CAPÍTULO 15

Sesshoumaru manteve a distância entre eles o que ficava do fim de semana. Por muito que Rin tentava derrubar a barreira que o rodeava, ele a afastava sem duvidá-lo.

Nem sequer queria que lhe lesse.

Totalmente desconsolada, foi ao trabalho na segunda-feira pela manhã, mas nem sequer deveria haver-se incomodado em ir à consulta. Não podia concentrar-se em outra coisa que não fossem seus celestiais olhos azuis, carregados de confusão.

— Rin?

Rin levantou o olhar do escritório e viu uma mulher, incrivelmente formosa, de pouco mais de vinte anos que estava parada no vão da porta. Parecia que acabava de sair de um desfile de modas na Europa, com aquele traje de seda vermelha do Armani e as meias e os sapatos a jogo.

— Sinto-o —lhe disse Rin— Minha hora de visitas acabou. Se quiser voltar amanhã…

— Tenho aspecto de necessitar a uma sexóloga?

Ao primeiro olhar, não. Mas claro, Rin tinha aprendido há muito tempo a não fazer julgamentos apressados sobre os problemas das pessoas.

Sem que a convidasse, a mulher entrou tranqüilamente a sua sala com um andar presunçoso e elegante que lhe parecia estranhamente familiar. Caminhou para a parede onde estavam pendurados os títulos e certificados de Grace.

— Impressionante — lhe disse. Mas seu tom expressava justamente o contrário.

Voltou-se para observar concisamente a Rin e, pela careta zombadora em seu rosto, esta soube que a mulher a encontrava seriamente deficiente.

— Não é o bastante formosa para ele, sabe? Muito baixa e muito rechonchuda. E onde encontraste esse vestido?

Completamente ofendida, Rin adotou uma postura rígida.

— Como diz?

A mulher ignorou sua pergunta.

— me diga, não te incomoda estar perto de um homem como Sesshoumaru, sabendo que se tivesse oportunidade, jamais quereria estar contigo? Tem um corpo tão bem formado, é tão elegante… Tão forte e cruel… Sei que nunca antes tiveste atrás de ti um homem como ele, e jamais voltará ao ter.

Atônita, Rin não era capaz de falar.

E tampouco teve que fazê-lo, a mulher seguiu sem deter-se.

— Seu pai era como ele. Imagine a Sesshoumaru com o cabelo prateado, um pouco mais baixo e de aparência mais vulgar, não tão refinado. Mas ainda assim, esse homem tinha umas mãos que… Mmm… —Sorriu pensativamente, com o olhar perdido— É obvio Diocles tinha todo o corpo marcado por horríveis cicatrize das batalhas, tinha uma espantosa que lhe atravessava a bochecha esquerda. —Entrecerrou os olhos com ira— Jamais esquecerei o dia que tentou marcar a Sesshoumaru com uma adaga, para lhe fazer essa mesma cicatriz. Nesse momento desejei que vivesse o suficiente para arrepender-se dessa infração, mas me assegurei de que não o fizesse. Sesshoumaru é fisicamente perfeito, e jamais permitirei que ninguém danifique a beleza que eu lhe dei. —A fria e calculadora olhada que Afrodite dedicou a Rin fez que esta se estremecesse.

— Não compartilharei a meu filho contigo.

A possessividade das palavras da deusa despertou a ira de Rin. Como se atrevia a aparecer agora e a dizer tal coisa?

— Se Sesshoumaru significa tanto para ti, por que o abandonou?

Afrodite a olhou, furiosa.

— Acredite que me deixaram outra opção? Zeus se negou a lhe dar a ambrosia, nenhum mortal pode viver no Olimpo. Antes que pudesse sequer protestar, Hermes me tirou ele dos braços e o entregou a seu pai.

Rin viu o horror no rosto da Afrodite ao recordar aquele momento.

— Minha dor por sua perda ia além dos limites humanos. Inconsolável, encerrei-me para me afastar de tudo. Quando fui capaz de enfrentar a todos eles de novo, tinham passado quatorze anos na terra. Apenas reconheci ao bebê que eu tinha amamentado. E ele me odiava. —Seus olhos brilharam como se estivesse lutando por conter as lágrimas.

- Não tem idéia do que é ser mãe, e que esse filho que levaste em seu ventre amaldiçoe até seu próprio nome.

Rin compreendia sua dor, mas era a Julian a quem amava, e seu sofrimento era o que mais lhe preocupava.

— Alguma vez tentou lhe dizer como se sentia?

— É obvio que o fiz —espetou a deusa— Enviei Inuyasha com meus presentes. Devolveu-me, com uma mensagem que um filho não deveria lhe dizer a sua mãe jamais.

— Estava ferido.

— E eu também — gritou Afrodite. Todo seu corpo tremia de fúria.

Desconfiada e bastante assustada pelo que uma deusa zangada pudesse fazer com ela, Rin observou como Afrodite fechava os olhos e respirava fundo para acalmar-se.

Quando voltou a falar, fez com voz dura e o corpo tenso.

— Ainda assim, enviei de novo Inuyasha com mais presentes para o Sesshoumaru. Rechaçou-os todos. Vi-me obrigada a presenciar como jurava lealdade e serviço a Athena em vingança. —Resmungou o nome da deusa como se a desprezasse.

- Foi em seu nome que conquistou cidades com os dons que eu lhe outorguei quando nasceu: a força de Ares, a moderação do Apolo e as benções das Musas e as Graças. Inclusive o inundei no rio Styxx para me assegurar de que nenhuma arma humana pudesse matá-lo ou deixá-lo marcado e, a diferença do que fez Thetis com o Aquiles, afundei também seus tornozelos para que não tivesse nem um só ponto vulnerável. —Meneou a cabeça como se ainda não pudesse acreditar o que Sesshoumaru fez.

- Fiz tudo o que esteve em minhas mãos por esse menino, e ele não me demonstrou a mais mínima gratidão. Nem o respeito que merecia. Finalmente, deixei de tentá-lo. Já que rechaçava meu amor, assegurei-me de que ninguém o amasse jamais.

O coração de Rin se deteve o escutar o egoísmo da deusa.

— Que fez o que?

Afrodite levantou o queixo, altiva, como uma rainha orgulhosa de seus frite e sangrentas façanhas.

— Amaldiçoei-lhe do mesmo modo que ele o fez comigo. Assegurei-me de que nenhuma mulher humana pudesse olhá-lo sem desejar seu corpo, e de que todo homem que estivesse a seu redor o invejasse profundamente.

Rin não podia acreditar o que estava ouvindo. Como podia uma mãe ser tão cruel?

E logo que esse pensamento se afastou de sua mente, assaltou-a outro ainda mais horrível:

— Você foi a culpado de que Kagura morresse, verdade?

— Não, isso foi obra de Sesshoumaru. É obvio que eu estava enfurecida quando Inuyasha me contou o que tinha feito por seu irmão, e também porque Sesshoumaru tinha ido a ele e não a mim.

- Já que não podia desfazer o que a flecha do Eros tinha conseguido, decidi diminuir seus efeitos. O que Sesshoumaru teve com o Kagura foi algo insípido, e ele sabe. —Afrodite se aproximou até a janela e contemplou a cidade.

- Se Sesshoumaru tivesse ido a mim alguma vez, teria deixado que Kagura o amasse. Mas não o fez. Observei-o aproximar-se dela, noite atrás noite, tomando-a uma e outra vez, e percebi seu mal-estar, sua angústia porque sabia que sua esposa não o amava. E ainda seguia me rechaçando e me amaldiçoando.

- Foram as lágrimas que derramei por ele ao longo dos anos o que pôs ao Narak em seu contrário. Sempre foi o mais leal de meus filhos. Devia detê-lo logo que soube que queria o sangue de Sesshoumaru, mas não o fiz. Ansiava que a ira do Narak conseguisse que Sesshoumaru me buscasse e implorasse minha ajuda. —Apertou os dentes.

- Mas não o fez.

Rin compreendia sua dor, mas isso não mudava o que lhe tinha feito a seu filho.

— Como é que Sesshoumaru acabou sendo amaldiçoado?

A deusa engoliu em seco.

— Tudo começou a noite que Athena contou ao Narak que não existia outro homem mais valente e forte que Sesshoumaru. Ela o desafiou a enfrentar a seu melhor general com o Sesshoumaru. Dois dias mais tarde, contemplei como Sesshoumaru cavalgava para a batalha e soube que não perderia. Quando venceu ao exército romano, Narak se enfureceu.

- Inuyasha deu com a língua nos dentes e lhe contou o que tinha feito. Imediatamente, Narak foi em busca de Jasão e Kagura. Eu não sabia as repercussões que ia ter. —envolveu a cintura com os braços.

- Nunca tive intenção de que os meninos morressem. Não imagina as vezes que me pergunto ao fim do dia por que deixei que ocorresse aquilo.

— Não houve nenhum modo de evitá-lo?

Afrodite negou tristemente com a cabeça.

— Inclusive meus poderes estão limitados pelas Parcas. Quando Sesshoumaru se dirigiu a meu templo, depois de vê-los todos mortos, contive o fôlego pensando que por fim ia em busca de minha ajuda. E então viu essa porca com a túnica do Narak que se jogou em seus braços e lhe pediu que tomasse sua virgindade antes que tivesse lugar a cerimônia em que seria reclamada por meu outro filho. Se Sesshoumaru tivesse pensado com claridade, sei que a teria rechaçado. —O rosto da deusa escureceu pela fúria.

- Se não tivesse sido por Alexandria, esse dia meu filho tivesse vindo a mim. Sei que teria pedido minha ajuda. Mas era muito tarde. Tudo acabou no mesmo momento em que se derramou nela.

— E ainda assim te negou a ajudá-lo?

— Como podia escolher entre dois de meus filhos?

Rin se horrorizou ante a pergunta.

— E não foi isso o que fez quando permitiu que encerrassem a Sesshoumaru em um pergaminho?

Os olhos da Afrodite brilharam com tal malícia que Rin deu um passo atrás.

— Sesshoumaru foi quem me rechaçou. Tudo o que tinha que fazer era me pedir ajuda e eu a teria dado.

Rin não podia acreditar o que estava ouvindo. Para ser uma deusa, Afrodite era bastante egoísta e sem nenhum sentido.

— Toda esta tragédia porque nenhum dos dois quis rebaixar-se a suplicar ao outro. Não posso acreditar que concedesse a Sesshoumaru a força de Ares e logo o amaldiçoara por essa força que você mesma lhe outorgou. Em lugar de esperá-lo ou de enviar a outros em seu nome, não te ocorreu alguma vez ir em pessoa?

Afrodite a olhou furiosa e indignada.

— Eu sou a Deusa do Amor, como quer que me arraste? Tem a mais ligeira idéia de quão embaraçoso é para mim que meu próprio filho me odeie?

— Embaraçoso? Tem ao resto do mundo para te amar. Sesshoumaru não tem a ninguém.

Afrodite se aproximou dela, furiosa.

— te afaste dele. Advirto-lhe isso.

— por quê? Por que me ameaça quando não o fez com Kagura?

— Porque ele não a amava.

Rin ficou paralisada.

— Está me dizendo…?

A deusa se esfumou.

— Venha já! —gritou Rin olhando ao teto— Não pode te esfumaçar em meio de uma conversa!

— Rin?

A voz do Ayame fez que desse um coice. Girando-se imediatamente, viu-a aparecendo pela porta.

— Com quem está falando? —perguntou-lhe Ayame.

Rin fez um gesto abrangendo a sala e depois pensou que não seria muito inteligente lhe dizer a sua companheira a verdade.

— Comigo mesma.

Rin a olhou sem acreditar.

— Tem o costume de gritar a ti mesma?

— Às vezes.

Ayame levantou uma de suas escuras sobrancelhas.

— Parece-me que necessita uma sessão — comentou enquanto se afastava.

Fazendo caso omisso de sua companheira, Rin não perdeu tempo em recolher suas coisas. Estava desejando chegar a casa para ver o Sesshoumaru.

Logo que abriu a porta soube que algo ia mal. Sesshoumaru não saiu a recebê-la.

— Sesshoumaru? —chamou-o.

— Vamos.

Rin deixou as chaves e o correio sobre a mesa, e subiu os degraus de dois em dois.

— Não vais acreditar quem passou hoje pela… —sua voz se desvaneceu ao chegar à porta de seu dormitório e ver o Sesshoumaru com uma mão encadeada as barras da cama, estendido no centro do colchão, sem camisa e com a frente coberta de suor.

— O que está fazendo? —perguntou-lhe morto de medo.

— Não posso lutar mais, Rin —lhe respondeu respirando entrecortadamente.

— Tem que tentá-lo.

Ele meneou a cabeça.

— Necessito que me encadeie a outra mão. Não chego.

— Sessh…

Ele a interrompeu com uma amarga e brusca gargalhada.

— Não é irônico? Tenho que te pedir que me encadeie quando todas as demais o faziam livremente às poucas horas de me apresentar diante delas. —Olhou-a diretamente aos olhos— Faz, Rin. Não poderia seguir vivendo se te fizesse mal.

Com o coração em um punho, ela cruzou o quarto até chegar junto à cama.

Quando esteve bastante perto, Sesshoumaru esticou o braço e acariciou sua bochecha. Aproximou-a até ele e a beijou, tão profundamente que Rin pensou que ia deprimir-se.

Foi um beijo feroz e exigente. Um beijo que falava de desejo. E de promessas.

Sesshoumaru mordiscou seus lábios e a afastou.

— Faz.

Rin passou o grilhão de prata pelas barras da cabeceira.

O alívio de Sesshoumaru foi evidente. Até esse momento, Rin não se deu conta de quão tenso tinha estado durante na semana anterior. Apoiou a cabeça no travesseiro e, com dificuldade, respirou fundo.

Rin se aproximou e lhe passou uma mão pela frente.

— Deus santo! —ofegou. Estava tão quente que quase lhe fez uma queimadura— O que posso fazer?

— Nada, mas obrigado por perguntar.

Rin foi para o closet em busca de sua roupa. Quando começou a desabotoá-la blusa, Sesshoumaru a deteve.

— Por favor, não o faça diante de mim. Se vir seus seios… —Jogou a cabeça para trás como se alguém lhe tivesse aplicado um ferro escaldante.

Rin foi consciente nesse momento de quão acostumada estava a sua presença, não tinha pensado em despir-se em outro lado.

— Sinto — se desculpou.

Trocou-se no banheiro e molhou umas toalhas para colocar-lhe na frente.

Voltou para o quarto para refrescá-lo.

Acariciou-lhe o cabelo, empapado de suor.

— Está ardendo.

— Sei. Sinto-me como se estivesse em um leito de brasas.

Gemeu quando Rin lhe aproximou a toalha fria.

— Não me contaste que tal te foi o dia — lhe disse sem fôlego.

Rin ofegou ao sentir que o amor e a felicidade a invadiam. Todos os dias Sesshoumaru o fazia essa pergunta. Todos os dias contava as horas para retornar pra casa junto a ele.

Não sabia o que ia fazer quando partisse.

Obrigando-se a não pensar nisso, concentrou-se em cuidá-lo.

— Não há muito que contar — sussurrou. Não queria curvá-lo com o que sua mãe lhe tinha confessado. Não enquanto estivesse assim. Já o tinham ferido o bastante, e não seria ela a que aumentasse sua dor— Tem fome? —perguntou-lhe.

— Não.

Rin se sentou a seu lado. Passou toda a noite lhe lendo e refrescando-o.

Sesshoumaru não dormiu. Não pôde. Só era consciente da pele de Rin quando o tocava e de seu doce perfume floral. Invadia seus sentidos e fazia que a cabeça lhe desse voltas. Todas as fibras de seu corpo lhe exigiam que a possuísse.

Com os dentes apertados, puxou as correntes de prata que capturavam seus pulsos e lutou contra a escuridão que ameaçava devorá-lo. Não queria render-se.

Não queria fechar os olhos e desperdiçar o pouco tempo que ficava para estar junto a Rin enquanto ainda estivesse cordato. Se deixava que a escuridão o consumisse não despertaria até estar de volta no livro. Sozinho.

— Não posso perdê-la — murmurou. A simples idéia de perdê-la fazia pedaços o pouco que ficava de coração.

O relógio de parede deu três. Rin tinha dormido fazia muito pouco. Tinha a cabeça e a mão apoiadas sobre seu abdômen e seu fôlego lhe acariciava o estômago.

Podia sentir seu cabelo lhe roçando a pele, a calidez de seu corpo filtrando-se por seus poros até lhe chegar à alma.

O que daria de poder tocá-la…

Fechou os olhos, jogou a cabeça para trás e se permitiu sonhar pela primeira vez há séculos. Sonhou passando noites inteiras junto a Rin.

Sonhou que chegava o dia em que podia amá-la como se merecia. Um dia em que ele seria livre para poder entregar-se a ela. Sonhou em ter um lar junto a Rin.

E sonhou com meninos de alegres olhos chocolates, e doces e travessos sorrisos.

Ainda estava sonhando quando a luz do amanhecer começou a filtrar-se pelas janelas e o relógio deu seis. Rin despertou.

Esfregou a bochecha sobre seu peito, acariciando o de tal modo que para o Sesshoumaru supôs uma tortura.

— bom dia — o saudou sorridente.

— bom dia.

Rin se mordeu o lábio ao passear o olhar sobre seu corpo e enrugou a frente pela preocupação.

— Está seguro que temos que fazer isto? Não te posso libertar um pouco?

— Não! —exclamou com ênfase.

Rin segurou o telefone e marcou o número da consulta para falar com o Ayame.

— Não irei por uns dias, pode atender alguns de meus pacientes?

Sesshoumaru franziu o cenho ao escutá-la.

— É que não vai trabalhar? —perguntou-lhe assim que pendurou.

Rin não podia acreditar que lhe fizesse essa pergunta.

— E te deixar aqui tal como está?

— Estarei bem.

Ela o olhou como se tornou completamente louco.

— E se passasse algo?

— Como o que?

— Pode haver um incêndio ou alguém pode entrar e te fazer qualquer coisas enquanto está aí indefeso.

Sesshoumaru não discutiu. Entusiasmou-lhe o fato de vê-la tão disposta a ficar junto a ele.

No meio da tarde, Rin foi testemunha de que a maldição piorava. Cada centímetro do corpo de Sesshoumaru estava coberto de suor. Os músculos dos braços estavam totalmente tensos e logo que falava, quando o fazia, apertava os dentes.

Mas seguia olhando-a com um sorriso, e seus olhos eram quentes e alentadores enquanto seus músculos se contraíam com contínuos espasmos e suportava o sofrimento que ameaçava devorando-o.

Rin seguiu refrescando-o, mas logo que aproximava a toalha a sua pele se esquentava tanto que logo que não era capaz de tocá-la depois.

Quando chegou a meia-noite Sesshoumaru delirava.

Observou impotente como se agitava e amaldiçoava como se um ser invisível estivesse lhe arrancando a pele a tiras. Rin nunca tinha visto algo assim. Estava lutando tanto que quase temia que derrubasse a cama.

— Não posso suportar isto — sussurrou. Baixou correndo as escadas e chamou a Sango.

Uma hora depois, Rin abriu a porta a Sango e a sua irmã Kikyo. Com o cabelo negro, Kikyo não se parecia em nada a Sango. Era uma das poucas sacerdotisas brancas de vudu, tinha uma loja de artigos mágicos e era guia turística pelo cemitério as sextas-feiras de noite.

— Não sabem quanto lhes agradeço que tenham vindo — lhes disse Rin ao fechar a porta, uma vez passaram ao saguão.

— Não é nada — lhe respondeu Sango.

Kikyo levava um timbal sob o braço e ia vestida com um singelo vestido marrom.

— Onde está?

Rin as levou ao andar superior.

Kikyo pôs um pé no quarto e ficou paralisada ao ver o Sesshoumaru sobre a cama preso de contínuas convulsões e amaldiçoando a todo o panteão grego.

A cor abandonou seu rosto.

— Não posso fazer nada por ele.

—Kikyo —a repreendeu Sango— Tem que tentá-lo.

Com os olhos abertos como pratos pelo medo, Kikyo meneou a cabeça.

— Quer um conselho? Sela este quarto e deixa-o até que retorne de onde veio. Há algo tão maligno e poderoso observando-o que não me atrevo a lhe fazer frente. —Olhou a Sango— Não percebe o ódio?

Rin começou a tremer ao escutar a Kikyo, e seu coração começou a pulsar cada vez mais rápido.

— Sango? —chamou a sua amiga. Necessitava desesperadamente que alguém aliviasse o sofrimento de Sesshoumaru de algum modo. Tinha que haver algo que elas pudessem fazer.

— Sabe que não posso lhe ajudá-lo - disse Sango— Meus feitiços nunca funcionam.

Não! Gritou sua mente. Não podiam abandonar o daquele modo.

Olhou a Sesshoumaru enquanto este lutava por libertar-se dos grilhões.

— Há alguém a quem pode ir em busca de ajuda?

— Não —respondeu Kikyo— De fato, nem sequer posso permanecer aqui. Não te ofenda, mas tudo isto me põe os cabelos em ponta. —Lançou um olhar categórico a sua irmã— E você sabe muito bem a que tipo de atrocidades me enfrento diariamente.

— Sinto muito, Rin —se desculpou Sango, lhe acariciando o braço— Investigarei e verei o que posso descobrir, de acordo?

Com o coração em um punho, Rin não teve mais remédio que as acompanhar à porta.

Quando a fechou, deixo-se cair sobre ela com cansaço.

O que ia fazer?

Não podia limitar-se a aceitar que não havia ajuda possível para o Sesshoumaru. Tinha que haver algo que pudesse aliviar sua dor. Algo no que ela ainda não tivesse pensado.

Subiu as escadas e voltou junto a ele.

— Run? — Sesshoumaru a chamou com um gemido tão agônico que seu coração acabou de fazer-se aos pedaços.

— Estou a seu lado, carinho — lhe disse, lhe acariciando a frente.

Ele deixou escapar um grunhido selvagem, como o de um animal preso em uma armadilha, e se lançou sobre ela.

Aterrorizada, Rin se afastou da cama.

Dirigiu-se ao closet, com as pernas trementes, e segurou o exemplar da Odisséia.

Aproximou a cadeira de balanço à cama e começou a ler.

Pareceu relaxá-lo. Ao menos não se revolvia com tanta força.

Com o passo dos dias, a esperança de Rin se murchava. Sesshoumaru estava no certo ao afirmar que não havia modo algum de romper a maldição se não conseguia superar a loucura.

Não podia suportar vê-lo sofrer, horas atrás hora, sem nenhum momento de alívio. Não era de se admirar que odiasse a sua mãe. Como podia Afrodite deixá-lo passar por isso sem mover um só dedo para ajudá-lo?

E tinha sofrido daquele modo durante séculos…

Rin estava totalmente fora de si.

— Como podem permiti-lo! —gritou zangada, olhando ao teto.

— Inuyasha! —chamou-lhe— Me ouve? Athena? Há alguém? Como permitem que sofra assim? Se o amarem um pouco, por favor, ajudem.

Tal e como esperava, ninguém respondeu.

Deixou descansar a cabeça sobre a mão e tentou pensar em algo que pudesse ajudá-lo. Certamente haveria algo que…

Uma luz cegadora atravessou o quarto.

Perplexa, levantou o olhar e se encontrou com a Afrodite que acabava de materializar-se junto à cama. Se tivesse encontrado com um burro na cozinha não se surpreendeu tanto.

A deusa perdeu a cor do rosto ao contemplar como seu filho se revolvia, agitado pelos espasmos, sofrendo uma horrível agonia. Esticou uma mão para ele e a retirou com brutalidade, deixando-a cair enquanto apertava o punho.

Nesse momento olhou a Rin.

— Quero-lhe — disse em voz baixa.

— Eu também.

Afrodite cravou o olhar no chão, mas Rin foi testemunha de sua luta interior.

— Se o liberto, separará-o de mim para sempre. Se não o fizer, as duas o perderemos. —Afrodite a olhou aos olhos— estive pensando a respeito do que me disse e acredito que tem razão. O fiz forte e jamais devia castigá-lo por isso. Quão único desejava é que me chamasse mãe. —Olhou a seu filho.

— Só queria que me quisesse, Sesshoumaru. Um pouquinho, nada mais.

Rin engoliu em seco ao ver a dor no rosto da Afrodite quando acariciou a mão de Sesshoumaru.

Ele gemeu, como se o roçar lhe tivesse queimado a pele.

Afrodite retirou a mão.

— me prometa que o cuidará muito, Rin.

— Tanto como ele me permita isso, prometo-o.

Afrodite assentiu e colocou a mão sobre a frente de Sesshoumaru. Ele jogou a cabeça para trás, como se acabasse de ser alcançado por um raio. A deusa inclinou a cabeça e o beijou com ternura nos lábios.

Imediatamente, Sesshoumaru se relaxou e seu corpo ficou imóvel.

Os grilhões se abriram e ainda assim não se moveu. O coração de Rin deixou de pulsar ao dar-se conta de que Sesshoumaru não respirava. Aterrorizada, esticou uma tremente mão para tocá-lo.

Ele inspirou com brutalidade.

Enquanto Afrodite estendia a mão para o Sesshoumaru, Rin percebeu em seus olhos a necessidade de sentir o amor de um filho que nem sequer sabia que estava ali. Era o mesmo olhar ofegante que freqüentemente captava nos olhos de Sesshoumaru quando ele não era consciente de que o estava observando.

Como era possível que duas pessoas que se necessitavam tão desesperadamente não fossem capazes de arrumar as coisas?

Afrodite desapareceu no mesmo instante que Sesshoumaru abriu os olhos.

Rin se aproximou dele. Tremia tanto que batia os dentes. A febre tinha desaparecido e sua pele estava tão fria como o gelo.

Recolheu o edredom do chão e o cobriu com ele.

— O que passou? —perguntou Sesshoumaru com voz insegura.

— Sua mãe te liberou.

Julian pareceu emudecer pela surpresa.

— Minha mãe? Esteve aqui?

Rin assentiu com a cabeça.

— Estava preocupada contigo.

Sesshoumaru não podia acreditar o que estava escutando. Seria certo?

Mas, por que sua mãe ia ajudar agora se sempre havia lhe virado as costas quando mais a tinha necessitado? Não tinha sentido.

Com o cenho franzido, tentou baixar-se da cama.

— Não, nem pensar —disse Rin com brutalidade— Acabo de fazer que ponha bem e não vou a…

— Preciso ir ao banheiro urgentemente — a interrompeu ele.

— Ah!

Rin o ajudou a descer da cama. Estava tão fraco que não se agüentava em pé e ela o sustentou até atravessar o corredor. Sesshoumaru fechou os olhos e inalou o doce aroma de Rin. Temeroso de lhe fazer dano, tentou não apoiar-se muito nela.

Seu coração se enterneceu ao ver a forma em que ela o cuidava, ao perceber a sensação de seus braços lhe envolvendo a cintura enquanto o ajudava a caminhar.

Sua Rin. Como ia suportar separar-se dela?

Uma vez atendeu suas necessidades, lhe preparou um banho quente e o ajudou a meter-se na banheira.

Sesshoumaru a contemplou enquanto o lavava. Parecia-lhe impossível que tivesse permanecido a seu lado todo aquele tempo. Não recordava quase nada dos últimos dias, mas se lembrava do som de sua voz atravessando a escuridão para reconfortá-lo.

Tinha-a ouvido pronunciar seu nome a gritos e, em ocasiões, estava seguro de haver sentido sua mão sobre a pele, ancorando-o à prudência.

Suas carícias tinham sido sua salvação.

Fechando os olhos, desfrutou da sensação das mãos de Rin deslizando-se sobre sua pele enquanto o lavava. Percorriam-lhe o peito, os braços e o abdômen. E quando roçaram acidentalmente sua ereção, não pôde evitar dar um coice ante a intensidade com a que percebeu a carícia.

Como a desejava…

— me beije — balbuciou Sesshoumaru.

— Não será perigoso?

Lhe sorriu.

— Se pudesse me mover já estaria comigo na banheira. Asseguro-te que neste momento estou tão indefeso como um bebê.

Vacilante, ela umedeceu os lábios e lhe acariciou uma mão, seu roçar foi suave e terno. Olhou-o fixamente aos lábios como se pudesse devorá-lo, e Sesshoumaru sentiu que o frio desaparecia ao contemplar seus olhos.

Rin se inclinou e o beijou com ânsia. Ele gemeu ao sentir seus lábios, desejava muito mais. Necessitava suas carícias.

Para sua surpresa, obteve o que desejava.

Rin se afastou um instante de seus lábios, o suficiente para tirar a roupa e ficar nua ante ele. Lentamente e com movimentos sedutores, meteu-se na banheira e se sentou escarranchado sobre sua cintura.

Sesshoumaru voltou a gemer ao sentir seu pêlo púbico sobre o estômago. Rin o beijou de novo, tão ardentemente que ele acreditou que se abrasava.

Maldição, nem sequer podia abraçá-la! Não podia mover os braços. E necessitava com desespero rodeá-la com força.

Ela deveu perceber sua frustração porque se incorporou com um sorriso.

— Agora, me toca te mimar — sussurrou antes de enterrar os lábios em seu pescoço.

Fechou os olhos enquanto Rin deixava um rastro de beijos sobre seu peito. Quando chegou ao mamilo tudo começou a lhe dar voltas ao sentir a língua de Rin brincando e sugando-o. Nada tinha conseguido estremecê-lo do modo que o faziam suas carícias. Não recordava nenhuma ocasião em que alguém tivesse feito o amor a ele.

E nenhuma mulher se entregou daquele modo. Nem lhe tinha dado tanto.

Conteve a respiração no momento que ela introduziu a mão entre seus corpos.

— Oxalá pudesse te fazer o amor — sussurrou Sesshoumaru.

Ela levantou a cabeça para olhá-lo aos olhos.

— Faz cada vez que me toca.

Sem saber como, conseguiu abraçá-la, embora os braços não deixavam de lhe tremer, e a atraiu para seu peito para reclamar seus lábios.

Escutou-a tirar o plugue com o pé enquanto aprofundava o beijo ainda mais e atormentava com leves carícias seu membro inchado.

Sesshoumaru sentiu vertigem ao notar a mão dela sobre seu membro. Ansiava suas carícias, desejava-as de um modo que não era capaz de definir.

Uma vez que a banheira se esvaziou, Rin abandonou seus lábios para lhe abrasar a pele com diminutos beijos, descendo pelo peito. Sesshoumaru jogou a cabeça para trás e a apoiou no bordo enquanto lhe passava a língua pelo estômago e o quadril.

E então, para sua surpresa, levou seu membro à boca. Ele grunhiu e lhe sujeitou a cabeça com ambas as mãos, deleitando-se nas sensações que provocavam a língua e a boca de Rin, lambendo e rodeando seu membro. Nenhuma outra mulher tinha feito isso antes. Limitaram-se a tomar o que podiam dele, sem lhe oferecer nada em troca.

Até que Rin chegou.

Sua boca arrasou com as brechas de seu bom senso e venceu o pouco que ficava de sua resistência. Tremia-lhe todo o corpo pela ternura que ela estava demonstrando.

— Sinto-o — se desculpou Rin, afastando-se dele— Outra vez está tremendo de frio.

— Não é pelo frio —lhe respondeu com voz rouca— É por ti.

O sorriso de Rin lhe atravessou o coração. Voltou a inclinar-se e prosseguiu com seu implacável assalto.

Quando terminou, Sesshoumaru acreditou ter sofrido uma intensa sessão de tortura. Não poderia sentir-se mais satisfeito embora não tivesse chegado ao clímax.

Rin o ajudou a sair da banheira. Ainda lhe tremiam as pernas e teve que apoiar-se nela para chegar à habitação.

Ela o sustentou até que esteve deitado e, depois, cobriu-o com todas as mantas que encontrou. Depositou um beijo terno sobre sua frente e acomodou a roupa da cama.

— Tem fome?

Sesshoumaru só foi capaz de assentir com a cabeça.

Ela se separou de seu lado o tempo para esquentar um tigela de sopa. Quando retornou, ele estava profundamente adormecido.

Deixou a tigela na mesinha de noite e se deitou junto a ele. Abraçou-o e ficou adormecida.

Sesshoumaru demorou três dias para recuperar toda sua força. Durante todo esse tempo, Rin esteve a seu lado. Ajudando-o.

Não compreendia o motivo da devoção que lhe professava. E sua força. Era a mulher que tinha esperando toda sua vida. E com cada dia que passava, era consciente de que o amor que sentia por ela crescia um pouco mais. Necessitava-a seu lado.

— Tenho que dizer-lhe - disse a si mesmo enquanto se secava com uma toalha. Não podia permitir que passasse um dia mais sem que ela soubesse o que significava para ele.

Deixou o banheiro e atravessou o corredor até chegar ao dormitório de Grace. Estava falando com a Sango.

— É obvio que não lhe contei o que sua mãe me disse. Jesus!

Sesshoumaru retrocedeu um passo e se apoiou contra a parede enquanto escutava a Rin.

— O que se supõe que devo lhe dizer? «Por certo, Sesshoumaru, sua mãe me ameaçou»?

Ele sentiu que acabavam de lhe dar um golpe no peito e começou a ver tudo negro. Entrou no quarto.

— Quando falaste com minha mãe? —inquiriu.

Rin levantou o olhar, surpreendida.

— Isto… Sam, tenho que desligar. Adeus. —Deixou o fone em seu lugar.

— Quando falaste com ela? —insistiu.

Rin encolheu os ombros descuidadamente.

— O dia que começou a te sentir mal.

— O que te disse?

Ela voltou a encolher os ombros, esta vez com acanhamento.

— Não foi uma verdadeira ameaça, só me disse que não te compartilharia comigo.

A ira o atravessou. Como tinha se atrevido! Quem demônios sua mãe acreditava que era para exigir que Rin ou ele mesmo a obedecessem?

Que imbecil tinha sido ao pensar que o coração da Afrodite se abrandou.

Quando ia aprender?

— Sesshoumaru — o repreendeu Rin, ficando em pé e aproximando-se dele, ao pé da cama—, ela mudou. Quando veio a te libertar…

— Não, Rin —a interrompeu— A conheço muito melhor que você.

E sabia do que sua mãe era capaz. Sua crueldade fazia que as ações de seu pai parecessem meras travessuras.

Com o coração abatido, compreendeu que jamais poderia confessar a Rin o que sentia por ela.

E o que era ainda pior, não podia ficar com ela. Se algo tinha aprendido a respeito dos deuses era que jamais o deixariam viver em paz.

Quanto tempo demorariam para fazer mal a Rin? Quanto tempo lhe levaria ao Narak pô-la contra ele? Ou quando se vingaria sua mãe de ambos?

Cedo ou tarde, cobrariam-lhe por ser feliz. Não lhe cabia a menor duvida. E a simples idéia de que Rin pudesse sofrer…

Não. Jamais poderia arriscar-se.

Os dias passaram voando enquanto eles permaneciam tanto tempo juntos como lhes resultava possível.

Sesshoumaru ensinou a Rin cultura clássica grega e algumas formas muito interessantes de desfrutar de do Reddi-wip e calda de chocolate. Rin lhe ensinou a despejar ao contrário no Monopólio e a ler em inglês.

Depois de mais algumas aulas de condução, e de uma nova embreagem, Rin reconheceu que Sesshoumaru não tinha futuro à frente de um volante.

A Rin parecia que mal tinha passado o tempo e, entretanto, o último dia do prazo de Sesshoumaru chegou tão rápido que a deixou aterrorizada.

A noite anterior a esse fatídico dia, fez o mais surpreendente dos descobrimentos: não podia viver sem Sesshoumaru.

Cada vez que pensava em retomar sua antiga vida, sem ele, acreditava morrer de dor.

Mas finalmente compreendeu que a decisão era de Sesshoumaru, e só dele.

— Por favor, Sesshoumaru — lhe sussurrou enquanto ele dormia a seu lado.

Não me abandone.

Bem Domingo, não sei à hora que irei postar, mas esse domingo será o ultimo dia que o sesshy e a rin ficaram juntos e depende dele decidir ficar com ela ou volta para a época dele.

Nota: Reddi-wip e uma cobertura, e uma delicia pode se usar com tudo eu disse TUDO.