Cap. II – Quando o Passado Vem a Mente.
Anne correu, mais ate do que pensou que poderia um dia correr. Parou somente quando se viu diante de uma entrada de uma grande construção tipicamente grega. Ficou chocada com a grandiosidade daquilo que parecia uma espécie de condomínio, formado por doze construções menores que subiam ate uma maior, localizada em frente a uma suntuosa estátua, que ela reconheceu ser de Athena.
- Que lugar é esse...?
Ainda ofegante, por ter corrido tanto de forma toa rápida, aproximou-se um pouco ais da entrada, ainda que cautelosa, pois tinha certeza que aquela não era uma área pública, ou estaria no mapa turístico da cidade.
- Estranho... Parece que já estive aqui antes...
Subiu as pequenas escadas, que levavam ate a primeira construção. Pelo que pôde perceber, para chegar até a última delas e a estatua, era preciso passar por dentro de todas. Olhou para cima, e então a inscrição:
- Áries...
- Em que posso ajudá-la?
Anne se assustou com a voz que tinha saído da sombra daquela edificação. Seu coração saltou, já que agora tinha a certeza de que aquela era realmente uma área privada.
- Pardon, monsier, je... – disse assustada, antes de se recompor. – Me desculpe, senhor, vim a procura de alguém e acabei me perdendo.
- Seja bem vinda à Casa de Áries. – respondeu polido. – Eu sou Mu de Áries.
O ariano foi hospitaleiro com ela, já que não sentiu ameaça alguma, muito pelo contrário, ela aparentava uma tranqüilidade tão grande que ele não poderia pensar em tratá-la de outra forma.
- Anne Cambeaux, prazer.
- Um nome estrangeiro, – disse pensativo. – embora esteja falando em um grego perfeito. O prazer é todo meu.
- Desculpe ter entrado desta forma aqui, é que acabei me perdendo e...
- Não se preocupe com isso. – sorriu o rapaz. – Não gostaria de entrar e tomar algo? O fim do verão grego é algo realmente desgastante.
- Ah... – hesitou a garota, sem saber se deveria ou não. – Claro desde que não seja incômodo.
- Incômodo algum. Por aqui, por favor.
Mu abriu caminho então, esticando o braço e indicando o lugar. Anne, por sua vez, subiu o restante das escadas e quando ficou de frente para o rapaz, lhe deu um sorriso como agradecimento.
A garota realmente ficou surpresa ao adentrar uma das salas do local: uma decoração ricamente escolhida para aquela que parecia ser a maior daquela construção. Ela havia reparado, pelos traços de seu rosto, que seu anfitrião não era grego. E agora, podia ter certeza pelos objetos que preenchiam a sala. O ariano saiu por uma outra porta, que provavelmente levava a cozinha, pensou.
- Que coisa mais linda...!
Mesmo tendo ido à Grécia tantas vezes e morado lá por anos, jamais viu tamanha magnitude e beleza; o interior daquela casa contrastava totalmente com o exterior dela.
-Pelo visto gostou deste vaso. – disse Mu ao adentrar a sala no exato instante que ela analisava o vaso em questão.
- Ah, sim, me perdoe a intromissão. – disse prontamente pondo-o no lugar. – O senhor não é da Grécia, de onde é? Algum lugar do oriente?
- Pôde perceber isso através destes objetos? Você é bem observadora. – disse indicando um lugar para se sentar.
- Estudo arte em Paris, gosto disso. – sorriu.
- Então é francesa? – disse ao lhe entregar um copo com suco.
- Sim. – concordou ao dar um gole do conteúdo, embora não soubesse o que era.
- Então devo supor que a senhorita procurava um francês também. Ou estou errado?
- Não, está certo. – consentiu. – Vim atrás de alguém do meu passado.
- Aqui só temos um francês que atualmente mora aqui, que é Kamus.
- Kamus? – indagou surpresa. – Mas o nome dele é Kamyu!
- Hum... – disse Mu pensativo. – Kamus sempre foi uma pessoa muito misteriosa, não é a toa que o chamamos de Iceberg.
Anne olhou surpresa. Pelo jeito que o homem a sua frente falava, parecia que se conheciam há anos. Tentou ate bolar algumas historias sobre a origem do apelido dele, mas desistiu.
- Parece que ele não mudou muito então. – desabafou Anne.
- Certas coisas nunca mudam.
E os dois se olharam, quietos. O ariano parecia poder ler a mente e o coração dela, o que a assustou. Repousou o copo sobre a pequena mesa de centro e preparou-se para levantar.
- Pronta pra ir?
- Sim, obrigada pela hospitalidade.
- Vamos, eu te levo ate a casa dele.
- Não, não! – respondeu bruscamente. – Estou voltando pro hotel.
- Mas você não veio à procura dele?
- Sim, mas mudei de idéia. – disse afoita.
- E você tem certeza que quer levar uma dúvida consigo de volta?
- Não...
- Então vamos lá, são dez casas acima.
Mu estava certo... Ela havia corrido como uma louca desvairada por Athenas por causa dele. Seria errado abandonar agora aquela visita por causa de seus próprios medos.
- "Ele não deve ter mudado tanto assim... Não a ponto de ter me esquecido!". – pensou.
- Pronta? Deseja mais alguma coisa?
- Não obrigada.
E saíram pelo lado oposto pelo qual tinham entrado. E os pensamentos de Anne estavam certos: somente se chegava à determinada "casa" passando pelas outras. Puseram-se a subir pelas escadas, Mu à frente e ela logo atrás, curiosa e observadora. Quando chegaram à outra construção, pôde então ler: Touro. Um rapaz forte e alto estava na porta, de braços cruzados.
- Aquele é Aldebaran, ele mora na Casa de Touro.
- Áries, Touro... Por acaso essas construções...
- Casas. – interrompeu.
- Certo, casas. Elas seguem a ordem do Zodíaco?
- Sim
- Mas e aquela última, a Décima Terceira?
- É a sala do Grande Mestre. É lá que ele mora, uma espécie de "zelador" do lugar.
- Ah sim... E em cada casa há um habitante?
- Sim, um cavaleiro que representa seu signo.
- Então é Aquário.
- Certo. – sorriu.
Quando deram por si, já estavam frente à Aldebaran, que a principio mantinha a cara seria, mas depois abriu um largo sorriso ao ver o vizinho.
- Deba, pode cuidar da entrada do Santuário enquanto a acompanho ate Aquário?
- Claro, Mu, sem problemas! – olhou para a moca e esticou a mão. – Eu sou Aldebaran, prazer.
- Anne, igualmente. – retribuiu.
Continuaram subindo por todas as escadas. Vez ou outra a garota sentia o olhar de curiosidade em cima dela, o que a levou a crer que visitas não eram comuns por lá. Nas outras casas zodiacais, o contato foi somente com Shura, que fez questão de jogar seu charme latino para cima da moca, ate ser alertado por Mu que ela havia ido ao Santuário a procura de seu vizinho aquariano.
Décima Primeira Casa, Aquário. Ficou em duvida se prosseguia ou se saía correndo. Olhou apenas por um tempo, sem saber o que pensar ou dizer.
- Anne, minha parte termina aqui.
- Obrigada, Mu. – disse encorajada. – De toda forma, nos vemos na saída, não?
- Sim.
Subiu os últimos degraus enquanto Mu descia passando novamente pela Casa de Capricórnio e assim as demais. Anne, por sua vez, entrou cautelosa, sem saber o que podia esperar por ali.
Olhou a sua volta. Aquele lugar parecia frio e vazio e, ao contrário das outras casas, não tinha nada que remetesse ao seu país de origem, embora a construção em si lembrasse os arredores do Arco do Triunfo.
Deu passos curtos e lentos, até que ouviu a voz dele e riu. Como ele ficava engraçado falando grego! Seguiu a voz, que vinha da única porta que estava aberta. Aproximou-se lentamente, verificando se era ele mesmo, e assim que o reconheceu, entrou – ainda chocada com o tamanho dos cabelos dele!
E então, o segundo choque: ele estava acompanhado! Talvez ela não estivesse preparada pra isso, afinal, o que lhe garantia que ele pararia a vida dele em anos somente para esperá-la? Alem do mais, ele quem fugiu de casa, da família, dela... Pensou em dar meia volta e então descer, mas era tarde. A mulher tinha o visto.
- Quem está ai? – perguntou hostil.
- Ora, Shina, não vi ninguém. – respondeu Kamus tranqüilo.
- Claro, estava de costas!
Anne então entrou a sala e apareceu para eles, pelo simples fato de odiarem que pensassem que estava escutando por trás das portas. Educada como sempre, simplesmente disse de forma polida:
- Me desculpem por não ter batido antes de entrar.
- Quem é você?
- Anne? – perguntou o rapaz surpreso. – É você?
- Você a conhece, Kamus? – se voltou para a garota. – Não vê que incomoda?
- Me desculpem, já estou de saída. – disse sem jeito.
- Somente apareça quando alguém te convidar, sua abusada.
Abusada? Anne ficou muito constrangida por estar ali, naquele momento que parecia ser tão inapropriado.
- Como disse, já estou de saída. Com sua licença.
- Shina, essa casa é minha! – bravejou Kamus. – Eu quem mando embora quem eu quero quando eu quero.
- É uma estranha no Santuário, não deve ser tratada com regalias.
- Anne, espera! – e foi atrás dela, sem se importar com a cobra que ainda falava.
- Não se preocupe, não incomodo mais.
- O que faz aqui?
- Te aborreço.
- Não ligue pra Shina, ela é sempre assim.
- Ela parece ser tão dona disso aqui quanto você. Alias, que burrice a minha! Se você não me procurou em anos, por que eu deveria te procurar?
- Anne, espera, você entendeu tudo errado.
- É... – olhou para a garota, que parecia frustrada. – Estou vendo. Au revoir, Kamyu. Ou melhor, Kamus.
E saiu correndo pelo corredor. Kamus, ainda incrédulo, sentou no sofá, pálido. Tentou recompor a ordem dos fatos, mas a verdade é que não tinha a mínima idéia de como ela foi parar ali, na sua frente.
- Quem era a pirralha?
- Meu passado.
- Ainda bem que ela se foi. – disse séria. – Nós, protetores de Athena, não precisamos de um passado.
- "Talvez você não precise... Eu simplesmente não quis precisar.". – pensou o aquariano. – Shina, vá embora.
- Está me expulsando?
- Se quiser entender assim...
- Por causa de uma garota? – indignou-se. – Ela ainda vai te trazer muitos problemas.
- Não pense em abordá-la, Shina, ou quem terá problemas será você.
E ela então saiu, com seu orgulho ferido. Pensou em ir atrás da garota, mesmo que por provocação, e saber mais sobre aquela que abalou o Iceberg, mas desistiu, voltando para sua própria casa.
O aquariano então se afundou em pensamentos, tentando entender algo e, principalmente, entender o porquê dela estar lá e ainda mexer com ele.
- "Eu te deixei pra trás, com toda a minha vida, pra ser esquecida... Por que você apareceu quando eu menos queria?".
E absorto em pensamentos foi para seu quarto, onde olhou para o teto pelo resto do dia.
