CAP VIII – Quando o Presente Atravessa o Futuro
Era um novo dia no Santuário. Os raios de sol cruzavam o céu, indicando que o dia seria de calor novamente, acompanhado de uma brisa típica da primavera grega. E mais ainda, aquele dia seria a renovação. De tudo e de todos. Após a noite conturbada, tudo parecia finalmente voltar ao normal.
Os Cavaleiros novamente se juntariam para seu café da manhã. Sim, agora a primeira refeição do dia era comum entre todos os cavaleiros, que se reuniam na Décima Terceira casa, como forma de respeito ao grande mestre. E se precisasse, logo depois do café da manhã seria discutido uma eventual mudança ou algum tipo de problema. Nenhum deles admitia, mas todos, de forma geral, gostavam dessa reunião matinal, já que às vezes, durante o dia não se viam.
Nesta manhã, Aldebaran foi o primeiro a chegar, seguido por Shura, os dois "comilões" da turma. E então, ambos se sentaram.
-Pô, eu sinto falta de café com leite, sabia? – disse Aldebaran.
- E eu do meu desayuno español. – reclamou Shura
- Mas parem vocês dois! Cinco anos no Santuário e ainda não se acostumaram? – disse Giancarlo ao chegar, pegar um pedaço de pão e se sentar, de extremo mau humor.
- Assim como não nos acostumamos com seu péssimo humor matinal. – disse Aioria ao se aproximar da mesa.
- Bom, mas nos acostumamos a ver o Shaka chegar daquele jeito. – disse Aldebaran rindo.
Shaka chegou de olhos fechados, mas andava como se eles estivessem abertos, e se sentou no mesmo lugar que sempre se sentava. Todos voltaram sua atenção para ele, mas logo voltaram a conversar.
-Eu ainda me lembro quando ele tropeçava em tudo! – riu Shura.
- Pior que nunca sei quando ele tá acordado ou dormindo! – resmungou o italiano.
Mu entrou sorrindo, logo depois, acostumado com aquela bagunça diária, e se sentou no costumeiro lugar.
Todos conversavam, brincavam, Giancarlo xingava... Pareciam crianças em um acampamento de férias. Até que o Mestre chegou: Ares entrou no Salão, de trajes formais, parando frente à cadeira que estava localizada na ponta da grande mesa, fitando cada um dos ali presentes.
-Bom dia, Mestre. – sorriu Mu em pequena referência.
- Bom dia a todos, Cavaleiros. – respondeu em tom sereno.
- Ui! Bom dia, meninas! – disse Afrodite como se estivesse numa festa.
- Porra, Dido! A única menina que tem aqui é você! – disse o canceriano bravo.
- A menininha que você é louca pra ter. – respondeu com uma piscada.
- A única menina que tem aqui é ela... – disse Aioria olhando pra porta.
- E que chica estupenda... – concluiu Shura.
Eles somente poderiam estar falando de uma pessoa: a hóspede da Casa de Escorpião, Anne Cambeaux – ou a garota que mudou tudo. Ela sorriu tímida, eles a deixavam levemente envergonhada. Claro, ela sempre fora cortejada, mas a informalidade e o respeito deles eram tão grandes que ela se sentia lisonjeada com aquilo tudo. E era muito grata.
Seu rosto demonstrava o abatimento, provocado pelos acontecimentos da noite anterior, mas como ela podia estar sorrindo? E como ela podia ser tão linda, mesmo utilizando roupas que certamente não combinavam com ela? Mesmo trajando uma larga camisa azul e uma camisa grande demais para ser sua, o que se concluía ser do seu anfitrião, ela apareceu soberana e linda como sempre.
Miro estava do seu lado, e não esboçou reação alguma com a admiração dos presentes. Se fosse outra ocasião, ele faria uma cara brava e uma típica cena de ciúmes. Mas ele parecia mais abatido que Anne, e apenas observou.
E por parte dos dourados, nenhum comentário, principalmente de cunho malicioso ou maldoso. Todos os presentes – sem exceção – sabiam da relação dos dois, e o único que parecia não saber era o cavaleiro de Aquário. Mas isso não importava naquele momento, o que importava ela era estar ali mesmo depois das ofensas da noite anterior. E ainda com um sorriso que animava e iludia todos eles.
- Bom dia, meninos. – sorriu a garota encabulada.
- "Impressionante como ainda sorri, mesmo depois de tudo que aconteceu ontem...". – pensou Mu.
- Bom dia, Anne. – responderam todos
Ares, como bom anfitrião, foi buscar a francesa para que ela se sentasse em uma cadeira especialmente posta em seu lado direito, lhe dizendo que era uma honra que uma garota tão linda estivesse entre eles para alegrar a manhã com sua beleza única. Não era mentira.
- Aioria, eu fico me perguntando... Será que ela não é Athena? – sussurrou Shura.
- É uma pergunta bem interessante, afinal a gente nunca viu Athena. – concordou o leonino no mesmo tom de voz.
- Não sejam tolos! – se intrometeu Shaka. – Athena tem cosmo. Vocês sentiram algum cosmo em Anne?
- É... Não senti nada. – respondeu o capricorniano.
- Nem eu. – concordou.
- Logo... – conclui Shaka.
- Algum problema com os três? – o Mestre perguntou em tom sério.
- Ah... Não, Mestre. – respondeu surpreso Aioria.
- Apenas assuntos banais. – conclui Shaka.
Logo que Anne, o Mestre e Miro se sentaram, a disposição dos lugares ficou da seguinte forma: Ares na ponta; do seu lado direito Anne, seguida de Miro, Shura, Aioria e Shaka; do lado esquerdo Mu frente a garota, e depois Aldebaran, Afrodite, Carlo e uma cadeira vazia, que se supunha ser de Kamus. Começaram a comer, no tom descontraído de antes, até que o taurino interveio:
- Estranho... – comentou Aldebaran e todos o olharam.
- O que, Deba? – perguntou Aioria.
- Kamus ainda não chegou, e ele nunca se atrasa.
- Ai, é verdade, Debinha! O que será que aconteceu com Kakazinho?
- Afrodite, - interrompeu Giancarlo com seu péssimo humor. – se continuar com "inha, inho", juro que você vai engolir essa baguete inteira, de uma vez e sem mastigar!
- Verdade? – e os olhos do cavaleiro de Peixes até brilharam. – Ai que tudo!
Essa nem mesmo o Mestre agüentou. Todos riram da cena, ainda mais porque o canceriano parecia contrariado com aquela reação, que teve o efeito contrário do esperado. Definitivamente o italiano era uma pessoa mal humorada pela manhã, e nem mesmo a presença de sua "bambina" o fez perder tal costume.
- Miro, tá tudo bem? – perguntou uma preocupada Anne, aproveitando a distração geral.
- Anne, Miro sempre foi quieto no café da manhã, é normal. – respondeu o ariano tentando despreocupá-la.
- Não a esse ponto. – e voltou-se para o escorpiano novamente. – Miro, me responde, tá tudo bem?
O rapaz lhe deu um leve sorriso, mais com o intuito de despreocupá-la do que qualquer outra coisa. Ela olhou meio triste, e ele retribuiu com um beijo carinhoso na testa, como se dissesse "Não se preocupe". Mas era em vão. Ela se sentia preocupada e culpada.
Todos começaram a comer. Anne se divertiu com aquela animação, e conclui que o café da manhã era algo bem divertido no Santuário, onde todos, com exceção de Shura e Afrodite, pareciam sérios demais.
Pela primeira vez, em mais de três anos, a garota se sentiu realmente feliz. Mesmo com os acontecimentos da noite passada. Mesmo com Miro aquele jeito. Ali, ela era uma anônima, como se fosse uma irmã mais nova e numa grande família. Sorriu satisfeita ao ver que ninguém, pelo menos naquele lugar, a conhecia como filha de Claude Cambeaux, presidente da França.
Tudo ia perfeitamente bem, até um cosmo agressivo se aproximar lentamente do Salão do Grande Mestre. Aioria se levantou em um pulo; Giancarlo subitamente largou o pão que comia; Shura deixou a faca cair de sua mão em cima do prato; Afrodite colocou mais adoçante que devia; Shaka abriu os olhos; Aldebaran olhou apreensivo, ao passo que Mu aguardava tranquilamente e Miro se pôs frente à Anne, que se assustou com a mudança repentina de todos ao mesmo tempo.
- O que tá acontecendo? – perguntou inocente.
- Esse cosmo... – disse o leonino.
- Eu não acredito! – disse um incrédulo Aldebaran.
Anne sentiu um calafrio se encolheu na cadeira, o que preocupou Miro. Era uma sensação estranha, diferente, algo novo... Uma novidade que a assustou e a inibiu.
- Sim, é ele. – disse o Mestre ao se levantar calmamente. – Esse cosmo gelado pertence ao Cavaleiro de Aquário, Kamus.
Todos se mantiveram na mesma posição, exceto Anne, que se assustou.
- "O que tá acontecendo...? Essa sensação ruim e estranha..." – pensou a garota, que se encolhia cada vez mais na cadeira.
O Mestre estava certo: era mesmo Kamus de Aquário. Sua expressão estava sombria e séria, e seu mau humor estava mil vezes pior que o do Cavaleiro de Câncer. Seu corpo exalava agressividade, mesmo sem a armadura. Todos pareciam incrédulos e o fitavam, menos a francesa, que ficou ainda mais assustada ao ver Kamus daquela forma. Aioria, que ainda estava em pé, o olhou com precisão, e perguntou de forma clara e direta o que todos queriam perguntar, ainda que tivessem uma vaga idéia da resposta.
- Kamus, o que tá acontecendo?
- Nada que seja da sua conta ou faça parte da sua vida, Aioria. – respondeu frio.
Anne olhou incrédula, junto aos outros presentes. Miro segurou sua mão, lhe dando apoio, e ela não esboçou reação alguma: estava em choque por vê-lo de forma tão... Obscura. A garota continuou na mesma posição, parada. Kamus observou a cena e ficou ainda mais irritado. Ele abriu a mão e uma esfera de gelo apareceu, demonstrando seu atual estado, então rapidamente a fechou, enquanto caminhava direção à mesa.
- Kakazinho, ainda bem que chegou! Já tava sentindo sua falta. – tentou amenizar o pisciano.
- Eu não posso dizer o mesmo.
Aioria se sentou e Anne saiu do seu "transe", fitando o cavaleiro com reprovação. Tanto ela quanto Giancarlo ficaram irritados com aquilo, e o cavaleiro de câncer pegou novamente seu pão e começou a despedaçá-lo. Todos estavam tentando seguir em diante, fingir que nada tinha acontecido, mas o francês não colaborava, visto que lançava olhares furtivos aos presentes e não fazia questão alguma de demonstrar sentimento que não fosse o de raiva e desprezo.
- Já estou indo embora. – respondeu ao pegar um pão.
Miro fitou o cavaleiro bem nos olhos, e Shura então achou melhor levar o amigo embora. O escorpiano ainda estava com a mágoa e o ódio guardados dentro de si, para ele aquele assunto não tinha sido encerrado. Traição era algo muito sério, e algo que ele não admitia ser acusado, ainda mais sem culpa alguma. Estava se contendo pela presença da garota, que foi a que mais sofreu com tudo isso – e ainda sofria –, e por isso não disse e não fez metade do que gostaria.
- Ándale, amigo. – sussurrou.
Miro pensou em relutar e ficar, mas ficou com receio de fazer algo de que pudesse se arrepender depois, já que ele ainda considerava Kamus seu melhor amigo, e assustar ainda mais Anne, que ele não sabia como ela conseguia ficar naquele lugar.
Ninguém acreditava. Aquele não era Kamus, o cavaleiro que todos conheciam. Suas palavras saíam com sarcasmo e ironia, além de serem extremamente agressivas. Aquele comportamento era típico de Giancarlo, o "Máscara da Morte", que para o espanto de todos estava profundamente irritado com toda aquela cena, ainda mais por algo que era uma fantasia na cabeça dele, que parecia não querer entender nada do que acontecia.
- Mas, Kakazinho, você não tomou seu café da manha! E você não vive sem ele.
- Eu não sou Kakazinho. – respondeu ao se apoiar na mesa e fechar os olhos por alguns segundos. – Sou Kamus, e apenas Kamus.
O cosmo do italiano, o mais incomodado com tudo aquilo, começou a aumentar assustadoramente, à medida que Anne apertava as mãos, uma contra a outra, por debaixo da mesa, demonstrando irritação e nervosismo. Anne não estava bem com aquelas palavras que ela sabia que eram para ela, e Giancarlo por saber que ela não se sentia bem ali por causa dele. O Cavaleiro de Aquário então prosseguiu:
- E prefiro estar só que mal acompanhado, ou na presença de pessoas que me causam repulsa.
E então lançou um olhar profundo a garota, como se a culpasse daquilo: da situação, do mal estar causado, das brigas... Todos pensaram em dizer algo em retribuição, mas, para espanto maior dos presentes, Anne foi a primeira a se pronunciar: ela bateu as duas mãos na mesa, e fitou o aquariano com um brilho jamais visto pelos demais cavaleiros – o da raiva.
- Não se aborreça. Estou indo embora, Kamyu Troirègnes. – disse com uma entonação maior no sobrenome.
- Nossa! Que nome lindo! – se encantou Afrodite.
- Esse nome não me é estranho... – disse Aldebaran.
- Você não tinha esse direito! – respondeu Kamus com fúria.
- E você tinha direito de fazer metade das coisas que você fez? – respondeu ela na mesma tonalidade que ele.
Um silêncio fúnebre se fez presente. Anne o rompeu.
- Foi muito bom estar com vocês, rapazes.
A garota se levantou da mesa, e todos somente a observavam por estarem atônitos demais para responderem, com exceção de Giancarlo. O Cavaleiro de Câncer estava visivelmente transtornado com aquilo tudo. Seu cosmo ardia fervoroso, com uma mistura de ódio e fúria. Em um impulso, se levantou, pegou Kamus pelo ombro e prensou contra a parede, apertando seu pescoço.
- Você já encheu meu saco, Kamus!
- E eu com isso? – respondeu no mesmo tom de antes.
- E você com isso? – riu sádico. – Isso não é bom, ainda mais quando é pela manhã e você é o culpado!
Giancarlo apertou ainda mais o pescoço dele e os cavaleiros de ouro passaram a se preocupar. Estaria iniciando ali, naquele momento, a guerra de mil dias? Por um motivo tão tolo? Afinal, quem era aquela garota para mudar a cabeça, os pensamentos e as reações de todos os moradores das Doze Casas? Quem era ela, de verdade? Anne novamente interveio, com uma convicção que não parecia ser dela. Ainda mais sobre quem ela tentou pedir, embora tenha saído como uma ordem:
- Giane, já chega.
O canceriano tentou não dar atenção a ela, que insistiu veemente.
- Giane, por favor.
O Cavaleiro então a fitou, e ela lhe retribuiu com um olhar de súplica, que o fez baixar a guarda e desistir, ainda que em seu íntimo aquela vontade, acumulada desde o segundo dia de visita da garota, fosse forte e difícil de ser controlada. Mas ele não podia negar um pedido dela. Não dela.
- Impossível! Ela só pode ser Athena...
- Aioria, até mesmo eu me questiono agora.
- Shaka, ninguém mais teve esse poder sobre Carlo.
- Mas se fosse assim, o Mestre demonstraria.
- Mas se até mesmo o Mestre tá mudado desde que ela chegou...
- Athena sempre viveu no Santuário, Aioria. Isso só pode ser blefe.
- Calem-se! – se intrometeu Kamus. – Essa aí não é Athena! Athena é uma deusa íntegra, não uma farsante como essa!
- E quem é você pra falar de integridade? Ainda mais você, um Troirègnes! – retrucou Anne.
- Eu não sou um Troirègnes!
Suas palavras saíram mais em tom de desabafo do que raiva. Ele olhou para o chão, cabisbaixo. Por um instante o cavaleiro ficou desarmado. Anne então se arrependeu do que disse e se virou para ir embora, antes que estivesse aos seus pés lhe pedindo desculpas. E assim o fez; o Mestre a seguiu e com o braço lhe indicou o caminho, deixando os dourados para trás.
- Jean Pierre Troirègnes... – suspirou Aldebaran.
- Talvez não seja o melhor momento para isso, Deba. – respondeu Mu.
Os Cavaleiros então puderam perceber: a alma de Kamus chorava. Lágrimas amargas de um passado que ele preferiu esquecer. Ele com certeza havia criado aquela barreira de gelo para se esquecer, e esquecer quem ele havia deixado para trás. E quando uma simples parte de seu passado veio à tona, tudo explodiu como um imenso e alastrado vulcão. E por isso ele estava perdido. Por pior que estivesse, o Cavaleiro de Aquário fez questão de não transparecer, afinal, ele era o "Iceberg". Mas ele mesmo se esqueceu que um iceberg não é só aquela pontinha, mas tinha um todo por debaixo d'água. Talvez ele quisesse sair correndo, ou sentar e chorar, mas ele não o faria. Não ele, o Senhor do Gelo.
Anne sentiu como se ele morresse ali, naquele instante. E pior: ainda sentiu como se tivesse o matado. Mas ela decidiu não voltar, nem olhar para trás. Afinal, valeria a pena? A felicidade de Anne se dissipou. Esvaiu-se. Ela seguia o Mestre quieta; novamente era a infeliz Anne, que agora carregava a culpa também. E isso acabava com ela.
Todos estavam quietos, chocados com os acontecimentos, até que Shaka notou algo estranho. Olhou Anne se distanciando e se surpreendeu: uma aura em tom lilás a contornava, de forma intensa. Quando Aioria perguntou o que se passava, o virginiano apenas apontou.
- Mas aquilo é... – disse Aioria embasbacado.
- Um cosmo. – concluiu Shaka. – Um cosmo que acabou de despertar...
- Mas não sinto agressividade.
- O cosmo dela é diferente. – e então fechou os olhos. – É um cosmo não consagrado a Cavaleiros e Amazonas.
- Você tá dizendo que...
- Exatamente, ela é uma deusa. – disse ao voltar a cabeça para o canceriano. – E isso explica sua relação com o Cavaleiro de Câncer.
- Eu não entendi.
O Cavaleiro do Virgem se levantou.
- Talvez não deva entender. – e então se retirou.
- Eu odeio quando ele faz isso! – concluiu Aioria.
O Mestre então levou Anne até a sala ao lado, e ela o seguia piamente. Ele, sem dúvida alguma, havia percebido o cosmo. Mas por que ficou calado? Faria ele o mesmo que fez com Athena? Tentaria matá-la? Não... Até mesmo Ares estava diferente. Ele fechou a porta da sala e pediu para que a garota se aproximasse.
- Pois não, Mestre?
Ele retirou, então, o elmo e a máscara através dos quais se escondia. Anne soltou um leve suspiro de espanto ao ver o rosto do homem: um rosto jovem, talvez um pouco mais velho que o dos demais, mas ainda assim jovem. E bonito também.
- Não me chame de Mestre, me chame de Saga.
Um rosto jovem e belo, composto por um par de olhos azuis que refletiam a imensidão do que ele representava naquele lugar. Assim era o mestre Ares, ou melhor, Saga. Anne não resistiu e cuidadosamente lhe tocou a face. Estava hipnotizada pela amplitude que ele representava.
- É tão lindo, tão intenso e tão... – e então fez uma pausa enquanto olhava nos seus olhos. – Triste. Muito triste.
Saga então desviou o olhar e por um minuto ficou cabisbaixo e pensativo. Não sabia ao certo o porquê daquela reação, e então logo a fitou novamente.
- Anne, tristeza e felicidade andam lado a lado. Podem ser tão intensos ou tão nulos que...
- Eu sei do que o senhor fala. Existem várias formas de morrer. E eu morri tantas vezes nos últimos anos...
- Mas a sua vida na Grécia pode significar o renascimento.
- Não, Saga. A minha vinda a Grécia me provou que eu não estava tão morta quanto eu pensava.
Ele silenciou, talvez não houvesse resposta para aquele argumento, que lhe parecia tão convincente. Ela, querendo quebrar aquela quietude, lhe ajeitou os cabelos e prosseguiu serena.
- Muito obrigada por ter me acolhido tão bem durante minha estada nesse solo sagrado.
Ela então lhe deu um beijo, calmo e demorado, bem na bochecha esquerda do Mestre. Ele jamais esperaria tal tipo de reação, tanto a dela como a dele. Por alguns segundos, ficou corado e sem saber o que dizer, e ela apenas sorriu.
- Anne, às vezes as pessoas se escondem por trás de mascaras. Físicas ou psicológicas. É preciso ter serenidade para descobrir quem é quem. Talvez eu não seja quem você pensa, assim como você pode não ser o que eu penso.
- Só existe uma forma de descobrir: conhecendo as pessoas, ate que elas mostrem, de fato, quem são. Obrigada por me mostrar quem você é, Saga.
Após se recompor, chamou o Mu pelo seu cosmo, que entrou surpreso, ao passo que Anne sorria tranqüila e aliviada, e o Mestre, de costas, recolocava o elmo depois de ter colocado a máscara. O Cavaleiro de Áries estava surpreso: mesmo em anos de Santuário, ele jamais havia visto a pessoa por trás da máscara, e a garota havia o feito. Passado o choque inicial, se aproximou de ambos no exato instante em que o elmo havia voltado ao seu lugar.
- Pois não, Mestre?
- Poderia utilizar seus poderes e então trazer os pertences de Anne que estão na Casa de Escorpião?
- Ahn? – disse surpreso. – Sim, claro.
- Mestre, eu posso pegar, não tem problema.
- Isso traria maiores problemas e perguntas inevitáveis.
- Entendo. – consentiu Mu.
O ariano fechou os olhos e se concentrou, enquanto Anne, paciente, parecia frustrada por não ir pegar seus pertences. Em segundos, a porta se abriu e a sua roupa, seus sapatos e sua bolsa apareciam flutuando no ar. A garota olhou surpresa, e o Mestre então lhe respondeu.
- Cada cavaleiro que mora aqui tem poderes. O de Mu, por exemplo, é a tele cinese, dentre outros.
- Ah... Isso é legal.
Os objetos então pousaram na cadeira do Grande Mestre e Mu abriu os olhos. Anne os pegou e seguiu a direção indicada pelo anfitrião, para se arrumar e então ir embora, como tanto queria agora, mesmo que a idéia de deixar aquelas pessoas para trás lhe doesse.
- Mu, o que você acha? – perguntou curioso pela reposta do ariano.
- O mesmo que o Senhor. É a Rainha dos Mortos, sem dúvida alguma.
- Hum...
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Enquanto isso, na sala ao lado...
- Eu... Eu preciso falar com ela!
Kamus despertou de seu transe e então levantou a cabeça, com o mesmo olhar frio de sempre. Giancarlo ainda o prensava contra a parede, com o mesmo olhar assassino e de que parecia se divertir com aquilo. Era a sua chance de "acertar as contas", por todo o mal que ele causara a garota.
- Mas não vai!
- Carlo, Kamus, parem com isso! – pediu Afrodite.
- Saia da minha frente, Carlo.
- E se eu não quiser? – perguntou com um sorriso sádico.
- Eu... – respirou fundo e o fitou. – Vou ter que passa por cima de você.
As cenas seguintes foram dignas de um filme de ação: Kamus fez força para que o italiano o soltasse; o Cavaleiro de Câncer continuou o empurrando e o de Aquário lhe deu um chute, no qual o oponente se desviou muito bem e, como contra golpe, desferiu um soco na barriga do primeiro. O aquariano curvou-se para frente, e aproveitou a deixa para congelar os dois pés de Giancarlo rente ao chão.
- Pronto. Agora eu vou. – e se pôs a caminhar.
- Eu disse que não vai. – disse Carlo rindo.
- "Foi isso que Shaka quis dizer com a ligação de Anne com Carlo? Ele tá disposto a tudo, nem parece um Cavaleiro de Athena! Será que ela é...".
Os pensamentos de Aioria foram interrompidos por um movimento brusco do canceriano, que ria sadicamente, ao passo que levantava o indicador e esticava o braço direito, prestes a soltar um de seus golpes.
- O que? Esta posição... – disse Afrodite.
- Ahahaha! Quando eu falo não, é não, Kamus! – fez uma pausa. – SEIKISHIKI...
Máscara da Morte estava pronto para soltar o seu golpe. Kamus tinha a cabeça longe e nem se deu conta do que ocorreu. Afrodite se preparava para o pior e Aioria estava surpreso demais para reagir, enquanto o cosmo de Câncer ardia cada vez mais fervoroso.
- MEIKAI...
- Já chega, Carlo.
As palavras foram proferidas por Aldebaran, o Cavaleiro de Touro, que segurou o braço do canceriano. Todos estavam surpresos, afinal ele estava sério demais, e falava com a voz sóbria demais, e Afrodite respirou aliviado. O italiano fitou e pensou em continuar, mas o taurino apertou ainda mais seu braço.
- Eu disse que já chega.
- Me solta, touro estúpido!
- Se você tentar se soltar, quebro seu braço. E não estou brincando.
- Vamos ver então!
Giancarlo fez um movimento brusco e de força para se soltar de Aldebaran, que com seu tamanho avantajado e força descomunal, apertou ainda mais o canceriano, aproveitando que seus pés estavam congelados e ele não poderia fazer movimento algum, o que significava que ele não teria reação alguma.
- Cazzo! Aldebaran, seu... – disse se curvando pela dor.
- Eu avisei pra não tentar. Mas não se preocupe, não quebrei seu braço.
Aioria acompanhava tudo incrédulo; tudo aquilo parecia muito surreal. Em sua cabeça passavam mil coisas, das mais simples as mais absurdas, e todas levavam ao fato de que aquele não era, nem de longe, o Santuário que ele estava acostumado a viver. Ao mesmo tempo, Kamus foi a passos decididos a Sala em quem o Mestre havia levado Anne. Chegando à porta, Afrodite o impediu de entrar.
- Kamus, espera.
- Já esperei tempo demais, Afrodite.
- Se você for desse jeito, só vai piorar as coisas.
- E se eu não for, tudo pode acabar.
- Acabar?
- "Anne. Há cinco anos que tivemos nosso último beijo. E eu não gostaria que fosse...". – pensou o Aquariano.
-[FlashBack-
- Oh, Kamyu! É tão lindo!
- Sim, Anne. Mas você é mais bonita.
A garota corou, e o rapaz pegou pôs o cabelo dela atrás das orelhas, para poder ver melhor como o colar havia ficado nela. Sorriu e fez uma cara de aprovação.
- Uma jóia e a minha jóia...
- Não seja tão bobo. – riu Anne.
- Eu te amo, Anne. – disse ao olhar nos seus olhos.
- Eu te amo pra sempre, Kamyu... – respondeu ao retribuir o olhar.
Os corações então falaram mais alto e ambos se entregaram ao desejo; um beijo longo e apaixonado acontecia, com a Lua Crescente com o céu estrelado e a Torre Eiffel como testemunhas.
-[Fim do Flashback-
- Pra sempre... – sussurrou.
---------[...
De volta a sala do Mestre...
- Mu de Áries, leve-a diretamente para a Primeira Casa, a qual você guarda. Não pare, não converse com ninguém e nem pense em desviar o caminho. Entendido?
- Sim, Mestre.
- Qualquer contato pode ser decisivo agora, já que ela revelou ser...
- Estou pronta! – disse Anne interrompendo o Mestre.
E novamente ela reinava soberana entre o Mestre e o Cavaleiro.
- Vamos? – perguntou a Mu.
- Ah, sim, claro. – respondeu o dourado.
- Adeus, Mestre. – Anne então se aproximou.
- Adeus, Anne.
Os dois se abraçaram como despedida, e o ariano olhava a cena cada vez mais surpreso. A garota se juntou a Mu e então foram rumo a porta, enquanto o Mestre se retirava para sua meditação diária.
O Cavaleiro abriu a porta quando se deparou com os Cavaleiros de Aquário e Peixes a sua frente.
- O que fazem aqui? Estavam escutando pela porta? – perguntou Mu.
- Que isso, Muzinho! Assim você me ofende. Mas ainda bem que você saiu!
- O que aconteceu, Dido?
- É fim dos dias!
- O que se passou na minha ausência?
- Giane! – exclamou Anne.
- Ele tá bem. – interveio Kamus.
O ariano então observou o canceriano "caído" sob os olhares de Aldebaran, enquanto Aioria batia os pés no chão em sinal de nervosismo. Kamus então ficou parado olhando para Anne algum tempo, até ela se sentir envergonhada e puxar Mu.
- Temos que ir, não é mesmo?
- Sim. Com sua licença, Cavaleiros.
- Eu preciso falar com você, Anne. – Kamus se interpôs.
- Tenho ordens do Mestre pra levá-la diretamente a Áries.
- E assim poderá fazê-lo depois disso.
- As ordens são expressas e imediatas.
Entreolharam-se. Kamus elevou o seu cosmo, para conversar com Mu.
- Mu, por favor. – pediu Kamus pelo cosmo.
- Não posso, Kamus.
- Essa é uma escolha que pode mudar o futuro!.
- Você já mudou seu futuro, Kamus..
Kamus consentiu, o ariano estava certo. Sua única ação foi abaixar a cabeça, o que não agradou Mu, que não podia voltar atrás, afinal, ordens são ordens.
- "Me perdoe, Kamus...".
O dourado apenas mentalizou. Kamus já havia se retirado, sob os olhares preocupados de Afrodite. Anne também estava preocupada, mas com outro cavaleiro: Câncer. Ela tentou se aproximar dele, que ainda se contorcia de dor, mas foi impedida por Mu.
- Mu, por favor! Eu preciso ver Giane.
- Kamus já disse que ele está bem.
- Pois não acredito nele! Não para esse tipo de coisa...
- E por que não? – perguntou Afrodite se intrometendo no assunto.
- Porque ele faria de tudo pra não me preocupar... – sorriu.
Anne deu mais um passo e foi novamente impedida pelo Cavaleiro de Áries. Ela o fitou nos olhos, e ele prontamente desviou; não poderia encarar aquelas esmeraldas pedintes com tamanha indiferença. O cosmo de Anne se expandia aos poucos, e Mu fingia não dar conta.
Afrodite percebeu a situação em que o ariano estava e, com toda a sua sensibilidade pisciana, segurou as mãos de Anne enquanto dizia tranquilamente.
- Cuidarei dele por você.
Anne no mesmo instante parou, não podia ser indiferente aquele olhar. Ela apenas lhe sorriu em agradecimento, e voltou-se para Mu com um leve sorriso.
- Não temos que ir?
O Cavaleiro de Áries consentiu e dispôs-se a andar com a garota rumo à sua casa, enquanto Afrodite ia à direção de Giancarlo, para cumprir o que tinha prometido, mesmo que a palavra "promessa" não tenha sido proferida.
As pernas do Cavaleiro de Câncer ainda permaneciam congeladas. Os Cavaleiros, em geral, sabiam que os poderes de gelo do Cavaleiro de Aquário eram surpreendentes e quase imbatíveis. Afrodite, Aldebaran e até mesmo Aioria se perguntavam como "quebrar" aquele gelo, enquanto o italiano xingava e amaldiçoava Kamus por gerações.
Anne seguia Mu obediente. Metade de si queria voltar correndo e ficar perto de Giancarlo; já a outra metade a "obrigava" a ir com o ariano, para não parecer ingrata perante tanta hospitalidade. Era razão versus emoção. Qual desses dois caminhos diversos seguir? Talvez nem ela mesma soubesse. Porque talvez ela estivesse tão dividida entre esses dois caminhos. E foi por isso que, enquanto caminhava, lançou um último olhar ao amigo câncer. Ele, vulnerável daquele jeito, provocou uma grande emoção em Anne, que lhe lançou um olhar terno antes de virar e seguir. Nem ao menos vira a reação que causou.
Câncer, compenetrado por aquele olhar, sentiu uma súbita mudança, um alivio. O gelo havia derretido, e agora nada mais era que água. Os outros Cavaleiros somente se deram conta quando ouviram o barulho: Giancarlo estava de joelhos no chão, com o olhar fixo em sua "salvadora". Palavras não eram necessárias, mas o canceriano apenas lhe disse, em um sussurro:
- Minha senhora...
Todos ficaram surpresos e voltaram suas atenções para ele. Afrodite o ajudou a ficar em pé, já que ele mal movia o braço. Mas o olhar ainda continuava fixo em Anne.
- Me solta, Dido. – disse firme ao se livrar do braço do pisciano. – Eu tô legal.
- Mas, Carlo, você não esta bem.
- Já disse que tô.
Aldebaran apenas o fitou e Aioria olhou pela porta para ver se avistava Anne, mas tanto ela quanto Mu já haviam sumido através da grande porta de entrada da Décima Terceira casa.
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Em Capricórnio...
- Porra, não admito!!! – exclamou Miro irado.
- Calma, amigo... – tentava consolar Shura.
- Calma? Como quer que eu tenha calma? É isso que se chama amizade? Isso que é ter melhor amigo?
- Você tá exagerando...
- Exagerando? Um cara que se diz ser meu melhor amigo por anos apronta uma dessa, duvida de mim e EU que estou exagerando?
- Também convenhamos, Miro. Foi tudo colaborando com isso, qualquer um que não soubesse pensaria a mesma coisa que Kamus...
- Concordo, mas poucas pessoas fariam o que ele fez. Duvidar de mim, de Anne...
- É difícil. Porque seria mais fácil imaginar uma relação entre ambos, franceses, do que uma entre você e ela, um grego e uma francesa. - Miro ficou quieto, e Shura aproveitou a deixa para prosseguir. – E... Ela deve ter sido algo muito forte, porque ela foi a única pessoa que eu conheço que conseguiu quebrar a parede de gelo que Kamus sempre foi...
- Sabe o que mais me irrita? – disse com ira. – Saber que ele vai perder a mulher da vida dele por uma burrice! Uma burrice dele!
Terminou a frase desferindo um golpe contra a parede ao lado.
- Ei, se você quer destruir uma casa, que seja a sua! – riu Shura.
Miro o reprovou com um olhar frio, mas ainda sim o capricorniano ria. Colocou a mão no ombro de Escorpião e então disse.
- Amigo... Um homem escreve seu destino, e Kamus escreveu o dele. Não há nada mais a se fazer, a não ser aceitar...
- Pois não aceito! Porque ele escolheu dois destinos, e um deles é de uma das pessoas que eu mais amo nessa vida...
- É... Eu sei...
A tristeza recaiu sobre o dois, que ficaram mudos ante aquela verdade.
- Vou voltar para a minha casa... – quebrou o silêncio, decidido.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- Mas para ir a Escorpião precisa passar por Aquário e...
- Eu sei, e vou mesmo assim. Estou escrevendo o meu destino.
Miro andou rumo à porta, em passos firmes. O espanhol virou-se para o outro lado, com o intuito de ir tomar um banho para ver se esquecia de todos aqueles acontecimentos, que foram tão turbulentos.
- Shura... – voltou-se novamente para o Cavaleiro.
- O que foi? – perguntou um surpreso capricorniano.
- Obrigado.
- Boa sorte, Miro.
O Cavaleiro de Escorpião começou novamente o caminho rumo a sua casa, até que sumiu pela porta da Casa de Capricórnio, sob os olhares atentos de seu guardião, Shura.
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- É aqui... O principio e o fim.
Anne suspirou após essas palavras.
- O princípio e o fim? – perguntou Mu curioso.
- Sim... Tudo deve terminar onde começou.
O ariano ficou quieto para que a garota continuasse. E assim o fez
- Parece que foi ontem, né? – e então olhou para cima. O Sol reinava soberano naquela manhã de primavera grega, razão pela qual a garota fez uma espécie de proteção para os olhos com a mão. – Mas já se foram dez dias... Dez longos dias desde que apareci aqui pela primeira vez, em frente a essa mesma casa.
- Se arrepende? – perguntou o dourado olhando para seu rosto.
- De forma alguma. – sorriu, mas seu olhar continuava perdido no horizonte, e então seguiu. – Tudo nesta vida deve ser tido como aprendizado, nada deve ser causa de arrependimento. Cada acontecimento é um aprendizado. É assim que deve ser.
- Entendo...
Ambos silenciaram, enquanto o vento soprou, balançando seus cabelos.
- Foi aqui que te disse oi, é aqui que te direi tchau. – e voltou-se para ele.
- Infelizmente... Infelizmente, Anne...
- 'Não chore porque acabou; sorria porque aconteceu', é o que dizem por ai. Foi muito saber que existe um mundo al é m daquele mundinho que vivo, que por sinal se mostrou ser mais chato do que realmente é... – riu.
Mu olhou para Anne. Ela ria, mas algo brilhava em seu rosto, devido aos raios de Sol. Ela, por sua vez, mesmo com os olhos marejados de lágrimas, sorriu para ele como se estivesse feliz. Verdadeiramente feliz.
- Foi bom saber que existem pessoas como eu: que levam o peso de um nome e, embora pareçam para todo mundo felizes e realizadas, estão bem longe disso. Mas que mesmo assim, têm pessoas iguais a você ao seu redor, pra te apoiar. Algo que me faz diferente de vocês, Cavaleiros...
- Anne...
- Sabe, Mu, é a primeira vez que choro de alívio, de felicidade. Choro porque, pela primeira vez sinto que eu realmente descobri algo que eu tanto procurava, o porquê de muitas coisas. Estou feliz por me livrar de fantasmas do meu passado, de crenças antigas.
- Está dizendo que sua vinda ao Santuário significou sua libertação pessoal?
- Nãããão! – riu e limpou o rosto com o dorso das mãos. – Quer dizer, em parte. Porque, ao mesmo tempo em que me livrou de um lado, me prendeu de outro. – riu. – Afinal, aqui revi Miro, o segundo homem que mais amo em vida e que eu tinha muita saudade. Conheci você, Dido, o Mestre, Shura, Carlo, sem mencionar os outros. E aqui... – fez uma pequena pausa. – Aqui revi Kamyu...
Mu ficou calado, esperando que ela terminasse de dizer tudo que gostaria, como se estivesse desabafando o que queria, e ficou em dúvida se ela sabia quem ela era realmente, o que a cada instante o ariano pensava que não.
- Entretanto, - suspirou profundamente. – não seria justo de minha parte deixá-los e desaparecer, e nem me agradaria também.
Anne abriu a bolsa e tirou três cartões de um fino porta cartões com as iniciais A.C.
- Mu, por favor, fique com um e entregue os outros dois para Miro e Dido. É neste hotel que estou hospedada, só não sei dizer até quando.
- Certo. – respondeu ao dar uma olhadela.
- Talvez eu volte pra Paris hoje ou amanhã...
Ambos silenciaram novamente.
- Bom... É isso, Mu.
- Sim... Foi um prazer, Anne.
- Não... Foi um imenso prazer, Mu. Obrigada por tudo.
Os dois se abraçaram, um abraço gostoso, forte. Por alguns instantes, Anne teve a impressão de já ter visto e sentido aquilo antes. Os olhos dela se encheram novamente de lágrimas.
- Odeio despedidas... – riu, mas ainda chorando.
- Despedidas significam o melhor momento: o do reencontro.
- Me lembrarei disso...
- É para nunca se esquecer.
- Quando for à França, não se esqueça de me avisar.
- E você, quando vier a Grécia, venha nos visitar. As portas estarão sempre abertas.
- Obrigada, mas prefiro ficar sem vir aqui por um bom tempo...
Os dois sorriram, como se entendessem completamente.
- Peça desculpa a todos por não ter me despedido deles da forma que gostaria...
- Tudo bem.
- Adeus, Mu, meu amigo.
- Até breve, Anne
A garota respirou fundo e desceu as últimas escadas do Santuário. Pôs-se a andar sob o olhar cuidadoso de Mu. Mais alguns metros e ela encontraria uma forma de voltar ao hotel e a sua realidade,
N/A:
Capítulo imenso, gigante, confuso, dramático, revelador e bla bla bla!
Sim, eu sei! Peço desculpas se alguém achou incômodo, mas é agora que o verdadeiro drama e as verdadeiras revelações acontecem, certooooo? Então preparem-se!
Alias, obrigada pelas reviews e pela aceitação! Essa fic já teve mais de MIL acessos (no fanfiction), e mesmo quem não comenta, só o fato de eu saber que estão lendo e provavelmente gostando do trabalho, me deixa feliz D
Bjus e ate a próxima!
