CAPITULO VII – Quando o Presente Acontece

No dia seguinte, Anne voltou ao Santuário. E no outro. E no outro. E no outro. E mais outro. Uma semana já havia se passado desde que "descobriu" o local. Jamais levara alguém, e sempre conseguia despistar Dominique e o séqüito de seguranças que andavam atrás dela.

Algumas visitas de manhã, outras à tarde, mas nunca um dia inteiro. Suas visitas se limitavam a Oitava Casa; a Nona lhe dava arrepios e a Décima Primeira pavor. O Mestre mesmo só a havia visto dois dias: no qual foram apresentados e no outro que foi a Escorpião, com intuito de visitá-la. Visitas não eram comuns no Santuário, ainda mais de amigos de residentes.

Após tantas visitas limitadas, Afrodite lhe deu um ultimato: visitar novamente seu jardim, que agora tinha novas e coloridas flores. Dado o grau de intimidade que eles tinham adquirido, ela não poderia recusar tal pedido. E decidiu ir.

Alguns compromissos lhe impediram de ir logo pela manhã, melhor hora do dia para apreciar as flores, e então foi logo à tarde. Miro nem sabia o horário que iria chegar, e assim que ela chegou, Mu a conduziu até o local. Passando pela Oitava Casa, encontraram Miro, que decidiu acompanhá-los até o ponto final.

Passados os arrepios da Nona Casa, a de Sagitário, Anne e os demais finalmente chegaram a Capricórnio, onde Shura roncava e nem se deu conta de que eles passavam por ali. Seguindo, agora era a hora da decisão: a Décima Primeira Casa. Anne hesitou por alguns instantes, não queria passar por lá, mesmo sabendo que era caminho obrigatório para chegar onde queria.

- Algum problema, Anne?

- Não, não foi nada, Miro.

A garota fez uma careta e continuou andando. Em seu íntimo, torceu para que ele não estivesse no local, ou estivesse fazendo qualquer outra coisa. A travessia pelo saguão já estava quase completa. Quase.

- Não sabia que havia perdido os bons modos, Miro.

A voz chamou pelas costas do trio, que já estava bem perto da porta. Anne congelou na mesma hora. Suas mãos começaram a suar frio e o coração disparou. Ela foi a última a se virar, mas sem olhar para trás.

- Eu não os perdi. – sorriu.

- E desde quando passar por uma das casas com uma visitante sem sequer apresentá-la é algo educado?

- Creio que vocês já se conhecem bem mais ao fundo do que simples apresentações poderiam fazê-lo. – riu.

Novamente o silêncio fúnebre.

A garota olhou para Miro envergonhada, enquanto Mu sorria. Anne então olhou para o rapaz, totalmente envergonhada pelo acontecimento.

- Anne Cambeaux, prazer em revê-la.

- O prazer é todo meu, Kamyu.

Preferiu não dizer o sobrenome dele, afinal foi seu pai, Jean Pierre, que havia causado todo rebuliço que um dia foi a vida dos dois, junto com o seu próprio pai, Claude. E talvez tenha sido a causa da separação deles.

Silêncio... Aquele reencontro seria inevitável. Anne mal conseguia olhar para o rosto de Kamus. Por um momento, aquela cena pareceu o primeiro encontro de dois jovens adolescentes, anos atrás, em Paris. Mas agora era tudo diferente.

Anne se perguntou se ele havia mudado muito, depois de quase cinco anos sem vê-lo. E uma coisa pode constatar: ele estava ainda mais bonito e charmoso. Por outro lado, o rapaz estava realmente surpreso ao ver a garota: aquela "menininha" de 15 anos que havia ficado na França agora era uma mulher. E estava mais bonita que nunca.

- Desculpa se lhe causamos transtornos passando por sua casa. Estava indo ao encontro de Afrodite e...

- Quanta formalidade... – respondeu-lhe gélido, cortando o assunto. – Suas visitas tornaram-se bem freqüentes por aqui, não?

- Ah, dá um tempo, Kamus! – riu Miro dando um tapinha no ombro dele. – Já estamos de saída.

- Por que me escondeu a presença dela?

- Não me escondi de ninguém e nem fui escondida! – interveio Anne. – Vi todos que desejaram me ver. Não tenho culpa se você estava ocupado com outras coisas ou pessoas...

No mesmo instante ele olhou para Miro, que riu, se divertindo com aquela situação. Claramente, Anne falava do primeiro dia que os dois se viram, quando ele estava em uma conversa com Shina, conversa a qual ele jurava não se tratar de nada demais, apenas conversa de cavaleiro de ouro para amazona de prata.

- Eu não sei de nada!

- Não disseram pra ela quem é a garota?

- Bah, a Anne é cabeça dura, ficou com aquilo na cabeça.

- Ora, Miro, francamente! – ficou indignada. – Por que iria novamente? Somente vou onde sou bem tratada.

- E quem disse que não seria na minha casa? – perguntou mais maleável.

- A mocinha parecia bem dona do local também. Longe de mim semear a discórdia entre duas pessoas!

- Eu sabia que você iria entender tudo errado...

- Tudo isso é errado, e qualquer um pensaria a mesma coisa, Kamyu!

- Não me ouviu te pedindo pra esperar?

- E de que iria adiantar?

Kamus conhecia bem Anne, e sabia o quão teimosa ela podia ser. E a promessa de dias atrás, de não se render por ela novamente, tinha ido parar longe. Ele não conseguia não se tornar o mesmo adolescente bobo e inocente de Paris, e aquela saia curtinha com aquela blusa decotada não ajudavam em nada. E ela continuava indignada, ainda que seu coração batesse tão forte que parecia que fosse lhe saltar a boca a qualquer instante, fingindo o máximo que podia a indiferença que ela queria que inundasse seu coração ainda apaixonado. O aquariano fez uma careta, respirou mais fundo e então respondeu:

- Vem comigo. – e puxou a mão da garota.

- Opa, peraí! Que você vai fazer? – perguntou Miro assustado com a impulsividade do amigo. – Se você fizer algo pra ela, eu juro que eu...

Kamus sequer deu ouvidos e saiu rumo a uma das salas com Anne, que ainda relutava, tentando, em vão, se livrar da mão dele. A verdade é que ela queria que ele pegasse a sua mão, e então mais uma vez dissesse que tava tudo bem. E ela se recriminava por ser novamente aquela adolescente que era apaixonada, e lutava contra isso – como se ela tivesse escolha! Olhou para trás, procurando por Miro, que por um momento os segui, mas foi contido por Mu.

- Uma hora esse reencontro teria que acontecer. Você sabe disso.

Miro consentiu e os seguiu com o olhar a partir de então.

- "Espero que pelo menos tudo termine bem...".

A porta então se bateu. Anne olhava para Kamus com olhos assustados e tentando controlar a respiração exaltada. O rapaz, por sua vez, sacudiu a cabeça, como quem quisesse se livrar de um acesso de loucura e de uma vontade avassaladora, e então olhou com um olhar extremamente sombrio para ela, que permanecia rente à parede, imóvel. A verdade é que os dois estavam tentando manter um falso controle, e não podiam negar o que seus rostos expressavam.

O fato de que Anne permanecia imóvel na parede, afastada dele, fez com que o rapaz expressasse alguma indignação e, se virando, disse em tom tranqüilo.

- Medo de mim? Não precisa, pode se sentar. – e então apontou um confortável sofá, de um bege claro com pequenas estampas azuis que lembravam cristais.

Ela olhou o lugar e se sentou, com os olhos fixos nele. Seu coração pulava descompassado em seu peito, e ela se via ali, perdida. Abaixou a cabeça por alguns instantes, tentando reorganizar seus pensamentos. Quando voltou a levantá-la, viu um par de intensos olhos azuis a olhando, como se pudessem ver um desejo ou um destino.

Kamus então se sentou ao seu lado, com tantos outros lugares vazios. Anne sentiu seu coração pulsar mais rápido e mais forte, afinal ela fora pega de surpresa e não tinha a mínima idéia do que estava por vir – e mal sabia ela que Kamus tampouco.

- Quer beber alguma coisa?

- Não, obrigada.

Agora ela esperava para saber quais seriam suas palavras, se pediria desculpas, se daria explicações...

- Como você me achou?

Na verdade, a pergunta seria "Por que você me achou?", mas ele achou rude demais para uma aproximação depois de tantos anos. Ele estava tão bem sem ela, e sua simples presença o deixava irrequieto...

- Te vi quando estava no Pathernon. – disse a garota após um longo suspiro. – Estava entediada vendo o Egeu, quando te vi passar. Por um momento, pensei que não era você, mas quando olhei de novo... – fez uma pausa. – Eu tive a certeza... Então corri atrás de você.

O francês a olhava enquanto ela fazia movimentos graciosos com as mãos, enquanto lhe explicava tudo. Vez ou outra falava algumas frases em francês, e ele não a olhava diretamente nos olhos em momento algum, com medo de ficar novamente hipnotizado por aquelas vibrantes esmeraldas...

Quando ela terminou de lhe explicar tudo, o silêncio pairou sobre o local. Novamente o nervosismo tomou conta de Anne, e com um grande esforço ela conseguiu fazer com que suas mãos parassem de tremer.

- Foi besteira ter feito isso, deveria ter fingido que não era eu. – disparou gélido.

Anne, de cabeça baixa, voltou-se rapidamente para ele, a surpresa e o espanto lhe acompanhava. Pensou em lhe perguntar "O que?", mas seu esforço agora era para se manter calma e centrada, enquanto repetia "você não vai chorar, não vai..." inúmeras vezes para si mesma, em uma tentativa frustrada de controle.

- Não deveria ter me seguido, nem saber onde moro. – continuou indiferente.

Abaixou a cabeça e apertava suas mãos uma contra a outra, uma mania sua quando estava nervosa, enquanto ele dizia mais uma meia dúzia de frases de forma tão fria que chegava a ser assustadora, que ela não ouviu – ou preferiu não ouvir – em uma nova tentativa frustrada de tentar se controlar.

Kamus conhecia Anne e seu temperamento. Ele estava esperando o momento em que ela se levantaria bruscamente e lhe faria aquele discurso que mais parecia uma bronca, e logo depois sairia do recinto... Mas ela não falava nada. Não respondia, nem retrucava. Ele parou de falar, e apenas fitou a garota, esperando sua reação – que agora ele já não sabia mais qual seria. Ele se esqueceu de que nem sempre ele foi essa parede de gelo que ele era hoje, e que se ele tinha mudado, ela também tinha. Ainda que ela tenha aprendido da pior maneira.

- Por quai...? – rompeu o silêncio em uma voz tremula e chorosa, anunciando que ela estava prestes a explodir em lágrimas.

- Acho que fui bastante claro. – continuou em tom frio. – Não queria que soubessem da minha existência.

- Mas por quê? – perguntou indignada. – Por que sair assim de Paris sem ao menos avisar? Por que tentar sair da vida das pessoas da forma mais difícil?

- Não devo satisfações nem a você, nem a ninguém. – respondeu novamente a muralha de gelo, indiferente. – Além do mais, tenho certeza que vocês devem ter vivido bem melhor ser mim.

- Ah sim... – e uma lágrima rolou pelo seu rosto enquanto ela sorria irônica e discretamente. – Meus últimos anos foram os melhores da minha vida!

Agora quem estava sem reação alguma era o cavaleiro de Aquário, que ficou consternado com toda aquela situação. No rosto da garota, ele podia ver que ela estava prestes a explodir em prantos, embora ele temesse pelo momento que ela o faria. Os anos haviam se passado, e ele ainda odiava vê-la chorando, ainda mais quando era por sua causa. O que teria mudado na vida dela a ponto de fazê-la chorar por uma simples colocação? O que ele tinha perdido?

- Anne, o que...

- Nada. – respondeu tão fria quanto ele. – Eu to bem melhor sem você.

Por um momento, a parede de gelo balançou. Por mais triste que Anne já tivesse ficado em toda sua vida, ela jamais tinha sido irônica. E agora ela, que mais parecia uma perfeita obra de arte, estava sendo tão fria quanto ele, e tão irônica como jamais foi em toda sua vida, enquanto limpava uma um fio de lágrima que teimava em rolar.

Anne ficou confusa. Não sabia se saia correndo de encontro a Miro. Não sabia se chorava até cansar, ali mesmo. Não sabia se daria um tapa na cara dele e falaria tudo que ela sofreu por causa dele... Sua indignação e frustração eram maior que tudo. Anos de pensamentos, carinho, lágrimas, dedicação, amor... Tudo fora! Sua revolta era maior que qualquer coisa, mas a sua mágoa era tão grande que a impedia de sequer se levantar.

- Anne, você tá bem? – perguntou preocupado.

- Eu to ótima! Nunca estive tão melhor em minha vida!

Se ele tivesse a observado, veria aquele par de olhos verdes o fuzilarem um pouco antes de a garota tentar ficar em pé, para sair dali, mas as suas pernas bambearam e ela acabou caindo novamente no sofá, mostrando que ela estava visivelmente abalada. Kamus, agora assustado e confuso, foi prontamente buscar algo para ela beber, para acalmá-la.

Copo em mãos, apreensão no seu rosto... Em seu íntimo, ele sabia que não era aquilo que queria. Ele sabia que aquilo não era o que queria dizer. Ele sabia que aquela não era a sua intenção...

- Anne, beba isso.

- Eu não quero. – respondeu enfática.

- Beba logo.

Ela, por mais tempo que tivesse ficado longe dele, então percebeu que ele estava preocupado. Era natural dele, ser carinhoso e cuidadoso, embora muitos ali não tivesse a menor idéia disso, ainda mais se tratando do "Iceberg". Sentiu-se uma tola por pensar naquilo, quando estava ali justamente chorando por ele e por culpa dele. Bebeu dois goles da água que estava dentro do copo, procurando voltar ao normal. E assim o fez – dentro do possível.

O olhar de preocupação do rapaz agora pairava sobre uma controlada Anne. Ele se sentou novamente ao seu lado, agora ainda mais perto – o suficiente para ele sentar sobre a barra da saia da garota. Agora ele queria saber tudo que tinha acontecido na sua ausência. Agora precisava.

- Anne, me conta o que aconteceu...

Ela balançou a cabeça negativamente, estava disposta a voltar a si e sair dali o mais breve possível. Aquilo já estava lhe fazendo mal... Ele então pousou a mão direita sobre a mão dela, olhou-a nos olhos e então pediu carinhosamente:

- Sil vous plait, cheri.

A francesa o fitou nos olhos, ainda pensativa e hesitante se deveria contar ao rapaz o que ele não fez questão de saber por anos. Refletiu por mais alguns segundos e então se decidiu: iria dividir aquela angústia que carregava consigo desde que ele havia a abandonado.

- Você não tem comunicação com o mundo exterior daqui?

- Como? – perguntou ele sem entender nada da pergunta.

- Não lê jornais, revistas, TV, nada? – perguntou com uma estranha calma.

- Não, não quis saber de nada de fora.

- Pois deveria. – disse enfática. – Pois assim veria o quanto a França pegou fogo durante todos esses anos, com disputas pessoais e políticas entre o Presidente e o Primeiro Ministro.

- E o que tenho a ver com isso?

- Claude Cambeaux e Jean Pierre Troirègnes te lembram alguém?

O rapaz olhou estático. Ele sempre soube das disputas entre os pais de ambos, mas não sabia da atual importância deles. Anne olhou para o teto, tentando ordenar os fatos, afinal, não era fácil recontar cinco tumultuados anos em tão pouco tempo...

- Paris, cinco anos atrás. – continuou a garota. – A capital dos apaixonados, não é? Costumava ser... A Torre Eiffel é tão bonita, né? Pelo menos eu achava... O que mudou...? – perguntou pra si mesma antes de olhar para ele. – Não... O certo é "quem mudou"? Você, Kamyu. Você mudou tudo.

Kamus apenas escutava atento, sem demonstrar reação ou emoção alguma, afinal, não queria deixar nada transparecer, ainda mais quando ele sabia que estava prestes a ser "fuzilado" pela garota, ainda que sua mão ainda estivesse sobre a da Anne, que continuou:

- Há cinco anos atrás, você simplesmente desapareceu. Sumiu. Não disse a ninguém aonde iria. Sua irmã foi ate a escola chorando e perguntou se eu sabia onde estava, porque você não tinha dormido em casa... Eu me desesperei também. Esperamos por dias, e então envolveram a polícia. Chegaram à conclusão de que se tratava de um crime político... E quem acusaram?

- Claude...

- Exato, o meu pai. Seu pai proibiu a sua irmã, minha melhor amiga, de me ver, e meu pai não queria que a visse tampouco. A mandaram pra um colégio interno na Suíça.

- Mas...

- Aquilo realmente acabou comigo... – continuou sem se importar com a sua tentativa de interrupção. – Pensei que tinha acontecido alguma coisa de pior com você. As minhas notas despencaram, eu não falava com ninguém... E meu pai então descobriu. Descobriu da relação que tinha com você, descobriu tudo. Brigou comigo e amaldiçoou você por ter causado tantas coisas ruins pra nossa família...

- E então...? – perguntou ansioso pelo resto.

- Isso tudo foi deixando a minha mãe muito doente. Ela, claro, não gostava de tudo aquilo... Até o dia que... – e então seus olhos encheram-se novamente de lágrimas. – Até o dia que a mamãe morreu...

- O que? – perguntou chocado e surpreso. – Tia Diana... Ela...

- Sim, Kamyu. Isso foi há quase quatro anos atrás. – enxugou as lágrimas.

- Eu sinto muito. – disse com pesar.

- Resolvi então terminar meus estudos no país da minha mãe, já que meu pai mal se lembrava da minha existência. – disse logo em seguida.

- Anne, eu...

- Você sabia que sua irmã se casou? – interrompeu-o novamente.

Agora sim Kamus estava surpreso. A irmã, que ainda era uma criança para ele, já casada? E ele sequer soube que ela tinha alguém... Ficou pensando, em quem poderia ser do colégio, e seu sentimento de irmão falou mais forte e então sentiu ciúmes... Pensou ainda em como ela deve ter ficado depois de seu sumisso, justo ela que era tão ligada a ele... Ficou mal só em pensar o quanto ela chorou. Eram tantas informações, tantos fatos, tantos pensamentos... Estava confuso, e se sentiu triste depois de anos.

- Se casou com Jan, um suiço que conheceu no colegio interno. Estão juntos já tem três anos... – sorriu. – E você já é tio. O nome dele é Luka, e ele tem um ano. E eu sou a madrinha! – riu coruja. – Ele tem os olhos da Estelle e o cabelo lindo do Jan...

- Tanta coisa... – disse perdido entre tantas novidades.

- Tanta coisa que você perdeu! – disse alterada. – Tanta coisa que aconteceu por sua culpa! Tanta coisa... – chorou discretamente. – Você parou pra pensar... Um pouquinho que fosse, em tudo que você deixou pra trás?

Kamus se levantou de súbito, como se, fazendo isso, pudesse mudar tudo que ouviu. Estava atônito, surpreso e, por que não dizer, assustado. Começou a andar de um lado para outro, impaciente, tentando assimilar, entender e aceitar tudo que tinha ouvido, o que reconhecia ser muito difícil.

- "Eu quis esquecer, por que então lembrar...?" – pensava.

Anne insistia na pergunta e nas insinuações, depois de o ver tão atormentado. Embora anos tivessem passado, eles ainda se conheciam, e ela sabia como magoá-lo. E era o que queria no momento. Por isso continuou perguntando se ele não havia abandonado por causa dos pais, ou se todos esses anos ele não lhe deu noticia por estar com a mesma garota do primeiro dia... Ele sussurrava algumas palavras em russo, aprendido a força na Sibéria, enquanto andava em círculos pela sala da sua casa, impaciente e irrequieto.

- Você não tinha direito de fazer o que fez.

Kamus então parou quase que frente à garota, e a fitou com uma expressão tão séria que a fez se calar instantaneamente, enquanto ele demorou alguns segundos, que mais pareceram eras, para então se pronunciar.

- Anne, vai embora. – respondeu seco.

- O que?! – perguntou surpresa.

Isso mesmo que você ouviu, vai embora.

- Você tá me expulsando daqui? – perguntou incrédula.

- Estou. – respondeu frio. – Essa é minha casa, e você não é bem vinda.

- Foi você quem me trouxe pra cá! – rebateu ofendida. – Não pedi pra vir!

- Já chega, Anne! – bravejou, alterando sua voz sempre estável. – Acabou.

Silêncio... Ele tinha falado a palavra mágica: "acabou".

- Era só isso que queria ter ouvido cinco anos atrás.

A garota lhe deu uma última olhada e então se dirigiu a porta pela qual tinha entrado, cabisbaixa, enquanto ele a seguia sem se dar conta, enfeitiçado pelo seu jeito doce de andar, ate mesmo naquele modo. Ele só voltou a si quando a porta bateu a sua frente, e por pouco não foi na sua cara. Bateu as duas mãos fechadas na porta, como que se estivesse com raiva, e apoiou a cabeça entre elas, antes de dizer mais algumas palavras em russo.

Anne recostou-se na porta, ainda de cabeça baixa e com lágrimas no rosto. Por pior que fosse, ela finalmente obteve um "ponto final". E foi tudo isso que quis por anos.

Mu e Miro, ao ouvirem o barulho da porta, saíram da cozinha, onde estavam "assaltando" a geladeira do aquariano (claro que por idéia do grego), e foram direto ao encontro da garota. Estavam preocupados com o rumo da conversa, em especial o escorpiano, já que conhecia bem o temperamento do amigo, e quando ele se propunha discutir algo com alguém, era porque não estava nada bem.

- Petit, tudo bem? – perguntou Miro.

- Sim... – levantou a cabeça. – Finalmente encontrei o que procurava.

- E por que essas lágrimas? – perguntou o ariano confuso.

- Porque mesmo não sendo um final feliz, é bom saber que a felicidade de não ter desistido existe. – sorriu.

- E então não se acertaram? – perguntou Miro com um lanche na mão.

- Somos um passado. E um dia fomos uma linda história de amor.

Enxugou o rosto e se recompôs. Sorria feliz e, de fato, estava feliz. Feliz por não se enganar mais, nem se torturar mais procurando respostas. Agora era hora de seguir com a própria vida. E assim o faria depois de anos presa a um fantasma. O conforto de descobrir a verdade era maior que qualquer outra coisa, pelo menos naquele momento.

- Vamos, rapazes, o Dido já deve ta nos esperando.

E assim partiram para a Décima Segunda Casa.

Três dias se passaram desde então. Anne não se privou de ir ate o Santuário, mas deixou bem claro que não iria além da Oitava Casa, a de Escorpião. Afrodite no começo relutou, mas depois de a garota lhe explicar tudo, ele consentiu e concordou, porque, para ele, a presença dela era mais importante que qualquer coisa, ainda que praguejasse Kamus em seu íntimo.

Para Anne, todo e qualquer momento era mágico naquele lugar abençoado pela deusa Athena, ate que alguém, sem querer, deixava escapar o nome do cavaleiro de aquário, ou comentava alguma coisa sobre ele.

Kamus, o cavaleiro em questão, depois dos mesmos três dias, estava cada minuto mais confuso. Por um lado, queria mandar os pensamentos e sentimentos que tinha para o mais longe que podia, para o lugar mais gélido do seu coração, onde sempre estiveram, e seguir a vida como antes; mas por outro lado, sua vontade era encontrar a garota o mais rápido que pudesse e então lhe dizer o quanto ela era especial, e o quanto ele ainda a amava. A verdade é que não conseguia passar uma hora sequer sem lembrar que ele existia, e que ela estava perto o suficiente para deixá-lo com todas aquelas – e ainda mais outras! – dúvidas na cabeça.

Ficaram cada um vivendo a sua vida, sem nenhum tipo de contato. Até que a noite chegou, e na escuridão da noite se revelam sonhos e desejos incontroláveis. Tão perto, mas tão longe... Já passava da meia noite quando Anne resolveu desabafar e Kamus tomou uma decisão. A sua decisão.

Oitava Casa, a de Escorpião. Todos os cavaleiros estavam em suas casas, visto que já era noite. Ou então estavam em outras casas, como Máscara da Morte, que estava em seu jogo de poker com seu parceiro inveterado, Shura.

Anne e Miro estavam sentados na sala daquela casa, uma casa tipicamente grega, o que fazia a garota, de certa forma, se sentir em casa. Conversavam sobre o nada, riam de qualquer besteira... Como ela estava feliz! Sentiu tanta falta dele nos últimos tempos, e agora estavam ali, juntos, e isso fazia-lhe muito bem.

Ela repousou o copo sobre a mesa, e ficou levemente séria, sem motivo aparente. Miro só percebeu quando lhe perguntou algo, e não obteve resposta, e então ficou sozinho. Fitou-o por algum tempinho, e então sorriu.

- Que foi? – perguntou surpreso.

- Nada... – desviou.

- Como se você me enganasse! – riu. – Pode me contar.

- É que... – desviou o olhar. – Esquece...

- Não, que foi? – perguntou preocupado.

- Eu não sei mais o que fazer! – desabafou.

- Você ta falando do Kamus? – e seu semblante ficou sério.

- É! Eu to ficando louca já! Eu prometi pra mim mesma que ia seguir a minha vida, que ia finalmente viver, mas parece que o fato de viver por anos achando que quando a gente encontrasse ia ser tudo como antes e...

- Anne, tudo evolui conforme o tempo passa, e com vocês dois não seria diferente.

- Eu sei! Mas acho que preferia acreditar naquilo...

Miro se assustou quando ela começou a chorar novamente bem na sua frente. Por três dias ela havia se esquecido e agora tudo ressurgia, de forma amarga e avassaladora. A dor da rejeição e da ilusão era horrivelmente depressiva e sufocante, era como se estivesse a matando. O escorpiano não teve outra reação a não ser abraçá-la de forma carinhosa e acolhedora, enquanto, de cabeça baixa, lhe dizia algumas palavras de consolo e afagava sua cabeça, tentando disfarçar a sua preocupação.

- Calma, Petit, isso vai passar logo...

- Não vai, Miro! – respondeu amarga. – Não se esquece uma vida em uma semana.

- Eu sei, as coisas levam tempo...

- Não sei o que seria de mim se não tivesse te encontrado. – disse entre soluços. – Eu te amo...

- Miro!

O nome do escorpiano foi clamado por uma terceira pessoa, de forma assustada e chocada, e fez com que os dois se virassem bruscamente, dando de cara com um rosto incrédulo, composto por um par de olhos azuis que pensavam ver uma mentira ali. A sensação que pairava no ar era a de um grande flagrante, embora não fosse de fato.

- Kamus, ainda bem que você chegou! – disse Miro desabafando. – A gente tava falando de você.

- E até imagino o que estavam falando! Do quanto sou um idiota! – bradou.

- Peraí, Kamus! – levantou-se o escorpiano e deu a volta no sofá. – Se gostar de um primeiro amor é ser idiota, então temos milhões de idiotas no mundo.

- Não, idiota por acreditar em lágrimas. – respondeu atordoado. – Como vocês puderam...? – insinuou.

- Kamyu, não é nada disso que você tá pensando... – disse a garota confusa.

- Pensando? – perguntou indignado. – Eu tô vendo! E aqui na minha frente!

A confusão já estava formada. O que Kamus pensava ver ali era uma cena de traição, e das graves, principalmente por parte do melhor amigo, que sempre soube de seu amor por uma francesa, o que ficou bem mais evidente depois que Anne fez sua primeira aparição no Santuário. O aquariano se exaltava cada vez mais, enquanto Miro tentava acalmá-lo e Anne tentava se convencer que aquilo era real, que não era um sonho, embora fosse difícil acreditar que ele estivesse tão exaltado e por sua causa, ainda mais depois dele ter dito que estava tudo acabado entre os dois.

- Kamus, manera ai, você tá pegando pesado...

- Cala a boca, Miro! Você é um traidor!

Toda aquela bagunça já havia despertado a atenção dos moradores das Doze Casas, já que à medida que, quanto mais se alteravam, seus cosmos também os faziam. E tudo só tava piorando, uma vez que Miro agora estava se irritando também com tudo que o aquariano dizia – em sua maioria atrocidades e ofensas a ambos. – e Kamus estava irredutível e veemente.

Shura e Giancarlo, que estavam em Capricórnio em uma das suas famosas jogatinas de baralho, foram os primeiros a chegar, visto que as coisas já estavam tensas demais.

- Mas que palhaçada é essa aqui? – chegou perguntando o canceriano mal humorado. – Espero que tenham um bom motivo pra atrapalharem nosso jogo!

- Madrecita! – exclamou Shura surpreso. – Estou sonhando, bêbado demais ou é realmente Kamus que está nervoso ali?

O suposto triângulo nem se deu conta, ou nem se importou com a presença dos dois ali. O capricorniano parecia ser o mais chocado, afinal seu vizinho, aparentemente, nunca tinha ficado sequer alterado, muito menos nervoso, pelo menos não em solo grego. Giancarlo sequer se importou, até ver que Anne estava no meio da discussão. Ai sim seu humor ficou alterado, e ele já queria saber o que estava acontecendo.

A garota em questão, estava confusa. Com que direitos ele invadia a casa de Miro e dizia tudo que achava saber? Por outro lado, ficou abalada, porque isso provava que ele ainda se importava, um pouco que fosse, e estava balançado. Sentiu-se uma tola por estar pensando aquilo, naquele momento tão tenso. Decidiu que iria apaziguar aquilo tudo, que começou por culpa sua, mesmo que não fosse intencional.

- Kamyu, você não pode falar assim com ele... Miro, por favor, já chega...

- Que lindo, Anne, defendendo seu cúmplice e amante! – riu sádico, com a voz um pouco mais alta ainda. – Você é a pior de todas!

- Como? – perguntou ofendida. – Até algumas horas atrás você nem se importava, e agora, de que te interessa o que faço ou deixo de fazer?

Shura riu da resposta da garota, que parecia frágil quando na verdade todos os acontecimentos da sua vida a tornaram forte, embora aquilo fosse algo totalmente novo. O canceriano apagou o cigarro num cinzeiro, que Miro tinha deixado especialmente para ele na sua sala desde que ele se tornou uma visita freqüente, demonstrando um claro sinal de irritação. Naquele exato momento, os cavaleiros de Virgem e Peixes chegaram ao local, para também saberem o que estava acontecendo. Afrodite, com seu ar "drama queen", chegou todo dramático.

- Oh céus, pelas minhas lindas rosas! O que se passa por aqui?

- Kamus fazendo o papel de mulher traída. – riu Shura ao sentar no sofá.

- Isso não é algo que vemos todos os dias... – disse o virginiano tranqüilo.

- Cala boca, Shaka, você vive de olho fechado! – respondeu irritado Carlo.

Agora, Miro andava de um lado para outro, inconformado e incrédulo. Anne e Kamus discutiam, e gravemente, e parecia que aquilo tudo não ia ter fim tão cedo... Não que houvesse certo ou errado, mas a simples junção dos dois fez tudo tornar pior ainda, já que a garota se mantinha implacável na tarefa de lhe jogar na cara tudo o que ele não foi em sua vida, e fazia questão de demonstrar o quão omisso ele foi.

- Me interessa porque foi pelas minhas costas! – continuou irritado.

- Quem não me quis foi você! – rebateu. – Fugiu uma vez, me expulsou da outra...

- E isso te dá o direito de ser uma vadia? – perguntou voltando ao tom gélido. – O que você queria? Fazer o tour das Doze Casas?

Anne não pensou duas vezes: com toda a força de seu ódio por aquelas palavras e aquele tom de voz, tão frio e tão sádico, levantou a sua mão direita, a mais forte, e desferiu um tapa no rosto do aquariano, que ficou ainda mais bravo pelo golpe certeiro, enquanto a garota desatou a chorar copiosamente sob os olhares incrédulos dos dourados presentes, que pensavam estar vendo um filme.

- Kamus, pensa bem no que você tá falando, cara! – disse Shura surpreso.

- Seu viadinho francês, quem te dá o direito de falar assim dela? – perguntou o canceriano irritado, indo à direção ao grupo.

- Kamus, você é um grande filho da puta. – disse um Miro tão frio como o aquariano. – Não por dizer o que você está dizendo, mas por dizer isso como desculpa pela sua falta de autoconfiança.

Afrodite, inconformado com tudo aquilo, em especial por estar meio distante de Kamus desde o primeiro dia que Anne visitou o Santuário, consolava a garota, que chorava incondicionalmente, ofendida e humilhada, em uma das poltronas da sala. O escorpiano se juntou aos dois logo depois, mudo, apático e ainda mais inconformado que o pisciano – ainda que guardasse tudo pra si.

Shaka se aproximou de Kamus, calmo e tranqüilo, como sempre, enquanto Mu fazia sua primeira aparição, surpreso e confuso com toda aquela cena que mais parecia a de um grande filme, incluindo a platéia surpresa com o clímax da trama.

- Sabe que vai se arrepender de tudo isso, não sabe, Kamus?

- Não vou me arrepender por me livrar de um mal que consumia por completo...

- Sim, você vai se arrepender porque sabe que a verdade não é essa. Olhe para eles... – olhou para a garota e o escorpiano; a primeira chorava muito, o segundo mostrava clara preocupação com a garota. - Isso não te lembra alguém?

Kamus então olhou para os dois e automaticamente várias cenas e momentos de sua vida passaram por sua cabeça, como se fosse parte de um trailer de um filme que ele não queria mais ver. O colégio, os cafés, os passeios... Tudo como ele fazia, e com quem fazia. Lembrou-se de uma garota loirinha, de olhos de um azul tão intenso, sorridente, feliz... Aquela que tornou tão difícil seguir em frente a sua vida, deixando o passado para trás, ainda mais pela lembrança dela lhe chamando de "meu herói"...

- Estelle... – sussurrou.

- E ele ainda fica falando o nome de outra garota... – se intrometeu Carlo já muito perto e muito bravo.

- Calma, amigo... – disse Shura tentando conte-lo.

- Pro inferno todos vocês! – disse o aquariano em voz alta, como se pudesse se livrar deles.

A verdade? Ele não queria lembrar de nada do seu passado, e as lembranças da irmã, agora casada e mãe de família, só fez piorar tudo – se é que isso era possível. Sentiu raiva, do mundo, de si mesmo... Por que era tão difícil deixar um sentimento tão forte para trás? Ele sabia o porquê, mas não queria admitir...

- Mas esse tá pedindo pra apanhar... – se aproximou alterado.

- Carlo, vamos embora... – tentou apaziguar Shura.

- Não vou!

- Vamos logo!

Shura alterou a voz, proferindo tais palavras em um timbre sério e dificilmente visto, ainda mais pelo fato do espanhol ser um brincalhão, e isso que fez o canceriano hesitar e então parar. A vontade dele era acabar com aquele superego de Kamus, nem que fosse a base de chutes e socos. Ele, por si só, já amava uma briga, e agora tinha motivos... Motivos que nem mesmo ele entendia quais eram, só sabia que eles existiam... O capricorniano, por sua vez, amava ver o "circo pegar fogo", mas sabia que não era hora nem ocasião. Pensou naquele anjo de olhos verdes que estava a poucos metros dele, e no quanto ela ficaria ainda pior do que já estava. Ela mexia com ele de tal forma que ele não sabia explicar... Ah se ele soubesse que ela deixava todo mundo irrequieto com aquele sorriso puro e aquele rosto angelical... Prova disso era o tão temido "Máscara da Morte", que aos seus pés parecia uma criança indefesa. E ele mesmo foi ate a garota e lhe deu um beijo curto e carinhoso na testa, como ninguém nunca tinha o visto fazer.

- Se quiser, me avisa que quebro a cara desse francês. – disse convencido.

- Obrigada... – retribui com uma tentativa de sorriso. – Mas não quero mais brigas... Não por minha causa.

- Você não é um inconveniente. – disse tranqüilo. – É uma salvação.

- Boa noite, gente. – despediu-se Shura.

A garota permaneceu confusa enquanto os via partir em direção a quarta casa. Como assim ela era a "salvação"? Essa palavra era algo muito forte pra ser usada, ainda mais naquele momento e naquelas condições. Mas ela era a única que parecia se importar com aquelas palavras...

A noite estava brilhante naquela noite, de um brilho único que somente o Santuário parecia ter. Parecia uma benção tão grande que chegava a ser um milagre. Uma leve brisa indicava que a primavera estava atingindo seu ápice e a temperatura estava perfeita para um passeio noturno. Uma lua cheia iluminava aquele cenário com uma majestade que parecia ser o toque final.

- Carlo, por que você fica tão manso com a Anne? – perguntou curioso Shura.

- Não sei, Shura... – respondeu sinceramente. – Algo muito forte me atrai a ela.

- Tá apaixonado, é? – zombou o capricorniano.

- Ah, vai se fuder. – riu antes de voltar à expressão séria. – É algo muito maior que isso. É como se fosse dos Deuses.

Shura riu, mas consentiu. A relação entre aqueles dois cavaleiros era forte, eram grandes amigos, por serem, de certa forma, parecidos. O capricorniano entendeu completamente o que ele quis dizer, e então voltou a zombar tendo como tema a partida de baralho, que, segundo ele, o canceriano estava levando uma lavada.

Shaka observou tudo se acalmar e se foi logo depois, vendo que a situação estava relativamente calma. Lançou apenas um olhar a Kamus, como quem quisesse dizer para ele pensar no que ele havia lhe falado, antes de se retirar rumo a sua meditação noturna – e dar privacidade para que eles se acertassem.

- Toma isso, querida, você vai se sentir melhor. – disse Afrodite enquanto segurava o copo de água com açúcar na mão.

Anne pegou o copo e bebeu tudo, sem dizer nada. Miro, sentado ao seu lado, também estava quieto e pensativo. Agora quem não acreditava em mais nada era o escorpiano: nem do que presenciara, do que disse e de que o mundo poderia ser tão pequeno a ponto de o destino ter o posto entre duas pessoas pelas quais tinha um carinho e uma consideração que não saberia medir. E pior, ainda ter que pesar os dois lados.

Ela parecia desabar o peso de todos aqueles anos de sentimentos contidos. Mesmo dias atrás, quando finalmente "jogou na cara" tudo o que Kamus tinha feito, ela não sentiu tristeza, mas sim alívio. Agora ela estava ali, submersa em suas próprias lágrimas, sendo amparada por alguém que era seu amigo há menos de quinze dias, enquanto o aquariano lhe lançava seu olhar mais frio e, pior, tê-la ofendido usando palavras falsas e baixas.

Miro se levantou bruscamente e foi em direção a Kamus, explodindo em raiva. É como realmente diz o ditado "Jamais provoque um escorpião"... Queria respostas, principalmente para o comportamento dele, sempre tão calmo e tão centrado, estar tão hostil em relação à garota.

- Kamus, agora você vai ter que explicar.

- Miro, quem tem que se explicar é você! – rebateu se exaltando.

- Eu? – perguntou surpreso e nervoso. – Eu tava reparando um mal que você fez!

- E que bela forma de reparar algo... – disse irônico. – Desculpa ter interrompido seu "consolo".

- Escuta aqui! – e pegou o aquariano pelo colarinho. – Que você queira falar de mim, tudo bem, to pouco me fudendo e você sabe disso! Agora falar dela eu não admito!

- Miro, chega a ser patético... – riu em sua sobriedade. – Você, que sempre foi "o pegador" desse lugar se atendo a uma só mulher...

- Já chega, rapazes. – interveio Mu fazendo sua primeira aparição na conversa.

- A ela estarei ligado pra sempre! – respondeu irritado sem se importar com o ariano. – Mas é demais pedir pra você escutar e entender!

- Até imagino porque, traidor. – respondeu frio. – Você sabia de tudo e mesmo assim resolveu ficar com ela. Talvez nunca fomos amigos...

- Sai daqui. – e jogou o aquariano para longe. – Eu nunca te dei motivos pra duvidar da nossa amizade, pena que não posso dizer o mesmo de você.

- Chega. – se colocou Mu entre os dois.

- E agora se faz de ofendido... – riu cínico.

- Sai da minha casa! – respondeu o escorpiano muito ofendido. – Aqui você não é bem vindo! Recebo apenas amigos, e não falsos moralistas!

- Os dois vão se arrepender de tudo isso amanhã... – lamentou o ariano.

- Já estou de saída. – disse Kamus em sua sobriedade. – Quanto a você, – e apontou para a garota. – vá embora, o mais rápido que puder. Tudo isso é culpa sua, e só sua. Você só trouxe a discórdia para esse solo.

Nesse momento, Miro, que havia virado as costas para não dizer mais nada a Kamus em respeito à Anne, se voltou para ele com uma fúria jamais vista em seus olhos, e Mu então temeu pelo pior. Afrodite ficou indignado por ele continuar naquilo, sendo que já tinha causado tanto mal aos dois, mas a garota se prontificou a responde-lo calma e tranquilamente.

- Não se preocupe, estou indo embora de volta pra casa, coisa que creio que você não tenha. – e limpou uma lágrima que teimava em cair. – E eu posso ter causado a discórdia sim, mas somente onde havia a dúvida.

O aquariano saiu rumo às escadas que dariam acesso a Sagitário e assim as demais. Mu o acompanhou, até o lado de fora, certificando-se que ele iria para sua casa e, claro, se certificar de tudo que tinha acontecido – e se realmente tinha certeza de tudo aquilo. Kamus ficou irritado com aquela companhia, parecia que ele estava sendo perseguido ou então como se tivessem controlando sua vida. Continuou seguindo, na esperança de que ele então o deixasse, o que ele não fez – e o que o deixou ainda mais irritado.

- Eu não preciso de um guia, Mu.

- Não estou aqui por isso. – respondeu sereno. – Sabe que estará cometendo um grande erro, mas não quer assumir.

- O que sei é apenas que vi. – parou e olhou para ele. – Já ouvi daquela boca um tão sincero "Eu te amo" quanto àquele que Miro ouviu.

- Existem diferentes formas de amar, Kamus. Pense nisso. – finalizou. – Boa noite.

O ariano se retirou antes mesmo que o aquariano pudesse lhe responder. Não que Kamus fosse o fazer, de fato, mas ainda assim pensou na possibilidade de fazê-lo. Mas ele conhecia Mu, sabia que ele não gostaria de mais brigas e discussões. Não ele que sempre fora calmo – e tão preocupado. Tanto que logo após da despedida a Kamus, foi imediatamente verificar com Miro e Anne se ficariam bem e precisariam de algo antes de ir para sua própria casa.

O silêncio permaneceu no local principalmente depois da saída do ariano. Afrodite ficou ainda mais preocupado quando Miro desabou no sofá, sem cor e sem reação, demonstrando que estava derrotado. Anne, por sua vez, voltou a chorar depois da saída do aquariano, Ela queria parecer forte e decidida, e realmente foi convincente, mas a verdade é que ela estava tão triste que jamais pensou em ficar assim na sua vida novamente. E por isso ela chorava copiosamente.

- Vocês provavelmente querem ficar sozinhos... – disse o pisciano vendo a situação mais calma. – Eu vou fazer um chá pra vocês se tranqüilizarem.

- Não precisa. – respondeu concisa. – Estou de saída já.

- Até parece! – rebateu indignado. – Isso é um absurdo, ainda mais se você sair por causa daquele meu vizinho! – e pode-se perceber uma careta pela parte dele. – Kamus é tão dono desse lugar como eu, Miro ou qualquer outro!

- Eu sei... – disse cabisbaixa. – Mas eu vou me senti melhor se eu for pra longe daqui... E vai ser melhor pra todo mundo.

- Você fica. – determinou um ríspido Miro. – E ponto final.

Anne entendeu e consentiu. Nunca havia discutido com ele, e não seria agora que o faria, ainda mais quando sabia que ele tinha seus motivos, e tinha razão. Ele a conhecia, e tão bem, a ponto de saber que se ela fosse embora naquele momento, de duas uma: ou não iria para o hotel, ou iria contar tudo para um dos empregados, como desabafo depois de eles tanto perguntarem.

Afrodite voltou com o prometido chá, que realmente acalmou os ânimos e os tranqüilizou de uma forma que nem eles mesmos sabiam. Ficou ali por mais algum tempo, tentando distrair a garota enquanto o escorpiano pensava no que fazer, e como seria o dia seguinte. Aquilo fez bem para os três, de uma forma geral, até que o pisciano decidiu que era a melhor hora de voltar para sua morada. E assim o fez.

- Vem, vamos dormir... – disse Miro se aproximando. – Vou separar uma roupa pra você.

- Desculpa o trabalho.

- Para de ser boba. – tentou sorrir. – Você me dá esse tipo de trabalho desde que me conheço por gente.

- Mesmo assim... – respondeu encabulada.

- Você fica na minha cama e eu vou dormir na sala. – disse ao abrir o guarda-roupa. – E nem pense em me contradizer.

Ela foi ao banheiro, onde se trocou e voltou para a cama. Ajeitou-se enquanto Miro a cobria como sabia que ela gostava e lhe deu um beijo na testa antes de lhe desejar uma "boa noite" – por mais estranho que isso pudesse parecer. – e sair fechando a porta.

E aquela com certeza foi uma noite em claro para a maioria dos moradores das Doze Casas.


N/A:

Hum, agora as coisas esquentaram de vez no Santuário, hein?

E esse piti do Kamus?

Uma coisa, sobre a origem dos sobrenomes:

Cambeaux Contração de Camps (Campos) + Beaux (Belos). Modo como os franceses definem o sul da França, onde Anne nasceu.

Troirègnes Contração de Trois (Três) + Règnes (Reinos). Alusão ao fato de Kamus ser francês, ter treinado na Sibéria e morar na Grécia.

Lembrando que os dois foram criações minhas. Ia usar o sobrenome da Ra (Audric), mas resolvi personalizar...rs

Agora, o mais importante: o que acontecerá no outro dia pela manhã? Afinal, esse não é o tipo de coisas que se esquece – e se abafa! – quando se dorme...

Aguarde cenas do próximo episodio!

E continuem mandando reviews, okz?

Bjos e obrigada a todos por lerem!