No capitulo anterior de "Memórias do Passado, Sonhos do Futuro"...
- Eu deveria parar de chorar pelo Kamyu e fazer a limpa por ai! – bebeu mais um gole. – Podia ter uma porrada de príncipes e filhos de políticos no meu currículo, mas não! Fico chorando por causa de um francês idiota!
Riram ainda mais depois dessa frase. Estavam tranqüilos, bebendo vinho sentados entre puffs e almofadas, até que três fortes batidas na porta interromperam o assunto. E as risadas.
- Sim...? – levantou-se Afrodite para atender a porta.
CAP V – A Revelação
- Dido, eu vim te fazer uma visita... Ma donna mia! – disse assustado Máscara da Morte ao entrar na sala.
- Mas sempre inconveniente e mal educado! – irritou-se o pisciano segurando a porta a sua frente. – Volta depois, a gente ta ocupado!
- Fazendo uma festinha e nem me convida? – ironizou. – Que coisa feia!
- Eu quero ficar sozinho com a Anne. – respondeu ofendido voltando ao seu puff de origem e em seguida pegou a taça de vinho.
- Não, Dido, deixa ele ficar! – interrompeu o amigo e logo depois se aproximou dele e falou baixinho. – Ele é bonitão!
- E por que você acha que meu sonho é comer uma caranguejada? – respondeu antes de beber o vinho.
Se Máscara da Morte tivesse visto sua expressão, veria que ele estava mais rubro que qualquer uma das rosas do jardim da Casa de Peixes, enquanto Anne e Afrodite, alegres por demais, riam da piada, sem se darem conta de que o canceriano tinha ouvido tais comentários. Essa "festinha" parecia divertida, e o italiano resolveu participar também. E assim o fez: sentou-se num dos puffs, em um que ficava do lado da francesa, que o olhava com seus instigadores olhos verdes.
Anne não podia negar que estava se divertindo, mesmo não tendo se dado conta de que tinha passado um pouco do limite no vinho. Ela estava feliz, e queria continuar vivendo aquilo, mesmo que essa vontade estivesse no seu subconsciente. Graciosa como sempre, levantou-se ajeitando seu vestido verde claro, que parecia amarrotado, e foi até a estante pegar uma taça para servir o mais recém chegado, como se ela mesma fosse dona da casa. Preencheu o vasilhame com a bebida e com um sorriso entregou ao visitante.
- E então, Máscara da Morte, o que posso fazer por você? – perguntou Afrodite tentando manter uma postura séria.
- Eu vim vê-la. – respondeu enfático ao beber o vinho que Anne tinha acabado de servir. – Shura fez tanta propaganda que eu vim conferir, você sabe como é aquele espanhol...
- E gostou? – perguntou curioso o pisciano.
- Ela é linda demais. – respondeu enquanto pegava um cigarro antes de ser reprovado pelo dono da casa.
- Obrigada, senhor Máscara da Morte, fico lisonjeada. – sorriu agradecida.
- Senhor? – observou-a curioso. – Faz um bom tempo que ninguém me chama de senhor.
Ele lembrou-se de sua vida antes da sua ida ao Santuário, de como tudo era, de sua família na Sicília e só foi trazido de volta a realidade quando observou que Anne e Afrodite riam descontroladamente por alguma coisa que ele não sabia o que era. Ele parecia estar totalmente desconfortável entre os dois. Por outro lado, ele entendia que era fácil se render por aquela obra francesa, mais iluminada que a Torre Eiffel à noite e mais imponente que o Champs Elysees. Fitou-a por um tempo, apenas a observando e quando viu que eles riam cada hora mais, resolveu tirar as taças de ambos. Ele, como bom italiano, sabia quando alguém tinha, de fato, bebido algumas taças a mais...
- Ai, Carlinho, pára de ser estragada prazer! – reclamou Afrodite. – Estamos nos divertindo tanto!
- Percebe-se. – respondeu pousando os copos na mesa de centro. – Alias, se divertindo até demais.
- Mas não estamos fazendo mal a ninguém! – continuou protestando.
- Carlinho? – perguntou Anne rindo do apelido. – É de Giancarlo?
- Isso. – consentiu o italiano.
- É um nome muito lindo. – sorriu para ele, quando ele se sentou do seu lado novamente. – E acompanha um apelido muito forte.
Giancarlo se voltou para ela, surpreso com suas palavras. Somente agora ele tinha se dado conta que ela foi a primeira mulher a não se assustar com esse apelido, tão comum no Santuário, mas que assustava quem o conhecia a primeira vez. Afinal, quem era ela? A única coisa que ele sabia era que ela foi até lá a procura de Kamus, e nada mais. Mas por que ele se sentia tão à vontade perto dela? E isso o fez se surpreender ainda mais e porque não dizer, o assustou também.
- É melhor você nem saber o porquê desse apelido! – torceu o nariz o pisciano.
- É italiano, não? Amo a Itália, um dos meus países favoritos! Tão lindo!
- Tudo depende do ponto de vista. – desviou o olhar da garota o italiano.
- Não gostava de onde morava? – perguntou surpresa. – Onde você morava?
- Sicília. – respondeu a contragosto. – Podemos mudar de assunto?
- Claro, desculpa. – abaixou a cabeça.
- Não precisa pedir desculpa. – cruzou os braços olhando para o outro lado.
Ela sorriu consentindo com a cabeça, enquanto Afrodite começou a rir escandolasamente. Os dois ficaram a observar o pisciano, que quase caiu do puff onde estava, de tanto que ria, e então se entreolharam, curiosos, como se procurassem por uma resposta – que não vinha. Giancarlo corou-se novamente, e seus olhos azuis estavam fuzilando o amigo, e ele resolveu perguntar:
- O que é tão engraçado?
- Você! – riu o pisciano descontrolado, apontando para ele e falando quase sem fôlego. – Intimidado e constrangido por causa de uma mulher!
- Mas que diabos você...? – irritou-se envergonhado.
- Ta um caranguejo fora da praia! – riu ainda mais.
- Eu quem vou te deixar um peixe fora d'água, seu... – levantou-se mais irritado, indo à direção ao dourado.
- Se você vir assim, eu gamo mais ainda! – provocou com um olhar sedutor.
Quando Máscara da Morte estava prestes a pegar Afrodite pelo colarinho, foram interrompidos novamente por risadas, agora vindas da garota. E que risada gostosa! Olharam para ela, que tinha as bochechas coradas e lágrimas nos seus brilhantes olhos verdes, de tanto que ria. Seus braços, cruzados sobre a barriga, indicavam que ela ria tanto que chegava a doer. Tanto o canceriano como o pisciano paralisaram, e fitaram-na sem reação e curiosos.
- Ai, gente, desculpa! – tentou dizer entre risadas envergonhadas.
- Fica a vontade! – sorriu o pisciano. – Minha casa é sua casa.
- Mas por que ri tanto, bambina? – perguntou o italiano ainda surpreso.
- Porque vocês são engraçados. – tentou conter o riso. – Tem uma relação tão íntima que parecem, sei lá, irmãos...
- Eu irmão desse ai, imagina! – fez uma careta de leve desprezo para o sueco. – Isso nos piores dos filmes de horror, só se for!
- Carlo, você quer ser meu irmãozinho? – provocou com um olhar doce.
- Você é filha única? – continuou controlando seu humor.
- Sou sim. Eu tinha uma amiga que era praticamente minha irmã, mas... – foi diminuindo as risadas ate que elas cessaram. – Mas deixa isso pra lá.
- Carlinho, você ainda não respondeu minha pergunta... – continuou o sueco, vendo que a garota ficou meio constrangida com a colocação.
Ela então começou a rir novamente, e com gosto. Sabia que o pisciano queria bem mais que "irmandade" do belo cavaleiro de Câncer, e isso tornava tudo cômico demais. Chegou a conclusão de que Afrodite era uma das pessoas mais engraçadas que ela havia encontrado em sua vida tão séria e formal. Mas as aparências enganam, e como enganam! Ah se ela soubesse da vida de Afrodite e de cada um dos cavaleiros! Ah se ela soubesse as provações diárias pelas quais eles passavam – e por tudo que já haviam passado...
- Por favor, onde fica o banheiro?
- Terceira porta a esquerda. – apontou em direção a porta.
- Obrigada. – sorriu agradecida. – Com sua licença, senhores.
Giancarlo a observou sair, graciosa sob aquele leve vestido verde, que parecia uma folha dançando ao vento, e ficou surpreso pelos próprios sentimentos. Estava descrente de tudo aquilo que estava acontecendo, e que ele estava vivendo. E ele não era o único: Afrodite parecia ainda mais descrente. O motivo? Giancarlo. O canceriano, de forma geral, era arisco com desconhecidos, e sempre que aparecia alguém novo no Santuário, ele arrumava uma desculpa para uma briga acontecer e então expulsar a visita – independente do sexo, mas aquele não era o caso. Ele havia gostado dela, queria que ela ficasse, e aquilo estava estampado em seus expressivos olhos azuis. Por um instante, o pisciano ficou enciumado, afinal ela era especial o suficiente a ponto de fazer um italiano casca-dura ceder aos seus encantos e ao seu sorriso, e ainda demonstrá-lo. Mas como ele poderia ter ciúmes dela? Dela que o encantou assim que ela pisou em seu jardim? Não. Não poderia.
- Quer dizer que aquele espanhol safado falou dela?
- E como! Não conhece o Shura, Dido? Amante latino inveterado. – conversou colocando a mão no bolso, procurando seu cigarro. – Até agora não sei como o Miro não bateu na sua porta procurando por ela. – riu malicioso.
- Claro, ele não é um ogro como você! – respondeu recriminando o cigarro que ele estava prestes a acender.
- Mas você gosta do ogro aqui. – sussurrou baixinho entre os dentes, com o mesmo sorriso malicioso de antes no rosto.
- O que você disse? – perguntou ofendido.
Ele nada respondeu, com o único e exclusivo intuito de irritar o morador da Décima Segunda Casa – e conseguiu. Afrodite deu um leve ataque histérico, o que fez com que Giancarlo risse vitorioso. Essa era basicamente a relação dos dois: um irritar o outro, embora tudo aquilo fosse mais uma fachada do que qualquer outra coisa. A face clara do sueco corou de raiva e ele mais nada respondeu, o que fez com que o italiano continuasse:
- Ela veio mesmo atrás do Kamus? – indagou descrente.
- Hoje não, mas ontem sim. – respondeu ainda emburrado. – Coitadinha, cega de amor!
- Por aquilo? – desprezou. – Ta loco, Dido, ela só pode ser maluca!
- Olha como você fala, seu stronzo! – rebateu ofendido. – Uma pessoa quando ama não vê limites, mesmo que para os outros isso beire o absurdo.
- Se você diz...
- Por quê? Você achou-a interessante? – instigou-o com olhar malicioso.
- Qualquer homem decente acharia. – respondeu imediatamente. – Sorriso de anjo, jeitinho de criança, corpo de mulher... Que cara não quer tudo isso?
- Pois é, Carlinho, hei de concordar. – cruzou os braços. – Se eu fosse homem não seria diferente!
A principio o canceriano fez uma cara espantada ao ouvir tal declaração, embora o pisciano não pudesse ter a visto. Giancarlo voltou seu olhar para ele, de forma curiosa e instigadora, franzindo as sobrancelhas e querendo a confirmação se ele mesmo havia dito aquilo. Afrodite estava enlouquecendo, essa era a única explicação plausível. Os pensamentos dele com uma mulher logo vieram a sua cabeça, ou seja, algo insano e impossível, como reação começou a rir de suas próprias criações mentais.
- Ei, do que você ta rindo, seu italiano maluco? – perguntou irritado.
Ele nada respondeu, ainda permaneceu rindo. Anne então voltou do banheiro, agora de cabelos presos, e ficou olhando a cena. Giancarlo ria tanto que ela queria rir daquela forma também – embora ela não precisasse de muito para faze-la rir. O álcool muda uma pessoa, e olha que o canceriano nem tinha bebido nada! Mas imaginar Afrodite com uma mulher foi mais engraçado do que qualquer piada feita para uma pessoa num estado "alegre"...
- Perdi alguma coisa? – perguntou vendo o dono da casa contrariado.
- Esse maluco começou a rir sozinho! – rebateu inconformado. – Quero saber a piada também, mas ele não me conta!
- É que foi interna! – respondeu rindo mais ainda.
Os outros dois se entreolharam e não entenderam nada, ficando aquela dúvida no ar. Observaram-no por mais algum tempo, ate que ele conseguiu se controlar e cessou o acesso de risada, embora não dissesse o motivo daquela "felicidade" toda.
- Bom, meninas, o papo ta bom, mas preciso ir. Tenho um joguinho marcado com Shura, sabe como é...
- Nossa, que novidade. – torceu o nariz o pisciano.
- Foi um prazer te conhecer, Giane. – sorriu a garota.
- Igualmente. – respondeu com um sorriso mais discreto.
- Tenha um bom jogo. – se aproximou lhe dando um beijo na bochecha. – E ate algum dia.
- Er... – balbuciou totalmente desconcertado. – Volte amanha pra jantar. Minha convidada.
Se ele tivesse esperado um tempo, teria visto que ela deu um largo sorriso com o convite, confirmando com a cabeça que aceitava. Mas ele saiu apressado pela Casa de Peixes, envergonhado e tímido. Como ELE poderia ter feito tal convite, justo ele que odiava visitas naquele lugar, e ela era uma estranha? Nem ele mesmo acreditava, ela não era uma pessoa qualquer... Ela era especial. E nem ele sabia dizer por que. E não sabia dizer porque ela mexia com ele daquela forma instigadora.
Desceu as escadas de forma rápida, como se estivesse fugindo, e finalmente chegou a Casa de Capricórnio, onde Shura o aguardava. O espanhol, curioso, perguntou de onde ele vinha, e quando contou que foi a Peixes ver a garota, o amigo quis matá-lo! Onde já se viu não chamá-lo? Giancarlo pediu para que ele ficasse quieto e contou todas as impressões que teve sobre aquela obra de arte francesa, e Shura concordou com tudo. Claro que ele não contou como se sentia em relação à garota, senão ele seria motivo de piada pelo resto da noite. E então começaram a beber e jogar cartas.
Afrodite e Anne então voltaram a conversar – e não a beber! – como antes, embora o estado de ambos ainda fosse um pouco alegre demais. O sueco pediu desculpas pelo jeito do amigo, dizendo que nem sempre ele era rude daquela forma. Para a surpresa dele, Anne discordou, dizendo que adorou conhecê-lo, e que ele era uma pessoa muito espontânea e sincera, duas das qualidades de alguém que ela amava, e que provavelmente voltaria para o jantar na noite seguinte. Continuaram conversando por mais algum tempo, ate que...
- Puxa, ta tarde! – levantou-se do puff azul no susto. – O Olivier vai me matar!
- Quem é Olivier, menina? – perguntou curioso levantando-se por reflexo.
- Meu amigo e guarda-costas. – respondeu apressada procurando a bolsa.
- Como você é chique, menina! – maravilhou-se antes de dar o que levava em mãos para ela. – Toma sua bolsa.
- Obrigada! – sorriu em agradecimento. – Por tudo.
- Amanha te espero de volta, claro que estarei na casa do Carlinho.
- Certo, farei meu possível pra vir o mais cedo que conseguir! – sorriu.
- Não sorria assim pra qualquer homem, ou eles se enlouquecerão! – riu. – Vamos, eu te levo ate Áries.
- Obrigada.
Dessa vez ela nem tentou recusar, porque sabia que ela não cederia e ela ainda estava um pouco tonta devido ao vinho – mesmo depois de um bolo de chocolate que melhorou o estado alcoólico dos dois. Seguiram então, felizes escadas abaixo, e logo chegaram a Décima Primeira Casa. Cruzaram pelo corredor que dava passagem ate a outra porta, felizes, contentes e falantes, ate que Afrodite colocou seu indicador sobre a sua boca, fazendo um sinal para que ela ficasse quieta e o seguisse sem fazer barulho. Ela não entendeu, mas o seguiu, mesmo se sentindo uma colegial estúpida, embora achasse aquilo tudo divertido. Ela o cutucou algumas vezes, querendo respostas, e depois dela tanto insistir, ele acabou dizendo:
- Kamus e Aioria estão conversando, vamos ver do que eles falam!
- Mas, Dido, como você sabe que tem gente aqui? E quem é esse Aioria?
- Shiu, fala baixo! – repreendeu-a numa voz suave. – É o cosmo do Leãozinho!
Anne ficou com uma cara de dúvida, já que não tinha a mínima idéia do que ele estava falando. Que diabos era cosmo? Afrodite tinha se esquecido que ela não sabia nem o que era o Santuário, de fato. Quanto mais saber o que era cosmo! Mas agora não era o momento de explicar, e os dois se aproximaram da porta da sala onde os dois dourados estavam, as escondidas. Anne se perguntou o que ela fazia ali, mas se perguntou o que os dois conversavam a portas fechadas – e ela tinha se esquecido que ela não sabia quem era Aioria. Recostaram na parede, silenciosos, e então começaram a ouvir o que os dois falavam.
Momentos antes na sala em questão...
- E ai, Kamus? Tranqüilo?
Kamus fora interrompido de seu momento silencioso por um barulhento e abusado Aioria, que o cumprimentou de forma despojada. Voltou a cabeça e o olhar para o leonino, que chagava cada vez mais perto, sem cerimônias, acompanhado de perto por aquele par de olhos azuis que pareciam congelá-lo só por sua audácia.
- Como posso lhe ser útil, senhor desocupado? – perguntou com sua habitual frieza.
- Vim confirmar os boatos. – disparou se jogando no sofá da sala.
A principio Kamus pensou em fazer um discurso de reprovação e repúdio, tendo em vista que ele estava todo sujo e suada no claro sofá da casa dele, mas a frase do leonino fez tanto efeito que ele ansiava mais por saber do que se tratava do que tira-lo de lá a base da ignorância. Mas claro que não daria a ele esse gostinho, e certamente seria o Kamus frio de sempre.
- E por acaso eu tenho cara de "Central de Fofocas", Aioria? Deixo isso para os desocupados das demais casas... – respondeu se levantando de sua poltrona com intuito de ir ao seu quarto.
- Mas, pelo que me falaram, o assunto você conhece bem. – riu zombeteiro colocando os pés na mesa.
- O que disse? – voltou-se para ele surpreso, porém sério.
- Anne Cam... Cam... – gaguejou tentando se lembrar do nome dela. – Camburo?
- Cambeaux. – corrigiu sem expressar nada. – Anne Cambeaux.
- Isso, essa mesma! – sorriu se lembrando.
- O que tem, Aioria? – perguntou o aquariano na defensiva, mesmo que tivesse se corroendo de curiosidade por dentro. Ele não era mais o mesmo... – Ela veio aqui ontem, viu mais do que devia, tirou suas próprias conclusões e...
- Ontem? – perguntou surpreso recolhendo os pés da mesa. – Não, não, foi hoje.
- Você deve ter se confundido. – respondeu ainda sóbrio. – Enfim, com sua licença...
Kamus voltou-se novamente para a porta, com o único intuito de ir em direção aos seus aposentos, embora ainda estivesse instigado e curioso com as declarações de Aioria. Ele tentava, em vão, controlar o turbilhão de emoções que pareciam partir ao meio a pessoa centrada que ele sempre foi – pelo menos nos últimos cinco anos. O leonino, por sua vez, ficou pensativo, pensando se não tinha se confundido, mas tinha certeza que não. Antes que o aquariano saísse, ele insistiu.
- Não, não, hoje mesmo! E ela ainda não foi embora, porque não passou pela minha casa.
- Aioria, já disse que Anne veio aqui ontem e que não a vi hoje, portanto...
- Claro que não, ela não veio pra te ver. – divertiu-se Aioria com aquilo tudo. – Ate que parece que o Shura ia se enganar quando o assunto é mulher...
O francês contou mentalmente ate dez antes de se virar, para não transparecer a fúria que ele sentia dentro de si. Como ela tinha se deparado justo com Shura, o boêmio das Doze Casas? Negou para si mesmo que algo tenha acontecido entre eles, mas sentiu uma raiva incondicional ao imaginar os dois juntos. O vulcão gelado estava prestes a explodir! Ele então virou-se para Aioria, ainda mantendo a voz fria de sempre, embora por dentro seus sentimentos fossem outros.
- E ela veio aqui atrás de quem? Shura? – perguntou irônico. – Por favor, Aioria, esperava mais de você, como não acreditar nas histórias do meu vizinho.
- Não, querido amigo francês, ela veio almoçar com Dido, seu outro vizinho. – debochou Aioria. – Mas, se quer saber, ela deu um fora no Shura, que agora diz estar "enfeitiçado pelos encantos daquela doce ninfa". – terminou a frase imitando o capricorniano.
Como? Não, ela não poderia ter passado pela sua casa sem ter sido notada. Ainda mais porque ela não subiria todos aqueles degraus sozinha, como no dia anterior tinha o feito na companhia de Mu de Áries. Ficou ainda pior ao imaginar quantos cavaleiros teriam flertado com ela, uma garota linda e atraente, principalmente seus melhor amigo e companheiro de boemia de Shura, Miro. Mas ele não podia transparecer qualquer emoção. Não ele, o Iceberg. E ele se convenceu de que ela era seu passado, e nada mais.
- Ate Mu a elogiou, e olha que ele é contido e discreto. – seguiu rindo leonino, se divertindo com a inocência de Kamus. - Ai vim saber se você deu mesmo o fora nela ontem.
Ao mesmo tempo atrás da porta...
- Mas, Dido, que raios é cosmo?
- Shiu! – advertiu-a mais uma vez. – Ou o Kamus descobre a gente!
- "Se você deu mesmo o fora nela ontem". – ouviram Aioria dizer por trás da porta.
- Agora a gente vai saber o que ele acha! – comemorou o sueco. – O Leãozinho é bem persuasivo!
Dentro da sala, Kamus fuzilou o cavaleiro de Leão com o olhar, que agora tinha entendido que estava brincando com assunto sério, pela colocação indiscreta e direta que fez ao mais reservado dos dourados – mais reservado ate mesmo que Shaka de Virgem. Como era muito centrado e seguro de si, pensou rápido e chegou à conclusão que, para Aioria, seu silêncio era mais significativo mais do que qualquer confirmação ou outro tipo de resposta que ele pudesse dar. Aioria se levantou, rindo daquela cena e se divertindo muito com aquilo tudo, esperando uma resposta dele.
- E se eu o fiz? – respondeu com outra pergunta, sério como só ele sabia ser. – De que te interessa?
- Kamus, que vergonha! – riu irônico. – Justo você, o mais certinho de todos nós...
As provocações do grego se intensificaram desde então, e o aquariano não respondeu a nenhuma delas, pois já conhecia seu visitante – sabia que o leonino queria que ele entregasse o jogo e contasse tudo. Mas ele não cederia. Não ele, a parede de gelo. Kamus se recostou na parede, como se buscasse um apoio para o que ele sentia, um apoio que ele não queria de uma pessoa. Afinal, quem entenderia seus sentimentos? Aioria, implacável, continuou, intensificando ainda mais o teor das afirmações:
- E ela ainda te pega no flagra com outra! Que vexame...
- Era a Shina, idiota. – repreendeu-o. – Ela veio me pedir umas dicas e uns conselhos...
- Ahan, sei. – riu no irônico modo masculino quando o assunto era mulher. – Pelo jeito que os demais a descreveram, seria burrice demais trocar ela pela Shina. Não que a Shina não seja bonita, mas...
- Eu tomo minhas decisões, Aioria. – cortou o assunto prontamente. A verdade é que ele estava prestes a explodir, e tentava se enganar. E o fez tão bem que esqueceu de seus próprios sentimentos. – Portanto...
- Caminho livre pra quem quiser? – perguntou objetivo.
- Aioria, se ela veio mesmo ate aqui hoje, não foi por minha causa. – Como doía dizer aquilo! Que dor era aquela, mesmo depois de anos de ausência? Não, ele não podia aceita-la. E continuou. – Portanto, que seja, ela é meu passado, e um passado esquecido. E assim continuará sendo pra sempre.
- Se você diz, Kamus... – pareceu indiferente. – É bom avisar os outros também.
- Sabe que não me importo. – respondeu frio.
- Não sei não... – insistiu nas provocações. – Pro Shura se render assim a uma mulher...
- Shura se rende por qualquer mulher e a Anne é bem o tipinho dele. – cruzou os braços. – Fica bem arrumadinha e se entrega fácil. Que homem não se rende assim?
Quando Aioria ia responder, ainda fazendo o joguinho de provocações, a porta se abriu com uma força descomunal, demonstrando que a pessoa que a abriu estava realmente brava e ofendida. Instantaneamente os dois voltaram suas atenções para a porta, e qual foi a surpresa ao verem uma pessoa, de fato, incrivelmente exaltada e ofendida por tais declarações.
- Kamus, que você é um idiota, eu já sabia!
- Afrodite? – exclamaram os dois ao mesmo tempo.
- O que...?
- Agora, ser baixo e mentiroso a esse ponto? – continuou ainda alterado. – Que decepção! Que vergonha!
- Dido, o que...? – tentou perguntar um confuso leonino.
- Você sabia que ela tava ouvindo tudo? – se aproximou do francês de forma ameaçadora.
- O que? – saiu de seu encosto na parece e se aproximou da porta, ainda perdido. – Ela ta aqui mesmo?
- Não disse? – comemorou um triunfante Aioria. – Se fudeu, pingüim!
- Depois dessa, deve ter ido embora!
Afrodite voltou ate a porta, e clamou pelo corredor o nome da garota, que não respondeu, indicando que, de fato, havia ido embora. A surpresa maior era o sueco estar tão bravo, como jamais alguém ali naquele solo tinha visto, por alguém que ele sequer conhecia bem. Se Kamus não estivesse tão preocupado, estranharia muito o fato de ele estar sendo tão agressivo quando era tranqüilo. Um bom vinho realmente mudava uma pessoa depois de algumas doses...
- Sai da frente! – e ele empurrou o leonino que estava em seu caminho e acabou caindo no sofá novamente, saiu pela porta. – Anne? Anne, se tiver escutando, espera! Anne!
Kamus correu a sua casa inteira a procura da garota, ainda com a esperança de ela estar perdida pelos seus cômodos. Como não a encontrou, resolveu que desceria todas as escadarias se fosse preciso, mas a encontraria. Não poderia deixar o erro acontecer duas vezes. Sentiu-se ainda mais idiota, porque mesmo negando, não conseguiu guardar aquilo. Sim, ele ainda se importava. E um decidido Kamus procurava seu objetivo de forma tão rápida e esbaforida que ninguém jamais pensou que fosse vê-lo daquela forma tão... Entregue.
- Da pra entender esse cara? – indignou-se Aioria. – Disse que não tava nem ai, e agora ta ai todo revoltado!
- Tadinha da Anne! – lamentou Afrodite. – Ela não merecia, não merecia mesmo! Mas quer saber? – disse olhando firme para o grego. – Eu não vou deixar esse idiota fazer o que quiser com ela!
O leonino arqueou as sobrancelhas como reação e observou o pisciano deixar a sala, indicando que ele iria também descer as Doze Casas, e iria impedir Kamus de fazer o que pretendia, porque sabia que ele chegaria ate ela de forma rápida, já que ele era morador dali e ela uma simples visitante. E o Santuário era muito traiçoeiro, poderia enganar ate mesmo os soldados que ali viviam. As Casas eram verdadeiros labirintos, onde sem ajuda, uma pessoa poderia ficar dias ou ate mesmo meses perdida. Não, ele tinha que evitar esse encontro! Ele tinha que fazer com que Anne esquecesse que ela amava o francês, por pior que isso pudesse soar.
Aioria, antes já entretido com os jogos de indiretas, insinuações e respostas não convincentes, achou aquilo tudo ainda mais divertido. Claro que ele não ficaria para trás enquanto os fatos aconteciam bem a sua frente – e que agora ele conhecia bem! E foi logo atrás do companheiro...
Quando Afrodite resolveu entrar, mesmo com pedidos chorosos de uma envergonhada Anne, a garota resolveu que não poderia ficar ali parada. Sentiu-se novamente uma intrusa, e pior, ainda foi considerada "fácil" pelo aquariano. Ela precisava fugir dali! Fugir dele! E então correu em direção a saída da casa, desta vez do lado certo, pois se lembrava de qual lado tinha vindo – mesmo um pouco zonza. Ficou aliviada quando viu as outras dez Casas abaixo, e apressou-se em direção a elas, com a companhia de lágrimas que teimavam cruzar seu rosto de boneca.
Chegou a Casa de Capricórnio, toda confusa e perturbada, e novamente errou a saída. Praguejou mentalmente por aqueles templos serem to irregulares e, mais ainda, por não conhecê-los, enquanto ela parecia rodar em círculos. Observou o corredor a sua frente, onde cerca de dez portas a sua frente formavam um confuso labirinto. Olhou-as confusa e rodando em volta de seu próprio corpo, em busca de uma solução, mas tudo parecia complicado demais. Anne então notou que, naquele leve breu, algumas das portas tinham as luzes acesas, e decidiu que entraria na primeira delas. Entrou sem hesitar, e ficou feliz por reconhecer as divertidas vozes de Shura e Máscara da Morte.
- Straight flush, idiota. – riu o italiano apagando seu cigarro no cinzeiro.
- Madre de Dios! – exclamou o espanhol estático.
- Pára de reclamar, Shura! Não saber perder? – sorriu triunfante.
- Chica, que pasa?
O capricorniano parecia chocado ao ver a garota a sua frente. Aqueles olhos verdes brilhantes e felizes que haviam passado por sua casa há algumas horas atrás, estavam ali vermelhos, pesarosos e reluzentes pelas lágrimas que o cobriam quase por completo. Levantou-se prontamente, a ponto de fazer com que a cadeira na qual estava sentado caísse no chão, jogando suas cartas sobre a mesa para então ir de encontro ao seu anjo. Aquela cena causou um aperto no seu coração que nem ele saberia explicar o porquê. A verdade era que ele odiava ver mulheres chorando.
- Vem cá, chica, senta aqui. – balbuciou preocupado.
- Shura, a saída. – respondeu com as lágrimas cortando seu rosto.
- Eu vou buscar algo pra você beber e se acalmar, e... – afobou-se.
- Shura, eu só quero ir embora, por favor. – passou o dorso da mão direita sobre os olhos, limpando-os. – Me fala onde é a saída, por favor.
- Anne? O que aconteceu, bambina?
Giancarlo se aproximou da garota, visivelmente abalado. O espanhol, claro, estranhou a atitude dele, arisco por natureza, embora por outro lado tenha se sentido melhor, porque ela pareceu se conter mais perto dele. O mais estranho era que ela não parecia ter medo dele, pelo contrario, parecia confortável com a sua presença. Anne olhou-o profundamente, ainda chorando, e lhe falou com uma sinceridade tão grande, que ate mesmo um cavaleiro tido como cruel ficou abalado.
- Giane, por favor, me mostra a saída. – suplicou. – Eu quero ir embora.
- Vai ter como ir pra casa? – perguntou preocupado.
- Sim, meu motorista vem me buscar. – tentou enxugar, em vão, o rosto. – Eu quero sumir daqui.
- Vem, eu te levo.
Giancarlo segurou a mão da garota, que estava gelada e suando frio, e foi guiando-a ate a saída. Anne sequer se despediu do espanhol, apenas seguiu seu "salvador" de mãos dadas ate a porta daquela casa. Por alguns momentos, apertou, ainda que involuntariamente, a mão do italiano, demonstrando o desespero e o sufoco que sentia. Ela queria, precisava sair dali, o mais depressa possível! E pra nunca mais voltar.
- Essa aqui é a porta que você procura. – apontou para uma porta cerca de dois metros dos dois, maior que as demais. – Você quer ir sozinha?
- Não quero mais atrapalhar, nem dar trabalho, Giane...
- Eu perguntei se você quer ir sozinha. – respondeu ríspido.
Ela concordou com a cabeça, ainda com o rosto inteiramente molhado e sem cor, coberto pelo seu choro que não cessava. Ele fitou-a por um tempo, pensando no que teria acontecido para deixá-la daquela forma, embora já tivesse uma resposta certeira e convincente.
- Siga o corredor de todas as Casas pela esquerda, com exceção da de Gêmeos, que você deve ir pela direita. Em todas as casas tem um telefone, caso se perca, disque 1 mais o número 10. Estarei por aqui, ai eu vou te buscar.
- Não será necessário, obrigada.
Giancarlo soltou sua mão lentamente, ainda que com pesar, e então lhe deu um beijo carinhoso na fronte, o que ela tentou responder com um sorriso, que não saiu. Saiu logo depois, apressada, sob os olhares vigilantes do cavaleiro de Câncer, que a viu desaparecer noite afora, ate que chegou a Casa de Sagitário. Convencido de que tinha feito sua parte, deu dois passos para trás, ainda com olhar fixo nas escadas, quando esbarrou em algo – ou melhor, alguém.
- Ai! Que você ta fazendo atrás de mim, caralho? – resmungou.
- Giancarlo Polis Canali! – disse chocado.
- Que foi? – perguntou mal-humorado.
- Volta a fita, porque dormi nessa parte do filme! – respondeu incrédulo. – O que você fez nos últimos dez minutos, Giancarlo?
- Mandei você ir passear. – respondeu tirando um cigarro do bolso e acendendo-o. – Se continuar me enchendo, vai pro Yomotsu.
- Isso não é uma coisa que vejo todos os dias, ta? – respondeu voltando para a sala onde estavam jogando. – Esperaria isso de Mu, Shaka, do velho Dohko e talvez do Deba, mas de você? Parece mentira!
- Você ta pedindo pra ver o mundo lá debaixo. – respondeu soprando fumaça. – Vamos jogar logo, ou ta com medo de perder de novo?
Shura deu uma larga risada de deboche, respondendo com mais algumas provocações, e assim eles voltaram para a mesa. Máscara da Morte então recolheu as cartas que estavam jogadas por cima da mesa e começou a embaralhá-las, com uma incrível habilidade e segurando seu cigarro, ainda aceso, na boca com os lábios. Enquanto isso, o anfitrião foi ate a cozinha pegar mais cervejas e mais aperitivos, afinal a noite estava apenas começando. Ele chegou quando o italiano terminava de distribuir as cartas, indicando que estava pronto pra dar início.
- Você acha que ela vai ficar bem? – perguntou Shura olhando suas cartas.
- Eu disse pra ela ligar aqui, qualquer coisa. – respondeu depositando as cinzas num cinzeiro posto ao seu lado. – Mas ela vai ficar bem.
- O que você acha que aconteceu? – indagou ao colocar as cartas na mesa e abrir uma cerveja.
- Eu já tenho certeza do que aconteceu. – confirmou olhando as suas cartas.
- E o que foi?
O telefone tocou antes da resposta do italiano, o que frustrou Shura. Imediatamente os dois colocaram as cartas novamente em cima da mesa, paralisando o jogo, e então olharam o aparelho, que soava o segundo toque. O dono da casa então correu para atendê-lo, enquanto o canceriano apagou seu cigarro, já se preparando para descer algumas escadas.
- Shura falando. – respondeu.
- Shura, é o Aioria.
- Fala, Leão! – disse brincalhão.
- Cara, segura que a bomba ta indo pra sua casa. – riu, ainda que estivesse fazendo um drama.
- Como assim pra minha casa? – perguntou assustado.
- A Anne já passou por ai?
- Já. – confirmou vendo Câncer se aproximar. – Mas ela já foi embora.
- Kamus saiu daqui que nem um foguete atrás dela! – exclamou. – E o Dido atrás.
- O kamus? – perguntou atônito. – Aquele, o de Aquário?
- É, é! O Kamus de Aquário. – confirmou impaciente. – Me espera porque to indo praí também! Porque a noite vai ser agitada, espanhol!
Quando Shura recolocou o telefone no gancho, apressados passos entraram pela sua casa, como se tivessem esperando que ele desligasse a ligação e estivessem a procurando por alguém. Pelo cosmo – e pelo aviso de Aioria. – souberam que se tratava de Kamus, seguido por Afrodite, que pela pressa tinha aumentado a potência de sua corrida. Assim que o aquariano pisou na sala onde estavam (que ele sabia graças ao cosmo dos dois), Giancarlo puxou-o pela gola de sua camisa pólo cinza e o colocou contra a parede. Kamus, a principio surpreso pela "recepção" que recebera, olhou friamente, como de costume, quando viu seu agressor. Não era segredo pra ninguém daquele lugar que os cavaleiros da Quarta e da Décima Primeira Casas não tinham lá grandes afinidades, por diversos motivos, embora para a maioria os dois fossem iguais, pois eram reservados.
- Foi você, não foi? – interrogou-o
- Deixa de idiotice, Giancarlo. – desvencilhou-se dele, desconversando. – Viu uma garota passar por aqui?
- Você sabe que to falando dela! – irritou-se.
- Eu preciso falar com ela. – respondeu sereno. – Ela entendeu tudo errado.
- Ontem ela pode ter entendido, hoje jamais! – interrompeu Afrodite fazendo sua primeira aparição na discussão. – E também ouvi o que você falou, seu monstro!
- E o que ele falou de tão serio? – perguntou Shura assustado com o tom de voz do pisciano.
- Tenho ate nojo de lembrar. – torceu o nariz, fazendo uma cara de repúdio. – Onde já se viu, a menina é tão linda, tão meiga e...
- Ele falou que ela era feia? – arregalou os olhos o espanhol.
- Entre outras coisas mais. – respondeu a contragosto.
- Ah, seu impiastro! – se aproximou novamente dele Câncer.
- Eu quero logo resolver tudo isso! – respondeu incomodado. – Já que ela veio atrás de mim, melhor...
- E isso te da o direito de pisar nela? – interrogou Afrodite.
- Dido, eu não vou discutir isso com você.
- Claro, não tem o que se discutir! – bravejou. – Você ouve e fica quieto!
As insinuações continuaram por mais algum tempo, ate que Aioria chegou para fazer parte da discussão também. Os rapazes pareciam indignados por Kamus ter dito o que disse, e pior, por ela ter ouvido um monte de mentiras absurdas. Afrodite era o mais ofendido, de longe, e o que mais discutia também. Que garota mais polêmica! Conseguiu agitar, em dois dias, um Santuário que viva numa monotonia sem igual por tempos!
Shura, surpreso com aquela bagunça inteira na sua sempre tão calma casa, recostou-se na parede depois de pegar mais uma cerveja e ficou apenas observando a discussão. Aioria se juntou ao amigo logo depois, embora ele estivesse se divertindo demais com aquilo tudo.
- É, Aioria. É hoje que a minha casa vira um pardieiro!
O leonino, com um pote cheio de amendoins em mão e mais alguns deles na boca, concordou com a cabeça, enquanto Shura virou um gole da cerveja. Aquilo não iria terminar tão cedo.
Com as recomendações do canceriano, seguiu pela esquerda na Casa de Sagitário, vazia. Aquela casa lhe causava profundos arrepios, pois ela sabia que ela estava vazia por anos devido à morte do seu cavaleiro, que era considerado o traidor que tentou matar Athena ainda criança. Mas agora, com aquilo tudo vazio, ela saiu mais rápido do que sairia de qualquer uma das casas abaixo, principalmente se encontrasse com seus moradores. Acelerou ainda mais quando avistou a Casa de Escorpião mais abaixo. Quanto mais rápido ela corresse, mais rápido sairia dali. Esses eram seus únicos pensamentos.
Se ela tivesse parado para ver o céu, veria que a noite estava ainda mais linda que o dia. Mas aquele era um capricho que ela não queria se dar, principalmente naquele momento tão doloroso. Seu vestido verde, feito de um tecido leve, balançava naquela doce brisa noturna, e ela agradeceu por estar usando sapatilhas confortáveis, enquanto ela tentava parar de chorar. Pensava em tudo e no nada ao mesmo tempo, ate que...
- Ai! – exclamou a francesa.
- Ei, você ta bem? – perguntou segurando-a pelo ombro.
- Pardon, monsier, est que je... – sacudiu a cabeça, que estava baixa, tentando reordenar os pensamentos. – Me desculpa, é que estava com pressa...
- Anne? – fitou-a assustado.
- Mas como... – ela então olhou-o nos olhos. – Miro!
- Por Athena, o que aconteceu? – perguntou profundamente preocupado.
Ela, como única reação, abraçou-o de forma tão forte que nunca tinha feito em toda sua vida, desabando novamente em lágrimas que logo umedeceram a camiseta amarela do rapaz.
Continua...
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N/A:
Huuuuuuuuuuuuum!!! E agora? Como essa história vai se resolver?
Anne realmente foi para o Santuário pra causar.
E agora, ela encontrou Miro! Mas como ela conhecia Miro?
Essa e muitas outras questões serão respondidas nos próximos capítulos!
Eu achei essa passagem meio massiva, e ela acaba no próximo capitulo, eu juro! Mas precisava dar uma agitada pra completar o que ainda esta por vir... E agora que as emoções começam! Logo, os capitulos ficam maiores tambem!
Obrigada a todos pelas reviews, e principalmente por estarem gostando. Essa fic já tem mais de 500 leitores, to muito feliz!
PS: Déia, a fic ta se desenvolvendo aos poucos porque a Anne é pra ser conhecida aos poucos também!rs Por isso que a cada capitulo vocês conhecerão mais sobre a Anne, e sobre o Kamus também.
