Outono
Na semana seguinte, as aulas recomeçaram. Hogwarts tinha um clima diferente, a maioria dos sonserinos estava adorando. O professor Snape era agora diretor, e os conhecidos Comensais Alecto e Amycus Carrow lecionavam Poções e a nova disciplina Artes das Trevas. A relação de Crabbe e Goyle com Draco Malfoy também estava ligeiramente estremecida; após o fracasso deste último na tentativa de matar Dumbledore, os Malfoy já não estavam nas graças do Lorde, e os próprios pais dos rapazes os alertaram para não dar muita atenção ao colega fracassado.
Em uma manhã de outubro, após o primeiro mês de aulas, Goyle repentinamente sentiu-se mal durante o desjejum. Sem conseguir se conter, ele se levantou e vomitou tudo o que havia acabado de ingerir sobre Draco, que também se levantou, revoltado e reclamando.
Com o rosto apresentando uma estranha cor esverdeada, o rapaz foi dispensado das aulas da tarde e conduzido até a Ala Hospitalar para ser examinado pela Madame Pomfrey. A competente enfermeira o examinou brevemente, anotando os sintomas.
- Há quanto tempo você tem esses enjôos?
- Algum tempo. Uns dez ou doze dias.
- O que você comeu de estranho ou diferente?
- Nada. Só a maldita comida daqui. Aposto que algum elfo doméstico está tentando me envenenar, só pode ser isso. Mas se eu pego o desgraçado, eu...
- Cale-se, sr. Goyle. Os elfos domésticos não têm acesso aos venenos do castelo. Será que você não tem comido demais?
O rapaz olhou para ela espantado, como se visse um marciano.
- Eu não sabia que dava pra comer demais...
A enfermeira suspirou e olhou para o teto, desanimada.
- Tem mais alguma coisa estranha acontecendo com você?
- Hmm – ele pensou, com visível esforço. – Bom, eu tenho muito sono à tarde, depois do almoço. Isso é meio normal, eu sempre tive. Só que tá ficando uma droga, eu caio dormindo no meio da aula, e já perdi pontos pra Casa por causa disso. Ah, e ontem eu estava descendo da torre de astronomia e fiquei tonto, quase caí. Tive que apoiar no corrimão da escada. O Zabini falou que eu já sou tonto por natureza. Daí eu... bom, eu dei um tapinha amigável nas costas dele e ele se desequilibrou e caiu, a sra. deve ter visto...
Um alarme pareceu soar apenas aos ouvidos da enfermeira. Em sua experiência de tantos anos trabalhando com jovens, já havia ouvido esses sintomas outras vezes, talvez vezes demais. Mas eles eram sempre narrados por garotas! Era a primeira vez que um rapaz... não, não seria possível.
- Sr. Goyle, o sr. fez alguma coisa... estranha... ou diferente durante as férias? Alguma coisa que eu talvez devesse saber?
- Você está o quê? – perguntou Crabbe, visivelmente furioso.
- É isso mesmo que você ouviu. Grávido. Aquela megera da Ala Hospitalar garantiu.
- E você foi contar para ela o que que a gente fez nas férias, seu monte de estrume?
- Epa, que é isso, cara? Eu nem precisei contar nada. Ela me fez mijar em um vidrinho, pingou umas poções no xixi, depois escutou minha barriga com um troço lá e já falou de cara o que eu tinha feito. E ela acertou quase direitinho.
Crabbe andava de um lado para o outro no vestiário. Todos os outros jogadores estavam em campo, exceto ele e Goyle, que havia tirado-o do treino para dizer algo importante.
- Mas como ela adivinhou?
- Ah, cara, sei lá! Só sei que ela falou e eu fiquei sem saída. Confirmei. E agora?
- E agora?! Você tá perguntando pra mim? Sei lá! Eu nem sei como é que isso pode acontecer!
- Bom, - respondeu Goyle, abaixando a voz – você gozou, lembra? Ela disse que é assim que acontece.
Crabbe sentou em um dos bancos de madeira e apoiou a cabeça entre as mãos, desolado.
- Tá bom, besta, eu sei como é que acontece. Só que você é um cara! Um maldito homem! Não dá – ele disse, também diminuindo o tom de voz – pra você engravidar!
- Bom, parece que dá. Pelo menos foi o que a Pomfrey falou – Goyle respondeu.
- Ei, Crabbe, você não vai voltar pro treino? – a cabeça de Vaisey, o novo capitão do time da Sonserina, irrompeu pela porta à procura do jogador ausente. – Esse ano eu quero participar do campeonato, heim?
- Não, eu...
- Sim, ele já vai – interrompeu Goyle, cansado da conversa. – Depois a gente termina o assunto, vai lá jogar.
Sem outra alternativa e apesar de toda a preocupação, Crabbe se ergueu sem falar nada e voltou para a arena.
Na noite daquele mesmo dia, enquanto todos os sonserinos conversavam animados na fria e imponente Sala Comunal, Goyle estava no quarto, aborrecido. Crabbe não o procurara durante o resto da tarde e, pelo jeito, nem procuraria. Ele também ficaria na dele; não ia ficar se jogando para cima do cara que parecia nem ligar pra nada do que tinha acontecido.
A postura distante de Crabbe tornou-se evidente no decorrer dos frios meses de outono. Goyle, sozinho, sentia o peso da criança em seu abdome e evitava participar de atividades físicas exaustivas, de quadribol. Crabbe só se manifestava durante as aulas de Artes das trevas, quando eram obrigados a lançar Maldições Imperdoáveis uns nos outros. Em seu estado, o rapaz certamente não poderia receber um Crucius. No entanto, Crabbe sempre estava por perto para fingir, de modo que o professor Carrow não notasse seu comportamento.
Lançar maldições, no entanto, era muito fácil. Bastava transferir para a varinha toda a raiva e o desgosto que o consumiam por dentro. Logo suas habilidades com as Maldições Imperdoáveis se tornaram conhecidas entre os alunos da escola.
No final do outono, Goyle e Crabbe passavam o mínimo de tempo juntos e já não trocavam mais do que algumas palavras quando estavam sozinhos. Até que chegou o dia de visitar Hogsmeade às vésperas do feriado de natal.
Decidido a mudar essa situação, Goyle compraria um lindo presente cheio de calorias na Dedosdemel e iria procurar por Crabbe. Hogsmeade seria um ótimo lugar, pois poderiam pegar a trilha que levava à Casa dos Gritos e ficar longe de olhares indiscretos.
A vila coberta de neve estava quase deserta. Mesmo os animados alunos de Hogwarts não conseguiam levar vida àquele lugar dominado pelo medo. Primeiro, o rapaz precisou ir até a Trapobelo comprar vestes novas, que não apertassem tanto na barriga. Depois, já na Dedosdemel, a Sra. Flume deu a Goyle tudo o que ele quis sem cobrar nada quando o reconheceu. Ele então aproveitou para pegar mais umas caixinhas de Sapos de Chocolate, porque quase todas as manhãs sentia um desejo absurdo e incontrolável de comer esse tipo de doce, e saiu em busca do amigo.
Ao perguntar no Três Vassouras, Goyle soube que Crabbe havia se afastado rumo à Casa dos Gritos. Sentindo que era a sua chance de se reaproximar do pai da sua criança, o rapaz acelerou o passo pela trilha gelada, estranhando as pegadas confusas que conseguia ver na neve de vez em quando.
Goyle passou silencioso pelo portão aberto da propriedade. Sua intenção era fazer uma surpresa, então se aproximou lentamente da casa e entrou com o maior cuidado que seu corpo pesado permitiu. No assoalho empoeirado, o rapaz viu as marcas de pegadas e se perguntou, confuso, o que Crabbe estaria fazendo ali ao invés de aproveitar a tarde fora da escola.
Sussurros no aposento ao lado alertaram Goyle de onde seu amigo estaria. Mas de nenhuma forma o prepararam para o que ele viu quando entrou no quarto.
Encostado na parede, Crabbe beijava uma garota da Lufa-lufa enquanto enfiava a mão sob sua saia. No chão, os casacos e algumas peças da roupa de ambos formavam uma espécie de tapete onde ele tentava fazê-la se deitar. A garota protestava inutilmente contra as investidas do rapaz:
- Crabbe, pára! O que você tá fazendo?
- Shhhh – respondeu ele, ainda sem perceber que estavam sendo observados. – Vai ser legal, relaxa. Não diga que você não tá gostando... Espera só até ver o que eu tenho guardado aqui pra...
Naquele momento, ele ergueu os olhos e se deparou com Goyle, furioso, na soleira da porta. Com a interrupção brusca da fala de Crabbe, a garota também voltou o olhar para a porta e lançou uma exclamação surpresa.
- Então é isso, né? – disse Goyle, a voz amarga como fel. – É por isso que estamos nos afastando cada vez mais.
Crabbe se ergueu de um pulo, a garota correu para perto da janela.
- Petrificus totalus! – gritou Goyle, enfeitiçando-a. Crabbe agarrou sua camisa rapidamente e cobriu o peito. Suas pupilas dilatadas traíam seu nervosismo, embora quando ele falou, sua voz parecesse calma.
- Goyle, não é nada disso. Escuta, a gente só tava...
- Calaboca! – ele gritou. – Uma garota, Vince. Uma zinha magrela. Você é um sujo covarde, sabia? Eu... eu tenho nojo de você! Tenho o seu filho crescendo na barriga, e você me deixa sozinho o ano inteiro pra sair com... com outra garota! Uma desclassificada que nem é da Sonserina! Uma nojenta que deve ter até o sangue mestiço! – ele respirou fundo e completou com desdém: - Espero que ela te passe uma doença! Imbecil! – Então se virou e saiu da casa, furioso, pisoteando a caixa de doces que havia deixado cair.
Com a partida de Goyle, o feitiço que prendia a garota se desfez.
- Crabbe, o que você tem com aquele seu amigo? Ele falou em filho?? – ela perguntou, espantada.
- Obliviate! – foi a resposta. Crabbe deixou-a ali, sozinha e apalermada, e foi embora para Hogwarts.
