Capítulo II – Irracional

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- I –

A fita amarela e preta demarcava o local, para evitar que curiosos pudessem fazer algum estrago na cena do crime. Era um dos canteiros de lírios do Parque Central, que sempre ficava fechado àquela hora. Nada que pudesse impedir casais mais afoitos de aproveitar as sombras densas das árvores, ou usuários de drogas passarem a madrugada por ali.

O corpo estava estendido no gramado, com os pés e mãos atados e marcas de violência por quase toda extensão de pele. Nu, de bruços, os longos cabelos cor de rosa espalhados por suas costas e grama.

Então, aproximando-se da fita que isolava o local, um casal vinha pelo calçamento. Pularam para dentro do canteiro, o rapaz alto e forte com um cigarro que havia acabado de acender na boca.

-Vai mesmo examinar o corpo com esse cigarro na boca, Shura? – perguntou sua parceira, encarando-o com um certo ar de deboche.

-Algum problema? O chefe não está aqui para me encher o saco.

Resmungando, a jovem caminhou até o corpo e passou a examinar os ferimentos que se estendiam pelas costas e pernas. Hematomas provenientes de pancadas, marcas de queimaduras e cortes, alguns superficiais, outros profundos. Tortura, na certa.

-Me ajude a virar esse cara para cima, Shura.

Com uma careta de insatisfação, Shura abaixou-se até que seus braços alcançassem o corpo e o virou com o rosto para cima. Os olhos cor de mel ainda estavam abertos, com uma expressão de dor e perplexidade. A face também tinha marcas de cortes, assim como os braços, peito e abdômen. E faltava-lhe a orelha direita.

-Odeio esse cheiro de podre misturado à flores... – a jovem policial fez uma careta, torcendo o nariz.

-Estranho para quem não se importa com sangue e outras coisinhas a mais nas roupas, Ângela.

Encarou o parceiro com um olhar de desdém e voltou sua atenção ao corpo, correndo os olhos pelas coxas. E algo lhe chamou atenção na região da virilha do defunto.

-Merda!

-O que foi? – perguntou Shura, ajoelhando-se ao lado da parceira.

-Veja isto aqui, Shura... – ela apontou uma tatuagem – Esse cara era um figurão! A gente tá ferrado dessa vez!

-Não acredito... – Shura comentou consigo mesmo, observando a tatuagem, uma figura de uma sereia enroscada em um tridente e as iniciais JS.

O bastardo era simplesmente um dos homens de confiança do cara mais poderoso da cidade.

- II –

Respirou fundo, seria preciso muita manha e auto controle para conseguir se equilibrar em cima de um salto agulha com a dor latejante que sentia. Aquele idiota sabia bem como castigar suas meninas e ela era sempre seu alvo preferido. Uma estranha relação feita de ódio, atração e muita tensão.

Finalizou a maquiagem, prendeu os cabelos novamente em um coque e amarrou as alças do vestido frente única, vermelho sangue. Estava pronta para mais uma noite de trabalho.

Tentando disfarçar as caretas de dor, passou depressa pela sala onde ele estava. Mas quem disse que conseguiu sair antes que ele a alcançasse?

-É bom que volte com todo dinheiro que conseguir, ouviu bem? A não ser que queira outro castigo, Susan...

-Pode deixar... Quando eu voltar, você terá tudo o que quiser, Máscara da Morte.

Ele a soltou, com um sorriso de satisfação a lhe moldar os lábios. Susan pegou sua bolsa e saiu do apartamento, aquela noite prometia muito dinheiro para si.

Afinal, ela ia de encontro ao braço direito do homem mais poderoso da cidade.

-III-

Naquela noite, o piano estava fechado em seu canto, o palco com todas as suas luzes e holofotes apagados. Não haveria shows, apenas as bebidas, jogos e mulheres, como todos os dias.

Em seu costumeiro lugar no mezanino, comandava seus funcionários, dava ordens e fiscalizava o passeio dela entre os fregueses, atento aos mais afoitos. Aquela morena era sua e de mais ninguém, isto deveria ficar bem claro para todos.

No salão, ela caminhava entre as mesas, cumprimentava um ou outro cliente, sorria para todos. Seu andar sensual prendia a atenção de todos, ainda mais com aquelas pernas bem torneadas à mostra pelo microvestido preto. Sorrindo, ela resolveu subir ao mezanino, ele parou tudo o que fazia para recebê-la.

-Venha cá... – ele disse, afastando a cadeira e indicando que ela sentasse em seu colo.

Com cara de quem tinha segundas e terceiras intenções, a morena se sentou no colo do rapaz, iniciando um beijo quente, daqueles de tirar o fôlego de qualquer um.

-Bebe alguma coisa, Lizzy? – ele perguntou, apartando o beijo e chamando um garçom.

-Uma vodca. Você me parece muito ocupado, querido... Seus negócios tomam todo seu tempo...

-Não faça esse bico, sabe muito bem que por você eu largaria tudo agora e iríamos para meu apartamento.

-E por que não faz isso, Kanon?

-Por que aquele idiota do Scylla vem aqui hoje, resolver uns assuntos pendentes... E eu não posso deixar de recebê-lo, você sabe.

-Sei, tem horas que os seus negócios são mais importantes do que eu, não é mesmo? Com licença...

Lizzy deixou o mezanino depressa, sequer deu tempo a Kanon para se explicar. Nervoso, ele esmurrou a mesa, diversos papéis foram ao chão.

-IV-

O mesmo bar, a mesma mesa... E o mesmo atraso da noite anterior! Aquela idiota fazia aquilo só para provocar, só podia ser isso... Desta vez arrancou a gravata, o calor estava ainda mais infernal naquele maldito lugar!

Pediu uma segunda dose de uísque ao garçom, bem na hora em que ela chegou, desta vez sem o capacete. A passos largos, foi para a mesa onde ele estava e se sentou, pegando o cardápio e escolhendo algo, como se ele não estivesse ali.

-Não tem nada para me dizer, Mary Jane?

-Acho que tenho direito de comer primeiro, não? Estou morrendo de fome.

Ele suspirou, jogando a cabeça para trás. A jovem fez seu pedido, esperou por ele em silêncio e só se dignou a dizer alguma coisa quando o garçom trouxe sua comida.

-Agora sim podemos conversar. O que quer saber, Saga?

-Como assim, o que quero saber? Mandei que fizesse um serviço para mim, lembra-se?

-Claro que lembro... E daí?

-Quero saber com foi, Mary Jane... Quero as provas de que fez tudo do jeito como pedi.

Comendo, ela enfiou a mão no bolso interno da jaqueta e tirou de lá algumas fotos instantâneas e uma caixinha pequena, entregando tudo ao rapaz. Saga sorriu satisfeito, observando as fotos e o conteúdo da caixa, que ainda parecia fresco, já que o sangue não havia secado.

-Mais uma para sua coleção, Saga... Eu só queria saber por que tanta fixação em orelhas...

-V-

Estava compenetrado na leitura de um livro em sua confortável biblioteca. A lareira acesa conferia um ar de nobreza à sala, iluminava a figura masculina de beleza andrógina de tal maneira que parecia um quadro renascentista. O roupão que vestia estava impecavelmente alinhado e engomado, do jeito que gostava.

-Olhando esta cena, até que realmente parece um respeitável catedrático... – disse-lhe uma voz feminina e melodiosa, à porta da biblioteca.

-Não a ouvi chegar.

-Claro, pedi ao seu secretário que não me anunciasse...

A jovem loira entrou pela sala, sentando-se no braço da poltrona. O rapaz deixou o livro de lado e a enlaçou pela cintura, fazendo-a escorregar diretamente para seu colo, beijando-lhe a boca no processo.

-Veio me fazer uma visita de cortesia, Grace?

-Sim e não, meu querido... Vim até aqui confirmar nosso trato... Daqui a uma hora tenho um encontro com o braço direito do meu cliente e preciso ter certeza de sua posição à nosso favor.

-Já lhe disse que terão todo meu apoio neste caso... A absolvição é certa, eu mesmo darei a sentença.

-Ótimo... Sabe que será muito bem recompensado por isso, não é, Afrodite?

-Mal posso esperar por essa recompensa...

-I-

-A gente tá fodido, Shura.. Por que essas merdas só caem na nossa mão?

Nervosa, Ângela andava em círculos em volta da viatura, Shura estava encostado no capô, acabara de acender mais um cigarro. Pensativo, ele jogou a cabeça para trás, soltando a fumaça em círculos para o alto.

-Os caras da corregedoria vão cair matando, o figurão também... A gente tá na roça!

-Fica calma, Ângela... Esses caras da corregedoria são um bando de burocratas que não enxergam nada além de seus crachás... Ninguém vai desconfiar de nada.

-Mas e o Solo? Ele vai vir para cima, você vai ver.

-Pois que venha... Nós vamos investigar esse caso como se fosse um outro qualquer, fica fria. Não vão nos pegar.

Shura falava com tanta convicção que Ângela até parou de andar em círculos. Dando a volta na viatura, ela parou na frente do parceiro, sorrindo para ele. O rapaz a encarou, jogando a bituca do cigarro longe e então a puxou pela cintura, até que os corpos ficaram colados um no outro.

-A gente vai sair limpo dessa, princesa... É só relaxar e deixar as coisas rolarem...

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Sim, aqui está o capítulo II desta fic, devo dizer que me deu um certo trabalho... Personagens apresentadas, respectivos parceiros idem... E daqui para frente, é só bucha atrás de bucha.

Espero que tenham gostado e eu prometo que vou me esforçar para que o próximo capítulo não demore tanto a ser publicado.

Beijos para aqueles que se dispuseram a ler, independente de mandarem reviews ou não.