Lágrimas na escuridão
Capítulo II
Layla-Chan
Amanheceu. Percebo não pelos raios de sol ou feches de luz, que possivelmente, adentrasse a minha cela. Aquela tão gasta frase "Ver o sol nascer quadrado", hoje, não tem tanto sentido, nem a mesma carga de temor.
Onde estou não há janelas. Não se vê o sol. Não há o que se pudesse chamar de luz, no máximo uma penumbra. Eu lamento? Não. Há um tempo que sol ou chuva, noite ou dia em nada modifica minha alma negra.
O que me faz notar o novo dia são as vozes dos detentos, que falam uns com os outros, mesmo estando em locais diferentes.
Permaneço olhando o teto, até que ouço alguém mexer na grade da minha cela. Sento-me na cama e observo a figura do mesmo policial de ontem. Olho fixo para ele, mas não o vejo, meu cérebro trabalha de uma forma diferente agora.
Capturo uma passagem na superfície da minha memória. Uma cena em que estranhamente observo apenas o chão. Vejo os meus pés sobre um piso muito branco. Acompanho, como em câmera lenta, o cair de uma gota de sangue. Ao impacto com a superfície sólida ela se desfaz em inúmeras gotículas, manchando a pureza da cor. Juntam-se a ela outras, até que o liquido espesso escorra de forma frenética. Lentamente, aquela alva cor tinge-se de púrpura. Observo novamente os meus pés e os vejo mergulhados em um mar de sangue. O contraste do vermelho sobre o branco me deixa estranhamente sonolento. Sinto-me tonto, o acre odor da mancha se avolumando rapidamente sobre meus pés, causa-me uma ânsia análoga. Num reflexo tapo a boca com a mão.
Só então volto à realidade e observo que o policial já se encontra em minha frente e pelo seu semblante dissera algo, que não respondi. Na verdade nem ouvi.
- O que é? Tá brincando com a minha cara marginal? Eu falei para você sair.
Levanto-me da cama e saio da cela, mas ao passar por ele o olho de lado. Em apenas um segundo. Não sei ao certo qual o pensamento que tive, mas ele sentiu-se ameaçado.
- Acho bom não me olhar dessa forma outra vez. Ouviu? Ou as coisas vão ficar muito ruins para você.
Fui levado a um lugar ao ar livre, mas que não tinha nada de agradável. Era um campo aberto, bastante enlameado, onde se apinhavam vários homens. Chamavam de "banho de sol".
Fiquei parado observando aquela cena grotesca. Via centenas de grupos, uns encostados a parede do pavilhão, ou exercendo algum tipo de atividade física, outros apenas andando como se não tivessem direção. Identifiquei-me com os últimos. Comecei também a andar, mas depois de pouco tempo me encostei à parede, fugindo do sol que já estava forte.
Um grupo constituído por cinco homens começaram a se aproximar. O que estava à frente parecia me olhar fixamente, tinha muitas tatuagens nos braços, estatura mediana e feição latina.
Não dei nenhuma importância, até que estes chegassem perto. Perto demais. Formaram um semicírculo me deixando sem saída. Essa situação me incomodou. Cruzei os braços e o encarei.
- Como é seu nome, novato? – Perguntou pondo uma mão na parede rente ao meu rosto.
Nada respondi, apenas estreitei o olhar sem deixar de fitá-lo. Os outros homens se incomodaram. Não sei, mas aquele sujeito parecia uma espécie de "mestre". O fato é que chegaram mais próximos, aquela evento estava realmente mexendo comigo, porém não reagia, não explodia em impropérios o que era tão normal que eu fizesse naquela situação. Não parti para cima. Não briguei, apenas olhava e com o olhar transmitia todo o meu desprezo, aquele nojo indescritível que sentia, algo que não se destinava a alguém especificamente, mas que fazia meu peito inflar e tomava meu espírito de uma cor cinza.
Um dos homens atrás daquele sujeito falou de forma áspera e compassada, numa tentativa inútil de causar-me medo.
- Quando perguntarmos o seu nome, você responde, ouviu?
Não mudei a minha expressão e não desvie o olhar, disse apenas:
- 8.342
- O quê? - Virou-se para os outros – Do que esse maluco está falando? – Porém não recebeu resposta, os outros apenas o olharam confusos.
- 8.342. Repeti. - É assim que me chamo agora. Ao entrar fui renomeado como vocês. Não somos mais pessoas, não temos nomes. Somos um número é mais impessoal, afasta a humanidade. Tem mais a ver com a gente..
- Acha que somos inferiores?- A essa altura o latino já gritava.
Não pude segurar o riso. O fiz alto e sarcasticamente. – Estamos presos como em um canil e me pergunta se acho que somos inferiores?
A expressão dele foi de pura fúria, mas fez um esforço muito grande para expulsá-la. Abrandou e voltou a manter aquele sorriso asqueroso.
- Não vou me incomodar, afinal, você chegou ontem. Ainda está incrédulo ao ver este lugar nojento, deve estar amedrontado. Mas você é muito jovem e atraente, não vai ter dificuldade em achar alguém que o proteja e torne sua estádia menos difícil. Eu posso garantir – Ao terminar a frase levou a mão livre ao meu pescoço e começou a deslizar o polegar do meu queixo a gola da camisa.
Terminou a minha súbita calma. Com um braço, ligeiramente, tirei sua mão do meu pescoço. Com o outro o puxei de imediato invertendo as nossas posições. O pus contra a parede o antebraço em seu pescoço apertando bastante.
- Não volte a tocar em mim, ou eu arranco a sua mão - . Falei não em tom de ameaça, apenas, mas fazendo a verdade das minhas palavras permanecerem em relevo.
Os outros homens se lançaram contra mim. Tiveram dificuldade em retirar o meu braço do pescoço do latino, mas conseguiram. Dois de cada lado mantinham meus braços abertos. Aquele detento chegou perto e falou em meu ouvido, fazendo-me sentir seu hálito podre.
- Eu vou acalmá-lo, meu jovem. Pablo sempre cumpri suas promessas.
Puxei com tanta força os braços que joguei um dos homens ao chão. Avancei contra aquele latino, desferi um soco o fazendo chocar-se contra a parede, não parei. Chutei seu estômago e dei-lhe mais socos e pontapés, muitos presos formaram um círculo em nossa volta. Gritavam, mas ninguém interferia. O homem conhecido como Pablo tentou reagir, mas como fora surpreendido a essa altura não tinha mais forças para qualquer resposta. Seus "parceiros" se perderam na multidão. Foi então, que senti um golpe na nuca. Cai, mas não perdi os sentidos. Virei o rosto e o vi de novo. O mesmo policial branco.
No chão mesmo fui algemado. Enquanto era arrastado olhava para o detento. Tinha o nariz e a boca sangrando. Vi quando ergueu os olhos, me olhou e deixou a boca inchada curvar-se num sorriso debochado., lambeu o sangue que escorria.
Chegando a uma porta de ferro. Abriram-na.
- Você mal chegou e já vai estrear a solitária. Desde o início achei que fosse encrenca, nunca me engano. Mas você não viverá por muito tempo pelo que eu vejo. Vai ficar três dias aí e hoje não terá comida.
Tiraram as algemas e me empurraram com toda a força que eram capazes.
Solitária? Até parece que ter a companhia de tipos como aquele me causava menos repulsa que aquela cela estreita, úmida, cheirando a urina e fezes. Sentei no chão gélido. Encostei a parede. Pouca luminosidade entrava pela fresta da porta. Estava imerso na escuridão novamente. Companheira inseparável. Bem, no início da nossa cumplicidade ela se configurava como uma fuga, um esconderijo. Fechei os olhos para relembrar o começo da minha ligação com a escuridão.
Fiquei órfão muito cedo. Foi aos quatro anos, meus pais sofreram um acidente, pelo que me disseram, pois nunca vi seus corpos. Tinha um irmão pequeno, dois anos apenas. Fomos adotados por um casal, Louis e George Carrel. Não foi uma adoção legal, apenas nos levaram para morar com eles. Era uma casa estranha, muito pobre, bagunçada, não demorou muito para eu aos quatro anos perceber que havia algo errado. Louis trancava-se no quarto quase o dia todo, às vezes, eu escutava uns gemidos abafados. Não tive saída, aprendera a cuidar de um bebê.
George Carrel era um maldito alcoólatra, ele batia na mulher, muitas vezes, até que ela desmaiasse. O barulho da violência me deixava com muito medo. Do lado de fora do quarto eu tapava os ouvidos e então corria para o quarto que dividia com meu irmão. Olhava-o, e se ele estivesse acordado, eu balançava suavemente o berço para que ele dormisse ou se entretece, mas que não fizesse qualquer barulho.
Fui crescendo e aos seis anos era eu o responsável pela pouca organização daquela casa. Estava sempre ali, disposto a servir George, buscava na geladeira cervejas, enquanto ele assistia a TV, arrumava a roupa e algumas vezes, preparava algo para que ele comece. Não porque me sentia agradecido e tão pouco por algum outro sentimento nobre, mas sentia, inocentemente, que se o deixasse de alguma forma satisfeito, não descontaria sua fúria contra Louis. Acreditava realmente que dava certo, pois ele ficava na sala bebendo até adormecer e no outro dia saia para trabalhar.
Nas raras vezes que Louis saia do quarto ela pegava meu irmão no colo e o olhava de forma melancólica. Passava as mãos em meus cabelos e perguntava-me se sentia fome, eu fazia que sim com a cabeça e ela nos levava para a cozinha. Preparava leite e biscoitos. Sentava-nos. Punha os cotovelos sobre a mesa e recostava o queixo nas mãos fechadas, apenas olhava-nos. Era a maior demonstração de carinho que possuíamos.
Um dia eu não mais a ouvi chorar baixinho. E quando George chegou, novamente embriagado, adentrou furiosamente o quarto, estranhamente, não ouvi também os gritos de dor e as palavras ríspidas. Não nos deixaram ir ao enterro, soube depois que ela se matara.
Desde então, redobrei meus esforços em satisfazê-lo. Ele não se embriagava como antes, e um tempo depois chegou do trabalho e disse que tinha me matriculado na escola, afinal, eu já completara sete anos, era tempo de estudar. Comprou-me um uniforme, material e mochila. Senti-me feliz.
Passei a ir a escola à tarde. Saia depois do almoço junto com George que ia ao trabalho. Despedia-me sempre do meu irmão caçula. Nos primeiros dias, ele se mostrava maravilhado, quando eu chegava fazia questão de pegar meus cadernos e olhá-los. Passava horas desenhando com o dedo as letras que eu escrevera.
Porém, com o tempo, sempre que chegava a hora de eu ir a escola, via seus olhos umedecerem, muitas vezes, num fio de voz ele pedia:
- Não chegue tarde, irmão.
Eu sorridente apenas fazia que sim com a cabeça. Numa noite, quando fui deitar . vi meu irmão quietinho na cama, sentei ao seu lado, olhei para aquele rosto tão branquinho, ele sempre fora muito mirrado de traços delicados, era muito amoroso. O que era estranho, pois nunca conheceu amor de pai e mãe. Puxei o cobertor para cobri-lo e deixei meus dedos passearem pelos seus cabelos. Foi então que, perplexo, observei a pele branca perto da gola do pijama, puxei-o mais para baixo. Meus lábios tremiam e as lágrimas quentes como fogo transbordavam. Marcas roxas, muitas delas, pelas costas todas. Toquei de leve e escutei um gemido abafado, como os que ouvira de Louis.
De repente, ouvi a porta bater violentamente, uma voz pegajosa. Era ele, estava bêbado. Meu irmão acordou num salto. Olhou-me ao seu lado e tentou dizer:
- É ele...ele
- Shiii...- eu pus um dedo em seus lábios e o arrastei rapidamente para um cantinho escuro entre a parede e a cômoda. A porta foi aberta com estrondo. De relance, podia ver aquela figura alta, tinha alguma coisa nas mãos, poderia ser um cinto, ou não sei, qualquer coisa. Ele deixou a porta aberta e saiu gritando a procura do meu irmão, depois ouvia barulho de garrafas sendo abertas e algumas quebrando.
Podia sentir o corpo franzino, encostado ao meu, tremer. O abracei forte. Tinha dificuldades em respirar, tão grande era a dor que tomava conta do meu peito e dava um nó em minha garganta. Havia mais de oito meses que eu estava indo a escola. Quando aquilo havia começado? Como eu não percebi? Que espécie de irmão eu sou? Enquanto ele se aninhava mais a mim, numa busca desesperada por segurança, eu sentia minha camiseta encharcar. Eram as minhas lágrimas, não cessavam, não tinha como freá-las... não podia. Permanecemos, toda a noite ali, refugiados na escuridão.
Fui abrindo lentamente meus olhos. Eu não chorava mais. Porém ainda podia sentir, nitidamente, o gosto amargo daquelas lágrimas infantis.
Dei um suspiro doído. – Shun.
