Avisos: Esta fanfic não possui fins lucrativos e todos os personagens aqui retratados pertencem a J.K. Esta é uma história slash, se por acaso você chegou até aqui sem saber do que isso se trata e não gosta de ver dois lindos fazendo "coisas", feche a página.

A história contada neste fanfic é um presente a minha amiga e beta Marjarie^^.

Clamare

- By Lithos of Lion -

Ato 3

- Delírio -

"No mundo não existe um horror comparado

Ao frio tão cruel deste sol congelado..."

Respirar... Não consigo... Respirar. Torpor e passos incertos me guiam, o negro do céu começa a empalidecer, o fim chega mais uma vez. Volta aos vivos... Eu pertenço ao mundo deles?

Minha mão traça o sangue seco que desce pela boca, o que foi tudo aquilo? A repulsa transforma-se em curiosidade, a prata pura dos olhos do vampiro cravadas na mente.

- Merda!

oOo

Confusão norteia meus sentidos, além de uma espécie de entorpecência que provém do toque e do sabor inusitado do sangue. Quem seria aquele caçador? Algo diferente ressoava nele.

A mansão se mostra à minha frente, corri até ela?

Naquele fim de noite ela parecia estranhamente solitária, embora ele soubesse que os seus estavam lá dentro. Se recompôs antes de entrar e, como esperava, os quatro vampiros que o seguiam se encontravam na sala. Dentre todos, Astoria era a que mais resplandecia. E, foi justamente ela que caminhou para onde ele estava.

- Então, como foi? – ela passou os braços em torno do pescoço dele, aproveitando para abraçá-lo. – Boa caça?

Ele sorriu - os olhos ficando ainda mais belos com o brilho adquirido.

- Sei que você adora um caçador, não é? – o sorriso dele vacilou e ela percebeu. – Hum?

- Não. – isso queria dizer que ela não deveria mais tocar no assunto. – Tenho fome, Astoria. Você caçou o suficiente?

Ela riu e colocou o pescoço à disposição, Malfoy deu uma risada seca com a entrega, enquanto passava as mãos com delicadeza pela jugular. Os que permaneciam na sala saíram rapidamente.

Draco gostava daquilo, a serventia cega, os olhares desejosos, o medo que sentiam... Mas, acima de tudo, gostava do poder. Ele era um imortal, um dos poucos antigos que ainda existiam, sua existência significava glória. Os dentes afiados apareceram e ele a trouxe mais próxima de si e, elegante, sorveu. O que queria e podia. Astoria gemia em seus braços.

Foi quando aconteceu...

Em meio ao prazer do sangue, a imagem do jovem caçador surgiu. Delirante, sombria, os olhos verdes reluzindo insolentes e... Apaixonados. Só acordou quando o baque do corpo de Astoria ao chão lhe devolveu os sentidos.

oOo

- Harry?

A voz de Gina o trouxe de volta de seu devaneio, embora, na sombra pálida do dia que surgia, ele tenha demorado a perceber quem era e onde estava.

- Está tudo bem? – estava assustada, jamais vira Harry tão distante, perceber o sangue seco em sua boca piorou o medo. Tentou tocá-lo.

- Não me toque! – afastou-se por reflexo, a mágoa percorreu os olhos da mulher à sua frente. – Não, desculpa Ginny, talvez eu deva descansar agora.

- Conte o que aconteceu... Você não está bem, estou vendo isso, o que é este sangue...?

Dessa vez permitiu que ela o tocasse, trazendo-a mais para perto, enquanto seus dedos contornavam a boca ferida. Na verdade, mais do que aceitar o toque, ele queria fazer uma comparação. Queria testar, ver se aquele abraço apagaria tudo o que ocorrera naquela noite. Descobrir se os lábios dela apagariam toda a destruição que os outros haviam deixado.

Beijou-a.

Transtorno. Diante de seus olhos fechados uma cena tomou forma, um vampiro pálido que sugava o sangue de uma dama loira, ela também da espécie maldita... Não soube responder o que ocorrera, mas seus olhos tornaram-se primeiro raivosos, com vontade de matar, para depois acenderem-se de desejo. Também ele dentro da visão...

Olhos prata abriram-se para ele, ainda com o corpo da mulher preso nos braços. O brilho deles era confuso quando verde e prata se uniram. O choque percorrendo a ambos, no mesmo instante em que uma mulher vampira caía ao chão e outra humana era empurrada para longe dos braços do marido.

Gina olhava perplexa para Harry, o que ocorrera? O que fora aquele choque súbito que passara entre eles, vindo de um Harry trêmulo, desesperado por afastar-se dela? Tentou formular a pergunta, mas dedos pousaram em seus lábios, um pedido mudo para que ela não falasse. Nos olhos dele, distância e turbulência.

- Vou me deitar...

Últimas palavras, deixando apenas um silêncio pesado na pequena sala.

Na mansão, um vampiro carregava sua mulher para um quarto na penumbra, seu andar tão elegante como sempre. Somente seus olhos, apenas eles, mostravam que algo ocorrera.

Fortemente barrado pelas cortinas cerradas, ao lado de fora da mansão, o sol se erguia. Ele era pálido, parecia congelado, uma luz de calor sem sentido. Pois, tudo o que deveria iluminar, virara trevas.

Trevas que cobriam dois mundos...

oOo

- Acredita que não devo me preocupar? – Gina parecia não acreditar no que ouvia.

- Não é isso! – Hermione respondeu. – Só estou dizendo que Harry sempre foi irritadiço, desde nossa adolescência. – sorriu com a lembrança. – Deve ter sido uma caça mal sucedida.

- Harry? Caça mal sucedida? Estamos falando da mesma pessoa? – a outra respondeu sarcástica.

Hermione revirou os olhos, era difícil fazer algo passar por simples na cabeça de Ginevra Weasley. Ela aparecera logo pela manhã, com um Albus sonolento ao seu lado, com a idéia fixa de que Harry fora acometido por alguma coisa estranha. Não que Hermione achasse impossível, mas era de Harry que estavam falando, não era?

Seu amigo era o melhor na caça, junto a ela e Rony, eles desvendavam muito rápido qualquer tipo de perigo que aparecia. Havia muitos anos que não caçavam juntos, mas era improvável que uma vulnerabilidade tivesse surgido para ele – Harry Potter! O escolhido de Dumbledore, o esperado dos caçadores...

Definitivamente, era impossível que algo o atingisse. Era apenas uma caça que não fora boa como ele queria.

- Esqueça isso Gina! – Hermione disse de maneira tediosa. – E vamos começar logo com a aula das crianças.

Gina levantou-se para ir ao encontro das crianças na sala de treino. A mente ainda em Harry... Ela sabia, algo muito errado acontecera, só isso justificaria todo o choque que percorrera os olhos do marido naquela manhã. Ele que era tão repleto de barreiras, que se escondia através de ondas de raiva, deixara tudo cair, mostrando uma fragilidade que ela jamais imaginara existir.

oOo

Noite.

Cemitério.

Um homem vaga à procura de um túmulo, o campo santo é amplo, repleto de estátuas angelicais colocadas sobre as sepulturas. O local onde mausoléus se erguem mostra-se sombrio e silencioso.

O caminhante encontra o que procura. Iluminado pela lua cheia o ambiente ganha um ar de beleza mórbida.

O túmulo de seus pais...

Dos nomes gravados, um já é antigo, o outro, terrivelmente próximo: James Potter, falecido apenas há um ano... Seu pai e amigo...

Assassinado!

Ele ainda podia ouvir os gritos, ainda lembrava as últimas palavras, sentia as dores como cortes de navalha. Seu pai era novo, um homem no auge da maturidade, exímio caçador. Orgulhoso de ser quem era, repleto de coragem, intenso.

A emboscada não era para ele. Queriam Harry. Aquela armadilha continha muito mais do que uma vingança, algum vampiro antigo, muito antigo, estava envolvido. E fizera o serviço com as próprias mãos.

E ele chegara tarde demais... Pegara apenas as últimas palavras...

Eu a amava.

Existia muito mais do que uma simples declaração naquela frase e Harry sabia o que tudo significava. O clã dos caçadores era apenas isso, não era? Um mundo marcado pelo sangue do sacrifício.

Ninguém era feliz. Não podiam ser felizes. O sangue os rondava, sua sina, sua marca e sua dor.

O nome dela estava bem apagado, corroído pelo tempo, gravado na lápide fria. – Lílian Evans Potter – morta há vinte e três anos passados. A doce e jovial Lily Evans, que fora contra tudo e todos...

- Novamente por aqui, Potter? – a voz não o sobressaltou.

- Como se você também não estivesse sempre aqui!

Nenhuma emoção cruzou os olhos negros, tão destacados na pele pálida. Ele era um vampiro e estivera com Harry desde que este podia se lembrar. Um estranho elo os ligava.

- É tudo o que me resta... – o vampiro disse sem emoção.

- Sente saudades? – a pergunta saiu sem cálculo. – Dela? Você a conheceu mais do que eu, mais do que meu próprio pai ou, devo dizer, você foi o único que a conheceu verdadeiramente?

Silêncio.

- Ainda não desistiu?

- O assunto hoje não sou eu.

- Ele iria querer essa vingança cega?

- Ele, James, meu pai! – Harry soltava por fim as emoções. – A única mão segura no meu mundo, tudo o que eu tinha de verdadeiro. E isso foi arrancado de mim Severus Snape! – emoções conflitantes assolavam seu rosto. – A corrente se quebrou, a partiram... Eu só fiquei com os elos rompidos.

- Eu sinto saudades... – Harry o olhou sem entender. - ... sinto tanto a falta dela. Você fala de elos, de mundo, de verdade. Sua mãe foi a única verdade que eu conheci, o único momento em que estar vivo fez sentido. – o que ele estava fazendo? – De novo você tem razão, eu a conhecia bem, muito bem.

"Por quê? O que levara as coisas a acontecerem daquela maneira? Lily havia decidido seguir o destino de seu clã apenas em parte, trabalhara para que o planejado por eles não a aprisionasse para sempre, daria à sua família o que queriam e isso seria tudo. James Potter soube da decisão da futura esposa desde o início, sabia de minha existência, antes de qualquer outro compromisso, Lily estava ligada a Severus Snape de maneira irreversível."

"O que não o impediu de se apaixonar. Foram cinco anos de casamento sólido e tranqüilo. Harry nasceu logo no segundo ano de união, a criança que todos esperavam. Lily deu ao garoto todo o amor possível nos três anos posteriores. Quanto a mim, me afastara para dar uma falsa visão do fim da nossa união. Apesar disso, sempre procurei me manter próximo o suficiente para zelar por ela em silêncio."

"Eu ainda não era um vampiro..."

- É tão difícil você falar dela...

A coisa mais rara no mundo, o levíssimo sorriso nos lábios do vampiro.

- Há coisas que quando são postas em palavras parecem perder as suas cores verdadeiras, não vibram com sua real tonalidade. Tudo parece simples demais...

- Minha mãe me deixou muitas cartas. Ela mencionava você sempre, e costumava dizer o mesmo que acaba de me falar...

- Ela me compreendia melhor do que qualquer pessoa.

"Nós iríamos viver nossas vidas, se fosse necessário, abandonaríamos o país. Desde que tudo isso fosse feito em conjunto."

"Ninguém esperava o ataque. Mesmo lutando com bravura, eu perdi. Foi James que a retirou do campo de batalha, ela gritava meu nome e viu quando as presas dele se cravaram em mim. Meus últimos esforços em vida foram para que ela saísse em segurança daquele lugar, mesmo que significando trabalho conjunto com James Potter."

"Não morri, pelo menos não no sentido em que morrer significa deixar de existir. Eu existia. E era um vampiro novo. Abandonado. Meu criador não esperava por isso, para ele eu era um corpo sem vida no chão."

- Ela ia viver com você, apesar de tudo...

- Estávamos sendo caçados... Mas, ela nunca se importou com o meu estado. Fomos perseguidos pelos dois lados do jogo, sabe o que é isso? – Harry negou com a cabeça.

"Quando Lily me encontrou, ela não se importou por eu ter me tornado um vampiro. Embora eu me consumisse pelo que havia me tornado. Mesmo assim, o nosso desejo de estar juntos permanecia o mesmo."

"Não havia futuro. Lily decidiu que tinha que ser como eu era e a transformação foi marcada. A perseguição se acentuou nesse período e num único momento de fragilidade, a tiraram de mim em definitivo."

"Um caçador, membro de sua própria família."

"Não pude fazer nada, tendo sido barrado pelo meu criador... Eu e Lily separados. Seu último pedido foi para que eu protegesse seu filho."

- Não havia escapatória?

- Não. Ela morreu em meus braços...

Silêncio.

- Meu pai também morreu nos meus... – Harry fixou o olhar na lápide. – Certas coisas saem do nosso controle, não importa quais poderes aparentamos possuir. – seu olhar estava sério e fixo no homem à sua frente. – Algo estranho aconteceu na noite passada...

- Notei que parece confuso.

- Pareço ter desenvolvido uma espécie de conexão mental.

- Com um vampiro? – Harry fez que sim com a cabeça. – Isso é algo muito raro, conexões desse tipo só acontecem entre a mesma espécie, no caso, só entre vampiros. Já tem alguma noção do que desencadeia a ligação?

- Ainda não...

- Então, esse vampiro saiu ileso de um encontro com você?

- Não pude atacá-lo.

- Não?

- Não...

- Isso parece sério, tente perceber o que faz a conexão se abrir e me procure. Sabe onde me encontrar. Adeus. – disse, desaparecendo em seguida nas sombras.

- Adeus...

oOo

Era muito difícil ter momentos de conversa como aquele com Severus, sempre tão fechado, mas algo naquele diálogo parecia o avisar de que alguma coisa mudaria em breve. Sentia isso com tal intensidade que chegava a temer o que estava por vir.

O silêncio no cemitério era tamanho, sua atmosfera tão diferente, que Harry podia imaginar as almas caladas e escondidas em seus túmulos. Contudo, ele não estava mais sozinho.

- Isso foi tão rápido que perdeu a graça! – uma voz ressoou na escuridão e Harry conhecia aquele timbre arrastado.

Procurou pela presença que falava, mas não encontrou nada.

- Me é estranho ver um humano caminhar tão naturalmente em meio à morte. Vocês não a temem?

Harry olhou a sua volta novamente – só o nada o cercava. Estariam trocando palavras através da conexão mental? Não... Isso era real.

- Como temer a nossa única certeza? Não seria a sua raça a temê-la, a ponto de aceitar a escuridão para não ter de encontrá-la? Mais estranho é ver alguém como você aqui, pois, afinal, o que faz um ser que anseia pela vida, entre os mortos, vampiro?

Novamente só a escuridão circundava Harry.

- Talvez porque, por mais que eu anseie a vida, para obtê-la, é só morte que me cerca.

O vampiro se revelava, a brancura reluzia nas trevas, enquanto ele encarava o caçador de maneira frívola, deitado sobre um mausoléu.

- A morte combina mais comigo do que a vida, não acha?

Harry sentiu o torpor tomar conta de seus sentidos, adormecendo por completo o seu instinto de caçador, por quê? Por que na presença daquele vampiro ele se tornava um ser humano comum? E o que piorava as coisas era que, não parecia que essa situação era causada pelo outro, parecia ser ele próprio a se calar.

- Sim, morte combina mais com você. Entretanto, eu estou vivo.

Um leve curvar de lábios cruzou o rosto do vampiro, que se levantou e saltou ao chão com graciosidade, ficando frente a frente com o caçador. Olhos nos olhos. Arrepios percorreram a espinha de Harry quando seus olhos encontraram com a prata pura concreta, muito mais intensa do que aquela vista em seus pensamentos.

Mais um passo... E agora seus narizes quase se encostavam.

- Eu deveria te matar. – Harry sussurrou.

- Eu também deveria fazer isso com você... – a voz de Malfoy também era pouco mais do que um sussurro.

O hálito de ambos agora se tocava e lábios vermelho pálido roçaram a orelha de Harry, pronunciando como que uma sentença.

- Você é o único que cruzou o meu caminho e permaneceu vivo.

Tudo o que restava de controle se esvaiu, o silêncio, outrora tão profundo, foi quebrado pelo baque do corpo pálido na parede do mausoléu. Ele gargalhou, Harry riu também, enquanto puxava as madeixas platinadas a seu encontro, uma carícia, antes de seus lábios encontrarem em fúria os do ser à sua frente.

Ah! Ele queria aquilo, muito... Os lábios, as mãos frias que se enroscavam em seu cabelo, o corpo esguio que se colava ao seu. Fogo e gelo se encontrando em puro prazer. O barulho insano das bocas que se buscavam e se perdiam, o gosto do seu próprio sangue entre as línguas.

Estava em delírio! Tudo o que esperava estava naquele ser, como se o desejasse encontrar desde sempre... O beijo se acalmou, agora ele queria sentir, sabia que Draco arrancava pequenas doses de seu sangue, mas isso não o enfurecia, só lhe dava mais prazer. Harry o queria, os movimentos do vampiro também se acalmaram.

O beijo se rompeu, sangue sujava as vestes de ambos, enquanto escorria em gotas de suas bocas. Draco abraçou o caçador à sua frente com força, uma mescla de carinho e desejo misturados com choque. Revelações que roubavam seu juízo. Os braços morenos retornaram o abraço de forma possessiva.

- Eu o quero. – a voz estava rouca, mas clara em suas intenções. – Não sei o que é isso, não sei que força é essa que está nos movendo, mas eu te quero.

- Eu também não sei, mas o teu desejo é o meu desejo.

O verde e o prata se encontraram, sem barreira, em fragilidade. Eles estavam perdidos. Nos braços um do outro todas as defesas se mostravam estraçalhadas. Vulneráveis e apaixonados. Não havia mais volta...

"...À noite imensa igual à do caos ancestral..."

N.A: Há uma coisa engraçada na composição de Clamare, as idéias sempre surgem quando o céu se fecha e chove. Sempre. Nunca falha. Hoje mesmo, em que termino esse capítulo, o seu é cinza de chuva prestes a se derramar. Acredito que Draco vampiro goste desses dias para vir me contar a sua história com Harry caçador. Seu amor trágico combina com o ar sombrio de dias nebulosos... Ele sabe bem disso.

Sei que demorou, mas espero que curtam esse capítulo.

Agora, dedicação total a atualização de "Marido... e Harry"! O/

Clamare será atualizada possivelmente daqui a dois meses, levando-se em conta os estágios e a monografia na facul. E que a chuva também colabore conosco, é claro!

Abraços,

Lithos of Lion