First Annotation
- Ondina -
Chance
O Universo. Ninguém sabe seu tamanho por estar em constante expansão e por ser muito vasto. Em conta disto, algumas pessoas o definem apenas como infinito. Ele está muito mais além de estrelas, meteoros, galáxias e matéria escura. Ele se estende além da esfera celestial.
Já se passava das dez da manhã, mas pequenos astros ainda estavam plenamente visíveis. O ar frio mostrava o princípio de uma nova estação. Algumas plantas de folhagem azul brotavam, e junto a elas, uma fragrância doce atraía a atenção de algumas borboletas brancas. A gramagem mudava para tons claros, enquanto nas árvores surgiam flores alvas. O sinal de uma academia acabara de ser tocado, dando início às aulas matinais.
Era um lugar humilde, sem muros altos ou decoração extravagante. Suas paredes eram brancas com pequenos ladrilhos azul-pálido do meio para baixo. A porta adornada com caracóis e símbolos arcanos em suas extremidades. No seu topo, o sino dourado badalava graciosamente. Quatro alunas dirigiam-se às salas. Trajavam blusas brancas com mangas compridas e saias de prega duplas de cor cinza. Na parte superior, fitas vermelhas seguiam a linha da costura na área do torso, com um emblema do lado direito do busto. Passeavam nos corredores enquanto conversavam sobre uma prova, carregando um punhado de livros. Por causa de seus passos curtos, uma delas ficava para trás.
Ayashii Daiki, dezoito anos. Seus cabelos ondulados e compridos possuíam uma tonalidade cereja e sua franja era repicada, quase cobrindo os olhos de um profundo verde. Por estar em constante silêncio, sempre levava fama de chata e estraga prazeres. Na maioria das vezes era vista lendo livros ou praticando alguma magia. Finalmente avistaram uma grande porta entreaberta no final do corredor, adentrando em uma sala mal iluminada. Não havia ninguém ali. Em cima da mesa, um bilhete dizia que naquele dia os professores se ausentariam. As causas eram desconhecidas.
– Que legal! Agora eles resolveram fazer greve, é?!
Uma delas berrava em plenos pulmões. Samantha Suzuki, dezoito anos. Sua face era pálida, cabelos tão negros quanto café e olhos de um tom de cinza, herdados da sua mãe. Por seu baixo porte, sempre foi confundida com uma adolescente precoce e agitada. Naquele momento, seus gritos incomodavam a todos. O diretor poderia ter avisado anteriormente, pensava ela.
– Acalme-se. Se irritar com algo assim é desnecessário. – replicou a garota, arrumando as mechas que cobriam seus olhos.
– Como você pode manter a calma com algo assim?
– Eu já lhe expliquei. É desnecessário se aborrecer.
– Esse seu jeito calmo me faz perder a paciência, Ayashii!
– Se me dão licença, irei para um lugar mais calmo.
Retirou-se dali, apressada. A cobertura de vidro por onde andava era perfeita para ver o céu, com suas nuvens cinzas e pesadas. Apoiou uma das mãos sob a parede, pensativa, e passou a fitar o chão. Não havia muito tempo que estava estudando ali e, na maioria das vezes, dava uma resposta ignorante às colegas. Pensando bem, nunca havia demonstrado seu lado carismático e feliz. Apesar de tudo, Samatha sempre a consolava com um sorriso no rosto. Sacudiu a cabeça, tentando apagar aqueles pensamentos inúteis. Dando mais alguns passos, sua atenção foi desviada. O barulho de vozes vinha de uma das salas, e, ao abrir a porta vagarosamente, avistou dois jovens.
Meta, vinte anos. Seus cabelos eram rebeldes e de cor negra, com uma mecha caída em cada lado. Os olhos amarelados e expressivos, como os de uma pantera, ressaltavam a pele levemente bronzeada. Usava uma armadura branca em seu torso, braços e pernas. Abaixo dela, um tecido grosso de cores escuras ocultava todo o seu corpo. A capa azul que usava por cima ocultava uma bainha apoiada num cinto.
– Então finalmente encontramos a garota. – dizia.
– Você chegou a vê-la? É tão bonita!
Biospark, dezenove anos. Também tinha madeixas rebeldes, mas eram alvas como a neve e de mechas mais soltas. Pálido, seus olhos profundos eram da tonalidade de ametistas. Usava um cachecol vermelho com um enfeite redondo num suave tom de rosa, roupas em cor preta, com um tecido escarlate amarrado no cós. Os braços estavam enfaixados por um tipo de atadura e, sob seus coturnos negros, um metal branco. Em frente deles, um ancião arrumava alguns papéis à mesa, sentado.
– No final das contas, ela não poderá fugir do destino, não é mesmo?
– Creio que não. Mas não conte nada a ela, por favor. – sussurrava o mais novo.
– Entendo. Deixo isto por conta de vocês. – o velhinho acendia o cachimbo e gesticulava para eles se retirarem.
Após ouvir isto, a garota encostou-se na parede próxima à porta. Ao avistar os dois, abaixou a cabeça e corou - mas jurou ter visto um sorriso no rosto de um deles. Estava curiosa para saber sobre o que falavam, mas decidiu deixar pra lá. Depois daquele evento, Biospark resolveu dar um passeio pelos campos. As pessoas dali demonstravam uma vitalidade contagiante. Crianças corriam de um lado a outro, brincando. Algumas garotas o pararam, pedindo para que ele tirasse fotos. As mães gritavam para que seus filhos voltassem para casa, o tempo estava tão frio que podiam pegar um resfriado. Antes que pudessem perceber, estava chovendo.
O rapaz correu e abrigou-se debaixo de uma árvore. Algumas gotas escorriam do seu cabelo, pingando no seu rosto pálido. Após alguns minutos, a respiração alta de um vulto lhe chamou atenção. Uma garota de cabelos cereja estava ofegante e com as roupas molhadas. O vento balançava a densa folhagem daquele refúgio, de modo que respingos caíam nos dois. O garoto percebeu claramente que a outra estava tremendo, certamente pela mudança de clima e por suas roupas. Não pensou muito ao retirar seu cachecol e jogar no ombro dela. Ver alguém naquela situação fazia com que sua vontade de rir fosse imensa, ainda mais com a cara de surpresa que ela fez.
– Você está com frio, certo?
– O-Obrigada! – ela aconchegava-se naquele objeto de fragrância suave.
– Ahn! Agora eu me lembro...! – exclamou, aparentemente surpreso.
– Huh? – fez uma expressão confusa.
– Você é aquela garota que ouviu toda a conversa. Olá, curiosa!
– E-eu não tinha a intenção, desculpe-me.
– Não precisa se desculpar, está tudo bem.
A chuva parecia nunca acabar. Era incômodo estar debaixo de uma árvore, principalmente com o olhar indiscreto do garoto fitando-a de minuto em minuto. Naquela hora, Ayashii desejava estar em casa, enrolada em um cobertor e tomando uma xícara de chocolate quente. O badalar das seis horas interrompeu seus pensamentos, seu conforto imaginário. Se não tivesse passado tanto tempo na academia, estaria em casa. Ao ver um dos postes acender, deixou um pequeno bocejo escapar.
– Como você se chama? – ele tentava puxar assunto.
– Ayashii.
– Eu me chamo Biospark, muito prazer! – estendeu sua mão.
– Prazer...! – respondeu educadamente. – A julgar pela sua roupa e aparência, diria que você não é daqui.
Decididamente ele não era dali. Apresentando-se de maneira mais detalhada, o garoto, animado, explicou o motivo da sua viagem. Até parecia enredo de filme científico. Vieram de uma base interestelar em uma galáxia não muito distante. Não muito distante para quem possui naves espaciais atualizadas ou sabe controlar buracos de minhoca. Deste modo, navegar – e se perder – pelas galáxias é uma tarefa pouco complicada.
Mesmo com a destruição da Holy Nightmare Interprise, os problemas não acabaram. A presença dos Guerreiros Estelares foi solicitada e logo um novo quartel-general foi construído. Por serem tão poucos, começaram a buscar por descendentes e pessoas com linhagem co-sanguínea. Os dois haviam sido enviados ali em busca de um minério raro, até detectarem a presença de uma estrela naquele mundo. De alguma maneira, desde seu nascimento, todo Guerreiro Estelar é portador de uma estrela, base da energia vital. Após algum tempo, Biospark simplesmente parou de falar.
– Você não entendeu nada, não é...?
– Que?! Por mais absurdo que pareça, eu entendi. – e virou o rosto, sem graça, passando a observando o nada. – Mas por que você me disse tudo isso?
– Ayashii... – sussurrou. – ...Meta e eu viemos buscar você.
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Notes
Buraco de minhoca – É um atalho do espaço e do tempo. Ele conecta lugares distantes, podendo ou não ser da mesma galáxia. Para entendê-lo melhor, foque sua atenção em um teletransporte. O objeto pode viajar de um lugar para outro numa fração de tempo menor.
