Família

Gemina Goyle estava parada com o filho nos braços, em frente à lápide branca. O pequeno Vincent era grande e forte, um tourinho, mesmo quando comparado com crianças mais velhas. Ele tinha herdado os olhos do pai, bem como sua constituição física robusta e poderosa.

Ela observava atentamente a placa de mármore branca que tinha o nome de seu amado gravado na superfície. Sabia que não havia nada dele ali, seu corpo havia perecido imediatamente, consumido pelas chamas mágicas, e agora suas cinzas se misturavam às de milhares de outros objetos na sala precisa, onde ela jamais colocaria os pés novamente.

A decisão de se transfigurar permanentemente fora difícil, mas agora ela acreditava que estava certa. Ninguém jamais ouviria falar de Gregory Goyle novamente. Depois da batalha final, com o Lorde derrotado e os comensais espalhados por aí, convencer seus pais até que não foi muito difícil. Sua mãe se apegou imediatamente à pequena trouxinha rosada que ela colocou em seus braços; seu pai ficou furioso, depois desapontado e por fim resignado. Com o filho transfigurado, seria mais fácil explicar à sociedade bruxa. Mentiriam que era uma sobrinha distante que havia ido morar lá depois do sumiço de Gregory e ninguém poderia provar nada em contrário.

Agora os Goyle estavam de mudança. Morar no Reino Unido estava difícil para todos aqueles que tinham a Marca Negra no braço. Por isso ela estava ali, tinha ido se despedir do nome de Vince, da única coisa que restara dele.

O bebê se mexeu em seus braços, como se adivinhasse seus pensamentos. Como ela podia ter, um dia, pensado em doá-lo para adoção? Que absurdo, jamais poderia se separar do pequeno Vincent. Olhou para a lápide branca, apenas mais uma no grande memorial de vítimas da Batalha Final. Ao seu redor, outras placas com nomes, alguns conhecidos, outros não. Pensou em Vince, pensou em como foram felizes no dia anterior à batalha. Pensou no amor que os uniu, disfarçado de amizade por tanto tempo, e que depois, já quase no final, mostrou sua verdadeira face.

Ela suspirou, trocando o pacotinho de braço. O pequeno Vincent era agora a sua vida, sua fonte de alegria e prazer. Seu filhote, sua cria. Ele era a parte de Crabbe que ainda tinha o poder de fazê-la forte, embora um pouco triste a cada vez que olhasse para aqueles olhinhos doces. Já havia pensado em procurar o sr. e a sra. Crabbe para contar toda a verdade, apresentar aos dois o único neto que teriam na vida, uma vez que Vince também era filho único. Mas seus pais a fizeram desistir da idéia, alegando que eles poderiam não suportar a verdade e contar para todos os outros bruxos. Talvez mais tarde, depois que a situação esfriasse, o próprio Vincent tivesse interesse em conhecer o lado paterno da família. Então ele mesmo procuraria os Crabbe e se apresentaria. Mas não agora, não tão cedo. Não com o luto tão fresco.

Com algum esforço, Gemina se ajoelhou sobre a lápide. Como se conversasse com Vince, ela pousou a mão na pedra fria e sorriu, lembrando do pouco tempo que tiveram para realmente desfrutarem da presença um do outro. Ela alisou a lápide áspera como se fosse o cabelo curto de Vince, a pedra dura dos músculos da sua coxa. O branco do seu sorriso. E depois se ergueu.

- Tchau Vince. Vou sentir saudades – ela falou baixinho, provocando um resmungo de aprovação do bebê que carregava.

E então se virou e deixou o cemitério.

FIM