Cap. IX – Quando o Presente Se Torna o Futuro
Anne voltou para "casa", desolada. Tudo aquilo que tinha acontecido na noite anterior, tinha a afetado de uma forma pior do que a esperada. Não, aquilo tudo não podia ser real. Jamais.
Já era quase onze horas da manhã quando ela voltou ao hotel. Ela saiu do Santuário e foi direto ao Pathernon, o mesmo lugar onde tinha visto Kamus há dez dias atrás. Por mais que quisesse, não conseguia mudar seus pensamentos, e vez ou outra, deixava uma lágrima cortar seu rosto.
Depois do que tinha visto no Santuário, o suntuoso hotel cinco estrelas não parecia ter brilho algum. Adentrou pelo saguão e viu o Egeu ao fundo. Ele estava lindo, azul, intenso... Poderia ser traduzido como paraíso das águas. Mas ali, perto daquele imenso hotel, tão cheio e tão vazio ao mesmo tempo, ele pareceu não ter o brilho que merecia. A garota abriu a bolsa e pegou a chave da suíte presidencial, sua "segunda casa". Quando abriu a porta, algo que ela já esperava: Domenique estava a sua espera, sentada em uma das poltronas, com uma cara de imensa preocupação. Anne, procurando evitar as perguntas que ela sabia que seriam feitas, desconversou.
- Bon jour.
- Bom dia? Eu não durmo desde a noite passada.
- Sinto muito, Domenique.
- Seu pai está vindo de Paris. – mudou de assunto a senhora.
- Quando? – e a mais nova fitou-a surpresa.
- Hoje mesmo.
- Por quê? Claude Cambeaux vindo à Grécia? Que prazer! – riu a garota irônica.
- O senhor Cambeaux está vindo para buscá-la, Anne.
- Como é...? – exclamou surpresa ao se sentar na cama.
A garota pensou em mil coisas. Afinal, se o próprio pai vinha lhe buscar, algo havia de errado, já que o presidente prometeu nunca mais pisar em solo grego desde a morte de sua mulher, salvo assuntos políticos. Ainda atordoada, Anne se levantou.
- Aonde vai, Anne? – perguntou a acompanhante preocupada.
- Ao banheiro. Posso? – e lhe retribuiu com um olhar gélido.
- Sim, sim...
Anne se retirou do recinto e se dirigiu ao banheiro, batendo a porta com um leve impulso depois que entrou. Estava confusa, milhões de pensamentos cruzavam sua mente, e ela se perguntou o que pai sabia que foi o suficiente para ir lhe buscar.
- Afinal, se meu pai vem mesmo me buscar, isso não é um bom sinal...
Tirou a roupa e entrou na banheira, que Domenique sabia que ela ia procurar depois de passar a noite fora, e já tinha a preparado. Com a cabeça dando volta em mil pensamentos, se afundou por completa, como se aquilo a libertasse de alguma coisa que nem havia acontecido.
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A vida voltou ao normal no Santuário. Tudo podia se considerar rotineiro, não fosse pelo clima de tristeza que habitava o local. Por cada casa, um pensamento distinto, mas todos com uma única essência. Os sentimentos eram os mais diversos, e os mais confusos também, já que aquele dia ficou marcado pela presença de um novo deus na terra. Ou melhor, uma deusa, uma mulher que eles sabiam ser espetacular e pura.
- "Como será que Anne esta?" - pensava Mu, olhando cautelosamente a entrada do local.
- "O que levou Carlo a agir daquela forma?" - pensava Aldebaran sentado nas escadarias da casa de Touro.
- "Anne... Quero vê-la! Preciso vê-la antes que seja tarde..." - pensava Giancarlo, deitado em sua cama, se recuperando dos golpes que recebera.
- "Gostaria apenas de ter certeza..." - pensava Aioria olhando para o horizonte.
- "Os Deuses nos reservaram outra surpresa. Mais um deles voltou novamente à vida... Mas por quê?" - pensava Shaka meditando na flor de lótus.
- "Por que isso tinha que acontecer? Por que essa prova? Como estará Anne...?" - perguntou-se Miro mil vezes, exalando raiva enquanto socava um saco de areia em Escorpião.
- "Impressionante como una chica mudou a vida de 10 homens como nós ... Claro que ela é diferente." - riu Shura admirando sua morada.
- "Anne, como gostaria de estar ao seu lado... Desculpe por não te acompanhar..." - pensava Afrodite contemplando as rosas que um dia também foram contempladas pela garota.
- "Agora eu entendo... Entendo o porquê de uma pessoa e dois mundos diferentes..." - pensou Ares, ou melhor, Saga, em sua meditação na Décima Terceira Casa.
O cavaleiro da Décima Primeira Casa não sabia o que pensar. Tudo estava confuso demais, e a raiva não havia cessado totalmente. Por outro lado, ele sabia que era inútil tanta desconfiança, principalmente pela parte de Miro, seu melhor amigo. Sentado em sua larga cama, meditava, como nunca havia feito antes. E o ar da casa de Aquário começou a se tornar frio, frio, frio...
- Nossa, me esqueci! - disse Mu ao levar a mão a cabeça antes de pegar os cartões que Anne havia lhe deixado. - Tenho coisas a fazer. Ou melhor, a entregar.
Começou a subir as escadas zodiacais. Em poucos minutos, já havia deixado a caixa de Áries e estava frente a Touro, onde pediu para Aldebaran cuidar da entrada do Santuário enquanto ele resolvia "algumas pendências". O taurino sorriu e concordou com a cabeça.
O ariano continuou seguindo por todas as casas zodiacais: Touro, Câncer, Gêmeos, Leão, Libra ate que finalmente chegou a Escorpião, onde entrou procurando por Miro. Mas não o encontrava.
- Por onde andará...? – sussurrou.
Finalmente o encontrou: Miro cochilava no sofá escarlate da sala, todo suado, trajando roupas esportivas e as mãos com pequenas escoriações. Respirava ofegante, e parecia ter um sono bem agitado; provavelmente não tinha dormido a noite inteira. E depois viu para o saco de areia ao lado.
- Hum, entendi. Estava treinando... Ou descontando sua raiva. - murmurou Mu, ao sair de sua casa.
Continuou andando, agora rumo à Casa de Peixes. Mas, antes do seu objetivo final, uma parada não programada: a Casa de Aquário. O dourado observou a sua volta, onde tudo parecia normal, exceto pelo frio incomum que ele sentia em pleno calor grego.
- "O cosmo de Kamus... Está reagindo... De uma forma estranha, mas ainda assim reagindo... Talvez agora você aceite seu destino...".
Prosseguiu em silêncio enquanto seguia seu caminho. Ao chegar à Casa de Peixes, começou a procurar por seu habitante, que não encontrava. Finalmente o encontrou, sentado em um lago cheio de peixinhos, entre a casa e a escadaria para a Décima Terceira casa.
- Dido, bom que esteja aqui!
- Ahn? - despertou de sua concentração. - Claro que estou aqui, afinal e minha casa.
- Eu vim aqui lhe entregar algo. – Mu sorriu.
- E o que e, Muzinho? - olhou interessado.
- Isto. - esticou a mão e o cartão em direção a Afrodite.
- Que cartão e este? - perguntou o rapaz curioso.
- Anne pediu que lhe entregasse.
- Ai meu Zeus! – Afrodite pegou o cartão e olhou atento.
- Que foi? - perguntou assustado.
- Anne esta no "Les Elysees"!
Os olhos do cavaleiro de Peixes brilhavam enquanto Mu, surpreso com o encantamento do rapaz, apenas olhou o cartão.
- O que? Eu não acredito! - exclamou Mu, ainda mais surpreso.
- Aquele hotel e maravilhoso! - continuou o pisciano. - E o paraíso na Terra. Isso prova que Anne e uma pessoa de muita classe.
- Ou que o destino e inevitável. - retrucou sério.
No mesmo instante, Afrodite mudou de expressão, adotando uma mais séria. Mu virou-se de costas e começou a caminhar rumando a sua casa. Perguntas, naquele momento, seriam inúteis, pois um sabia tanto quanto outro e não teriam respostas.
-Você também percebeu, Mu? - perguntou sério.
- Um cosmo que acaba de despertar e uma aura lilás não passam despercebidas por um cavaleiro, principalmente no Santuário.
Ambos se calaram. E Mu voltou-se para Afrodite.
- Como esta Miro? Acha que ele percebeu?
- Pouco provável, Dido. Os sentimentos eram muito maiores que sua capacidade de perceber algo.
- E Kamus?
- Também não deve ter percebido. Passei por sua casa, e o ar estava estranho.
- Existem coisas as quais não conseguimos fugir, e outras as quais não podemos fugir. – Afrodite apenas ouviu, soltou um profundo suspiro e completou.
- Sim, concordo. - calou-se por um minuto. - Com sua licença, Dido.
Mu saiu, agora de forma definitiva, enquanto Afrodite olhou mais uma vez o cartão com certa atenção, sorrindo ante aquela ironia do destino.
- "Você é uma delas, Anne. O destino é o outro." - pensou o pisciano.
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O ariano voltou novamente à casa de Aquário, que estava bem diferente agora: o salão que permite a passagem entre as casas estava totalmente branca, de um brilho único, junto com o brilho que também se fazia presente.
Mu ficou surpreso, jamais havia visto aquilo antes; o frio lhe cortava o rosto e penetrava o corpo. Mesmo assim, foi cauteloso ate a porta do quarto do dourado. Bateu 3 vezes e não teve resposta. Tentou abrir a porta, mas estava trancada.
- "O que está fazendo? Em anos de Santuário jamais vi tal coisa...".
Ficou pensativo e logo foi embora. Ele ainda tinha que ir a Escorpião, e assim pôs a fazê-lo. Enquanto saia, sentiu a sensação de algo ter caído. Mas como olhou para o chão e uma brisa soprava, e o solo esbranquiçado pelo gelo acumulado, pensou estar blefando.
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Domenique bateu a porta do banheiro da suíte. Os franceses, por si mesmos, não gostavam muito de tomar banho, mas Anne sempre foi diferente, talvez por parte de sua criação ser grega, ou por ser tão vaidosa quanto a mãe era. Já havia uma hora desde que a garota havia entrado no lugar e desde então no se ouviu mais barulho; ela havia cochilado na banheira, após uma longa noite mal dormida.
- Anne. – e Domenique não obteve resposta. – Anne!
- Oi? – acordou assustada.
- Tudo bem?
- Sim.
Em poucos minutos pos o roupão de banho e abriu a porta. Ela estava muda, e mal olhava para a sua acompanhante. Talvez quisesse que o momento de ver o pai não chegasse, isso porque já havia mais de mês que não o via: o último encontro havia sido um jantar político com o Primeiro Ministro Britânico.
Domenique perguntava mil coisas e fazia muitas observações, que na cabeça de Anne entravam apenas como ruídos, e ela no máximo concordava com um aceno de cabeça ou alguns grunhidos. Foi ate o armário, pegou uma camisola que prontamente vestiu antes de se jogar na cama, o que provocou espanto na mulher.
- Anne, o que está fazendo?
- Se meu pai vem me ver, quero estar apresentável. Estou com um pouco de sono.
- Certo. – sorriu a mulher. – Bom descanso.
- Poderia fechar a porta, por favor?
- Claro.
Cobriu-se, ficou quieta e pensativa ao passo que Domenique fechava a porta e saía. Tentou imaginar por qual motivo seu pai viria buscá-la. Seria por causa de Kamus? Impossível, Jean Pierre já teria vindo antes. Seria para lhe afastar de Miro? Pouco provável, já que não havia contado a ninguém sobre o primo. Então, qual seria o motivo?
E elaborando mil teorias, adormeceu.
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Mu continuava percorrendo o caminho de volta para sua casa, em passos leves e tranqüilos. Novamente passava por Escorpião, e por isso tentou ser o mais silencioso possível, já que na ida seu habitante estava dormindo.
- Quem está ai?
A pergunta fez com que Mu se assustasse, mas como reconheceu a voz, foi direto ao seu locutor.
- Sou eu, M... Caramba! – exclamou surpreso. – Você tá bem?
- Eu to legal. – respondeu com um saco de gelo em cada uma das pernas, jogado no sofá. – Que você manda, Mu?
- Ah, - disse se recuperando. - vim lhe entregar algo.
- E o que é? – perguntou curioso.
- Isso. – pegou o cartão e entregou para o escorpiano.
Miro pegou o cartão e na hora reconheceu o lugar, assim como a letra. Sorriu ante aquela constante mania, talvez herança de sua educação rígida, em dar satisfações. Mu, por sua vez, ficou pensativo enquanto fazia algumas caretas.
- Algum problema, Mu?
- Não, é que... – fez uma pausa e olhou para o amigo. – Eu tinha certeza que peguei os três cartões, mas...
- Três? – interrompeu
- Sim. Um pra mim, um pra você e um pra Dido. Entreguei o dele, e agora o seu, mas e o meu?
- Talvez você tenha deixado na sua casa.
- É, talvez. Enfim, vim trazer isso.
- Obrigado. Sabe até quanto ela fica?
- Disse que no máximo até amanhã, mas não soube precisar.
- Certo... – e então olhou a foto dela na mesa ao lado.
- Com licença, Miro.
- Vai lá, Mu.
O ariano então se retirou e o escorpiano se jogou novamente no sofá. Olhou do cartão para a foto, e da foto para o cartão.
- "Ir ou não? Deixar você ir ou fazer você ficar? O que fazer...?" – pensava.
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Kamus finalmente abriu os olhos. Havia dormido, não sabia ao certo por quanto tempo, mas havia acordado com outro ânimo. Era como se fosse uma outra pessoa.
Saiu de seu quarto e se surpreendeu ao ver todo aquele ambiente gélido que havia se tornado o corredor de sua casa. A paisagem branca se dissipava aos poucos, agora que seu cosmo já tinha se estabilizado.
Foi até a entrada da sua casa e então observou tudo lá embaixo. O Sol ainda brilhava e ele se recompunha. Voltou para dentro, e no caminho uma surpresa.
- Mas o que é isso?
Um papel estava caído no chão. Abaixou-se para pegá-lo e então pôde ver o que continha nele. Sorriu. Sabia qual era o local do cartão. Virou o verso, e então viu as seguintes palavras: 'Me liguem se precisarem. '.
- Você nunca perdeu essa mania, não é?
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Três batidas na porta foram o suficiente para despertar Anne de seu breve sono.
- Sim?
- Anne?
- Olivier? Pode entrar. – e se sentou na cama.
- Seu pai já está na Grécia. Desembarcou há alguns minutos e em breve estará aqui.
- Ah... – respondeu desanimada. – Obrigada.
- Algum problema?
- Não, não, é que acabei de acordar, só isso.
- Quer que lhe avise quando o senhor chegar ao hotel?
- Me faria esse favor?
- Sem hesitar. – sorriu o rapaz
- Então gostaria, obrigada. – retribuiu. – Já vou me arrumar.
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Desceu de forma apressada as escadas que ligavam Aquário, Capricórnio e Sagitário, até finalmente chegar em Escorpião. Seu guardião, Miro, estava sentado nas escadarias, observando o céu e as demais casas mais abaixo, enquanto Kamus vinha em sua direção. O escorpiano percebeu sua presença e voltou sua atenção para seu visitante, colocando-se de pé. Ambos se fitavam com seriedade, enquanto o aquariano diminuía o ritmo dos passos cada vez que chegava mais perto do escorpiano.
- Miro, eu... – falou da costumeira forma gélida.
- Kamus, eu não quero saber. – respondeu ríspido. – Você vai dizer falsas verdades, dizer que está certo e mais um monte de coisas as quais eu não quero saber. Então...
- Obrigado. – interrompeu o amigo com um abraço curto. – E desculpa.
Passou por ele, e continuou seu caminho, enquanto Escorpião estava perplexo. Virou-se para o aquariano, que agora apressava os passos até a saída do Santuário, seu objetivo desde que deixou a sua casa, com destino a um só lugar. O escorpiano exaltou-se, preocupado com o que estava por vir, mas o amigo tinha uma expressão que há muito ele não via. Uma expressão de serenidade.
- Kamus, espera! Aonde você vai?
- Eu? – voltou-se com um sorriso. – Eu vou tentar ser feliz e já volto.
Com essas palavras, esticou a mão direita e Miro então pôde perceber que havia um cartão em sua mão. Pensou em ir a ele e perguntar que cartão era aquele, mas tinha certeza do que se tratava.
- Não pode ser... – murmurou. – Não acredito que esse cabeça-dura tomou jeito!
E Kamus desaparecia pela casa de Libra sob os olhares felizes do amigo.
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Anne estava sendo aguardada por Olivier, que iria com ela até o local onde seu pai a aguardava, o restaurante V.I.P. do hotel. A garota abriu a porta, trajando um vestido verde da cor de seus olhos e um salto que a deixava ainda mais alta. Sorriu para o rapaz
- Você esta linda, Anne.
- Obrigada, Olivier.
- Mas parece triste. Não está feliz por ver seu pai?
- Não é isso! – exclamou. – Não exatamente...
- A Grécia te fez bem, não?
- Bem e mal ao mesmo tempo, assim como tudo na vida...
Calaram-se até o fim do percurso. Anne pensou em dar meia volta, mas sabia que era totalmente inútil. Acenou com a cabeça para o rapaz, que então abriu a porta enquanto ela caminhava em passos lentos dentro do salão. Seu pai, que estava sentado à mesa junto a Domenique, levantou-se num impulso em direção a filha.
- Anne, minha linda.
- Ola, papai.
- Você está linda!
- Obrigada...
- Sente-se.
A garota apenas consentiu e sentou-se ao lado o pai, frente à Domenique. O presidente fez um sinal com a mão, chamando o guarda-costas, quando Anne interveio.
- Quero que Olivier fique, não quero que saia.
Claude meneou a cabeça e o rapaz permaneceu no mesmo lugar
Posso saber o motivo de sua visita, papai?
- Na verdade, não é bem uma visita. – e ajeitou-se na cadeira. – Como Domenique já deve ter lhe dito, vim buscá-la.
- Posso saber por quê?
- Você está há muito tempo fora de casa.
A garota, que estava levemente dispersa, olhou para a mulher e depois para o pai, com aquele olhar inquisidor que somente ela sabia fazer. Como uma garotinha de cinco anos de idade, respondeu obediente, pensando no que dizer ao mais velho que parecia desconfortável com a situação na qual estava, principalmente pelo fato da filha estar tão evasiva.
- Estou de férias, papai. E o senhor também fica muito tempo fora de casa e nunca reclamei.
- Suas aulas começam em menos de uma semana. Além disso, suas amigas não param de ligar em casa querendo noticias suas.
- Elas têm meu telefone, e inclusive me ligaram inúmeras vezes.
- Não nos últimos dias.
- Estive ocupada visitando amigos...
- Chega, Anne! – bateu na mesa, provocando o susto de todos. Pigarreou e então continuou. – Você volta comigo para casa amanhã cedo. E assunto encerrado.
Anne abaixou a cabeça, afastou a cadeira e saiu correndo pelo salão, com lágrimas nos olhos. Conforme chegou ao saguão, foi diminuindo os passos até parar em frente ao elevador. Não sabia se queria subir ou sair.
- Eu queria... Eu queria tanto ir embora... Sair daqui... Agora não quero mais... Quero ficar...
E continuava chorando copiosamente recostada na parede do elevador.
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Kamus foi o mais rápido que pôde até o lugar indicado no cartão. Olhando a luxuosa entrada, ficou receoso. Não sabia se deveria entrar e perguntar pela garota, ou se deveria esperar até que a visse, ou se deveria ir embora. Seu coração batia mais acelerado que nunca. Deu dois passos e as portas automáticas se abriram; e então ele avistou Anne, chorando.
- Anne, por que...? – disse caminhando em sua direção.
Pensou em ir correndo ao seu encontro, abraçá-la e dizê-la o quanto ele ainda se importava, mas parou subitamente quando viu algo que lhe assustou completamente. Deu um passo para trás, tentando saber se era mesmo verdade o que ele via ali.
- Foi ele... Não foi, Anne?
Claro que se referia ao pai da garota, Claude Cambeaux. A garota não parecia estar num estado de quem queria ver o pai. A vontade de Kamus ainda era apenas sair correndo até ela e abraçá-la, mas sabia que não devia. Via o pai da garota se aproximar cada vez mais, e sem pensar em mais nada apenas disse:
- Anne, sobe!
Quando percebeu que havia falado mais alto do que imaginava, se escondeu atrás de uma pilastra enquanto a garota procurava de onde a voz vinha. Desistiu de procurar quando viu a porta do elevador abrir, talvez o pai estivesse perto. E então, subiu.
- Espero que Anne não tenha saído novamente.
- Oh, tenho certeza que não, monsieur Cambeaux.
- Acho bom, Domenique. Daqui ela vai direto a Paris, se eu não mudar de idéia e fizer com ela vá a outro lugar.
Domenique consentiu; não havia nada a se falar naquele momento. O outro elevador chegou minutos depois e o presidente, a dama de companhia e os três seguranças entraram.
- Velho cretino... Como acha que pode se apossar da vida dela assim?
As palavras foram ditas pelo Cavaleiro de Aquário, que ainda se apoiava na pilastra, escondido de todos, de forma raivosa. O atual presidente era o único homem no mundo que lhe fazia brotar um sentimento de raiva súbita e intensa, que o invadia por inteiro. Deu uma última olhada no saguão e foi para casa.
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Anne entrou aturdida em seu quarto, trancando todas as portas para que ninguém viesse ao seu encontro. Se jogou na cama e chorou. Sentia raiva e tristeza, tudo ao mesmo tempo.
- O que eu quero da minha vida? Eu fiquei tão feliz em rever Miro e conhecer os meninos... E não paro de pensar naquele cretino de Aquário! Qual o meu problema?
Socava o travesseiro, cada vez mais sem força, até que adormeceu.
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- Ainda acordado, Kamus?
Kamus permanecia imóvel no sofá, com a cabeça apoiada em sua mão, olhando para o nada. Estava naquela mesma posição há horas, desde que havia voltado do "Les Elysees". Miro certamente tinha o visto passar por sua casa, tão rápido, que sequer o parou.
- Kamus?
O rapaz somente despertou porque viu dois olhos azuis a sua frente: Miro estava ajoelhado ante o aquariano, que parecia perdido e fora deste mundo.
- Aconteceu algo?
- Não estou a fim de conversar, Miro.
- O que aconteceu entre você e Anne?
- Anne? – se levantou surpreso. – Você falou com ela?
- Não, por quê? – e também se levantou. – Tem algo que eu deva saber?
- Não... Não exatamente... – e se sentou de novo.
- Pode me falando! Que aconteceu com ela?
- Nada... Só que o pai dela tá aqui... E aparentemente vai levar ela a força pra casa.
- Eu sabia que ela não queria ir! – levantou-se empolgado. – Mas espera, você disse "pai"?
- Ahan. O amado senhor presidente da França está aqui. – fez uma careta.
- Tio Claude está na Grécia? Isso não é bom, nada bom... – meneou a cabeça.
- O que? – o olhou surpreso. – Tio?
- Sim, Claude Cambeaux é meu tio, casado com mia tia Diana. – respondeu sentando-se no sofá ao lado do amigo.
- Então quer dizer que... Você e Anne...?
- Exatamente, primos. Ela morou na minha casa nos últimos anos do colégio, depois que a tia Diana...
- Caramba... – disse incrédulo e envergonhado sem olhar para o amigo. – Minha vida está mesmo presa aos Cambeaux...
- Eu não sou um Cambeaux! – disse ofendido. – Sou um Elioupoulos, assim como minha tia.
- Não posso deixar aquele velho fazer o que quiser com ela! – se levantou.
- Aonde você vai, Kamus? – perguntou já sabendo a resposta.
- Ao Les Elysees. – saiu andando.
- E como você acha que vai chegar lá? Tio Claude já deve ter posto seguranças até no banheiro!
- Miro... – parou e olhou para o amigo. – Ser filho do Primeiro Ministro francês também tem suas vantagens...
- O que?! – fitou o amigo mais surpreso.
- Até mais, meu amigo.
E desceu as escadas correndo, enquanto Shura o xingava por fazer tanto barulho enquanto ele queria dormir.
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Les Elysees. Era noite, tudo estava calmo e tranqüilo naquela noite de primavera grega. O rapaz se dirigiu a Recepção, onde foi informar que tinha ido visitar Anne, e que queria lhe fazer uma surpresa. Mostrou o buquê de delicadas rosas que trazia nas mãos e se identificou como noivo dela, e então o recepcionista o deixou subir.
Quando as portas do elevador se abriram, ele pode ver seis seguranças no corredor: quatro estavam de guarda em frente ao quarto do presidente, um no quarto de Domenique e dois de Anne. Aproximou-se devagar, enquanto se identificava como amigo de Anne, que havia estudado com ela no colégio e que fazia uma visita a Grécia, onde ela disse que estaria.
- Ela está dormindo – disse o segurança ríspido.
- Ela me disse que se estivesse adormecida, poderia acordá-la.
O segurança ficou pensativo e resolveu deixá-lo entrar, com a condição de revistá-lo primeiro, o que ele certamente consentiu. Para Kamus, aquele era o momento de seus sonhos: durante a noite, ele chegar com um buquê de rosas para então despertar seu anjo.
- Pode fechar a porta. – respondeu feliz
- Não, não vou fechá-la. Não sei o que pode fazer com ela.
- Você já me revistou, viu que não porto arma alguma.
No mesmo instante, o outro rapaz foi chamar Olivier, o chefe dos seguranças e segurança particular de Anne. O rapaz lhe informou o ocorrido, e Olivier entrou no quarto enquanto Kamus dava uma olhada pelo local.
- Ei, rapaz!
No mesmo instante, reconheceu a voz do locutor, e sabia que ele também o reconheceria. Ainda hesitante, se virou lentamente.
- Pois não?
Olivier empalideceu quando viu os cabelos escuros e os olhos azuis e profundos de Kamus. Jamais pensou que o rapaz estivesse na Grécia, e muito menos que tivesse a audácia de ir ao hotel vê-la.
- Pode ir, Michel, eu vou conversar com o rapaz.
Assim que Michel saiu, o chefe fechou a porta rápida e silenciosamente, enquanto fitava o rapaz que estava na sua frente.
- Prazer revê-lo, Olivier.
- Garoto, o que faz na Grécia? – perguntou sussurrando.
- Eu já moro aqui há algum tempo. Não por escolha, mas enfim...
- A srta. Anne vai embora amanha.
- Eu sei, vim me despedir. – baixou a cabeça. – Eu queria ter vindo mais cedo, mas o Senhor Presidente poderia não gostar. E agora, ela está dormindo.
- Ela já está dormindo desde as cinco da tarde, e ainda não acordou. – respirou fundo. – Não deveria te deixar ficar, mas quem sabe assim ela não se anima um pouco? Ela estava muito triste.
- Obrigado, Olivier! Não é a toa que ela sempre te considerou um irmão!
- Não tente lhe fazer mal algum, Troirègnes.
- Seu amigo já me revistou lá fora, só tenho um buquê em mãos. E meu nome é Kamus, e não Troirègnes.
- Como quiser. – saiu e fechou a porta, ficando responsável pela guarita da porta desde então.
Kamus se aproximou lentamente da cama, até se sentar nela, com as flores ainda em mãos, frente à garota. Deu-lhe um beijo na testa, e lhe tocou o ombro, calmamente.
- Anne...
A garota soltou uma espécie de grunhido, voltou-se para o outro lado e tornou a dormir. O rapaz se aproximou mais e agora lhe dava uma série de beijos intercalados por todas as vezes que chamava seu nome.
- Hum...? – a garota, ainda sonolenta, sorria de olhos fechados. Virou-se para onde chamavam seu nome, e então abriu os olhos. Surpresa. – Kamus? Como...
- Não fala nada. – Disse depois de colocar o indicador nos seus lábios e deixar as flores de lado. – Todas as vezes que conversamos nada bom acontece.
E a beijou de forma terna e carinhosa. Sim, aquele poderia ser chamado de beijo puro, apaixonado e sincero; ela retribuía todos os carinhos que ele lhe fazia e aquele parecia ser o melhor momento de suas vidas.
Falta de ar. Respiração forte, coração acelerado... Anne conteve-se e acendeu um dos abajures da mesa de cabeceira.
- Como você entrou? – perguntou curiosa.
- Olivier me deixou entrar.
- Mas papai está aqui! E vai me levar embora amanhã...
- Eu sei. – respondeu sincero, antes de pegar as flores e lhe dar. - Essas flores são pra você. Não são as do Dido, mas são bonitas também.
- São lindas. – pegou o ramalhete e cheirou as flores. – E cheirosas também.
Anne se levantou, e Kamus a olhava enquanto ela colocava as flores na pequena mesa de centro localizada entre duas poltronas, no extremo oposto do quarto. Sentia medo de que ela fizesse algo, ou fugisse. Ela, por sua vez, o olhou com um olhar de felicidade e tristeza ao mesmo tempo. Aproximava-se lentamente dele, em passos graciosos... E quando voltou a cama, mais uma serie de beijos apaixonados, ardentes, intensos, até que deitaram na cama, entre beijos e caricias. O controle não existia mais entre os dois e tudo se tornava cada instante mais quente e perigoso.
Quando deu por si, Kamus estava por cima de Anne, que tinha os olhos vidrados nele. Respiração ofegante, coração disparado, um calor que percorria seus corpos...
- Não precisa ter medo, Anne...
- Medo do que? – perguntou confusa.
- Do que tá acontecendo. Não vamos passar daqui. – disse enquanto lhe ajeitava os cabelos. – Não enquanto você não quiser.
E lhe deu um beijo na testa, que ela retribuiu com um sorriso tímido e envergonhado, enquanto o rapaz se deitava novamente ao seu lado. Talvez tudo estivesse sendo brusco demais, e ela não talvez não quisesse aquilo. Depois de tanto tempo separados, alguns minutos não pareciam ser o suficiente para que os dois se tornassem um só. Ainda não era a hora.
- Eu amo essa sua inocência, Anne...
- E eu nunca deixei de te amar, Kamyu...
O aquariano a abraçou, fazendo com que ela apoiasse a cabeça em seu peitoral, e a garota apenas sorria. Ele afagava-lhe a cabeça, enquanto a ajeitava entre seus braços. Nenhum dos dois disse nada por um tempo, parecia que o silêncio era a melhor forma de viver aquele momento que seria único na vida de ambos. E eles queriam aproveitar.
- Parece um sonho, não? Eu queria nunca mais acordar...
- Sonhos são desejos que guardamos dentro de nós mesmos, esperando o dia para realizá-los...
- Então vou sonhar com você pra sempre... – e se aconchegou no ombro dele.
- "Anne, você é meu sonho..." – e sorriu.
Kamus continuou com os afagos, até que a francesa então adormeceu novamente. Olhou para o relógio; todo aquele tempo que passaram juntos e que pareciam minutos, levou um pouco mais de uma hora. Arrumou-a na cama de forma carinhosa e lhe cobriu, depois arrumou seus cabelos e lhe deu um beijo na testa como despedida.
- Cuide-se, ma cherrie
Saiu e fechou a porta silenciosamente, enquanto Olivier o observava, procurando saber o que tinha acontecido, e se estava tudo bem. Estava preocupado.
- Obrigado, Olivier.
Kamus foi andando em direção ao elevador. Cabeça baixa, pensamentos longínquos, uma mão batendo na outra... Com a cabeça nas nuvens, ele foi embora para sua casa, pensativo. Não importava se foi certo ou errado, o importante é que tinha valido a pena.
- E essa foi nossa despedida...
N/A
Então, minha gente!
Demorei, mas atualizei!
A partir desse capitulo o drama começa!
Aviso que eles ficarão maiores, mas acontece! Ahahaha
Obrigada a todos pelo carinho e pelas rewies!!!
DE coração!
Bjus e até a próxima D
