Capítulo 05 – "Ria mais de si mesmo"

Na manhã seguinte, Lily acordou em cima da hora e acabou chegando à sala das masmorras junto com o professor Slughorn.

-Oh, bom dia, Lílian. – o homem cumprimentou com a cordialidade que reservava para ela

-Bom dia, professor. – ela respondeu com um sorriso

-Está bonita hoje.

-Obrigada.

A ruiva se adiantou para a mesa na qual estava Mila e colocou sua bolsa ao lado do caldeirão.

-Oi, Mila. – disse ainda sorrindo

-Você parece feliz. – a amiga notou

-Eu estou feliz.

A conversa foi interrompida brevemente enquanto Slughorn detalhava as instruções da aula. Minutos depois, começando a picar as raízes de samambaia, Mila voltou ao assunto:

-Aconteceu alguma coisa para essa sua felicidade? – perguntou em um tom característico

-Alguma coisa, o quê?

-Ah, não sei… A última vez que vi você ontem, esta saindo do Salão Principal com Tiago.

-Eu não estava saindo com Potter. Ele me seguiu.

-Mesmo assim…

-Não, não tem nada a ver com Potter. É só… um belo dia.

-Sei...

… … … … … … … … … … … … … … … …

Ao final da aula, Mila se atrasou de propósito para esperar o maroto de olhos castanhos e ar cansado.

-Remo? – ela se aproximou chamando-o de leve

-Oi, Mila.

Os dois se olharam sem jeito por alguns momentos até a garota dizer:

-Então… será que amanhã você podia me ajudar com a matéria de Transfiguração. É que não estou entendendo bem algumas coisas…

-Amanhã não vai dar, Mila. – disse cabisbaixo – Vou viajar hoje à noite. Minha… minha mãe está doente…

-Ah, certo… Então… boa viagem, e melhoras pra sua mãe.

-Obrigado. – Remo disse ao colocar a mochila no ombro e sair para o corredor

"É hoje.", Mila pensou.

… … … … … … … … … … … … … … … …

Mais tarde, naquele mesmo dia, Lílian estava no Salão Comunal, sentada a uma mesinha lendo o livro de Feitiços. Em volta tudo tranquilo, silencioso…

-Oi, Lily. – falou de repente uma voz ao seu ouvido

-Potter! – ela se assustou – Você tem um prazer mórbido em chegar sorrateiramente atrás das pessoas e assustá-las ou é só comigo?

-Hum… especialmente com você, acho.

-Fico lisonjeada. – ela retrucou

-Você prendeu o cabelo de novo? – Tiago constatou o óbvio

-Não, Potter, está solto, não está vendo? – ela já estava num tom muito próximo da ironia habitual.

-Não, acho que preciso aumentar o grau dos meus óculos. Posso estudar aqui com você?

-Você vai estudar?

-De vez em quando faz bem. Posso?

-Se não for me atrapalhar.

-Fechado. – ele disse depressa

Cerca de dez minutos depois, após consultar o relógio, Lily voltou à leitura: "A inflexão da varinha interfere…"

-Lily, é a terceira vez que você olha o relógio.

-Evans. – ela o corrigiu – O que aconteceu com a parte do trato que dizia sobre "não atrapalhar"? – ela disse olhando por cima do livro

-Foi suspensa um pouco.

Ele puxou o braço esquerdo dela e antes que a ruiva pudesse entender o que ele estava fazendo, Tiago já tirara o relógio de seu pulso.

-Potter, o que…? Quantas cervejas amanteigadas você ingeriu hoje?

-Nenhuma.

-Nenhuma. Certo… - ela tentava manter a paciência - E o que faz uma pessoa sóbria arrancar o relógio de outra pessoa assim do nada?

-Não foi "do nada". Já era a terceira vez em dez minutos que você olhava no relógio.

-E o que você tem com isso? – disse indignada

-Isso é tique nervoso, só faz você ficar mais ansiosa se tiver algum horário para cumprir, ou mais entediada se quiser que o tempo passe mais depressa.

-Potter…

Não tendo o que argumentar, a garota se calou por um momento. Em seguida com a voz mais calma:

-Ok, vou tentar checar as horas menos frequentemente. Agora será que poderia devolver meu relógio?

-Não, acho que não. – ele respondeu quase sorrindo.

-Ai. – após pensar um instante, ela lançou sua última idéia. - Troco o cabelo pelo relógio.

-O quê? – ele perguntou surpreso

-Eu solto o cabelo, você me devolve o relógio. – ela propôs

-Então solta.

-Nos fins de semana.

-Então devolvo seu relógio nos fins de semana.

-Meu cabelo me atrapalha pra escrever!

-Seu relógio te atrapalha pra viver.

-Pára com esse discurso de livro de auto-ajuda! … Eu só prendo durante as aulas. – negociou

-E solta no almoço e no jantar.

-Ai, tá. Agora devolve meu relógio. – ela estendeu a mão

-Está certo. – ele entregou o objeto – Como é mesmo o nome? … Ah, Accio piranha.

A presilha se soltou do cabelo de Lily e foi parar na mão de Tiago.

-Ei! – ela reclamou

-Você não está escrevendo, está lendo. – ele concluiu triunfante

Sem ter mais o que argumentar, ela conformou-se:

-A negociação que me pego fazendo…

Se depois disso a ruiva achava que ia conseguir continuar seu capítulo do "Livro Padrão de Feitiços, 7ª série" sem mais interrupções, estava enganada. Quinze minutos depois, Remo descia a escada do dormitório e se aproximava deles.

-Lily, você se importa se eu ficar por aqui?

-Não, Remo, claro que não. – ela desocupou a cadeira ao lado que estava coberta de pergaminhos

-Eu estava lá em cima, mas Sirius começou a arrumar as coisas dele...

-Ah, está explicado. – fez Tiago

-Explicado o quê? – Lily perguntou

-O porquê Remo teve de descer.

-Eu continuo sem entender.

-Lily, funciona mais ou menos assim: - Remo detalhou – Sirius bagunça tudo seis meses e depois resolve de uma hora para outra "organizar". Só que ele não se contenta em fazer isso em silêncio, precisa ficar cantando com a voz esganiçada.

-Céus.

-Ele já chegou ao repertório de bruxo-sertaneja? – Tiago perguntou

-Já. Foi o que me fez sair de lá ainda mais rápido.

Tiago riu. Então teve uma idéia. Levantou-se tirando o livro das mãos de Lílian. Em seguida a fez levantar também e foi puxando-a pelo Salão Comunal.

-Potter, o que... – ela perguntou confusa. E percebendo que ele ia em direção ao dormitório masculino, brecou acrescentando – Existe uma razão genética para eu ficar no dormitório feminino e não no masculino.

-Não precisa entrar se não quiser. Ouvindo atrás da porta vai se divertir do mesmo jeito.

-E se Black nos vir?

-Ele vai adorar ter platéia. Vem. – e tornou a puxá-la

Chegando ao patamar do dormitório do sétimo ano, o garoto parou e, com todo o cuidado pra não fazer barulho, entreabriu a porta.

E do repertório de Caldeirão e Vassourinha vieram os versos:

"A fossa nasce de uma despedida

A fossa é tempestade em nossa vida..."

Lily franziu o rosto, achando graça. Pela pequena abertura puderam ver de passagem Sirius dançando com uma vassoura.

Quando a 'música' terminou, Tiago fingiu bater palmas em silêncio. Aproveitando a deixa, a ruiva murmurou para sua varinha, mal acreditando em sua ousadia:

-Palmadium. – o que fez o som de palmas ser ouvido

-Obrigado, obrigado. – Sirius disse logo antes de abrir a porta e dar de cara com a garota rindo.

-Evans, você por aqui?

-Me disseram que ser repertório era imperdível…

-Modéstia à parte… - ele começou

-Hum, hum. – Tiago interrompeu

-Certo, bem a parte. Ele é mesmo. Oh, onde está a minha educação?

-Você algum dia teve, Almofadinhas?

-Não ligue pra ele. Entre, Evans. – ele a puxou antes que Lily pudesse esboçar reação

De cara, ela pôde vislumbrar objetos espalhados por boa parte do chão e peças de roupa em cima das quatro camas. A vassoura que servia de par a Sirius estava encostada a um canto.

-Posso oferecer alguma coisa?

-Ah, não, Black, já estou de saída…

-Não, você não me faria essa desfeita. – disse ele debochado – Você não veio aqui para escutar música? Então aprecie: - e pegando fôlego ele recomeçou

"Nestas águas tranquila e serena

É a causa da minha paixão

Estas águas roubou-me a morena

Que foi dona do meu coraçãããããõoo..."

Tiago aproveitou para tirá-la para dançar. Ou, pelo menos, tentar.

-Potter, isso é ridículo. – Lily disse enquanto ele tentava fazê-la acompanhar o ritmo.

-Ria mais de si mesma, Evans.

Com a voz desafinada de Sirius e as piadinhas ocasionais do amigo, era impossível não rir. E aos poucos, para seu próprio espanto, Lílian foi se acostumando ao ambiente. Ao cabo de quinze minutos ela já exercia menos resistência às insistências de Tiago.

Logo o juízo a lembrou de que estava no dormitório masculino e que lá embaixo um livro de Feitiços a esperava. Com certo esforço, conseguiu convencer os dois a deixar que ela tornasse a descer.

"Acho que vou acabar perdendo uma aposta.", Sirius pensou.

No Salão Comunal, Lice e Amy dividiam uma mesa próximo às janelas.

-Lice, a Lily está descendo as escadas do dormitório masculino? – Amy perguntou abismada

-Quando cheguei ao Salão Comunal, Tiago estava puxando ela. Tinha alguma coisa a ver com Sirius.

-Desde quando a Lily se deixa ser puxada? – fez Amy

-Desde quando Tiago passa uma hora em uma livraria em Hogsmead? E ainda sem precisar comprar nenhum livro. – acrescentou Lice

-Não acha esse súbita gentileza do Tiago meio suspeita? – perguntou Amy

-Bom, Tiago é um Maroto... Marotos são suspeitos por definição... – ponderou Lice - Mas ele pode só ter cansado de trocar farpas com a Lily.

-Eh... Não tem nada a ver com o assunto, mas você reparou na Mila hoje?

-Ela estava meio estranha, não estava?

-Estava quieta e ao mesmo tempo parecia ansiosa.

-Vai ver que é saudade pelo Remo ter ido viajar... – Lice brincou

-Eh, pode ser... – Amy sorriu

… … … … … … … … … … … … … … … …

Naquele dia, a garota foi para o dormitório mais cedo. Fechou as cortinas em volta de sua cama e lançou um feitiço para que ninguém pudesse abri-las. Olhou mais uma vez em volta para ter certeza de que estava sozinha e abriu a janela. O vento gelado a fez lembrar de jogar um feitiço sobre si para aplacar o frio. Concentrou-se o quanto pôde para se transformar corretamente.

E lá estava ela: um sabiá. Vinte e cinco centímetros de penas de cor parda. Um bico amarelo-escuro e no peito uma plumagem vermelho-ferrugem levemente alaranjado. Desde que descobrira que sua forma animaga era uma ave, ficava observando os pássaros voando. Sendo ainda o fim do inverno, estavam quase no final de fevereiro, basicamente só lhe restavam as corujas entregando a correspondência.

Deu curtos pulinhos batendo as asas para ganhar segurança antes de encolher as pernas e levantar vôo para dentro da noite.

Tendo observado Remo atentamente no mês anterior, imaginava mais ou menos o ponto da floresta em que ele devia ficar, ou pelo menos, passar. Com certa dificuldade pela inexperiência, pousou em um galho razoavelmente baixo de um carvalho. E esperou atenta qualquer movimento.

Cerca de uma hora depois, seu coração deu um salto ao ouvir passos se aproximando. Mas não vinham da floresta e tampouco eram de Remo. Surpresa, ela viu os três Marotos se encaminhando, não podia ser, para o Salgueiro Lutador.

"Eles vão se machucar", pensou.

Antes de entrar na esfera de alcance da árvore, no entanto, os três se transformaram. O sabiá voou para mais perto para ver o que acontecia. Peter Pettigrew sumira de vista e no lugar dos outros dois havia um cachorro e um cervo, mas ela não saberia dizer quem era quem.

Eles continuavam chegando mais perto do salgueiro e ela estava inquieta esperando os galhos os golpearem. Para seu espanto, cada centímetro cúbico da árvore permaneceu imóvel e os dois animagos desapareceram no chão.

Se refazendo do assombro, ela tentou segui-los. Assustou-se quando quase foi atingida por um galho raivoso.

"Mas como…?"

Iria ficar ali esperando… esperando… Lutando contra o sono, ocasionalmente cochilava acordando com um sobressalto logo em seguida.

Perto das quatro da manhã, resolveu voltar para o dormitório. Tentaria entrar, onde quer que fosse, na noite seguinte.

… … … … … … … … … … … … … … … …

No café da manhã, Mila se juntou a suas amigas à mesa da Grifinória.

-Mila, você está com a cara horrível. – Sirius comentou

-Rosto, Sirius, rosto. Quem tem cara é cachorro. Não dormi direito noite passada. – ela respondeu passando geléia em uma torrada – E não pense que suas olheiras estão muito melhores do que as minhas.

-Ah, eu sei que sou lindo de qualquer jeito.

-E modesto acima de tudo. – Amy completou

-Assim você me deixa sem graça. – disse ele

-E eu juro que acredito. – fez Amy

Nesse momento, o Correio chegou trazendo a coruja parda de Lily com uma carta. A garota engasgou com o copo de leite ao ler o conteúdo.

-Cof, cof!

-Lily, está tudo bem? – Amy perguntou

-Depende, cof. Tudo bem com quem, cof?

-Com você, com sua família. – fez a amiga de modo óbvio

-Bom, eu engasguei.

-Essa parte eu percebi por mim mesma...

-Só posso torcer para que meus pais estejam bem, embora não possa esperar muito isso agora que vão ter de aguentar minha irmã provavelmente mais xiliquenta do que de costume.

-Lily, do que você está falando? – perguntou Mila

-Minha irmã vai se casar.

-Isso não é bom? – Alice perguntou

-Depende do momento. Depois que ela se casar, acho que minha casa fica bem mais tranquila, mas até ela se casar, acho que minha casa fica bem mais agitada. Fico feliz de estar aqui, mas coitados dos meus pais...

-Não é possível que ela vá dar tanto trabalho assim.

-Amy, você não conhece Petúnia. E, por sorte, também não conhece o noivo dela.

-Se você diz... – falou Amy – É melhor a gente ir, ou vamos chegar atrasados à primeira aula.

… … … … … … … … … … … … … … … …

Na aula antes do almoço, Lily dividia uma mesa na sala das masmorras com Tiago. A cada aula, Slughorn parecia escolher poções mais difíceis de serem preparadas.

Distraído em observar discretamente a ruiva, o garoto se confundiu e acrescentou no caldeirão raízes de cipó-lunar moídas em vez de picadas, fazendo sua poção emitir vapores esbranquiçados e adquirir um tom amarelado em vez de azul-celeste.

Sua inquietação e seus resmungos atraíram a atenção de Lílian.

-O que aconteceu?

-Acho que errei na hora de colocar as raízes.

-Hum, - disse ela espiando por cima de seu caldeirão – talvez acrescentar folhas secas de espirradeira ajude. Mas dê uma conferida nas últimas páginas do livro. Lá tem concertos para erros comuns. – ela voltou a picar suas raízes de cipó-lunar.

-Como você consegue se lembrar disso? – perguntou admirado

-Poções é minha matéria preferida. – ela deu de ombros

Como Tiago continuasse a resmungar enquanto virava as páginas do livro, Lily comentou:

-Potter, foi um erro à toa. Acontece.

Ele bufou.

-É verdade, para quem está tentando ser uma lenda em Hogwarts, isso deve ser difícil.

-Não estou tentando ser uma lenda.

-Ah, é. Você já é. É o melhor apanhador que Grifinória vê em muito tempo, notas excelentes, número recorde de detenções e, digamos, bastante popular com a parte feminina do castelo em geral.

Espera. Aquilo era um elogio? E, ei… aquilo podia ser uma nota muito, muito sutil de… ciúmes?

-Não quer fazer nada grande? – ele perguntou

-Aquilo que eu tenho de fazer, tento fazer o melhor possível. Pra mim isso é fazer algo grande.

Lílian acrescentou mais três ingredientes em seu caldeirão, aumentou o fogo e contou as vinte mexidas no sentido anti-horário antes de dizer:

-A História não é feita só de nomes famosos. Aliás, se não fossem homens tão grandes como eles nos bastidores, nunca teriam sido grandes. E o que importa se daqui um século vão lembrar seu nome? Importa o que está fazendo agora, em que está transformando sua vida. Se por acaso se lembrarem de você, vai ser conseqüência.

Tiago sentiu um peso no estômago. Um peso que tinha nome: aposta. O que estava fazendo afinal. O que estava acontecendo afinal?

Um mês antes, Evans era a ruiva esquentadinha que conseguia tirá-lo do sério com cada ironia bem construída como só ela parecia capaz e com um tom de fino sarcasmo que parecia reservado exclusivamente para ele.

No início, suportava sua presença e devolvia suas tiradas com gentileza apenas para cativá-la e ganhar logo a aposta que Almofadinhas fizera com ele.

Agora, a companhia dela se tornava cada vez mais agradável, mais espontânea. E quase sem perceber, ele começava a desejar que a aposta durasse cada vez mais para ter, ao menos, uma desculpa para estar perto dela.

-É, você está certa. – Tiago disse por fim, sorrindo internamente por vê-la tão bonita de cabelos soltos mesmo durante a aula

… … … … … … … … … … … … … … … …

N/A – Oi!

O repertório de bruxo-sertanejo de Sirius na verdade é de Milionário e José Rico, coloquei a letra da mesma forma que encontrei no site vagalume. Nada contra música sertaneja, só não é a minha preferida.

Espero que estejam gostando.

Até o próximo capítulo!

Palas