Parte III

A Senhora das horas – Crime e egoísmo.

Observe o centro da grande roleta que está girando. Há uma espécie de espiral de uma tonalidade de marrom mais escura que a da madeira da roleta. Essa espiral gira tão rapidamente quanto a mesma. Se continuar a olhá-la pode-se até ser hipnotizado. Talvez fosse esse o objetivo daquele símbolo: hipnotizar.

Londres, setembro de 1825

Penitenciária estadual.

O carcereiro atrás do vidro blindado do outro lado das grades abaixou uma alavanca e a grade se abriu, proferindo um ruído característico. Dois agentes carcerários atravessaram o portão segurando um homem loiro pelos braços, cujos pulsos estavam algemados atrás das costas.

– Mas, senhor, tem certeza de que é seguro deixá-la vê-lo? – questionou o carcereiro que se encontrava ao lado da porta da sala de visitas – E se ela quiser se vingar pelo que ele fez?

– Ele terá este fim de qualquer forma – rebateu o supervisor com certo divertimento na voz. – Deixe que ela desconte a sua raiva, contanto que não o mate pois não gostaria de ter que prendê-la – falou observando-a pelo vidro da sala.

Os dois agentes penitenciários aproximaram-se do supervisor, que encarou fixamente o detento. O loiro ergueu a cabeça, demonstrando não se considerar inferior ao senhor que o reprimia.

– Tirem as algemas dele – ordenou o supervisor.

Os subalternos obedeceram e o preso agradeceu mentalmente por isso. Segurou um dos pulsos, eles latejavam de dor.

– Abram a porta – ordenou novamente e a porta foi aberta – Você tem 20 minutos, Malfoy – e um dos agentes o empurrou porta adentro.

Hermione levantou-se imediatamente quando o viu entrar. Ele a encarou estático e seus olhos ameaçaram fugir do olhar dela, estavam inquietos. Era a única parte visível do seu corpo que estava inquieta. O loiro engoliu em seco e deu um passo. Ela se afastou um pouco da cadeira como se o esperasse. Ele seguiu até a cadeira à frente da dela e se sentou, sendo seguido pelo olhar dela.

A jovem se sentou, apoiou as mãos na mesa, que era pequena, e o encarou pendendo o corpo para frente. Os olhos dele se negavam a encará-la. Mas ela não se importou com isso. Analisava os traços do seu rosto. Eles pareciam diferentes, mesmo que fizesse poucos meses que não o via. Seus cabelos loiros estavam presos, haviam crescido. Percebeu olheiras abaixo de seus olhos. Estava mais velho pelo abatimento.

Draco a encarou fazendo-a endireitar a coluna.

– O que faz aqui? – ele perguntou baixinho e desviando o olhar dela.

– O que acha? – ela perguntou cruzando os braços e recostando as costas na cadeira.

– Não sei – respondeu. – Mas você certamente não deveria mais querer me ver. Deveria desejar que eu morresse logo – e virou o rosto.

– Diga-me como – pediu pendendo-se para frente novamente. – Diga-me, Draco. Como?

– Da mesma forma que matei seu pai – rebateu voltando a encará-la.

Seus olhos estavam cheios d'água. Mas não choraria. Ele nunca chorava. Mesmo que as lágrimas brotassem nos seus olhos como agora. Ele não as deixaria cair. Era orgulhoso demais.

– Creio que ela não nutra raiva por ele, senhor – disse o carcereiro.

– É o que parece – respondeu desapontado. – Adoraria vê-lo apanhar dela. Vamos! – e seguiu com o subalterno. – Vocês dois – apontou para os dois agentes. – Fiquem ao lado da porta e, caso algo aconteça, interfiram.

Ela se afastou novamente e começou a retirar lentamente as mãos de cima da mesa. Ele segurou uma delas, fazendo-a encará-lo, e a apertou voltando seus olhos para a mão que segurava.

– Não te culpo pelo que fez, Draco – ela sussurrou abaixando os olhos.

O rapaz a encarou soltando a mão da moça.

– Sei que não – disse. – E isso me irrita e me encanta ao mesmo tempo. Irrita-me porque você deveria me odiar pelo que fiz e me encanta o fato de você ser capaz de me perdoar.

Londres, dezembro de 2007.

Residência dos Malfoy.

Hermione colocava suas coisas dentro das malas sem se preocupar com a arrumação, característica muito presente nela. Queria apenas ir embora dali o mais rápido possível. Ignorava todas as súplicas de Draco e continha, muito dificilmente, as lágrimas que queriam cair. Precisava recuperar o controle.

Ela fez força com as mãos para que a última mala se fechasse. Seu esposo segurou seu braço e a virou para si. Ela o encarou séria, podia ver os olhos dele molhados pelas lágrimas, que ele não permitia que saíssem. Egoísta. Ela não conseguia mais acreditar que ele a amava acima de tudo. Tudo parecia uma mentira bem encenada.

Se ele realmente a amasse ele faria de tudo para que fossem felizes juntos. Tudo! Ele abdicaria de muitas coisas como ela chegou a fazer tantas vezes. Mas ele não deu valor a todo o sacrifício.

Soltou-se dele bruscamente, enxugou uma ou outra lágrima que teimara em cair, pegou as malas e dirigiu-se a porta.

Já era noite e nevava. Hermione odiou o inverno a partir daquele dia. Saiu pela porta rapidamente. Havia esquecido o casaco mas não iría voltar. Deixou que os flocos de neve caíssem em seu corpo causando um choque térmico com a tensão que a envolvia.

Draco a seguiu e não se importou com o frio que lhe cortou a espinha ao pisar do lado de fora da casa.

–Mione? – chamou a seguindo até o carro. – Dê-me outra chance – e ela parou.

A mulher virou-se para ele e o encarou.

–Outra chance? – perguntou. – Mais uma chance?

E os dois ficaram em silêncio por alguns segundos ouvindo apenas o barulho de alguns carros passando pela rua e do vento que carregava os flocos de neve.

–Chega de fingir que eu não quero nada em troca quando faço algo por você – falou com a voz cheia de tristeza. – Chega de dizer para mim mesma que está tudo bem quando na verdade não está. Chega de me doar a você e não obter reconhecimento de sua parte. Eu não queria muito de você, Draco. Acho que ser feliz ao lado de quem se ama não é pedir demais.

–Eu.. eu sinto muito – ele sussurrou sem ter o que dizer.

–Eu o julgaria desumano se não sentisse – ela rebateu.