Capitulo doze

Coisas de Família

Seth acordou ainda nem havia amanhecido. Devia ser por volta de quatro horas e o Monitor-Chefe já não conseguia pregar o olho. Revirou na cama ainda por um tempo, até dar-se por vencido. Preguiçosamente, sentou-se na cama, bocejando longamente. Piscou molemente os olhos antes de levantar-se.

Quase às cegas, tateou a mesa-de-cabeceira em busca da corrente de prata, presente de natal de Lauren. Seus dedos tocaram o pingente de leve, fazendo-o escorregar pela superfície lisa do tampo da mesa, caindo no chão com o som de um guizo.

—Merda!—Murmurou Seth, procurando apressado pela varinha, no bolso sujo das vestes que havia usado no dia anterior, jogadas sobre a pequena cômoda ao lado da cama. —Ah! Achei! Lumus!

Com o fino facho de luz, vasculhou o chão. Avistou o brilho prateado próximo à cama e rapidamente recolheu-o.

—Ah, droga!—Gemeu Seth.

A letra "S", geralmente entrelaçada ao "L", estava agora separado, perfeitamente. Seth juntou-os novamente, com cuidado, e encostou a ponta da varinha sobre elas, murmurando "reparo". Um brilho prateado recobriu o pingente, juntando as letras novamente. Colocou a corrente no pescoço e seguiu em direção aos banheiros.


Março passou, levando os últimos resquícios do inverno. A primavera chegou, arrastando para longe toda a lama, deixando em seu lugar um jardim verde e florido. Os pássaros voltaram da migração, povoando novamente as árvores da floresta.

Os ânimos também pareciam aquecidos. Com a chegada da primavera, também estavam mais próximos os exames. Para o quinto e sétimo anos, eram esperados os N.O. M's e N.I.E.M's. Os professores, porém, não pareciam se apiedar do desespero dos alunos, passando mais e mais atividades extra classe. Muitos já consideravam o feriado da páscoa perdido, devido ao absurdo número de tarefas a serem feitas.

Seth, entediado, fazia a pequena caixa de madeira à sua frente aparecer e desaparecer com apenas um toque da varinha. Esperava o sinal para o toque. Richard, ao seu lado, tinha alguma dificuldade com a atividade. Sua caixa estava transparente, porém, ainda visível. O garoto franzia a testa, fazia careta de concentração, mas não adiantava nada.

Ao toque da sineta, McGonagall recolheu as caixas com um aceno de varinha. Passou uma redação sobre as propriedades da desilusão e pratica para os que não tiveram sucesso. Seth recolheu seu material e esperou o amigo que parecia frustrado e levemente irritado.

—Mais redação!!—Exclamou Richard, assim que saíram da sala. —E, como se não bastasse, pratica. AH!

—Calma, Richie, calma. —Disse Seth, verificando o horário.—O pior ainda está por vir.

—Muito reconfortante Edric. —Resmungou Richard, revirando os olhos.

—Era o objetivo. —Riu Seth, guardando o horário no bolso.—Tenho que me apressar. Tenho pouco tempo para chegar às masmorras. Vejo você e o Adam na hora do almoço.

—Até. —Acenou Richie, enquanto Seth descia a escada.

Os corredores estavam apinhados de alunos, indo para suas próximas aulas. Seth acenou aqui e ali para algum colega da Corvinal, com quem compartilhava algumas aulas. Decidido a não embrenhar-se muito em meio à multidão, empurrou uma parede com o ombro, revelando uma passagem secreta. Desceu a escadaria escura e vazia, com passos apressados, olhando o relógio com freqüência.

—Droga. Murmurou Seth, sacudindo o braço para cobrir o relógio com a manga. —Desse jeito vou chegar atr...

Seu olhar ergueu-se e sua voz estancou. Parada, do outro lado da escada, com um pé no primeiro degrau, os cabelos negros colocados por trás da orelha, presos por um belo prendedor prateado em forma de lince, os olhos cinzentos com um brilho maroto, estava Lauren. Sem falar nada, aproximaram-se, degrau a degrau. A um degrau de distancia, Seth passou a mão pela nuca dela e puxou-a para si. Lauren tropeçou o ultimo degrau, mas não se importou. Ficando na ponta dos pés, beijou-o com um tipo de sentimento que misturava saudade, necessidade e paixão.

—Lauren?—Uma voz soou, no lado da escada de onde Lauren havia vindo.

Mais do que rapidamente, separaram-se. Lauren empurrou Seth, fazendo-o cair sentado num dos degraus. No instante seguinte, Henrich apareceu, olhando confuso para os dois. Passou-se um instante de silêncio, Lauren correndo o olhar de Henrich para Seth e novamente para o sonserino, antes de puxar a varinha e apontar diretamente para os olhos do grifinório.

—Estou avisando, Ashford. —Sibilou Lauren, tentando não rir da expressão confusa e assustada de Seth.—Cruze meu caminho mais uma vez e juro que pagará caro.—Virou-se para Henrich, ajeitando a mochila nas costas.—Vamos, Richmound.

O sonserino ainda olhou desconfiado para os dois, antes de soltar um muxoxo. Passou por Seth, tomando cuidado para acertar o joelho em seu ombro. Resmungando irritado, Seth levantou-se massageando o ombro. Viu que Lauren demorava-se o que podia para subir as escadas, sempre olhando por cima do ombro. Tomando cuidado para não emitir nenhum som, gesticulou um "te encontro nos jardins, depois da aula". Pegou o material, que caíra no chão quando Lauren lhe empurrara, e apressou-se para sair dali, olhando para o relógio assim que saiu para o corredor.

—Espero que esteja lá, Lauren Lestrange. —Resmungou, descendo as escadas de dois em dois degraus.—Porque esse atraso vai me colocar numa fria.

Como se ele não houvesse adorado aquele atraso.


Quando Seth chegou ao salão principal, Richard e Adam já tinham os pratos cheios de comida. Sentou-se à frente deles e começou a servir-se. Adam tinha terra nos cabelos e em parte do rosto. Richard dava furiosas garfadas, como se quisesse quebrar o prato. Aquela irritação só poderia significar mais redações

—Boa tarde. —Disse Allyson, sentando-se ao lado de Seth, depositando-lhe um beijo na bochecha.

—Hum...—Seth terminou de mastigar a comida e engoliu antes de responder.—Boa tarde.

Allyson era uma das poucas pessoas que não estava totalmente pirada com o forte ritmo de atividades passadas pelos professores. Na verdade, era uma das únicas pessoas a manter as tarefas em dias.

—Boa tarde, rapazes.—Acenou para Richard e Adam, enquanto servia-se com uma terrina de carne.

—Boa...—Resmungou Richie, cuspindo alguns grãos de arroz.—Só se for para você.

—Nossa...—Alysson ergueu o olhar, levantando as sobrancelhas.—Isso é que é exemplo de uma pessoa bem humorada. O que houve?

—Richie está tendo outro ataque pós-redação-e-pratica-passadas-por-professores.—Disse Adam, dando de ombros, tirando um pouco de terra do rosto.

—Não é para menos!—Exclamou Richard, jogando os talheres sobre a mesa.—Nunca vi tanta redação junta, nem no ano dos N.O.M's!

Adam, Seth e Ally se entreolharam e decidiram não contrariar. O simples fato de tentar pedir calma para Richie poderia resultar num súbito ataque de gritos e, provavelmente uma tarde inteira de cara emburrada (que já havia se tornado comum). Seth comeu mais uma garfada da comida em seu prato e olhou por cima do ombro. Lauren comia calada na mesa da Sonserina, no meio de Violet e Henrich, que conversava alegremente com Donnie Darko. Stephanie sentava-se mais distante, um tanto isolada. Provavelmente ainda reflexos da briga no corredor.

Apesar de sempre querer um momento de paz ao estar com Lauren, Seth sabia que era praticamente impossível, ao menos enquanto as "coisas de família" estivessem entre os dois. Segundo Lauren, Stephanie era a que poderia compreender melhor. Seth começava a ter medo da reação de Violet.

—Provavelmente vai me jogar um Avada...—Riu Seth, falando baixo, voltando a atenção para o prato.

—Falou algo?—Perguntou Allyson, erguendo as sobrancelhas.

—Eu? Aahm...err...essa carne parece de vaca.

Allyson ergueu ainda mais as sobrancelhas. Adam parou uma garfada a meio caminho da boca e encarou Seth, com uma expressão curiosa. Até o mal-humorado Richie prendeu uma risada, escondendo o rosto atrás da mesa.

—Não sei quem é mais estranho.—Disse Allyson, balançando a cabeça negativamente.—Você, o Richie ou o Adam.

—Mas eu não fiz nada!!—Exclamou Adam, indignada.

Allyson prendeu uma risada, voltando a comer.


Seth já não perdia tempo praticando seu feitiço para animar objetos inanimados. Conversava e ria baixo com Richard e Allyson. Vez ou outra Flitwick pedia silêncio, mas Seth já não via necessidade de continuar praticando.

Ao soar do toque, anunciando o fim das aulas, o jovem foi levantando-se vagarosamente com seus amigos. O professor passou a costumeira pesquisa sobre feitiços de animar e pratica para quem não houvesse conseguido ('Ao menos dessa vez não preciso praticar').

Olhou para o outro da sala e encarou Lauren. Ela também lhe olhava. Esperou-a sair e falou algo para Richie e Ally, antes de pegar seu material e correr até a torre da grifinória, quase atropelando alguns calouros.

Entrou voando pelo retrato da Mulher Gorda, que gritou algo ('dá próxima vez não se esqueça de me arrancar da moldura! '). Largou a mochila sobre uma poltrona e tornou a corrida, recebendo novos xingões da protetora da sala comunal grifinóriana ('eu não estava falando sério! ').

Aos tropeços, desceu as escadas, esbarrando em pessoas, gritando "desculpa" por cima do ombro, sem parar de correr. Saiu do castelo, derrubando alguns alunos do terceiro ano que voltavam da aula de trato de criaturas mágicas. Desculpou-se rapidamente. A meio caminho, tropeçou nas próprias vestes e segurou-se no galho de uma arvore para não cair de cara na terra.

—Ah, cara...que merda...—Ofegou Seth, puxando o ar para os pulmões.

Ergueu o olhar e viu Lauren, rindo, vindo em sua direção Mesmo cansado, abriu um largo sorriso. Caminhou lentamente até ela, até que estivessem frente à frente.

—Todos os Grifinórios são um desastre assim ou é com você hein?—Disse Lauren, com um sorriso irônico.

—Não, não! Só eu mesmo...e mesmo assim...só quando estou perto de você. —Disse Seth, piscando um olho para ela.

Contara os minutos, a cada aula, mesmo sabendo que seriam importantes para os NOM's, somente para vê-la. Era uma tortura ver Lauren todos os dias, numa aula ou cruzando caminho no salão principal, e não poder estar junto dela. Mesmo tento dito milhares de vezes que não se importava com as "coisas de família". Que enfrentaria até o próprio Voldemort para ficar ao seu lado. Mas Seth sabia que Lauren gostava muito das irmãs e teria que respeitar aquilo se quisesse continuar ao seu lado.

—Preciso dizer que senti tua falta?— Passou a mão em volta do pescoço do rapaz, tentando esconder o olhar preocupado. Agora seu sorriso era um pouco mais fraco.

—Não...—Disse Seth, acariciando-lhe o rosto e sorrindo suavemente.—Porque eu também senti.—Desceu as mãos até sua cintura e abraçou-lhe, puxando-a para si, beijando-a.

Seth puxou-a mais para trás, encostando-se numa árvore. Era impressionante como cada segundo que passava ao lado dela valia a pena. Encarou-a profundamente quando se separaram. Sorriu, sentindo que seria capaz de produzir um patrono, ou dois ou milhares.

Só quando seus lábios se separaram foi que Lauren notou o quanto sentia falta do rapaz. Seth tinha se tornado parte fundamental em sua vida, não conseguia mais viver sem ele. Era tão...

—Caham...—Ao ouvir alguém pigarrear, Lauren sentiu o estomago dar uma volta.—Lauren,boa tarde.

Seth ergueu o olhar, esperando ver Filch ou algum professor e já preparava-se para dar algum desculpa esfarrapada, quando encarou a garota de olhos azuis. Seu olhar tornou-se repentinamente sério. Já vira ela antes.

—Vi... Violet.—Lauren deveria ter ficado pálida. Sentiu sua mão ficarem rapidamente geladas.

—E você é o...?Espero que tenha nome,sim.—Sorriu Violet, voltando-se para Seth. Seus olhos se encontraram e lentamente seu sorriso foi desaparecendo.

—Esse é Seth. Seth Ashford.—Disse Lauren, mordendo o canto do lábio e mexendo nervosamente na franja, colocando-a atrás da orelha.—Seth, essa é minha irmã, Violet.

Claro que Seth já conhecia Violet e Violet já conhecia Seth. Na verdade, Lauren apenas tentava ganhar tempo e pensar em algo. Mas sua cabeça estava girando muito rápido para que pudesse pensar em algo.

—Huuum...err...oi...—Disse Seth, meio desconcertado, estendendo uma mão em direção à Violet.

A garota, que estava pálida, começou a ficar vermelha. Seus olhos estavam escondidos atrás da sombra de sua franja. Suas mãos tremiam violentamente. Puxou a varinha do bolso interno das vestes e deu um tapa na mão de Seth, afastando-a, como se fosse algo sujo.

—Não dirija sua palavra a mim, Ashford. Nem ouse me tocar. —Seibilou Violet. Virou seus olhos para a irmã, como se suplicasse que dissesse que nada daquilo era verdade e que não teria que passar por aquilo. Puxou Lauren para perto de si com certa violência.Mesmo sendo um ano mais velha, a garota não era muito mais alto que Violet. As duas se encaravam e Violet tirou seu casaco, mostrando o emblema da Sonserina, quase esfregando no rosto de Lauren.—Vê isso?! Isso é o que você tem que honrar enquanto estiver nessa escola! É isso que você vai carregar para toda a sua vida!

O som de passos chamou a atenção de Seth. Olhou para o lado e viu Stephanie, aproximando-se lentamente, encarando-o friamente. Era, realmente, tudo o que ele precisava. Lauren também parecia notar a presença da irmã mais nova. Porém, Violet, não parecia ver nada ao seu redor.

—Você acha que o que se honra e carrega por toda a vida é um brasão, uma casa, idealizações de pessoas Violet?—Os olhos de Lauren foram ficando mais frios. Franziu o cenho e deu alguns passos para frente, ficando mais próxima de Violet.— Então me desculpe, mas você não é ninguém para me falar de honra minha irmã. O que eu devo honrar são as coisas que eu aprendo com minha casa, as coisas que conquisto para meu brasão e as pessoas que conheço e confio.

"E Seth é uma delas, e não vai ser você, Stephanie, mamãe ou ninguém que vai mudar isso. E é isso que eu vou carregar pra minha vida, e não o que querem que eu carregue. Se for para usar grosserias, gritar comigo ou tentar ser superior a alguém, faça por merecer, não fique apenas tentando se mostrar por aí. Deu pra entender?"

Seth sorriu timidamente, passando a mão pela nuca. Apesar de decidir não se meter na discussão, não pode deixar de sentir o peito inflar com o que Lauren havia dito.

Violet, porém, foi novamente perdendo a cor. Lentamente, grossas lagrimas começaram a formar-se em seus olhos e rolaram por seu rosto. Deu alguns passos para o lado e sentou-se no chão, abraçando os joelhos, quase como se quisesse esconder as lagrimas.

—Devia parar de agir como se fosse a mamãe, Lauren.—Stephanie deu mais alguns passos em direção aos três. Sua voz atraiu maquinalmente os olhares de Seth e Lauren. Violet, assim que viu a irmã mais nova ali, levantou-se, as lagrimas ainda caindo.—Porque, apesar de ser parecida, você não é ela para ficar dando lições de moral na gente.

As palavras de Stephanie ficaram suspensas no ar. Caminhou até Violet e abraçou-a. Seus olhos brilhavam friamente. Ver Violet chorando daquela maneira havia deixado-a com muita raiva de Lauren.

—Até onde sei Lauren, você também dava atenção para o simples escudo da Sonserina.Você também repugnava grifinorios e também honrava seu sobrenome sobre nome até conhecer ele.—Apontou Seth com a cabeça, como se fosse algo repugnante.

—E será Lauren...que ele vale mais que eu? Sou sua irmãzinha, que sempre esteve ao seu lado, te consolando nas noites de trovão que você tanto temia!Que sempre esteve com você nos domingos tediosos, nos dias que você se sentia mal!—Violet praticamente berrava, as lagrimas caindo sem nenhum controle.—Era eu, Lauren! Eu!

—Violet tem razão.—Disse Stephanie, afagando os cabelos da irmã. Sua voz era fria e firme. Fazia pequenas pausas e respirava fundo para em seguida continuar.—O grifinorio é mais importante que suas irmãs, que seu nome, que sua família. Eu estava certa quando vi vocês dois pela primeira vez. Minha irmã. Lauren Lestrange. A pessoa que eu sempre confiei, contei com a ajuda. Agora ela está escondida dentro de uma Lauren que foi manipulada pelo Grifinorio e ele pelo visto esta conseguindo o que quer.—Fez uma pausa, virando o olhar agora para Seth.—Destruir a família, destruir o amor e a união que nós três temos apesar do nosso sobrenome.

Ao redor dos quatro, ia aglomerando-se uma pequena quantidade de alunos, curiosos com aquela discussão. Seth ficou estático, olhando para Stephanie, sem acreditar no que ouvia. Ela...ela realmente achava aquilo? Achava que ele queria apenas manipular Lauren para separar-las?

—Manipular!? Acha que eu estou com sua irmã para manipular-la e jogar-la contra vocês?! Acha que eu quero usar-la para destruir sua família?!—Berrou Seth, sentindo que todo o sangue explodiu diretamente para sua cabeça, com um impulso fortíssimo. Seu coração batia acelerado. Sentia cada músculo retraído. Sua respiração era ruidosa, como a de um animal selvagem.—Se eu quisesse atingir Bellatrix Lestrange, atingiria diretamente a ela, não por intermédio das filhas!! Não sou covarde e nem baixo como ela! Não mesmo! Não sou covarde a ponto de usar as filhas para magoa-la. Covarde como quando matou meus parentes, durante a noite!

Olhou para o lado, esperando encontrar algum apoio em Lauren, mas essa estava estática. Lágrimas silenciosas rolavam por seu rosto rígido. Não tentava secar-las ou controlar-las. Seth franziu a testa. Lauren abriu a boca lentamente. Seu lábio inferior termia. Umedeceu os lábios e olhou as irmãs, antes de olhar para Seth.

—Ashford...—Sua voz saía um pouco fraca, mas decidida.—Por favor, vá para seu Salão Comunal, e tire esses alunos daqui. Considere esse meu ultimo pedido.

"Finja que não me conheceu, que nunca me viu aqui na escola, que nunca houve uma detenção, que você nunca me fez feliz, que você nunca me fez te amar... Finja que eu não existo, ou melhor, pense em mim como mais uma Lestrange maldita, da família da mulher que acabou com sua família."

Seth sentiu o chão fugir à seus pés. Cada palavra proferida era como uma facada forte em seu coração. Sentia que cada batida em seu peito, como uma martelada. Seus tímpanos latejavam pelo forte bombeamento do sangue. Abriu a boca seca mas apenas um ruído falho saiu dela. Pareceu engasgado até murmurar, fraco, como se estivesse em estado terminal.

—La...Lauren...o...o que você...como...por que...eu...—As palavras saiam embaralhadas, atropelando umas as outras.

Sua cabeça começou a encher-se de perguntas. Sentiu-se zonzo e relutou para não bambear e cair. Olhou para o chão, balançando a cabeça negativamente. Só podia ser uma piada. Ela não poderia estar falando sério. Como ele poderia esquecer os melhores dias de sua vida? Olhou novamente para ela e não viu aquele sorriso maroto de quando fazia alguma brincadeira. Sentiu seu coração parar e, subitamente, bater forte contra o peito, como se quisesse pular para fora. Novamente balançou a cabeça negativamente, dessa vez olhando para Lauren.

—Não pode ser verdade...por que, Lauren? O que eu fiz? Eu...eu...—Seth não encontrava mais nada para falar. Novamente olhou para ela, esperando ver ela sorrindo, mas o modo frio como ela olhava para as irmãs, tirou-lhe a ultima luz de esperança. Observou-a andar até as outras e segurou as lagrimas, com toda a força que restava-lhe.— Então é assim? Bem...será como você quer, Lestrange...acabou tudo...nunca houve nada...—Virou-se na direção dos alunos que apinhavam-se para ver a briga. Com o rosto contorcendo-se em fúria, puxou a varinha e disparou um feitiço que raspou a cabeça deles, assustando-os.—Todo mundo de volta para o castelo!—Gritava a plenos pulmões, a face ainda mais irritada, o punho cerrado na varinha, com tanta força que poderia quebrar-la.—Todos para dentro já! Se não quiserem perder pontos!!

Antes que a multidão se afastasse, o monitor-chefe abriu caminho entre os alunos, caminhando a passos duros e furiosos, arrancando tufos de grama com chutes. Olhou por cima do ombro, com a fagulha de esperança, esperando ver Lauren correndo em sua direção, gritando que tudo era uma brincadeira, mas logo se viu no escuro novamente. Viu-a encostada na arvore, falando com as irmãs. Voltou-se para frente, caminhando na direção do castelo. Sem falar com ninguém, correu até o salão comunal da Grifinória, cabeça baixa para não verem suas lagrimas. Ignorou o chamado dos amigos num canto da sala e rumou direto para o dormitório. Chutou o pé da cama com força, mas arrependeu-se ao sentir o dedão latejar de dor. Sentou-se na cama que afundou um pouco, mergulhando o rosto entre as mãos, já não segurando as lagrimas.

—Seth?—Escutou a voz de Richard, na porta.—Tudo bem, cara?

Seth não respondeu. Com um aceno da varinha fechou o cortinado e deitou-se na cama, em posição fetal. Escutou Richard falando mais alguma coisa, antes de seus passos afastarem-se. Fechou os olhos com força, sentindo as lagrimas rolando por seu rosto.

Sentia-se afundando...