Título: Antes tarde
Autora: Dana Norram
Gênero: Slash / PG-13
Casal: Harry Potter e Draco Malfoy
Sumário: Série de fanfics Harry/Draco. Tema da n03: Chupão. "Por que eu não entenderia? Não entenderia que você estava pondo um par de chifres na minha irmã?"
Spoilers: Deathly Hallows
Projeto Sectumsempra de Amor Não Dói
(Tema: 09. Chupão.)
Antes tarde
por Dana Norram
O mundo bruxo foi pego de surpresa quando o Profeta Diário estampou na primeira página a notícia sobre o fim do casamento entre Harry e Ginevra Potter. Por quase um mês não se falou sobre outra coisa.
Ex-colegas de escola de ambos eram vistos nas lojas e bares no Beco Diagonal com as cabeças próximas, discutindo o assunto em voz baixa. Alguns repórteres foram enviados a Hogwarts em várias tentativas falhas de entrevistar o professor Longbottom que, segundo fontes seguras, fora par da agora ex-senhora Potter no baile de inverno quando ela tinha 13 anos de idade. A velha Molly Weasley foi vista lançando azarações a esmo contra um grupo de curiosos que tentaram entrar em sua propriedade a fim de perguntar à própria Ginevra o que acontecera.
Entretanto, ninguém aparentemente tentara arrancar a versão dos acontecimentos de Harry Potter, herói de guerra e chefe do Departamento dos Aurores há vários anos. Potter, que, segundo boatos, saíra da casa onde vivia com a mulher e os três filhos e se mudara para a antiga propriedade herdada de seu padrinho, ainda era visto caminhando ao trabalho todos os dias, onde costumava ficar até bem tarde e não aparentava qualquer drástica mudança por conta dos acontecimentos recentes.
Também não foram conseguidas informações de seus melhores amigos, Ronald e Hermione Weasley. Hermione, no papel de membro da Corte Suprema dos Bruxos, limitou-se a fazer uma declaração de que não era da conta de ninguém o que acontecia com Harry e que ele merecia privacidade naquele momento delicado para ele e a família. Ron, por estar sempre junto do amigo ou mesmo da esposa, teve poucas oportunidades para ser abordado sobre o assunto.
Porém, ao contrário do que poderia se imaginar, Ronald Weasley sabia. Sabia há meses o que se tornara inevitável. Sabia que o amigo já não tinha mais olhos para sua irmã e que, a despeito de todos os seus atos heróicos, honrarias e medalhas, Harry também estava sujeito a erros e falhas como qualquer um.
E era irônico — Ron sabia que era —, pensar que tudo começara a fazer sentido justamente no aniversário de casamento do amigo e da irmã.
—x—
"Desta vez você bateu meu recorde, cara." Ron disse enquanto abria a porta do carro para Harry. "Nem eu já consegui esquecer do presente de aniversário de casamento!"
Harry soltou um suspiro enquanto se ajeitava no banco do passageiro, o pequeno embrulho aparentemente feito às pressas largado em seu colo. Ron reparou que a expressão de seu amigo era de cansaço e que seu rosto estava marcado por grandes olheiras. Por um instante constrangedor, Ron se perguntou se a sua irmã resolvera presentear o marido mais cedo e deixara Harry sem dormir. O mero pensamento fez com que ele desviasse a atenção para o volante e fechasse os olhos rapidamente para então abri-los e se fixar numa foto de Hermione junto das crianças pendurada no retrovisor. Ron respirou aliviado e voltou-se para o amigo que começou a falar, a voz entediada.
"Me refresque a memória... por que nós não podemos simplesmente aparatar mesmo?" Harry perguntou, encostando a cabeça no apoio do banco e fechando os olhos.
"Porque Ginny tem falado a meses que queria voltar naquele restaurante no centro e Hermione sempre acha que é uma boa idéia irmos como trouxas em lugares trouxas."
Harry fez que 'sim' com a cabeça, indicando que entedia, mas não respondeu ao comentário e, após um dar de ombros impassível, Ron girou a chave na ignição e deu a partida no carro.
Pouco foi falado durante o trajeto. Para ser sincero, Ron não tinha muito sobre o que conversar com Harry ultimamente. Eles se viam todos os dias e trabalhavam juntos, com algumas missões individuais, sim, mas, fora isso, sem novidades naquele campo. Sem contar que Harry andava mais às voltas com papeladas do que com ação nos últimos tempos, o que limitava em muito o assunto entre eles. E desde que Ginny se aposentara para cuidar das crianças, ela acabava em casa praticamente o dia inteiro, então, quando não estava no escritório, Harry provavelmente se sentia na obrigação de estar lá com ela. Sendo casado com Hermione, Ron não se sentia à vontade em sugerir programas apenas entre os três, como fazia nos velhos tempos. Era horrível admitir, mas às vezes ele sentia falta da época em que não havia famílias para virem antes da amizade deles.
Hermione e Ginny já haviam pedido as entradas quando eles chegaram, quase uma hora depois do combinado. Os cumprimentos entre Harry e sua irmã foram mornos, fato que Ron colocou na conta do atraso. Porém, ao abrir o pacote que Harry lhe trouxera (que se revelou ser o último lançamento em Pena de Repetição Rápida), Ginny decididamente forçou o sorriso. Ron a princípio não entendeu por que do presente, imaginando que amigo daria uma jóia ou algo do gênero para sua irmã, mas depois pensou que Harry só queria fazer a esposa se sentir útil, já que ela às vezes reclamava por passar tanto tempo em casa.
Ron trocou um rápido olhar com Hermione depois disso, e ela logo começou a falar das crianças para amenizar o clima. Contou que Rose arranjara um namorado em Hogwarts e como Ron estava prometendo aparecer por lá qualquer dia para azarar o rapaz e comentou também sobre Hugo ter entrado no clube de duelos. Logo Harry e Ginny também estavam falando dos filhos deles também. Sobre James, que iria se formar no ano seguinte, sobre Albus, que havia sido nomeado monitor, e aproveitaram para contar pela terceira vez em como Lily fora aceita como goleira no time de Quadribol.
Num pensamento quase inconsciente, Ron reparou que, enquanto falava dos filhos, seu amigo soava um milhão de vezes mais à vontade. Na verdade, parecia a primeira vez que estava sorrindo abertamente e parecendo contente com alguma coisa desde que o pegara mais cedo para irem ao restaurante.
E talvez Ron tivesse guardado na memória apenas os detalhes agradáveis daquela noite, se não fosse pela hora da sobremesa. Porque, quando o jantar chegava ao fim e o assunto "filhos" já fora passado e repassado pelo menos umas três vezes e os quatro começavam a se encarar em silêncio por alguns longos e constrangedores instantes, dois garçons, vindo de direções opostas, passaram ao mesmo tempo pela mesa deles.
Um carregava uma pilha de pratos usados, voltando de uma mesa ao canto, enquanto o outro vinha da cozinha com as sobremesas pedidas por eles arrumadas numa bandeja. Aconteceu bem rápido e nem ele ou Harry puderam evitar que uma ostra caísse da pilha de pratos que um dos garçons carregava no meio do caminho do outro garçom, que escorregou no mesmo instante. Então, para não derrubar a bandeja que trazia nas mãos, ele se segurou na coisa mais próxima que encontrou — o casaco que Harry usava por cima das vestes.
O som de tecido se rasgando encheu o restaurante e logo estavam os quatro de pé para ajudar o pobre garçom a se levantar, para pegar a bandeja que ele miraculosamente não derrubara e lhe garantir que estava tudo bem e que aquele casaco era velho mesmo e ele não deveria nem ter saído com ele. Mas quando as sobremesas já estavam dispostas na mesa e Ron pegara sua colher para começar a comer, ele viu Ginny se aproximar de Harry com o cenho franzido e, ao puxar o pedaço de tecido onde o casaco se rasgara, próximo à articulação onde ombro e pescoço se encontravam, escutou ela perguntar numa voz alta e clara.
"Mas o que é isso, Harry?"
E Ron entrou em choque ao perceber que aquilo na pele do seu melhor amigo não era uma tatuagem que ele fizera escondido ou algum pedaço remanescente de sobremesa que talvez tivesse escapado dos olhos deles, mas sim um grande, redondo e roxo chupão. Ou pelo menos algo bem parecido, e não era como se Ron nunca tivesse visto um antes. O hematoma arroxeado e acusador — pequeno demais para ser uma pancada, grande demais para se passar por um beliscão. A prova óbvia e irrefutável de que alguém atacara Harry com todos os dentes da boca e com alguma vontade de deixar aquela marca.
E esse alguém aparentemente não fora a sua irmã.
Ron não sabia o que era mais perturbador e talvez por isso ele não encontrou palavras para falar qualquer coisa quando Harry pareceu apenas levemente surpreso com a pergunta da esposa e respondeu, sua voz calma e despreocupada.
"Ah, isso? Tivemos uma batida na casa de uns bruxos que estavam produzindo substâncias não-comerciáveis tipo D e que uma daquelas coisas espirrou em mim enquanto fazíamos a apreensão. Mas não foi nada de grave. O medibruxo disse que a marca deve sumir em um ou dois dias."
E, embora talvez Harry não prestasse muita atenção na sua presença, Ron tinha certeza absoluta de que fazia meses que o amigo não saía em missão de campo e que estivera enfiado no Ministério aquela semana inteira.
—x—
Ronald Weasley praticamente não dormiu aquela noite.
Primeiro ele foi assaltado pelo pânico de pensar que Hermione acabaria lhe perguntando sobre aquela história toda — ela sempre queria saber de assuntos que poderiam acabar sendo julgados pela Corte. Depois ele não conseguiu parar de pensar que talvez estivesse ficando louco e que por isso não se lembrava de onde Harry tinha se enfiado naquela tarde. Talvez o amigo realmente comentara o assunto e ele só não prestara atenção. Não era como se nunca tivesse acontecido nada assim...
Ao ponto em que podia ouvir os passarinhos anunciando o fim da madrugada, Ron já tinha imaginado também se Harry talvez não estava envolvido em alguma missão altamente secreta e perigosa do qual ele não lhe confidenciara coisa alguma. O mero pensamento fez um gosto amargo lhe subir pela garganta.
Ron só pegou no sono quando a luz da manhã já forçava espaço pelas frestas da janela e Hermione começava a se mexer ao seu lado. Mas não antes de chegar à conclusão de que havia algo de muito errado com seu melhor amigo e que ele precisava descobrir o que era.
—x—
Ron saiu para trabalhar naquela manhã decidido a descobrir o que havia com Harry. Porém, ao chegar ao ministério, já mudara de idéia e resolvera que talvez o melhor fosse esperar o amigo vir falar por vontade própria. Afinal, Harry deveria ter alguma explicação sobre o que acontecera na noite anterior.
Mas o dia inteiro se passou sem que Harry mencionasse o assunto uma vez sequer. Durante toda a manhã o moreno ficou em silêncio trabalhando numa pilha de pergaminhos que precisavam da sua assinatura para liberação e, antes que Ron tivesse a oportunidade para abordá-lo, Harry saiu para almoçar e ficou quase duas horas fora do escritório — para onde só voltou no meio da tarde, parecendo, não havia outra palavra, feliz.
Foi aí que Ron se deu conta de que tinha sido essa a rotina de Harry nos últimos anos. Um ar decididamente melancólico e cansado pelas manhãs, como se ele ainda estivesse com sono, em contraste a um semblante dividido entre a animação e a irritação na parte da tarde. Ron nunca parara para pensar que talvez houvesse algo nesse meio tempo que transformasse o humor de seu amigo daquela maneira. Sempre atribuíra o fato, inconscientemente, ao decorrer dos anos, dos dias e dos diferentes problemas que se acumulavam no colo deles e à maneira de cada um de lidar com isso.
Ron nunca reparara que Harry jamais se dera ao trabalho de usar seus privilégios como chefe dos aurores para sair mais cedo ou tirar umas férias para viajar com a esposa. Ou mesmo para colocar alguém para fazer o trabalho burocrático até altas horas da noite no seu lugar. Mas, quando forçou sua mente a procurar referências do assunto, descobriu que a explicação que encontrara na época era que Harry era nobre demais para usar do seu nome ou posição para tirar vantagem sobre alguma pessoa. Em seu íntimo, ele admirou Harry por isso e sentiu-se culpado por estar procurando razões para ter certeza de que o amigo estava fazendo algo de errado.
Harry continuou sem tocar no assunto pelos dias que se seguiram e, por mais que quisesse, Ron não conseguia deixar de passar a reparar em suas alterações de humor. Em como realmente sempre havia uma ordem. Letargia, quase um torpor até a hora do almoço, quando o amigo invariavelmente desviava dos convites por companhias, dizendo preferir comer sozinho para resolver uns problemas. Ron, que quase sempre almoçava com Hermione, nunca havia realmente prestado atenção àquilo.
Em alguns dias Harry voltou parecendo perdido, desatento, como se tivesse deixado sua cabeça em outro lugar. Em outros ele voltou sorridente e eufórico, falando animado com todos que se aproximavam dele. Houve ocasiões também em que Ron viu Harry caminhar em sua direção, a mão erguida e os lábios entreabertos, mas parecia que algo sempre o impedia de dar os passos finais e ele acabava sempre de volta à sua mesa sem dizer uma única palavra.
Após quase duas semanas assistindo ao amigo ir e vir, Ron decidiu mais uma vez que era de verdade a hora de fazer alguma coisa. Tentar fazer, pelo menos. A idéia de que Harry estava tendo um caso lhe atingiu sim, uma ou duas vezes; afinal, de vez em quando boatos do gênero eram soltos nos tablóides, mas, até então, ele nunca chegara a pensar no assunto. Pelo menos não para valer.
O ponto era que ele conhecia Harry, e a mera idéia do seu amigo, do seu melhor amigo, aquele que enfrentara a morte para salvar o mundo bruxo, aquele por quem ele mergulhara num lago gelado e lutara contra aranhas gigantes, estar traindo era no mínimo absurda. E quando ele pensava que o alguém em questão era a sua irmã, tudo soava ainda pior. Ron não conseguia imaginar Harry se encontrando às escondidas com outra pessoa e depois voltando para casa e agindo como se nada tivesse acontecido. Não conseguia imaginar ele encarando seus filhos como se tudo estivesse absolutamente bem.
Mas Ron também sabia que o casamento mudava as pessoas, para melhor ou pior. Que mudava a maneira como elas enxergavam o mundo e aqueles que faziam parte dele. Ron sabia que nem sempre as coisas eram como pareciam ser. Talvez fosse apenas uma fase. Talvez tudo não passasse de um grande mal-entendido. Talvez ele apenas estivesse exagerando em cima de toda aquela situação. E talvez... talvez houvesse uma explicação lógica. Conviver com Hermione, que descrevia os mais absurdos casos com que era obrigada a lidar todas as semanas, lhe ensinara uma coisa ou duas. Ele não podia julgar sem entender.
Por isso que naquele dia Ron decidiu usar seus anos de treinamento para fazer algo que nunca imaginara ter de fazer: seguir seu melhor amigo. Ficou observando Harry de longe durante toda a manhã e, quando o moreno descansou a pena sobre uma enorme pilha de pergaminhos e se levantou para sair, Ron esperou um minuto e então, discretamente, foi atrás dele, porém, encontrou o corredor já vazio. Após alguns segundos sem poder encontrá-lo, desceu para a recepção no átrio. Lá estava sentada uma jovem bruxa de óculos e curvas generosas que ele nunca se dera ao trabalho de descobrir o nome antes e para quem, com toda a delicadeza do mundo, ele perguntou.
"Georgette," Ron disse lendo discretamente as inscrições no crachá que a bruxa trazia preso na frente das vestes. "Você por acaso viu o senhor Potter? Combinamos de almoçar, mas acabei ficando para trás."
A bruxa indicou os elevadores ao canto. "Acredito que o senhor Potter pegou o que estava descendo." Ela disse, toda sorrisos, e inclinou-se levemente para consultar um painel ao lado de sua mesa que indicava em qual andar os elevadores se encontravam naquele momento. "Parece que foi até o último nível." Acrescentou com outro sorriso largo e Ron lhe agradeceu rapidamente antes de tomar o caminho para o Departamento dos Mistérios.
—x—
Embora Ronald Weasley tivesse passado cada um daqueles minutos que o separaram de se encontrar com Harry formulando as palavras que diria ao amigo e em como eles resolveriam tudo aquilo, nada, absolutamente nada o teria preparado para o que encontrou lá embaixo.
Ele não sabia dizer o que era mais chocante. A confirmação de que Harry estava realmente traindo a sua irmã ou o fato de com quem ele estava fazendo aquilo. Ou o mero detalhe de que enquanto tinha as mãos pálidas e magras de Draco Malfoy agarradas aos seus cabelos, a expressão na face de Harry era da mais pura paz.
Ele queria gritar para acabar com aquilo. Queria puxar sua varinha e azarar Harry por ter traído a confiança de sua família. Queria azarar Malfoy pelo simples fato dele existir. Mas sabia que aquilo não daria em nada, que sair na mão não iria resolver os problemas de nenhum deles e provavelmente só resultaria em mais problemas. Um lado seu também pensou vagamente em Hermione sendo obrigada a presidir o seu julgamento por matar um certo furão branquelo.
Por isso Ron tentou, realmente tentou, voltar por onde viera sem ser notado. Tentou fingir que não tinha visto coisa alguma. Que tudo não passava de uma alucinação resultante do excesso de alternativas que sua mente formulara para explicar o maldito chupão no pescoço de seu melhor amigo.
Tentou com todas as suas forças ignorar os gemidos contidos dos dois atracados contra uma parede, mas quando viu Malfoy tirar suas mãos dos cabelos negros e levá-las até a cintura de Harry, começando a descê-las lentamente, Ron mandou a cautela às favas e falou alto, numa voz grave que ecoou pelo corredor vazio.
"Acho que você vai precisar de uma desculpa melhor da próxima vez que for mentir para a sua mulher."
E mais uma vez Ronald Weasley não sabia dizer o que era pior. O pânico que lhe assolou por não saber o que fazer no instante em que Harry empurrou Malfoy, uma expressão assustada na face. Ou a cruciante incerteza sobre o que seria a amizade deles a partir de agora.
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Ron não fazia idéia de como conseguiu voltar para o quartel dos aurores. As imagens que presenciara indo e vindo em sua cabeça sem que ele conseguisse parar com aquilo. A expressão de Harry, antes e depois de ser surpreendido. A idéia, a mera idéia de que seu amigo estava enganando Ginny. Ele mesmo. Hermione. A todos eles.
Durante a tarde inteira Ron se isolou em seu cubículo, incapaz de pensar em ir para a casa porque não sabia o que diria a Hermione quando ela o visse naquele estado. Incapaz de contar à irmã o que vira porque não sabia o que poderia dizer a ela. Por que ele sabia que não podia contar coisa alguma.
Ron não viu Harry chegar do "almoço", poucos minutos depois dele e também não viu o moreno enfiar as mãos no rosto tão logo se largou em sua cadeira, incapaz, assim como ele, de saber o que fazer.
Ao fim do dia, porém, Harry finalmente pareceu tomar coragem para vencer o caminho que separava suas mesas, e Ron não pôde evitar em sentir alguma admiração, mesclada à raiva e desapontamento, diante daquela atitude.
"A gente precisa conversar." Harry disse, procurando não olhar nos olhos do amigo.
"É." Ron respondeu, a voz resignada. "Antes tarde do que nunca."
—x—
"Há quanto tempo vocês...?"
Harry mordeu o lábio inferior por alguns segundos antes de responder em voz baixa um número em anos que tinha mais de dois algarismos. Ron preferiu fingir que não ouviu porque era absurdo. Se é que algo ainda podia ser absurdo diante do quadro como um todo.
"Como você pôde ter feito isso? Como você pode... continuar fazendo? Por Merlin, Harry!" Ron começou, as mãos erguidas no ar como se tentasse estrangular um pescoço invisível. "Você não pensa na minha irmã, nos seus filhos, em...?" Ron se calou. A lista simplesmente não tinha fim.
"Todo dia." Harry disse, os olhos baixos, seguido de um suspiro curto e cansado. "O tempo todo."
"E ainda assim...?"
Ron viu Harry balançar a cabeça afirmativamente e não pôde mais se conter. Ele se levantou e começou a caminhar a esmo pelo lugar. Estavam há quase quinze minutos no velho escritório de seu falecido pai, sem qualquer alma viva por perto dado o avançado da hora, e ele ainda não sabia direito por onde começar. Não sabia se o que queria era esmurrar Harry até que o rosto dele se transformasse numa pasta irreconhecível ou se queria se acalmar e entender. E era engraçado achar que a primeira opção parecia a mais sã das duas.
"Mas por quê?" A pergunta saiu bem antes do que ele imaginava. Antes que tivesse a oportunidade de deixar claro para Harry o quanto ele estava decepcionado e irritado e chateado. Antes que pudesse deixar claro a si mesmo que não era obrigado a perdoar Harry.
O moreno o encarou como se aquela fosse a primeira pergunta que fizesse algum sentido para ele, mas não respondeu de imediato. Primeiro inspirou fundo como se reunisse coragem para tanto e então abriu a boca um par de vezes, hesitante.
"Você não entenderia."
A raiva se alastrou pelo peito de Ron de tal forma que quando ele viu já tinha segurado Harry pelo colarinho das vestes e o erguido da cadeira, colocando ambos os rostos no mesmo nível. Os olhos verdes por trás dos óculos o encararam com resignação e Ron na hora soube que não odiava Harry por ele ter feito o que fez. E soube também que o que mais o incomodava era a certeza de que o amigo não confiara nele.
"Por que eu não entenderia? Não entenderia que você estava pondo um par de chifres na minha irmã?" Perguntou, sacudindo Harry como se quisesse acordá-lo. "Acha que se você tivesse casado e tido três filhos com outra pessoa eu talvez pudesse ser mais compreensivo com o fato de você estar dormindo com o Malfoy?"
Harry segurou os pulsos de Ron, mas não tentou se soltar. Sua voz soava como se já tivesse ouvido aquele discurso um milhão de vezes em sua vida. Provavelmente dele mesmo.
"Não, você não entenderia que o que aconteceu não tem nada a ver com Ginny. Que não foi culpa dela ou mesmo algo que ela tenha feito ou deixado de fazer. Você não entenderia que eu realmente gostaria de poder consertar tudo isso, Ron."
Ron reforçou o aperto nas vestes de Harry como se precisasse daquilo para não partir para cima do amigo, sua respiração rápida, a raiva saindo pela sua boca através das palavras.
"Mas você pode consertar."
Harry balançou a cabeça, olhando para o lado. "Não posso porque eu não quero." Ele disse e soltou outro suspiro, voltando a encarar Ron. "Você pode dizer o que quiser, pode até puxar a varinha e me azarar, mas nada disso vai mudar o fato de que eu quero estar com ele."
Ron soltou as vestes de Harry como se elas lhe tivessem dado um repentino choque. Ele encarou o amigo como nunca encarara antes. Como alguém que passara anos sem ver e aparecesse assim, sem aviso, bem na sua frente.
"Você não pode estar falando sério, cara."
"É? E por que não?"
Foi a vez de Ron hesitar antes de responder, mas logo a resposta foi se formando em sua mente, sem que ele precisasse pensar realmente nela. "Porque você está há dezessete anos casado com uma pessoa. Porque você tem três filhos maravilhosos com essa pessoa. Porque você lutou para construir um mundo em que ela pudesse viver melhor."
Harry pensou por um segundo antes de responder.
"Não nego que fui feliz com Ginny, Ron, mas eu não sou mais. Amo os meus filhos e tenho orgulho de alguém como Ginny ser a mãe deles. O que eu sentia por ela vive neles agora, mas não mais em mim. E sim, eu lutei, Ron, mas foi por todos vocês. Não foi só por ela."
"Ah, e o que você vai me dizer o que agora... que lutou por ele também, é?" A risada de Ron saiu abafada, como se ele tivesse tentado pará-la, sem sucesso.
E qualquer senso de humor que ainda restasse nele se esvaeceu quando um rastro de sorriso se formou no rosto de Harry.
"Eu voltei para buscá-lo, lembra disso? Depois de tudo que ele fez, eu voltei para--"
"É ISSO!" Gritou Ron, desferindo uma espécie de soco no ar. "É exatamente isso. Depois de tudo que ele fez. Harry, cara, acorda. Estamos falando de alguém que tentou matar Dumbledore, que machucou gente que nós conhecíamos e gostávamos, alguém cujo pai tentou te matar mais de uma vez e..."
"Draco não é como o pai." Foi a resposta rápida, quase automática. Como se Harry pensasse naquilo constantemente. Ron enfiou o rosto nas mãos. Ele já não sabia mais o que dizer.
"Mas eu entendo o que você quer." A voz de Harry ecoou pela sala e Ron voltou a encará-lo. "Você quer saber por que eu não pude simplesmente ignorar seja lá o que foi que começou com tudo isso e por que deixei as coisas chegarem a esse ponto."
E como Ron ficou em silêncio, seus olhos fixos no amigo, ainda sem conseguir acreditar que aquilo realmente estava acontecendo, Harry continuou.
"Eu tentei, Ron." Disse o moreno, voltando a se largar na única cadeira vazia da sala, como se não agüentasse mais o peso do próprio corpo. "Primeiro eu achei que tinha agido só por impulso, depois achei que era só uma fase. Eu voltava para casa todo dia me sentindo cada vez pior e mais culpado até que-"
Harry jogou a cabeça para trás, os olhos verdes fixos no teto.
"Até que eu compreendi que eu não estava de fato me esforçando para salvar o meu casamento porque não havia o que ser salvo. Cara, foi horrível acordar um dia e ver que eu estava deitado do lado da irmã do meu melhor amigo, alguém que durante anos foi como uma irmã para mim também--"
"O quê?" Ron o interrompeu, irritado. "Vai me dizer agora que a culpa é da Ginny? Ela desistiu de você uma vez, se lembra? E foi você, depois que ela cresceu, quem foi atrás dela. E eu não te censurei, cara, eu achava que você era o cara certo pra ela!"
"Eu também achava, Ron, que merda!" Harry também gritou, perdendo a paciência e se levantando, encarando Ron com raiva. "Eu achava que tudo estava perfeito porque agora eu era parte de uma família de verdade, por que eu nunca tive uma família e gostava do jeito que sua mãe e seu pai me tratavam, como se eu fosse filho deles, mas no fim eu sempre acabava me sentindo um intruso ali, no meio de vocês. Todos sempre me acolheram sim, mas casado com Ginny eu, de fato, fazia parte de alguma coisa."
Ron arregalou os olhos para o comentário de Harry, incapaz de compreender o quanto aquelas palavras o machucavam. Incapaz de acreditar que seu amigo estivera sofrendo aquele tempo todo e ele não percebera.
"Espera, você quer dizer que se casou com a minha irmã por causa disso?"
"NÃO!" Harry olhou para ele, os olhos verdes brilhando, furioso. "Não foi por isso, mas foi isso que eu percebi no final das contas. Que eu estava me apegando àquilo que Ginny representava, não ao que eu sentia por ela."
"Você não a ama mais, então? Você ama... ele?" Ron não conseguia dizer o nome de Malfoy.
"Você fala 'ele' como se estivesse dizendo um palavrão, Ron." Disse Harry. "Eu achava que o fato de dois caras ficarem juntos não era um problema para os bruxos. Eu achava que isso era um preconceito idiota dos trouxas. Você está falando igual ao Malfoy no tempo da escola."
Ron contou até três para não puxar sua varinha.
"Você percebe que está usando o Malfoy para defender o Malfoy?" Ele disse, respirando rápido. "Você já não faz mais o menor sentido pra mim, cara! Ele te enrolou totalmente."
"Não fale como se fosse culpa dele." Retorquiu Harry.
"Certo!" Ron gritou outra vez. "Agora vamos descobrir de quem é a culpa. Se não é da minha irmã, que só serviu para você se tornar um Weasley Honorário, e nem do furão vira-casaca... de quem é? Minha? Da Hermione? Vamos, Harry, a culpa precisa ser de alguém."
"Não é culpa de ninguém." Harry disse, cansado. "Aconteceu. Não devia, mas aconteceu. Se você precisa tanto colocar a culpa em alguém, coloque em mim. Eu podia ter parado, mas não parei. Podia até ter tomado mais cuidado para ninguém perceber e não tomei, podia ter-"
Ron caminhou até Harry, a vontade de socar o amigo ainda forte, mas em vez disso ele o segurou pelos ombros para o moreno o encarasse. Ron não percebera, até então que ele não conseguia deixar de se referir a Harry como amigo em seus pensamentos. Era óbvio, agora, que se nem mesmo depois do que descobrira, ele não tinha qualquer intenção de repudiar Harry, a amizade deles continuava sendo mais importante do que tudo. E Ron precisava fazer aquilo valer.
"Você ainda pode consertar tudo, Harry." Ele disse e o amigo o encarou como se esperasse pelo pior. "Você só precisa escolher. E isso é fácil, cara. Você já sabe o que você quer."
Por um instante Ron achou que tinha estragado tudo, mas a força com que Harry o abraçou foi prova o suficiente de que ele fizera a coisa certa. Ele agira como um amigo.
—x—
Ron chegou à conclusão de que os amigos não mudavam, pura e simplesmente. O que acontecia era que às vezes nós ficávamos algum tempo sem prestar atenção neles e não percebíamos que alguém só precisava de um conselho, mas não sabia como pedir.
Harry e Malfoy nunca assumiram que estavam juntos. Havia coisa demais envolvida. A velha guerra, a rivalidade mal-resolvida. Esposas e filhos. Passado e presente. Detalhes que aqueles que estavam de fora não tinham sequer por que tentar começar a compreender. Com o tempo e por razões diferentes o casamento de Malfoy também terminou, rendendo um espaço bem menor no jornal e muito menos publicidade, mas, mesmo assim, nenhum deles pareceu interessado em começar uma vida sob os olhos do mundo.
Mas Ron sabia que Harry estava bem. Não pelo fato de ele estar se escondendo do público ou agindo como se nada de mais estivesse acontecendo, mas sim por saber que aquilo não afetara a amizade deles.
Ron sabia que Harry ficava feliz quando eles saíam para tomar uma bebida depois do expediente e conversavam sobre bobagens durante um par de horas antes de se recolherem para seus respectivos lares e voltarem para aqueles que amavam. Ron sabia que o mais importante fora ter conseguido encontrar espaço em seu coração para entender o amigo e descobrir que no fundo ele continuava sendo o mesmo Harry de sempre e que ele, Ron, só queria vê-lo feliz.
Não importasse onde, quando ou com quem.
Fim
Sobre a fic: Essa fanfic foi originalmente escrita em 25/04/08 como resposta ao Tema n° 09 ('Chupão') da primeira fase do Projeto Sectumsempra de Amor Não Dói, promovido pela seção HD do fórum Aliança 3 Vassouras. O projeto continua na ativa, mas agora em novo endereço: www. 6vparavoce. com. br (para acessar, tire os espaços).
Nota da Autora: Essa fanfic é o típico caso de como uma proposta que tem tudo para virar um PWP de primeira pode ser completamente distorcida nas mãos alheias. xD Mas, enfim, eu gostei dela e adorei escrever sob o ponto de vista do Ron, que ainda é o meu favorito do trio! :)
Aviso: Pronto. Tudo que eu tinha escrito do projeto já está postado... o que não significa que eu não tenha mais nenhuma HD na gaveta. xD
Agradecimentos: A Calíope Amphora por ser beta e incentivadora pinhônica, a Cami Rocha por trazer Georgette para nossas vidas e, claro, a todos que leram e comentaram na minha última fic postada, "Antônimo". Muito obrigada, pessoinhas. o/
