CAPÍTULO 11

Sango observava como Sesshomaru se passeava nervoso, por diante de seu posto, enquanto fazia uma leitura para um turista. Deus santo! Poderia passar todo o dia observando-o caminhar. Esse modo de andar fazia saltar os olhos das órbitas, e lhe dava desejos terríveis de sair correndo para casa, pegar o Mirok e lhe fazer algumas coisas pecaminosas.

Uma e outra vez, as mulheres se aproximavam dele, mas Sesshomaru não demorava para tirá-las do meio. Era certamente divertido ver todas essas garotas pavoneando-se a seu redor enquanto ele permanecia alheio a seus estratagemas. Nunca lhe tinha parecido possível que um homem atuasse assim.

Mas claro, até ela podia chegar a enjoar de chocolate se comia demais.

E pelo modo em que as mulheres respondiam à presença de Sesshomaru, deduziu que ele já tinha sofrido mais de uma dor de barriga causado por uma indigestão. A verdade é que parecia muito preocupado.

E Sango se sentia fatal pelo que tinha feito a ambos, a ele e a Rin. Sua idéia parecia bastante singela em princípio. Se tivesse refletido um pouco mais…

Mas como ia adivinhar quem era Sesshomaru? Claro, que seu nome podia ter feito soar algum timbre em sua mente, de todos os modos, sua especialidade era a Idade de Bronze grega que, até para a época de Sesshomaru, era a Pré-história.

E tampouco tinha acreditado que o moço do livro fosse realmente humano. Pensara que era alguma classe de gênio ou criatura mágica, sem passado nem sentimentos.

Senhor! Quando colocava a pata o fazia até o fundo.

Meneando a cabeça, observou como Sesshomaru rechaçava outra oferta, esta vez procedente de uma atrativa ruiva. O homem era um verdadeiro ímã de estrogênios.

Acabou a leitura.

Sesshomaru esperou uns minutos e se aproximou da mesa.

— Me leve até Rin.

Não era uma petição, não. Estava segura de que era o mesmo tom de voz que empregava para dirigir a seu exército em metade de uma batalha.

— Disse que…

— Não me importa o que disse. Preciso vê-la.

Sango envolveu o baralho no lenço negro de seda. Que demônios? Tampouco é que necessitasse que sua melhor amiga voltasse a lhe falar.

— Vai direto a seu funeral.

— Oxalá — disse em voz tão baixa que ela não pôde estar segura de ter escutado corretamente.

Ajudou-a recolher seus pertences para colocá-los no carrinho, e levar tudo até o pequeno espaço que tinha alugada para guardá-lo.

Sem perda de tempo, chegaram a casa de Rin.

Estacionaram no caminho do jardim quando Rin estava guardando suas malas.

— Olá, Rin! —saudou Sango— Aonde vai?

Ela olhou furiosa a Sesshomaru.

— Parto-me por uns dias.

— Onde? —perguntou-lhe sua amiga.

Rin não respondeu.

Sesshomaru saiu do carro e se aproximou dela. Ia arrumar as coisas, custasse o que custasse.

Rin jogou uma bolsa ao porta-malas e se afastou de Sesshomaru.

Ele a segurou por um braço.

— Não respondeste à pergunta.

Ela escapou de sua mão.

— E o que vais fazer, me bater se não o fizer? —disse-lhe, olhando-o com os olhos entrecerrados.

Sesshomaru se encolheu ante o evidente rancor.

— E porque vai partir ? —Então se deu conta. Rin estava custando horrores conter as lágrimas. Tinha os olhos úmidos e brilhantes. A culpa o assaltou — O sinto, Rin — murmurou enquanto cobria sua bochecha com a mão— Não pretendia te fazer dano.

Rin observou a batalha que mantinham o arrependimento e o desejo no rosto de Sesshomaru. Sua carícia era tão terna e tão suave… Por um instante, esteve a ponto de acreditar que, em realidade, ele se preocupava com ela.

— Eu também o sinto —sussurrou— Já sei que não tem culpa.

Ele soltou uma brusca e amarga gargalhada.

— Em realidade, tudo o que acontece é minha culpa.

— Né! Posso confiar em vós? —perguntou Sango.

Sesshomaru olhou a Rin com ardente intensidade, apanhando seu olhar e fazendo-a tremer.

— Quer que vá? —perguntou-lhe.

Não, não queria. Essa era a base de todo o problema. Não queria que voltasse a abandoná-la. Jamais.

Rin segurou as mãos de Sesshomaru entre as suas e as separou de seu rosto.

— Tudo está solucionado, Sango.

— Nesse caso, vou pra casa. Vemo-nos.

Rin apenas foi consciente de que sua amiga punha em marcha o carro e se afastava. Toda sua atenção estava posta no Sesshomaru.

— Agora me vais dizer aonde vai? —perguntou-lhe.

Pela primeira vez, desde que a polícia partiu, Rin sentiu que podia respirar. Com a presença de Sesshomaru, o medo se desvaneceu como a névoa sob o sol.

Sentia-se segura.

— Recorda o que te contei sobre o Jenine Carmichael?

Ele assentiu.

— Esteve aqui faz um momento. Ele… ele me inquieta.

A expressão gélida e severa que adotou o rosto de Sesshomaru a deixou atônita.

— Onde está agora?

— Não sei. Esfumaçou-se ao chegar a polícia. Por isso partia. Ia ficar em um hotel.

— Ainda quer partir?

Rin negou com a cabeça. Com ele ali, sentia-se completamente a salvo.

— Pegarei sua bolsa — lhe disse. Tirou-a e fechou o porta-malas.

Rin se encaminhou para a casa.

Passaram o resto do dia em uma aprazível solidão. Ao chegar a noite, tombaram-se diante do sofá, reclinados sobre as almofadas.

Rin apoiou a cabeça no duro ventre de Sesshomaru enquanto acaba de ler Peter Pan e fazia todo o possível para não distrair-se com o maravilhoso aroma que desprendia seu corpo. E com o maravilhosamente bem que estava, apoiada sobre seus abdome.

Tinha que utilizar-se de toda sua força de vontade para não dar volta e explorar os firmes músculos de seu torso com a boca.

Sesshomaru acariciava lentamente o cabelo enquanto a observava. Senhor, suas mãos faziam que ardesse a pele. Faziam desejar arrancar a roupa e saborear cada centímetro de seu corpo.

— Fim — disse ela, fechando o livro.

O abrasador olhar de Sesshomaru tirou o fôlego.

Estirou-se e arqueou levemente as costas, apoiando-se com mais força sobre ele.

— Quer que leia algo mais?

— Sim, por favor. Sua voz me relaxa.

Ela o olhou fixamente por um instante e, depois, sorriu. Não recordava que nenhum outro elogio tivesse significado tanto para ela como aquele.

— Tenho a maioria dos livros em meu quarto —disse enquanto ficava em pé— Vamos, mostrarei meu tesouro escondido e encontraremos algo que nós gostemos.

Seguiu-a escada acima.

Rin notou que Sesshomaru observava a cama com desejo e depois olhava a ela.

Fingiu não dar-se conta e abriu a porta do enorme closet. Ligou a luz e passou uma mão com carinho pelas estantes que seu pai tinha colocado tantos anos atrás.

Seu pai e seu melhor amigo o tinham passado o dia enquanto colocavam as estantes. Os dois eram professores, e tinha o quarto feito um desastre. Seu pai acabou com duas unhas negras antes de tudo estivesse terminado. Sua mãe não tinha deixado de rir e de chamar seu marido «carpinteiro profissional», mas a ele não parecia importar. A expressão de orgulho em seu rosto quando tudo esteve terminado, e os livros de Rin colocados nas estantes, ficou impressa para sempre no coração de sua filha.

Como adorava esse lugar. Aqui era onde realmente sentia o amor de seus pais. Aqui se refugiava e fugia dos problemas e sofrimentos que a perseguiam.

Cada livro guardado ali era uma lembrança especial, e todos eles formavam parte de seu mundo. Olhou a sua esquerda e viu Shanna, com a que tinha começado sua afeição à novela romântica. The Wolfling, a tinha introduzido na ficção científica. E seu adorado Bimbos do Sol Morto, sua primeira novela de mistério.

Também estavam ali as velhas novelas de seus pais, e as três cópias dos livros de texto que seu pai tinha escrito antes que ela nascesse.

Este era seu santuário e Sesshomaru era, sem contar a seus pais, a primeira pessoa que punha um pé nele.

— Leva tempo colecionando livros — comentou ele enquanto jogava uma olhada às estantes.

Ela assentiu.

— Foram meus melhores amigos enquanto crescia. Acredito que o amor pela leitura é o melhor presente que meus pais me deram —levantou o livro do Peter Pan— Este era de meu pai, de quando era menino. É minha posse mais apreciada.

Devolveu-o a uma das estantes e segurou um exemplar de Beleza Negra.

— Minha mãe me lia este uma e outra vez.

Fez um pequeno percurso, lhe mostrando seus livros.

— Rebeldes —sussurrou com adoração— Era meu livro favorito no instituto. Ah!, Junto com este, Pode demandar a seus pais por abuso de autoridade?

Sesshomaru riu.

— Já vejo que significam muito para ti. Ilumina-te o rosto quando falas deles.

Algo em seu olhar disse a Rin que ele estava pensando em outro modo de fazer que se iluminasse…

Tragando saliva ante a idéia, deu a volta e rebuscou na estante da direita, onde guardava os clássicos, enquanto Sesshomaru seguia olhando os da esquerda.

— O que te parece este? —perguntou-lhe ele, com uma de suas novelas românticas na mão.

Rin soltou uma risada nervosa ao ver o casal que se abraçava meio nua na capa.

— Senhor! Parece-me que não.

Ele olhou a capa e levantou uma sobrancelha.

— Certo —disse Rin lhe tirando o livro da mão— Tem descoberto meu mais profundo segredo. Sou uma viciada nas novelas românticas, mas o último que precisa é que te leia uma apaixonada cena de amor em voz alta. Muitíssimo obrigado, mas não.

Sesshomaru lhe olhou fixamente os lábios.

— Preferiria recriar uma apaixonada cena de amor contigo — disse em voz baixa, aproximando-se dela.

Rin começou a tremer. Tinha as costas pega a estante e não podia retroceder mais. Sesshomaru colocou um braço sobre sua cabeça e aproximou seu corpo ao dele, até deixá-los unidos. Então, baixou a cabeça e se aproximou de sua boca.

Rin fechou os olhos. A presença de Sesshomaru alagava todos seus sentidos. Rodeava-a de uma forma extremamente perturbadora.

Por uma vez, ele manteve as mãos quietas e se limitou a tocá-la tão somente com os lábios. Dava igual. A cabeça de Rin começou a girar de todos os modos.

Como tinha podido sua esposa escolher a outro homem tendo-o a ele? Como podia rechaçá-lo uma mulher em seu são julgamento? Este homem era o paraíso.

Sesshomaru aprofundou o beijo, explorando sua boca com a língua. Rin sentia os batimentos do coração de seu coração enquanto ele se aproximava ainda mais e seus músculos a envolviam.

Jamais tinha sido tão consciente da presença de outro ser humano. Ele a punha ao limite, a fazia experimentar sensações que não sabia que pudessem existir.

Sesshomaru se retirou um pouco e apoiou a bochecha sobre a de Rin. Seu fôlego caía sobre seu cabelo e lhe arrepiava a pele.

— Tenho alguns desejos horríveis de estar dentro de você, Rin —murmurou— Quero sentir suas pernas ao redor de meu corpo, sentir seus seios debaixo de mim, te escutar gemer enquanto faço amor lentamente. Quero que seu aroma fique impresso em meu corpo e que seu fôlego me queime a pele.

Todo seu corpo se esticou antes de separar-se dela.

— Mas já estou acostumado a desejar coisas que não posso ter — sussurrou.

Tocou-lhe o braço. Sesshomaru segurou sua mão, a levou aos lábios e depositou um rastro de pequenos beijos sobre os nódulos.

O desejo que se refletia em seu bonito rosto fazia que a Rin doesse todo o corpo.

— Busca um livro e me comportarei.

Engoliu em seco enquanto ele se afastava. Então, fixou-se em seu velho exemplar de Ilíada. Sorriu. Ia-lhe encantar, estava segura.

Segurou-o e baixou as escadas.

Sesshomaru estava sentado diante do sofá.

— Adivinha o que encontrei! —exclamou Rin excitada.

— Não tenho a mais remota idéia.

Ela o sustentou em alto e sorriu.

— A Ilíada!

Sesshomaru se animou imediatamente e as covinhas relampejaram em seu rosto.

— me cante, OH Deusa!

— Muito bem —respondeu ela, sentando-se a seu lado— E isto vais gostar ainda mais: é uma versão bilíngüe, com o original grego e a tradução inglesa.

E o deixou para que o visse.

A expressão de Sesshomaru foi quão mesma se lhe tivessem entregue o tesouro de um rei. Abriu o livro e imediatamente, seus olhos voaram sobre as páginas enquanto passava a mão reverentemente pelas folhas, cobertas com a antiga escritura grega.

Era incapaz de acreditar que estivesse vendo de novo seu idioma escrito, depois de tanto tempo. Fazia uma eternidade que não o lia em outro lugar que não fosse seu braço.

Sempre lhe tinham encantado A Ilíada e A Odisséia. De menino, tinha passado horas escondido atrás dos barracões, lendo pergaminhos uma e outra vez, ou escapulindo-se para escutar aos bardos na praça da cidade.

Entendia muito bem o que sentia Rin por seus livros. Ele tinha sentido o mesmo em sua juventude. A mais mínima oportunidade, escapava a seu mundo de fantasia, onde os heróis sempre triunfavam, os demônios e vilãos eram aniquilados, e os pais e as mães amavam a seus filhos.

Nas histórias não havia fome nem dor, a não ser liberdade e esperança. Foi através dessas histórias que aprendeu o que eram a compaixão e a ternura. A honra e a integridade.

Rin se ajoelhou junto a ele.

— Sente falta de seu lar, verdade?

Sesshomaru afastou o olhar. Só sentia falta de seus filhos.

Ao contrário que ao Kyrian, a luta nunca lhe tinha atraído. O fedor da morte e o sangue, os gemidos dos moribundos. Só tinha lutado porque era o que se esperava dele. E tinha liderado um exército porque, como bem disse Platão, cada ser humano está capacitado por natureza para realizar uma atividade a qual se entrega. Por sua natureza, Sesshomaru sempre tinha sido um líder e não podia seguir as ordens de ninguém.

Não, não sentia falta, mas…

— Foi tudo que conheci.

Rin roçou o ombro, mas foi a preocupação que refletiam seus olhos cinza o que a desarmou.

— Queria que seu filho fosse um soldado?

Ele negou com a cabeça.

— Jamais quis que trocassem sua juventude como ocorreu a tantos de meus homens —respondeu com a voz rouca— Bastante irônico, não é certo? Nem sequer teria permitido que jogasse com a espada de madeira que Kyrian lhe deu de presente em seu aniversário, nem tivesse deixado tocar a minha enquanto estivesse em casa.

Rin enlaçou as mãos em seu pescoço e atirou dele para aproximá-lo. Suas carícias eram tão incrivelmente relaxantes… Faziam que a solidão doesse ainda mais.

— Como se chamava?

Sesshomaru engoliu em seco. Não tinha pronunciado os nomes de seus filhos desde dia de sua morte. Não se tinha atrevido, mas, não obstante, queria compartilhá-los com Rin.

— Atolycus. Minha filha se chamava Callista.

Rin o olhou com um sorriso triste, como se compartilhasse sua dor pela perda.

— Tinham nomes preciosos.

— Eram meninos preciosos.

— Se pareciam em algo a ti, acredito.

Isso tinha sido o mais formoso que ninguém jamais lhe havia dito.

Sesshomaru lhe passou a mão pelo cabelo, deixando que as mechas se escorressem sobre sua palma. Fechou os olhos e desejou poder ficar assim para sempre.

O medo de ter que abandoná-la o estava destroçando. Nunca lhe tinha gostado da idéia de ser engolido por aquele desolado inferno que era o livro, mas agora, ao pensar que jamais voltaria a vê-la, que jamais voltaria a cheirar o doce aroma de sua pele, que suas mãos jamais voltariam a roçar o suave rubor de suas bochechas…

Não podia suportá-lo. Era muito.

Pelos deuses! E tinha acreditado até então que estava maldito…

Rin se afastou um pouco, beijou-o brandamente nos lábios e segurou o livro.

Sesshomaru tragou. Ela queria resgatá-lo e, pela primeira vez durante todos aqueles séculos, queria ser resgatado.

Estendeu-se no chão para que Rin pudesse apoiar a cabeça nele. Adorava senti-la assim. Sentir seu cabelo estendendo-se sobre os braços e o torso.

Estiveram estendidos no chão até as primeiras horas da madrugada, Sesshomaru a escutava enquanto lia a Odisséia e narrava as histórias do Aquiles.

Observava como o cansaço ia fazendo nela, mas continuava lendo. Finalmente, fechou os olhos e dormiu.

Sesshomaru sorriu e tirou o livro das mãos para deixá-lo a um lado. Acariciou-lhe a bochecha com a palma da mão durante um instante.

Não tinha sono. Não queria desperdiçar nem um segundo só do tempo que tinha para estar a seu lado. Queria contemplá-la, tocá-la. Absorvê-la. Porque entesouraria essas lembranças durante toda a eternidade.

Nunca tinha passado uma noite assim: deitado tranqüilamente no chão junto a uma mulher, sem que ela montasse seu corpo e lhe exigisse que a tocasse e a possuísse.

Em sua época, os homens e as mulheres não estavam acostumados passar muito tempo juntos. Durante as temporadas que passou em seu lar, Kagura lhe falava em raras ocasiões. De fato, não tinha demonstrado muito interesse nele.

Pelas noites, quando a buscava, não o rechaçava. Mas, não obstante, não estava ansiosa por suas carícias. Sempre tinha conseguido enrolá-la para que seu corpo lhe respondesse apaixonadamente, mas não assim seu coração.

Deslizou as mãos pelo cabelo negro de Rin, extasiado pela sensação de ter entre os dedos. Seu olhar se deteve sobre seu anel. Brilhava tenuamente, captando a escassa luz da estadia.

Em sua mente, via-o coberto de sangue. Recordava como lhe cravava no dedo enquanto brandia a espada em meio de uma batalha. Esse anel o tinha significado tudo para ele, e não lhe tinha resultado fácil consegui-lo. O tinha ganho com o suor de sua frente e com numerosas feridas que sofreu seu corpo. Havia-lhe lado muito, mas tinha merecido a pena.

Durante um tempo foi respeitado, embora não o amassem. Em sua vida como mortal, isso tinha sido essencial.

Suspirando, jogou a cabeça para trás para apoiar-se na almofada do sofá que tinha posto sobre o chão e fechou os olhos.

Quando por fim se deslizou entre as neblinas do sonho, não foram os rostos do passado os que povoaram sua mente, foi a imagem de alguns claros olhos cinza que riam com ele, de uma negra juba que se esparramava por seu peito e de uma voz suave que lia palavras que lhe pareciam familiares embora, de algum modo, estranhas.

Rin se espreguiçou languidamente ao despertar. Abriu os olhos e se surpreendeu ao dar-se conta de que tinha a cabeça sobre o abdômen de Sesshomaru. Ele tinha a mão enterrada em seu cabelo e, pela respiração relaxada e profunda, soube que ainda estava dormindo.

Levantou o olhar para seu rosto. Tinha uma expressão tranqüila, quase infantil.

E então foi consciente de algo: não tinha tido o pesadelo. Tinha dormido toda a noite.

Sorrindo, tentou levantar-se muito devagar para não despertá-lo.

Não funcionou. Logo que levantou a cabeça, Sesshomaru abriu os olhos e a abrasou com um intenso olhar.

— Rin — disse em voz baixa.

— Não queria te despertar.

Ela assinalou as escadas com o polegar.

— Ia acima me dar uma ducha. Deveria fechar a porta?

Percorreu-a com olhos ardentes.

— Não, acredito que posso me comportar.

Ela sorriu.

— Parece-me que já ouvi isso antes.

Sesshomaru não respondeu.

Rin subiu e se deu uma ducha rápida.

Uma vez que acabou, foi a seu quarto e se encontrou a Sesshomaru deitado na cama, folheando sua exemplar de Ilíada.

Olhou-a com expressão absorta ao dar-se conta de só levava posta uma toalha. Um lascivo sorriso fez que suas covinhas aparecessem em todo seu esplendor, e a temperatura do corpo de Rin ascendeu vários graus.

— Vou colocar uma roupa e…

— Não — lhe disse com tom autoritário.

— Que não o que? —perguntou incrédula.

A expressão de Sesshomaru se suavizou.

— Preferiria que te vestisse aqui.

— Sesshomaru …

— Por favor.

Rin ficou muito nervosa ante a petição. Jamais tinha feito algo assim em sua vida. E se sentia envergonhada.

— Por favor, por favor… — voltou a lhe rogar com um leve sorriso.

Que mulher lhe diria que não a uma expressão como essa?

Olhou-o com receio.

— Não te atreva a rir — disse enquanto abria vacilante a toalha.

Sesshomaru olhou seus seios com olhos famintos.

— Pode estar completamente segura de que a risada é o último que me passa pela mente nestes momentos.

E então, levantou-se da cama e se aproximou da cômoda, onde Rin guardava a roupa interior, com os movimentos graciosos de um predador. Um estranho calafrio percorreu as costas de Rin enquanto observava como a mão de Sesshomaru rebuscava entre suas calcinha até encontrar as de seda negra que Sango tinha feito compra de brincadeira.

Sesshomaru as tirou e se ajoelhou no chão diante dela, com toda a intenção de ajudá-la a colocar. Sem fôlego e totalmente entregue à sedução, Rin olhou seu cabelo prateado enquanto levantava uma perna para deixar que passasse a calcinha pelo pé.

Depois de suas mãos, que deslizavam a seda subindo por sua perna, seus lábios deixavam um caminho de beijos que a fizeram estremecer-se. Para maior devastação de todos seus sentidos, abriu as mãos e as colocou sobre suas coxas com os dedos totalmente estendidos. E o que foi ainda pior, uma vez que a calcinha esteve colocada em seu lugar, acariciou-a levemente entre as pernas antes de afastar-se.

Continuando, tirou o sutiã negro.

Como um pulso sem vontade própria, deixou que o pusesse. As mãos de Sesshomaru roçaram os mamilos, enquanto grampeava o gancho dianteiro, uma vez fechado, deslizou-as sob o cetim e a acariciou com deleite, arrepiando a pele.

Sesshomaru inclinou a cabeça e capturou seus lábios. Podia sentir o fogo consumindo-o, lhe exigindo que a possuísse. Exigindo-lhe que aliviasse a dor de sua virilha embora fosse por um instante.

Rin gemeu quando ele aprofundou o beijo e se deixou levar por completo. Sesshomaru a levantou em braços para estendê-la sobre a cama. De forma instintiva, rodeou a cintura com as pernas e gemeu ao sentir os duros abdominais pressionando sobre seu sexo.

Sesshomaru passou as mãos pelas costas. A visão de seu corpo úmido e nu estava gravada a fogo em sua mente. Tinha chegado a um ponto sem retorno quando um brilho de luz cega iluminou o quarto.

Com os olhos doloridos pelo resplendor, Sesshomaru se separou dela.

— Foi você? —perguntou ela sem fôlego, olhando-o entusiasmada.

Risonho, Sesshomaru negou com a cabeça.

— Oxalá me pudesse atribuir isso, mas estou bastante seguro de que tem outra origem.

Deu uma olhada à habitação e seus olhos se detiveram sobre a cama. Piscou.

Não podia ser…

— O que é isso? —perguntou Rin, girando-se para olhar a cama.

— É meu escudo — respondeu Sesshomaru, incapaz de acreditá-lo.

Fazia séculos que não via seu escudo. Atônito, contemplou-o fixamente. Estava no centro da cama e emitia débeis brilhos sob a luz.

Conhecia cada entalhe e arranhão que havia nele, recordava cada um dos golpes que os tinham produzido.

Temeroso de estar sonhando, esticou o braço para tocar o relevo em bronze de Athena e sua coruja.

— E sua espada também?

Sesshomaru segurou a mão antes que pudesse tocá-la.

— Essa é a Espada do Cronos. Não a toques jamais. Se alguém que não levar seu sangue a toca, sua pele ficará marcada para sempre com uma terrível queimadura.

— Sério? —perguntou, baixando-se da cama para afastar-se da espada.

— Sério.

Rin olhou à cama com o cenho franzido.

— O que fazem aqui?

— Não sei.

— E quem as enviou?

— Não sei.

— Pois não me está ajudando muito.

Sesshomaru não pareceu captar seu sarcasmo. Em lugar de dar-se por irritado, Rin o observou contemplar seu escudo. Passava a mão sobre ele como um pai que olhe com adoração a um filho a tempo perdido.

Segurou sua espada e a depositou no chão, debaixo da cama.

— Não esqueça que está aqui — disse muito sério— Tenha muito cuidado de não tocá-la.

Sua expressão se voltou mais carrancuda ao incorporar-se. Olhou de novo o escudo.

— Deve ser obra de minha mãe. Só ela ou um de seus filhos poderiam enviar isso — Claro.

— E por que ia fazer o?

Sesshomaru entrecerrou os olhos enquanto recordava o resto da lenda que rodeava a sua espada.

— Estou seguro de que enviou minha espada se por acaso tenho que me enfrentar com o Narak. A Espada do Cronos também é conhecida como a Espada da Justiça. Não acabará com sua vida, mas fará que ocupe meu lugar no livro.

— Está falando a sério?

Sesshomaru assentiu.

— Posso tocar o escudo?

— Claro.

Rin passou a mão sobre as incrustações douradas e negras que formavam a imagem de Athena e a coruja.

— É muito bonito — disse, maravilhada.

— Kyrian o mandou fazer quando me nomearam General Supremo.

Rin acariciou a inscrição gravada sob a figura de Athena.

— O que diz aqui?

— «A morte antes que a desonra» — disse com um nó na garganta.

Sesshomaru sorriu com melancolia ao recordar ao Kyrian junto a ele durante as batalhas.

— O escudo do Kyrian dizia: «Os despojos para o vencedor». Estava acostumado a me olhar antes da luta, e dizer: «Você leva a honra, adelfos, e eu fico com os despojos».

Rin permaneceu em silencio ao escutar o estranho tom de sua voz. Tentando imaginar sua aparência com o escudo em alto, aproximou-se um pouco mais.

— Kyrian? O homem que foi crucificado?

— Sim.

— Apreciava-o muito, verdade?

Ele sorriu com tristeza.

— Levou-lhe um tempo acostumar-se a mim. Eu tinha vinte e três anos quando seu tio o atribuiu a minha tropa, depois de me advertir concisamente do que me aconteceria se deixava que Sua Alteza fosse ferido.

— Era um príncipe?

Sesshomaru assentiu.

— E não tinha medo de nada. Apenas se chegava aos vinte anos e lutava ou se metia em brigas sem estar preparado, sem acreditar que pudessem fazer dano. Dava-me a sensação de que cada vez que me dava a volta, tinha que tirá-lo a força de algum estranho contratempo. Mas resultava muito difícil não apreciá-lo. Apesar de seu caráter exaltado, tinha um grande senso de humor e era completamente leal. —Passou a mão pelo escudo - Oxalá tivesse estado ali para poder salvá-lo dos romanos.

Grace lhe acariciou o braço em um gesto pormenorizado.

— Estou segura de que os dois juntos teriam sido capazes de sair de qualquer atoleiro.

Os olhos de Sesshomaru se iluminaram ao escutá-la.

— Quando nossos exércitos partiam juntos, éramos invencíveis. —Esticou a mandíbula ao olhá-la — Era questão de tempo que Roma fosse nossa.

— por que depreciavam tanto ao Império Romano?

— Jurei que destruiria Roma no mesmo dia que conquistaram Primária. Kyrian e eu fomos enviados para ajudá-los na luta, mas quando chegamos era muito tarde. Os romanos tinham rodeado a cidade e tinham assassinado grosseiramente a todas as mulheres e aos meninos. Jamais tinha visto uma carnificina semelhante. —Seu olhar se obscureceu — Estávamos tentando enterrar aos mortos quando os romanos fizeram uma emboscada.

Rin ficou gelada ao escutá-lo.

— O que ocorreu?

— Derrotei ao Livius e estava a ponto de matá-lo no momento em que interveio Priapus. Lançou um raio a meu cavalo e caí no meio das tropas romanas. Estava seguro de ia morrer quando Kyrian apareceu do nada. Fez retroceder Livius até que pude me pôr em pé de novo. Livius chamou a seus homens em retirada e desapareceu antes que pudéssemos acabar com ele.

Rin foi consciente da proximidade de Sesshomaru. Estava atrás dela, tão perto que podia sentir o calor que emanava dele. Colocou os braços em ambos lados de seu corpo, apanhando-a entre ele e a cama, e se apoiou sobre suas costas.

Ela apertou os dentes ante a ferocidade do desejo que a invadiu. Sesshomaru não a estava tocando, mas seus sentidos estavam tão afetados como se suas mãos a acariciassem. Ele inclinou a cabeça e mordiscou o pescoço.

A sensação de sua língua sobre a pele conseguiu que todos seus hormônios cobrassem vida. Arqueou as costas enquanto um estremecimento percorria os seios. Se não o detinha…

— Sesshomaru — balbuciou, sua voz não conseguiu transmitir a advertência que pretendia.

— Sei —sussurrou ele— Vou me dar uma ducha fria.

Enquanto saía do quarto, Rin o escutou grunhir uma palavra em voz baixa:

— Sozinho.

Depois de tomar o café da manhã, Rin decidiu ensinar a conduzir.

— Isto é ridículo — protestou Sesshomaru enquanto Rin estacionava no estacionamento do instituto.

— Venha já! —burlou-se ela — Não sente curiosidade?

— Não.

— Que não?

Sesshomaru suspirou.

— Esta bem, um pouco.

— Bom, então imagina as histórias sobre a grande besta de aço que conduziu ao redor de um estacionamento que poderá lhes contar a seus homens quando retornar a Macedônia.

Sesshomaru a olhou perplexo.

— Isso significa que está de acordo com que me parta?

Não, quis gritar. Mas em lugar disso, suspirou. No fundo, sabia que jamais poderia pedir que abandonasse tudo o que tinha sido para ficar com ela.

Sesshomaru da Macedônia era um herói. Uma lenda.

Jamais poderia ser um homem de caráter tranqüilo do século vinte e um.

— Sei que não posso fazer que fique comigo. Não é um cachorrinho abandonado que me seguiu a casa.

Sesshomaru se esticou ao escutá-la. Tinha razão. Por isso resultava tão difícil abandoná-la. Como podia separar-se da única pessoa que o via como a um homem?

Não sabia por que queria ensiná-lo a conduzir, mas, de todas as formas, notava que se sentia feliz compartilhando seu mundo com ele. E, por alguma razão que não queria analisar muito a fundo, gostava de fazê-la feliz.

— Muito bem. Ensina-me a dominar a esta besta.

Rin saiu do carro para que Sesshomaru pudesse sentar-se no assento do condutor.

Logo que Sesshomaru se sentou, ela fez uma careta ao ver um homem de quase um metro noventa, encolhido para poder acomodar-se em um assento disposto para uma mulher de um e cinqüenta e cinco.

— Sinto muito, me esqueci de mover o assento.

— Não posso me mover nem respirar, mas não se preocupe, estou bem.

Ela riu.

— Há uma alavanca sob o assento. Puxe-a e poderá movê-lo para trás.

Sesshomaru o tentou, mas o espaço era tão estreito, que não a alcançava.

— Espere, eu o farei.

Jogou a cabeça para trás quando Rin se inclinou por cima de sua coxa e apertou os seios sobre sua perna para lhe passar o braço entre os joelhos. Seu corpo reagiu imediatamente, endurecendo-se e começando a arder.

Quando ela apoiou a bochecha sobre sua virilha ao puxar a alavanca, Sesshomaru pensou que estava a ponto de morrer.

— Deste-te conta de que está na posição perfeita para…?

— Sesshomaru! —exclamou ela, retrocedendo para ver o avultamento de seu jeans. Seu rosto adquiriu um brilhante tom vermelho — O sinto.

— Eu também — respondeu ele em voz baixa.

Infelizmente, ainda tinha que mover o assento, assim Sesshomaru se viu forçado a suportar a postura uma vez mais.

Apertando os dentes, levantou um braço e se segurou ao encosto com força. Era o único que podia fazer para não ceder a selvagem luxúria.

— Está bem? —perguntou ela, uma vez que colocou o assento em seu lugar e voltou para dele.

— Claro! —respondeu ele com tom sarcástico — Tendo em conta que caminhei sobre brasas que resultaram menos dolorosas que o que está suportando neste momento minha virilha, estou fenomenal.

— Já te pedi perdão.

Ele a olhou fixamente.

Rin deu alguns tapinhas no braço.

— Venha, chega bem aos pedais?

— eu adoraria chegar até os teus…

— Sesshomaru! —exclamou de novo Rin. Era um homem verdadeiramente libidinoso — Quer te concentrar?

— De acordo, já me estou concentrando.

— Em meus seios, não.

Sesshomaru baixou o olhar para o colo de Rin.

— Nem aí tampouco.

Para sua surpresa, fez um beicinho semelhante ao de um menino zangado. A expressão era tão estranha nele que Rin não teve mais remedeio que rir de novo.

— OK —disse ela— O pedal que está a sua esquerda, é a embreagem, o do meio é o freio e o da direita, o acelerador. Lembra-te do que te explicado sobre eles?

— Sim.

— Bem. Agora, o primeiro que tem que fazer é apertar a embreagem e colocar a marcha. —E dizendo isto, colocou a mão sobre a alavanca de mudanças, situada entre os dois assentos, e ensinou como devia movê-la.

— Sério, Rin. Não deveria acariciar isso dessa forma diante de mim. É uma crueldade por sua parte.

— Sesshomaru! Importaria de prestar atenção? Estou tentando te ensinar a mudar de marcha.

Ele soprou.

— Queria que me trocasse as marchas do mesmo modo.

Com um brilho malicioso nos olhos, soltou a embreagem antes da conta e o carro pulou.

— supõe-se que isto não deveria acontecer, verdade? —perguntou.

— Não, a menos que queira ter um acidente.

Ele suspirou e o tentou de novo.

Uma hora mais tarde, depois que tivesse saído para dar uma volta ao redor do estacionamento sem golpear os postes e sem que o carro ficasse danificado, Rin se deu por vencida.

— Menos mal que foi melhor general que condutor.

— Ha, ha — exclamou ele sarcasticamente, mas com um brilho no olhar que indicou a Rin que não estava ofendido — Quão único alegarei em minha defesa é que o primeiro veículo que conduzi foi um carro de guerra.

Rin lhe sorriu.

— Bom, nestas ruas não estamos em guerra.

Com um olhar cético, respondeu:

— Eu não diria isso depois de ter visto as notícias da noite. —Desligou o motor — Acredito que deixarei que conduza um momento.

— Muito inteligente por sua parte. Não posso me permitir comprar um carro novo de nenhuma forma.

Saiu do carro para mudar de assento, mas ao cruzar-se à altura do porta-malas, Sesshomaru a sustentou para dar um beijo tão tórrido que ela acabou enjoada. Segurou-lhe as mãos e as sustentou sobre seus estreitos quadris enquanto mordiscava seus lábios.

Santo Deus! Uma mulher podia acostumar-se a isso com muita facilidade. Muita, muita facilidade.

Sesshomaru se separou.

— Quer me levar a casa para que te mordisque outras coisas?

Sim, isso era o que queria. E por isso não se atrevia. De fato, o beijo a tinha deixado tão transtornada que não podia nem pensar.

Sesshomaru sorriu ante o olhar extraviado e faminto de Rin. Estava observando seus lábios como se ainda pudesse saboreá-los. Nesse momento, desejou-a mais que nunca. Desejou poder arrancar o elástico do cabelo e deixar que seu cabelo se esparramasse sobre seu peito, uma vez estivesse estendida sobre ele.

Como desejava estar de volta em sua casa onde pudesse tirar a bermuda e escutar seus doces murmúrios de prazer enquanto o…

— O carro — disse ela, piscando como se despertasse de um sonho— íamos entrar no carro.

Sesshomaru deu um pequeno beijo na bochecha.

Uma vez dentro do carro e com os cintos de segurança fechados, Rin o olhou de soslaio.

— Sabe uma coisa? Acredito que há duas coisas em Nova Orleans que deveria experimentar.

— Em primeiro lugar, tenho que te possuir em um…

— É que não vai parar?

Sesshomaru limpou a garganta.

— Está bem. Qual é sua lista?

— Bourbon Street e a música moderna. E de uma delas nos podemos encarregar agora mesmo. —E ligou o rádio.

Riu ao reconhecer Hot Blooded do Foreigner. O que apropriado, dado seu passageiro.

Sesshomaru o escutou, mas não pareceu muito impressionado.

Rin trocou a emissora.

Ele franziu o cenho.

— O que tem feito?

— Troquei de emissora. Quão único terá que fazer é apertar os botões.

Ele brincou e trocou de emissora um momento, até que encontrou Love Hurts do Nazareth.

— Sua música é interessante.

— Faz ter saudades da tua casa?

— Dado que a maioria da música que escutava procedia das trompetistas e os tambores que nos acompanhavam à batalha, não. Acredito que sou capaz de apreciar isto.

— O que? —perguntou ela brincalhona — A música ou o fato de que o amor faz mal?

O rosto de Sesshomaru adquiriu uma expressão séria, deixando de lado o humor.

— Considerando que não conheci nunca o que é o amor, não saberia te dizer se fizer mal ou não. Mas imagino que ser amado não deve fazer tanto dano como não sê-lo.

O peito de Rin se encolheu ante suas palavras.

— Então — disse ela trocando de tema—, o que quer fazer quando retornar a sua casa?

— Não sei.

— Provavelmente irá dar uma boa patada no traseiro ao Scipio, verdade?

Ele riu ante a idéia.

— Isso eu gostaria.

— por quê? O que te fez?

— cruzou-se em meu caminho.

Vale, não era isso o que ela esperava escutar.

— E você não gosta que ninguém cruze em seu caminho, certo?

— Gosta a ti?

Ela pesou a pergunta antes de responder.

— Suponho que não.

Para quando chegaram ao Bourbon Street, a rua tinha sido invadida pela multidão típica de um domingo pela tarde. Rin enxugou o rosto, lutando contra o intenso calor.

Olhou a Sesshomaru, que apenas suava, as gotinhas de suor conferiam um novo atrativo. O cabelo úmido frisava ao redor do rosto e com esses óculos obscuros… Ooooh, Senhor!

É obvio que seu atrativo ficava ainda mais enfatizado graças à camiseta branca, de mangas curtas, que aderia aos ombros e ao tablete de chocolate que tinha por abdominais. Enquanto deixava que seu olhar vagasse até o botão de seu jeans, desejou haver comprado alguns mais largos.

Mas dado seu sedutor modo de andar, que dizia muito a respeito de sua confiança em si mesmo, Rin duvidava muito de que uns jeans mais largos pudessem ocultar tão tremenda sensualidade.

Sesshomaru deteve o passar junto a um clube de strip-tease. A seu favor Rin teve que admitir que nem sequer ofegou ao olhar às mulheres tão escandalosamente vestidas, que rebolavam depois do vidro, mas sua surpresa foi bastante evidente.

Olhando-lhe como se queria devorá-lo, uma exótica bailarina mordeu o lábio inferior e passou a língua por ele de forma sugestiva, enquanto tocava os seios. Fez-lhe um gesto com um dedo para que entrasse em local.

Sesshomaru se deu a volta.

— Alguma vez tinha visto algo assim, verdade? —perguntou Rin, tentando dissimular o mal-estar que sentia ante os gestos da mulher, e o alívio que a invadiu ao ver a reação de Sesshomaru.

— Roma — respondeu simplesmente.

Ela riu.

— Não eram tão decadentes, ou sim?

— Surpreenderia saber quanto. Pelo menos aqui ninguém faz uma orgia em… —e sua voz se perdeu ao passar junto a um casal que estava ......... em uma esquina— Deixa-o.

Rin riu a gargalhadas.

— Ooooh Senhor! —exclamou uma prostituta, ao passar junto a outro clube, fazendo um gesto a Sesshomaru — Entra e faço isso grátis.

Ele meneou a cabeça sem deter-se. Rin o segurou da mão e o deteve.

— Comportavam-se assim as mulheres antes da maldição?

Ele assentiu.

— Por isso o único amigo que tive foi Kyrian. Os homens que conhecia não podiam agüentar a atenção que me davam, as mulheres me perseguiam ali onde estivéssemos tentando me arrancar a armadura.

Rin se deteve pensar por um momento.

— E você não está seguro de que todas essas mulheres de amassem, verdade?

Olhou-a com uma faísca de diversão.

— O amor e a luxúria não são o mesmo. Como pode amar a alguém a quem não conhece?

— Suponho que tem razão.

Seguiram caminhando pela rua.

— Me conte coisas sobre seu amigo. Por que não importava que as mulheres ficassem com a boca aberta ao ver-te?

Sesshomaru sorriu, mostrando suas covinhas.

— Kyrian estava profundamente apaixonado por sua esposa, e não importava nenhuma outra mulher. Jamais me viu como um competidor.

— Conheceu sua esposa?

Sesshomaru negou com a cabeça.

— Embora nunca falamos, acredito que os dois intuíamos que seria uma má idéia.

Rin percebeu a mudança em seu rosto. Estava recordando ao Kyrian, seguro.

— Culpa-te pelo que passou, verdade?

Ele apertou os dentes enquanto imaginava o que devia haver sentido seu amigo ao ser capturado pelos romanos. Considerando a vontade que tinham tido de apanhá-los, não havia dúvida do que o tinham feito sofrer antes de matá-lo.

— Sim —respondeu em voz baixa— Sei que tenho culpa. Se não tivesse despertado a ira do Narak, teria estado ali para ajudar Kyrian a lutar contra eles.

E sabia com absoluta certeza que a desgraça do Kyrian provinha do fato de ter sido tão estúpido para ser seu amigo.

Lançou um suspiro.

— Uma vida brilhante que não deveria ter acabado assim. Se tão somente tivesse aprendido a controlar sua ousadia, teria chegado a ser um magnífico governador — disse, agarrando a mão de Rin e lhe dando um ligeiro apertão.

Caminharam em silêncio, enquanto Rin tentava pensar no modo de animá-lo.

Ao passar pela Casa do Vudu de Marie Laveau, ela se deteve e o arrastou ao interior.

Explicou os origens do vudu enquanto percorriam o museu de miniaturas.

— Uuuh! —disse agarrando um boneco de vodu de uma estante — Quer vesti-lo como Narak e cravar alguns alfinetes?

Sesshomaru riu.

— por que não imaginar que é Jenine Carmichael?

Rin suprimiu um sorriso.

— Isso seria muito pouco profissional por minha parte, não é certo?... Mas me resulta muito tentador.

Deixou o boneco em seu lugar e se fixou no mostrador de vidro, onde estavam colocados os amuletos e a bijuteria. No centro, havia um colar de contas negras, azuis e verdes, trançadas de um modo tão intrincado que davam à sensação de ser um fino fio negro.

— Traz boa sorte a quem o leva — disse a vendedora ao perceber o interesse de Rin— Gostaria de ver de perto?

Rin assentiu.

— Funciona?

— Sim! Está traçado seguindo um poderoso desenho.

Rin não estava muito segura de que devesse acreditar, mas então recordou que, fazia apenas uma semana, jamais teria acreditado que duas mulheres bêbadas pudessem devolver à vida a um general Macedônio.

Pagou à mulher e se aproximou de Sesshomaru.

— Te agache —disse.

Ele a olhou com ceticismo.

— Vamos! —apressou ela — me dê o gosto, anda.

A vendedora riu ao ver Rin colocar o amuleto no pescoço de Sesshomaru.

— Esse menino não necessita nenhum tipo de sorte para aumentar seu encanto. O que precisa é um feitiço que disperse a atenção de todas essas mulheres que estão olhando o traseiro agora que está agachado.

Rin olhou por cima do ombro de Sesshomaru e observou a três mulheres que babavam ao olhar o traseiro. Pela primeira vez, sentiu um horrível golpe de ciúmes.

Mas a sensação se evaporou por completo quando Sesshomaru deu um carinhoso beijo na bochecha antes de incorporar-se. Com um olhar diabólico, passou um braço ao redor dos ombros em um gesto possessivo.

Ao passar junto às mulheres, Rin não pôde suprimir um travesso impulso. Deteve-se junto a elas e as interpelou.

— Por certo, nu está muitíssimo melhor.

— E você que não perde oportunidade de comprová-lo, carinho - comentou Sesshomaru enquanto punha os óculos de sol e começava a andar com o braço ainda sobre seus ombros.

Passou-lhe a mão pela cintura e a meteu no bolso dianteiro da calça, enquanto ele a atraía mais para seu corpo.

— Sabe uma coisa? —sussurrou ao ouvido — Se baixasse a mão um pouquinho mais, não me importaria absolutamente.

Deu-lhe um pequeno apertão, mas deixou a mão onde estava.

Os olhares de inveja das mulheres os perseguiram enquanto se afastavam caminhando pela calçada.

Para jantar, Rin levou Sesshomaru a Marisqueria do Mike Anderson. Fez uma careta ao ver que depositavam um prato de ostras para o Sesshomaru sobre a mesa.

— Ow! —exclamou ela quando ele comeu uma.

Muito ofendido, Sesshomaru soprou.

— Estão deliciosas.

— Eu não acho.

— Isso é porque não sabe como tem que as comer.

— Claro que sei. Abre a boca e deixa que esse inseto viscoso se deslize por sua garganta.

Sesshomaru bebeu um gole de sua cerveja.

— Essa é uma forma de comer.

— Assim acaba de fazê-lo você.

— Certo, mas você não gostaria de provar outro modo?

Ela mordeu o lábio, indecisa. Algo no comportamento de Sesshomaru indicava que podia ser perigoso aceitar seu desafio.

— Não sei.

— Confia em mim?

— Não muito — soprou ela.

Ele se deu de ombros e deu outro gole à cerveja.

— Você perde isso.

— Ok, está bem! —rendeu-se ela, muito curiosa para continuar negando-se — Mas se me derem ânsias, recorda que adverti isso.

Sesshomaru puxou a cadeira de Rin e com os pés até colocá-la a seu lado, tão perto que suas coxas se roçavam. Secou as mãos nos jeans, e segurou a ostra menor.

— Muito bem então — sussurrou ao ouvido e passou o outro braço pelos ombros— Joga a cabeça para trás.

Rin obedeceu. Ele deslizou os dedos por sua garganta, causando uma onda de calafrios. Ela tragou, surpreendida pela ternura de suas carícias. Surpreendida pelo bem que se sentia com ele a seu lado.

— Abre a boca — disse em voz baixa, enquanto roçava o pescoço com o nariz.

Ela voltou a obedecer.

Sesshomaru deixou que a ostra escorregasse até sua boca. Quando Rin a tragou e começou a descer por sua garganta, Sesshomaru passou a língua por seu pescoço em direção contrária.

Rin se estremeceu ante a inesperada sensação. Os mamilos endureceram e um milhão de calafrios percorreu sua pele. Era incrível! E pela primeira vez, não importou para nada o sabor da ostra.

— Gostou? —perguntou brincalhão.

Ela não pôde evitar sorrir.

— É incorrigível.

— Isso tento.

— E o consegue às mil maravilhas.

Antes que Sesshomaru pudesse responder, soou seu telefone móvel.

— Puf! —soprou enquanto o tirava da bolsa. Quem quer que fosse já podia ter algo importante que dizer.

Respondeu.

— Rin?

Ela se encolheu ao escutar a voz do Jenine.

— Senhor Carmichael, como conseguiu este número de telefone?

— Estava anotado em seu Rodolex. Vim a sua casa ver-te, mas não está —e suspirou— Estava desejando passar o dia contigo. Temos uma conversação pendente. Mas não passa nada. Posso me reunir contigo, está no Bairro Francês com sua amiga a vidente?

O medo a paralisou.

— Como conhece minha amiga?

— Sei muitas coisas de ti, Rin. Mmm! —resmungou em voz baixa— Perfuma as gavetas de sua roupa íntima com perfume de rosas.

O terror a possuiu por completo e não pôde mover-se. Começaram a lhe tremer as mãos.

— Está em minha casa?

Podia ouvir como abria e fechava as gavetas de sua cômoda, através do telefone. De repente, o moço soltou uma maldição.

— Puta —espetou Jenine— Quem é ele? Com quem diabos estiveste deitando?

— Isso…

A comunicação se cortou.

Rin estava tremendo, tanto que apenas podia respirar quando desligou o telefone.

— O que acontece? —perguntou Sesshomaru, com o cenho franzido pela preocupação.

— Jenine está em minha casa — disse com voz tremente. Marcou imediatamente o número da polícia para notificá-lo.

— Encontraremo ali — informou o agente— Não entre em seu domicílio até que cheguemos.

— Não se preocupe, não o farei.

Sesshomaru segurou as mãos.

— Está tremendo.

— Não me diga! Resulta que tenho a um psicopata metido em minha casa, farejando minha lingerie e me insultando. Por que ia tremer?

Seus olhos de um âmbar profundo a tranqüilizaram com um olhar protetor. Apertou-lhe as mãos brandamente.

— Sabe que não vou permitir que te faça mal.

— Agradeço muito, Sesshomaru. Mas este homem está…

— Morto se aproxima de ti. Sabe que não te abandonarei.

— Pelo menos não até a próxima lua cheia.

Sesshomaru afastou o olhar e ela assimilou a verdade.

— Não passa nada —disse ela com valentia— Posso me encarregar disto, de verdade. Estive sozinha durante anos. Esta não é a primeira vez que um cliente me incomoda. E duvido muito que vá ser o último.

Os olhos de Sesshomaru lançaram labaredas âmbares quando a olhou.

— Quantos de seus pacientes já lhe incomodaram?

— Não é seu problema, a não ser o meu.

Sesshomaru seguiu olhando-a como se estivesse a ponto de estrangulá-la.

Oi meninas, quando tempo, desculpe a demora e que estou estudando e estou meio enrolada. Beijos e espero que gostem do capitulo e comentem, e se tiver algum errinho me desculpem beijos.