe um de seus olhares desconfiados ao dizer:
-Eu reafirmo, Potter: está por sua conta e risco.
-Certo. … Vamos ver, que outros lugares de Hogsmeade você não conhece… Já foi a Zonko's?
-Por que eu iria a Zonko's?
-Então, vamos.
-Só se for pra comprar algo para jogar no seu caldeirão na próxima aula do Slughorn.
-Ok, não foi uma boa idéia.
-Uma boa idéia seria sairmos desse frio. Com essas rajadas de vento esporádicas, logo meu sangue vai começar a circular em cubinhos.
Tiago riu de leve. Espera. Aquele tinha sido um comentário bem-humorado em um tom bem-humorado? Pra ele?
Enquanto desciam, o garoto ia perguntando:
-Já viu o Correio?
-Claro.
-Casa de chá da Madame Pudfoot?
-Você não vai me fazer entrar naquele lugar cheio de babadinhos e não sei mais o que. – disse taxativa
-Ok.
Desciam rápido e logo chegaram à Praça de Hogsmeade. Em vez de seguir pela rua principal, Tiago entrou em uma das perpendiculares. Pela expressão de Lílian, ele deduziu que ela nunca tinha andado por ali. O lugar tinha menos aspecto de ponto turístico e mais aspecto de cotidiano.
-Ali fica a Alfaiataria, ali o Mercado Mágico do Povoado… - Tiago ia apontando
A garota a tudo observava com disfarçado interesse.
-À direita fica a livraria do senhor Grant… - ele continuou andando e falando
Demorou alguns instante para o garoto perceber que Lily não o acompanhava mais. Virou para trás e a viu em frente à vitrine da livraria.
Tiago mal chegara ao seu lado quando ela já girava a maçaneta abrindo a porta e fazendo um sininho tocar.
O lugar era bem iluminado, com prateleiras de uma madeira clara. Lily ateve-se em folhear os livros da seção de Poções logo na parte da frente da loja. Entretida, não percebeu um senhor alto, de cabelos brancos, olhos acinzentados e uma expressão suave se aproximar.
-Posso ajudá-la, senhorita? – disse simpático
-Estou apenas dando uma olhada, obrigada. – ela respondeu
-Algum gênero em especial?
-Romances.
-Ah, então venha por aqui.
Lílian o acompanhou até uma das últimas estantes sendo seguida por Tiago. Ali, livros de vários tamanhos, cores e espessuras se misturavam e ela passava os olhos de um título para outro ora retendo-se em algum que lhe chamava atenção.
Tiago afastara-se uns passos procurando algum encantamento interessante nos volumes de Feitiços. Passados uns dez minutos, desviou os olhos para vê-la e permaneceu assim alguns instantes. Seus olhos pareciam esmeraldas vivas percorrendo linhas de sinopses nas contracapas. Seus gestos firmes e ao mesmo tempo macios… Era a mesma sensação de quando a ajudara a se levantar em frente ao Três Vassouras…
Já pensando em ir embora, Lily pegou um livro no canto da prateleira, parcialmente escondido ao lado de um grosso volume de um autor italiano.
-Orgulho e Preconceito. – murmurou
Abrindo a esmo em uma página no meio do livro, leu:
"-Por Deus – disse Lady Catherine -, a senhora exprime sua opinião muito decididamente para uma pessoa tão jovem. Diga-me, quanto anos tem?
-Com três irmãs mais novas já adultas – replicou Elizabeth -, Vossa Excelência não pode esperar que eu lhe dê uma resposta.
Lady Catherine pareceu ficar atônita por não ter recebido uma resposta direta e Elizabeth suspeitou que fora ela a primeira pessoa que jamais ousara ludibriar tão pomposa impertinência."
Aquele era o tipo de resposta que possivelmente a própria Lílian daria. E por esse motivo, Miss Elizabeth Bennet pareceu-lhe uma personagem muito interessante.
-Senhor Grant, - ela levou o livro ao balcão – vou levar este aqui
-Jane Austen? Boa escolha. – o homem disse simpático
Lily não precisou olhar ao lado para saber que Tiago se aproximara.
-É um dos preferidos de minha filha. Espero que goste.
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Saindo para a rua gelada, a garota se assustou ao olhar no relógio.
-Já é tarde. Melhor voltarmos para o castelo.
Ela nem percebera quanto tempo ficara na livraria. E o que era mais interessante, embora cercada de livros, nem por um instante pensara em alguma leitura atrasada de Transfiguração.
No caminho de volta, Tiago tentou se aproximar dela. Quem sabe conseguiria ganhar aquela aposta nesse mesmo dia? Lily, no entanto, inconsciente e automaticamente, se afastava.
De qualquer conversa mais amena, mas pessoal, ela se desviava. O garoto perguntava coisas como "se ela estava gostando do passeio a Hogsmeade" ou "do que ela mais gostava". Mas para seu azar, Lily desconfiava de tudo o que vinha dele e, ou respondia com monossílabos, ou, de alguma forma, simplesmente não respondia.
Os dois se separaram no Salão Comunal. Tiago ficou parado observando Lílian subir a escada esperando que em algum momento ela olhasse para trás numa espécie de "despedida" da tarde agradável que tivera ao lado dele… quem sabe, um sorrisinho… Bom, pelo menos, era o que ele esperava.
Ela, no entanto, nem sequer pensou nisso e seguiu direto para o dormitório. Ao entrar, encontrou Alice e Amy tirando o excesso de agasalhos.
-Você demorou, Lily. Até Lice já chegou e olha que ela estava com Frank.
-Eu perdi a noção do tempo. – Lily explicou tirando o cachecol
-Eu achei que estivesse com Tiago – Alice supôs
-Eu estava com Potter. – a ruiva confirmou
Amy abriu os olhos ao dizer:
-Estava com Tiago e perdeu a noção do tempo?
Lílian abriu seu malão e começou a mexer no lado direito (parte reservada para livros) para guardar "Orgulho e Preconceito" e retirar "Livro Padrão de Feitiços, 7ª série".
-Ele me mostrou uma livraria ali na rua dos Alfaiates. Nunca tinha ido lá.
-Espera. Tiago ficou lá com você? – Alice indagou
-Ficou. O que eu achei bem estranho, aliás.
Amy entendeu o que ela quis dizer. Conhecendo a amiga, sabia que Lily teria ficado bastante tempo entre capas, contracapas e sinopses.
-Eh, estranho. – Amy murmurou para si mesma levemente desconfiada
-Hum… - Alice fez sugestivamente
-O que foi isso, Lice? – Lily a olhou pelo canto dos olhos
-Lily, você já ouviu aquela cantiga: "o cravo brigou com a rosa"?
Entendendo do que se tratava, a ruiva replicou:
-Você deve ter bebido cervejas amanteigadas demais. Uma das melhores coisas que as férias do ano passado me trouxeram foi Potter desistir daquela chatice semanal de me convidar pra sair;
-Ah, vai saber… - Alice começou, mas em seguida riu mostrando que estava brincando
Suas risadas aumentaram ao receber uma travesseirada de Lílian.
-Olha, ela acertou a pontaria pela primeira vez! – e riu outra vez
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Naquela noite, enquanto Pedro ainda não tinha voltado do jantar e antes que Remo chegasse de sua ronda, Sirius perguntava ao amigo em que pé estava a aposta.
-Ela vai dar mais trabalho do que eu esperava, Almofadinhas. – Tiago remexia em seu malão
-É mesmo, Pontas? Então já está se conformando que vai perder? – Sirius provocou
-É claro que não. – Tiago levantou a cabeça por um instante – Eu só disse que seria mais trabalhoso. Ela ficou uma hora em uma livraria hoje. – disse indignado – Uma hora! Mas no fim, deve ficar bom no meu "currículo".
Os dois riam quando a porta do dormitório se abriu e seu monitor preferido entrou. O rapaz pareceu notar algo no rosto deles.
-O que vocês estão aprontando? – perguntou estreitando os olhos
-Planos para a lua cheia, lobinho. Planos para a lua cheia. – Tiago desconversou
Sirius e Tiago tinham achado melhor Remo não ficar sabendo da aposta. Primeiro porque ele jamais concordaria com o conteúdo em si. E segundo porque Lílian era amiga dele.
Remo suspeitava da súbita simpatia de Pontas por Lily, mas a explicação que recebera ao interrogar o amigo foi a mesma dada à ruiva: ele ficou preocupado quando ela passou mal.
O rapaz não engoliu muito a história. O esclarecimento podia até ser plausível, mas sete anos ao lado dos Marotos faziam com que ele olhasse de esguelha para os dois, intimamente desconfiado de algo que ele não sabia bem o que era.
