N/A: Desculpem-me por demorar a postar esse capítulo
N/A: Desculpem-me por demorar a postar esse capítulo. Sei que a narrativa está lenta nessa parte, mas isso acaba a partir do cap. 4, em que será narrado o crime cometido por Ikki, bem como, o porquê de ele ter feito. Aparecerá também outro personagem do universo de Saint Seiya que será muito importante para a história.
Lágrimas na escuridão
Capítulo III
Layla-Chan
Quanto tempo passou? Não sei. As horas parecem se arrastar nesse lugar. A umidade fizera com que eu contraísse um tipo de resfriado. Minha mente anuviava-se ainda mais naquele silêncio. Isso era perigoso. Sentia que poderia perder a lucidez por completo.
A porta foi aberta. A claridade nem era tanta, mas por ter ficado tanto tempo naquela escuridão era o suficiente para ferir-me muito os olhos. Antes que eu pudesse identificar quem estava em minha frente, fui arrastado para fora. Permaneci no chão.
- Ei, vamos. Levante-se – puxando-me pelos braços.
Fui conduzido até o banho e logo depois ao refeitório. Minha punição havia acabado, três dias fiquei na solitária.
Ao chegar na porta do refeitório, passeei os olhos pelo local. Um mar azul, cor do uniforme que usávamos.
Fui seguindo para a fila, a fim de me servir, nesses três dias, praticamente não me alimentei, não havia como ter fome naquele lugar. Não que a "gororoba" que estava sendo servida fosse melhor ou me abrisse o apetite, mas com o tempo você deixa o instinto de sobrevivência tomar conta.
Com a bandeja na mão observei as mesas, a fim de encontrar um lugar que eu pudesse me sentar. Avistei um local desocupado e comecei a caminhar para lá, no trajeto percebia inúmeros olhares sobre mim. Sem falar nada me sentei com os olhos fixos na comida nem um pouco apetitosa. Passaram-se alguns minutos até alguém me dirigir à palavra, coisa que eu realmente não queria.
- Acho que você incomoda o policial Simon.!
Ergui os olhos e seguindo o olhar do homem a minha frente vi num canto o mesmo policial que havia me posto na solitária, tinha uma expressão irritada e me olhava fixamente. Não respondi e voltei a baixar os olhos sobre o prato.
- Sinceridade, isso já me faz gostar de você.
Mantive o silêncio.
- Vai ficar calado todo o tempo que ficar aqui?
- Talvez. – respondi sem grande interesse.
- Já é um começo – a voz possuía um tom de ironia.
Só então, afastei o prato e fitei o homem que insistia em falar comigo. Deveria ter uns quarenta anos, estava com as mãos sobre a mesa, no braço esquerdo havia a tatuagem de um dragão e a palavra "Magu" escrita no antebraço.
- Escute – ele voltou a falar – Aqueles que lhe deram trabalho logo que chegou aqui são chamados de "Cinderelas" são uns malucos, não precisa se preocupar com eles, só evite ficar a sós com esse bando.
Ao terminar o almoço tivemos um tempo para tomar sol. Eu caminhava junto com o homem de antes, ele falava bastante, enquanto eu apenas o incentivava com gestos ou feições.
- Hei, você realmente não vai falar nada? Pelo menos o seu nome, eu sou conhecido aqui como Magu e você?
- Ikki – respondi sem emoção.
- Ikki, muito bem. Está vendo esse baixinho aqui. – apontou para um dos outros homens que estava na mesma mesa na hora do almoço.
- Baixinho não, minha estatura é normal. – Proferiu o homem, bravo.
- Tá certo. Este é o Larry o outro ali usando óculos é Peter.
O rapaz de cabelos castanhos claros aproximou-se.
- Diga Ikki o que fez para estar aqui? Perguntou displicente e me olhando curioso.
- Homicídio – respondi sem preocupação.
Percebi que o semblante dele havia mudado. Deixou uma sombra de espanto nublar um pouco os olhos claros. Fiquei curioso. Qual seria o crime dele. Parecia tão sereno.
- E você? – perguntei sem rodeios.
Mas antes que ele respondesse Magu se interpôs num tom de deboche. Quebrando totalmente a áurea cinza que havia se instalado sobre nós.
- Você não sabe? – Magu falava como se estivesse representando – Somos todos inocentes aqui, acho que você Ikki, é o único culpado, não é Larry?
- Não sei, mas eu sou inocente. Estou aqui por culpa daquele maldito advogado "traira".
- Não falei – O mais velho ria da situação.
- Que quer dizer com isso, Magu? Eu estou falando sério. Exasperava-se Larry.
Magu e Peter riram alto, enquanto Larry mantinha a expressão de mágoa. Neste dia fui levado à lavanderia, para trabalhar, os detentos eram divididos em várias sessões, alguns na cozinha, outros na lavanderia, na limpeza dos banheiros e um grupo era levado para fazer trabalhos fora da prisão. O tempo passou mais rápido neste dia, consegui ficar sem lembrar deles pelo menos um pouco.
Porém a noite, não havia como frear as lembranças. No dia seguinte, seria domingo, dia de visita. Aquilo me deixou com um aperto no peito, com certeza Shun viria, não queria. Não por não apreciar a companhia, mas sei o quanto ele ainda está abalado, não é fácil para nenhum de nós e a visão do sofrimento dele aumenta ainda mais a minha dor.
Já estava deitado quando as luzes foram apagadas. A face da mulher mais linda tomou conta de toda a minha mente. Os cabelos loiros, podia quase sentir o perfume deles. Seu sorriso ilumina tudo a sua volta, a voz é um canto suave. De repente a maldita cena do sangue avolumando-se no piso branco me tomou de assalto. Sentei na cama, sentia uma raiva absurda.
...S...A...I...N...T...S...E...I...Y...A...
No dia seguinte, logo pela manhã fui levado à sala onde recebíamos as visitas. Havia uma pequena mesa com dois bancos, sentei-me de costas para a porta, onde estava um policial de vigia. Ouvi passos leves, o coração começava a apertar. Senti uma mão pousar sobre meu ombro, ao levantar os olhos vi sua face avermelhada, os lábios tremendo.
- Ikki – falou tão baixo, um tanto forçado.
Eu sempre tão duro, tão seco, não pude suportar, levantei num repente afastando o banco e abraçando-o forte. Acomodava seu rosto em meu peito. Meus braços instintivamente o apertavam mais forte. Fechei os olhos e respirei fundo, depois o afastei um pouco para ver seu rosto, com as pontas dos meus dedos retirei algumas lágrimas que desciam de seus olhos.
- Shun, eu estou bem. Por favor, não chore.
- Meu irmão você não pode ficar aqui-. Falava com a voz chorosa.
- Olhe! Eu não quero que você se fira mais. Sabe que não tem jeito. A justiça tem que ser feita.
- Mas é injusto.Você só fez por...
Eu o interrompi.
- A justiça não pode se deter em sentimentos, mas em fatos. E o fato irremediável é que cometi um crime. E tenho que pagar por ele.
Nesse momento Shun se afastou de mim e se pôs de costas. Apertava as mãos de forma nervosa.
- Só não espere que eu aceite isso – proferiu sério.
- Mas Shun!
- Não. Eu não vou aceitar. Não vou ficar de braços cruzados. O advogado já entrou com um recurso para revisar o caso. Ele o visitará ainda esta semana. Vou tirá-lo daqui, Ikki. Não vou parar um segundo até conseguir.
Eu não podia aceitar que Shun gastasse sua vida em uma inútil tentativa. Mas nada adiantaria tentar dessuadi-lo naquele momento tudo era muito recente. E eu o conheço, se existe algo que denota nossa união sanguínea com certeza é a "teimosia" ou a "obstinação". Tentaria aos poucos fazê-lo perceber que seus esforços serão em vão. Fiquei olhando-o de costas, hoje, é um jovem de dezesseis anos, mas às vezes, ainda o vejo como uma criança, apesar de nossa diferença de idade não ser muito sempre me senti responsável por ele e até culpado por não ter podido protegê-lo algumas vezes.
- Está estudando, não é? Meu instinto protetor falava ao mesmo tempo em que queria mudar de assunto, afinal, aquela visita tinha que servir de alívio para ambos e não para fazer sangrar as feridas profundas e recentes.
- Sim . Ele respondeu virando-se novamente para mim.
Seu semblante estava triste, o rosto sempre tão radiante estava marcado por olheiras.
- O que está fazendo? Perguntei baixando os olhos não queria ter de vê-lo. Não queria ter a certeza que o fazia sofrer.
- Cursinho.- A voz soou melodiosa. – Vou prestar vestibular para direito.
- Direito? Sempre achei que seria médico. Tem certeza que quer fazer direito? – Nunca o imaginei cursando direito. Ele não podia estar modificando todos os seus planos por mim, pedia aos céus que não fosse isso.
- É, mas mudei de idéia. Acho que serei um bom advogado. Ele sorriu timidamente.
- Tenho certeza disso. Falei – E como está sozinho no apartamento?
- Não estou no apartamento. Depois da sua...prisão – a voz saiu muito baixa – Eu fui mandado para uma casa que abriga adolescentes sem... - Parou de falar
- Sem família. É isso, pode dizer – Eu fechava a mão violentamente.
- Eu tenho família, Ikki. Você é minha família, mas infelizmente eu ainda sou menor e a justiça decidiu que não posso ficar sozinho, mas não se preocupe lá é legal.
Ele se aproximou, olhava-me nos olhos. Eu estava me desesperando, não me importava com o julgamento, com o que pensassem sobre mim, mas sob o olhar dele eu me sentia envergonhado. Vergonha por ser tão fraco. É isso, todas as pessoas que nos conheciam, diziam que eu era forte, destemido. Pois eu sempre estava pronto para a briga, pronto a derramar sangue, se isso fosse necessário para trilhar o meu caminho e para auxiliar e proteger a ele, mas aprendi que na verdade Shun é quem sempre fora forte. É preciso ser muito forte para passar por tantas coisas, para sofrer violência tão cruel e continuar sendo sensível, não perpetuar como eu as raízes do mal que nos tentaram implantar. Ser capaz de amar sem restrições apesar de tudo.
- Você está sofrendo? Perguntou pondo a mão sobre a minha que estava pousada na mesa.
- Não posso dizer que não. Estou, por muitos motivos. Mas tudo isso vai passar, Shun.
Seus olhos verdes começaram a brilhar novamente e depois a verterem lágrimas. Eu paralisei e cada pequena gota que descia dos olhos dele era como uma nova chaga em meu corpo, ardia e queimava como fogo. O que fazer? Sentia-me tão impotente.
- Tem apenas mais um minuto. O policial Simon proferiu ríspido.
- Ikki, eu trouxe isso para você, acho que o pessoal que vistoriou tirou algumas coisas .
Olhei para a figura nojenta do policial Simon, que ostentava um riso cínico.
- Mas, aqui tem um livro para se distrair, material de higiene e algumas frutas. Shun me entregava um pacote azul.
- Obrigado.
- Se precisar de algo mais, fale para o advogado que eu mando por ele ou trago na próxima semana.
"Próxima semana" agora será assim, o farei passar por constrangimento toda a semana, os finais de semana de um jovem como ele se resumiram a uma prisão nojenta e poucos minutos de uma dolorosa conversa com seu irmão "assassino".
- Sim, Shun.
Fez silêncio por alguns segundos até que ele se atirasse em meus braços novamente, neste momento senti uma pitada de alegria. Ele sempre seria assim. Passei as mãos por seus cabelos. E então ouvi sua voz um pouco abafada, pois mantinha o rosto enterrado em meu peito.
- Amo você, irmão.
- Eu também te amo, Shun. Nesta hora também senti vontade de chorar, mas não o fiz.
- Está na hora de sair garoto. Simon falou impaciente e segurou no ombro do Shun.
Olhei-o furioso e depois mirei a mão dele. Ele retirou a mão muito rapidamente, acho que entendeu que eu seria capaz de arrancá-la.
- Shun . Fui afastando-o ainda segurando-o pelos ombros – você tem que ir agora.
Ele apenas fez que sim com a cabeça e começou a sair, enquanto eu permanecia lá.
- Esse seu irmãozinho virá sempre aqui? Isso aqui não é um bom lugar para alguém como ele.
Virei para ver o rosto de quem havia proferido essa frase. Lá estava ele, Simon mantinha nos lábios um sorriso malicioso e sarcástico. Antes que eu respondesse ou fizesse algo pior, outro policial falou.
- Chega. Você voltará para sua cela, Ikki.
Segurando com força o embrulho azul fui caminhando até minha cela, o coração doía, porém me fez bem ver Shun.
