Primavera

Depois da catarse no refeitório, ninguém mais se animou a brincar com a aparência balofa de Gregory Goyle. O rapaz andava incólume pela masmorra, pelos corredores, refeitório ou sala de aulas, sem ser incomodado ou apontado por nenhum dos colegas. Mesmo na sala comunal, todos agora sentiam a presença dele com muito mais intensidade. O respeito nascido do medo era muito maior do que aquele que eles tinham antes.

Na tarde do dia 28 de abril, Goyle estava sentado na Sala Comunal quando Malfoy se aproximou e sentou na poltrona ao lado. Os dois observaram o fogo que ardia constantemente na masmorra gelada, mesmo em plena primavera. Então Draco quebrou o silêncio repentinamente:

- Eu sempre tive inveja de vocês, sabia?

Goyle olhou para ele sem entender.

- É, inveja. Vocês sempre se deram tão bem, sempre foram amigos de verdade. No começo, eu achava que era em torno de mim que essa amizade girava. Hoje eu vejo que não.

- Do que você tá falando? – perguntou Goyle.

- De você e do Crabbe, oras. Eu passei o ano inteiro me perguntando o que aconteceu pra vocês brigarem assim.

- A gente não brigou. Só... sei lá, a gente se afastou. Mas não viaja, Malfoy. Essa conversa tá meio gay pro meu gosto.

Draco se endireitou na cadeira e fechou a cara.

- Ei, não foi nada disso, se liga! Eu só quis dizer que deve ser legal ter alguém tão próximo, com quem você pode sempre contar. Eu nunca tive isso – ele comentou, desanimado, - e acho que nunca terei.

Goyle continuou em silêncio. Sentado em outro sofá, de costas para eles, Crabbe ouvia a conversa também quieto, sem se manifestar.


Aquele exame teoricamente seria o último. Mme. Pomfrey não sabia precisar exatamente o dia da criança nascer porque Goyle não menstruava antes, não havia um ciclo menstrual para ser analizado. Porém, se o bebê fora concebido durante as férias, seu nascimento seria possivelmente em maio. Ou seja, a hora se aproximava.

Goyle transfigurado descansava sobre o leito na Ala Hospitalar, pensando na vida. Com a mão pousada sobre a barriga, ele sentia os movimentos animados do bebê, que chutava e esperneava. Era uma sensação esquisita e, ao mesmo tempo, agradável. Ele alisou a protuberância redonda de seu ventre feminino, sentiu a firmeza do útero sob a camada de gordura. A cada movimento do bebê, sua barriga se esticava para um lado ou para outro.

Seu peito também estava muito diferente do que fora naquela noite com Crabbe. Já eram seios grandes, agora estavam enormes e pesados. Ainda bem que não precisava conviver diariamente com aquela carga, ou não sabia se seria capaz de tolerar. Quando estava transfigurado gostava de passar o tempo todo deitado na maca, pois o peso de seus seios causava-lhe dor nas costas e nos ombros.

Ultimamente ele pensava muito no bebê. O parto era um fantasma que o aterrorizava todas as noites, antes de dormir. Ele ficava ali, na cama, como agora, sentindo o bebê mexer e pensando como ele faria para sair. Será que daria tempo para se transfigurar? E se estivesse junto de outras pessoas? E se Mme. Pomfrey não pudesse atendê-lo por algum motivo?

A enfermeira enfiou a cabeça pela cortina para lembrá-lo que ele deveria andar mais quando transfigurado, apesar do peso dos seios, para que o bebê se ajeitasse para a hora do parto. Xingando-a mentalmente, Goyle se levantou e arriscou uma volta vagarosa ao redor da cama.

Enquanto isso, lá na arena de quadribol, uma falha do batedor da Sonserina que substituíra Goyle na temporada daquele ano permitiu que um balaço acertasse Crabbe diretamente na têmpora, fazendo-o perder os sentidos e cair da vassoura no meio do jogo contra a Lufa-lufa. Levado às pressas para a ala hospitalar, o rapaz estava desacordado e foi deitado sobre uma maca enquanto Mme. Pomfrey o examinava. Ela ministrou-lhe um elixir com cheiro forte e saiu, sabendo que Goyle, transfigurado como garota, caminhava ao redor da cama logo ali ao lado, atrás da cortina.

Crabbe despertou em instantes. Ele estava bem, exceto pela dor na têmpora, e estranhou o fato de estar sozinho na ala hospitalar.

O som de passos atrás da cortina o atraiu. Pensando ser a enfermeira, o rapaz puxou o tecido já decidido a voltar para a partida:

- Eu já estou bem, Mme. Pom...

A voz morreu em seus lábios ao reconhecer a ocupante da ala privativa. Goyle! Ele contemplou demoradamente o corpo da garota, parou em seus seios enormes e ventre protuberante, rotunda e macia como uma vênus de Willendorf.

Goyle enrubesceu ao ver o olhar de Crabbe sobre seu corpo redondo. Apesar de estar vestida, ela rapidamente puxou o lençol tentando se cobrir, mas Crabbe entrou na área delimitada pela pesada cortina e a impediu.

- Goyle... – ele murmurou, sem conseguir afastar os olhos da barriga. – Eu... eu...

- Você o quê? Quer dar licença pra eu me destransfigurar? – ela disse, avançando em direção à varinha que jazia sobre o criado mudo.

- Não! – ele a impediu, segurando seu pulso com firmeza. Então afrouxou a mão e complementou, suavemente: - Por favor, não.

Agora Goyle estava espantada com a reação dele. Jamais imaginara que seu corpo seria admirado daquela forma por Crabbe; durante todos aqueles meses se escondera de todos, ouvindo zombarias e chacotas por causa de seu tamanho, mas agora ele a olhava com admiração e... reverência! Ela abaixou o braço que estava estendido em direção à varinha e olhou Crabbe nos olhos.

- Goyle, eu não sabia... Como você está...

- Gorda? – ele completou, desanimado.

- Linda! Você é a garota mais linda que eu já vi! Será que eu posso... – completou, temendo ofender a garota.

- Pode o quê?

- Ahn... tocar. Tocar a sua barriga?

Goyle sentiu que sua boca se abria, mas nenhum som saiu dela. Tocar sua barriga? Era tudo o que ela queria! Acenou com a cabeça, ainda sem conseguir vocalizar. Aquele nó em sua garganta devia ser o culpado pela voz que insistia em não sair.

As mãos grandes e rudes de Crabbe se insinuaram por dentro da camisa leve da garota e se espalmaram sobre seu ventre macio. Talvez sentindo o toque do pai, o bebê lá dentro deu um chute forte, incomodado pelo peso daquelas mãos grossas. Crabbe e Goyle se entreolharam, espantados e admirados. O rapaz se aproximou mais e moveu as mãos sobre a barriga, como se espalhasse um creme sobre ela. O bebê novamente se mexeu, provocando uma risada nervosa no pai.

- Será que eu estou machucando? – ele comentou assustado, afastando a mão um pouquinho.

- Não – respondeu Goyle, colocando sua mão delicada de garota sobre a dele e empurrando-a de volta para a barriga. – Ele se mexe assim mesmo. Antes era pior, agora a Pomfrey falou que o espaço já é pequeno e por isso que não tá se mexendo tanto.

Os dois jovens ficaram quase um minuto ali parados, apenas sentindo os movimentos da criança. Então subitamente ambos ergueram a cabeça e disseram, ao mesmo tempo?

- Vince, por favor...

- Greg, será que você poderia...

Ambos sorriram. Seus rostos já estavam próximos, Crabbe quase dois palmos mais alto que a garota. Ele deslizou as mãos pelo lugar onde deveria estar sua cintura e a abraçou.

- Você poderia me desculpar? Eu fui um fraco, mesmo. Por favor...

Goyle encostou a cabeça naquele peito largo e sentiu novamente o perfume de Crabbe. Aspirou profundamente aquele cheiro, apertou com as mãos as costas duras do rapaz. Lágrimas quentes corriam sobre sua face rosada, ela não conseguia olhar diretamente para o rosto dele.

- Por favor, Goyle, me desculpa. Eu pisei na goles.

Goyle o abraçou com mais força, tanta quanto podia com aquele volume se mexendo entre eles. Crabbe alisou seu cabelo e ergueu seu rosto redondo. Ele a beijou delicadamente, enquanto acariciava seus cabelos macios. Os lábios de Crabbe deixaram a garota extática, hipnotizada. Ela era só boca, seu corpo não pesava mais, seus seios não faziam seus ombros doerem. De repente, Goyle sentiu-se flutuar como há muito não sentia. Ela era só leveza.

- Vince... – murmurou.

Detrás da cortina, Poppy Pomfrey sorria satisfeita.


Toda a Sonserina percebeu que Crabbe e Goyle haviam feito as pazes. Mesmo aqueles que não eram exatamente seus amigos, mesmo muitos alunos das outras casas notaram que ambos pareciam mais fortes, mais seguros. E ainda mais perigosos. Após o jantar, na Sala Comunal da Sonserina, os dois animadamente brincavam de lançar feitiços sobre os alunos mais novos, ou seja, quase todos os outros.

A noite avançou e os alunos começaram lentamente a se recolher em seus dormitórios. A atmosfera da escola estava tensa, os professores Carrow pareciam preocupados com alguma coisa e mesmo o diretor Snape parecia mais sisudo que o normal. Mas para Crabbe e Goyle, nada daquilo parecia ter importância. Eles só queriam mais alguma oportunidade de ficar sozinhos, sem medo de ser interrompidos pela enfermeira ou por quem quer que fosse.

Já era tarde quando Blaise Zabini, o último de seus companheiros de quarto que ainda estava desperto, entrou no dormitório masculino dos alunos do sétimo ano. Foi atingido por um Feitiço do Sono no minuto em que cruzou a soleira da porta e caiu inconsciente sobre o corpo inerte de Draco Malfoy e do outro colega de quarto. Crabbe arrumou os três dorminhocos involuntários sobre uma única cama e juntou a sua e a de Goyle, com ajuda da varinha, enquanto este se tranfigurava em garota novamente.

Sem se preocupar com mais nada, o casal se abraçou sofregamente e se deitou sobre a cama. Novamente juntos, ambos sentiam como se não hovessem se separado um único minuto desde aquela noite, tantos meses atrás, no pub londrino. Goyle esqueceu de todo o ressentimento; Crabbe foi incapaz de pensar em outra garota que não aquela, ao lado de quem gostaria de ficar para sempre. Mesmo com o enorme volume provocado pela avantajada barriga, os jovens se amaram duas vezes antes de caírem no sono, exauridos e satisfeitos, nos braços um do outro.


O professor Slughorn estava descontrolado quando entrou na Sala Comunal da Sonserina. Mal deu tempo de Goyle se destransfigurar e Crabbe reanimar os colegas e já deviam sair para o refeitório, onde havia um tipo de assembléia se realizando, com todos os alunos e professores.

Todos os alunos ouviram a voz do Lorde ecoando pelas paredes. Ele queria Potter, Potter estava no castelo! Pansy Parkinson, sempre tão tola e linguaruda, foi a única com coragem o suficiente para apontá-lo.

- Mas ele está ali! Potter está ali. Alguém o agarre!

Infelizmente, parecia que todas as outras casas se voltariam contra ela. Contra a ordem do Lorde. A velha McGonagall não entregaria o precioso Potter e todos teriam que lutar.

Uma a uma, as mesas das casas foram esvaziadas. Todos os sonserinos começaram a deixar o castelo, muitos deles satisfeitos com a presença do Lorde Negro em Hogwarts, mas Draco pegou Crabbe e Goyle pelos cotovelos e disse:

- Venham aqui! Não podemos deixar essa chance passar!

Os olhos de Crabbe brilharam ao ouvir isso. Era verdade, a chance não seria desperdiçada. Mas não da forma que Malfoy imaginava.

Os três correram até a tapeçaria dos trasgos bailarinos, Crabbe e Goyle não conseguiram segurar um risinho apesar da gravidade da situação. Faltava muito pouco para a meia noite e logo o Lorde atacaria o castelo. Os sonserinos realizaram feitiços desilusórios sobre eles mesmos e esperaram em silêncio até Potter surgir. Quando ele, Weasley e a Granger imunda entraram, Draco os seguiu imediatamente.

Antes de entrarem na sala, porém, Crabbe segurou Goyle pelo pulso e murmurou rapidamente:

- Talvez seja melhor você ficar aqui fora, invisível. Talvez seja perigoso pra você nessa situação.

Goyle pareceu ponderar um momento e então respondeu:

- Não, eu vou com você. Se for perigoso pra mim, também será pra você, e eu não quero te deixar sozinho. Além disso – completou, sussurrando rapidamente – preciso fazer algo que me redima aos olhos dos meus pais e do Lorde, porque você sabe do que eu tenho medo, né?

Crabbe assentiu e murmurou, ainda mais baixo, com a mão sobre a nuca de Goyle:

- Você é muito corajoso, Greg. Eu te amo.

- Eu também te amo, Vince – mas ele não ouviu, já havia se lançado para dentro da Sala Precisa.

Potter parecia procurar por alguma coisa, um diaduma, pelo que Goyle conseguira entender da conversa. Eles o cercaram e discutiram, tentando prendê-lo para levar ao Lorde como o maior dos presentes.

- Potter, veio até aqui pegar alguma coisa, - disse Malfoy disfarçando doentiamente a impaciência com a lerdeza de seus colegas. - então isto significa que...

- "Significa que"? - Crabbe se virou para Malfoy com ferocidade indisfarçada. - Quem se preocupa com o que você pensa? Eu não obedeço as suas ordens, Draco. Você e seu papai estão acabados.

A verdade deixou Malfoy assustado e Crabbe, ainda mais furioso. Ele tentou matar a maldita Granger sangue-ruim e diversos feitiços revoaram pela sala, destruindo tudo o que estivesse ao seu alcance.

Lembrando-se das aulas de Artes das Trevas, as únicas em que se saíra estupidamente bem ao longo de toda a sua vida estudantil, Vincent lançara um dos feitiços mais perigosos que haviam aprendido. Logo, uma língua de fogo se desenrolava por toda a Sala Precisa, consumindo tudo o que conseguisse alcançar. Dentro dela, dragões, quimeras e aves de rapina se manifestaram e começaram a sair.

Logo, Vincent notou que o poder do feitiço era muito maior que o dele, e que não seria capaz de controlar a besta. O Fogomaldito se espalhou pela sala e todos se puseram a correr desordenadamente, tentando salvar suas vidas. A fumaça e o calor tornavam-se insuportáveis, à medida que a criatura carbonizava coisas ao seu redor. Correndo desesesperadamente, os três sonserinos logo perderam seus alvos de vista e se encontraram cercados, no meio de paredes de fogo. As altas labaredas consumiam até mesmo o ar, e era a cada minuto mais difícil respirar ali.

Em uma ousada e insana tentativa de se salvar, Vincent lançava todos os feitiços que conhecia contra o monstro de fogo. Até que uma enorme águia vermelha emergiu e se atirou contra ele, abraçando-o. Com um grito horrível e lastimoso, Vincent desapareceu, seu corpo transformado imediatamente em cinzas se espalhou pelo chão da sala. Foi demais para Gregory, que desmaiou sem saber da dificulade que Ron e Hermione sentiram para tirar seu corpo pesado dali.


Goyle despertou já na Ala Hospitalar. Draco o conduzira até ali e sumira, sem avisar ninguém. Mme. Pomfrey estava fazendo o possível para despertá-lo.

- Ah, que bom que você acordou! Eu estava preocupada, tenho vários feridos aqui, não poderei ficar dando muita atenção a você agora!

Ouvindo isso, uma dor lancinante trespassou o ventre inchado de Goyle.

- Varinha, por favor – ele murmurou fracamente. – Virar menina...

A enfermeira olhou para ele com olhos arregalados. Ela apanhou a própria varinha e, rapidamente, murmurou o encantamente, transfigurando o rapaz em sua forma feminina.

A dor era insuportável. Queimava e apertava e perfurava e explodia. Tudo ao mesmo tempo. Goyle se lembrou vagamente de ter sentido dores enquanto corria com Malfoy e Crabbe pela Sala Precisa.

Crabbe! Vince! Ele havia se transformado em cinzas, já não estaria com ela na difícil hora do parto. Nem em nenhuma outra hora! Mas a dor física a impedia de pensar direito; ela não conseguia, naquele momento, sentir a falta de Crabbe como sabia que sentiria mais tarde. Agora, era só a dor.

- Levante-se – disse a Pomfrey, correndo para um lado e para o outro, tentando acudir outros dois feridos que jaziam inconscientes sobre leitos da ala hospitalar. – Levante e tente caminhar por aí, o bebê parece estar tentando nascer.

Ainda ouvindo o pavoroso grito que assombraria suas noites de sono durante muitos anos, Goyle se ergueu devagar, o corpo atravessado pelas flechas inclementes da dor do parto. Sentia os ossos da bacia se deslocando, se abrindo para dar passagem àquela criança cabeçuda que ela e Crabbe haviam feito. As horas se passavam, a dor não cessava. De vez em quando a enfermeira ia até o lugar onde Goyle estava, protegido pelas grossas cortinas que delimitavam a área privativa da enfermaria. Ela ajudava a garota a subir na cama, abria suas pernas e observava lá dentro, apesar da agonia que era aquele exame.

Mais tempo se passou, o barulho da batalha chegava fraco aos ouvidos da garota, os gritos dos feridos ali perto, sendo tratados pela eficiente enfermeira, perturbavam sua concentração na difícil tarefa de trazer o filho ao mundo. Mas finalmente o bebê conseguiu romper a barreira da pelve e sua cabeça coroou. Goyle já estava deitada sobre o leito; com um grito, Mme. Pomfrey a alcançou e ajudou nos últimos momentos.

- Força! Vamos, minha menina, empurre! Está quase saindo!

O chorinho do bebê calou por um minuto os gemidos das pessoas feridas ali adiante. Naquele instante, um raio de luz intensa entrou pela janela, banhando toda a escola. O Lorde havia sido derrotado.