Capítulo I – Como criar um personagem sem conhecer o ambiente em que ele vive?
Como o dia está lindo hoje... Ah, Deus, tenho que deixar de ser tão sarcástica.
A verdade é que o dia está nublado e garoando; não tem nada de lindo. A não ser que você seja um vampiro... Sendo assim, dizer que o dia está lindo é algo fático. Entretanto, ficar divagando sobre esse tema não é que realmente me interessa, mas sim conseguir escrever mais que um parágrafo no Word de meu notebook.
Engraçado é que quando não posso escrever tenho muitas ideias sobre diferentes temas e ainda consigo fazer linhas de raciocínio diferentes umas das outras, de uma forma que fique coerente com a estória principal. Só que, para variar, eu simplesmente "travo" quando necessito dar andamento a uma ideia inicial de alguma estória, desenrolando ela e seus personagens dentro daquilo planejado com antecedência.
Felizmente isto não ocorre com frequência... Eu estaria falida, caso acontecesse.
Resmunguei enquanto tomava um gole de café. Abençoado café que mantém o cérebro funcionando em uma manhã chuvosa de segunda-feira. Isto me faz lembrar que quebrei meu mandamento de nunca trabalhar nas manhãs de segundas-feiras. Odeio segundas pela manhã, e odeio ainda mais quando o tempo implora para ficarmos debaixo das cobertas... No entanto, para meu desgosto, essa vida bandida nos faz estar sentados, trabalhando.
- Mais café, Kagome?
Encarei a garçonete, Usagi, e ergui a caneca para que ela pudesse a preencher com o líquido salvador da pátria dos preguiçosos.
- Parece zangada.
- Frustrada é o termo correto.
- Algo que posso ajudar?
Sorri e tomei um longo gole de café. Ela não poderia me ajudar, a não ser que soubesse como escrever como um homem executivo de um renomada família rica reagiria se fosse quase atropelado por uma garota. Claro que eu não ia falar isso para ela, e foi essa a razão de eu procurar uma resposta mais educada par dar:
- Acho que não, mas obrigada, Usagi.
Ela retribui meu sorriso e se afastou para atender outro cliente. Tudo bem, tudo bem, sei que estão pensando.
Trabalhando em uma lanchonete?
Sim, este é meu local de trabalho... Quer dizer, mais ou menos... Eu sou escritora e moro do outro lado da rua. Vir aqui escrever permite que eu observe as pessoas e, com isso, consigo criar personagens mais humanos - ou ao menos eu me esforço para isso. Ficar trancafiada em casa escrevendo estórias com personagens "eu sou o ser mais perfeitinho do universo" não é para mim. Faz parte do ser humano não ser perfeito e você só consegue notar o quanto as pessoas são diferentes umas das outras quando para para observar. Por esta razão, repito, venho à lanchonete para escrever. E isto me lembra o motivo de meu mal humor: o maldito personagem que não consigo visualizar a personalidade.
- Logo cedo por aqui. – ouvi uma voz feminina, reconheci sendo de Rin, ergui a vista sorrindo.
Rin é aquele tipo de pessoa que sempre esta sorridente, quando era mais nova era terrivelmente levada, agora com vinte e cinco anos – temos a mesma idade –, ela é mais conhecida pelo seu bom humor e simpatia, entretanto isso não quer dizer que deixou de ser levada. O que deixava um contraste muito intenso com sua aparência, já que de boca fechada você tem a imagem de Rin sendo uma mulher sexy e elegante e quando ela fala sua imagem dela muda para uma menina mulher, não deixando de ser terrivelmente linda, é claro.
- Bom dia.
- Bom dia. – Ela se sentou na minha frente – Nossa, está com uma cara terrível, não me diga que ficou bêbada com as batidinhas de ontem e hoje está sofrendo com a ressaca? Kagome, você é muito fraca para bebida.
- Eu não estou com ressaca.
- Então você esta sofrendo de velhice precoce, está com expressão de acabada, Kagome.
- Jakotsu conseguiu acabar comigo.
- Falando assim, todos pensariam coisas pervertidas.
- Não me importo, ele é lindo. Pena gostar da mesma fruta que eu. – Ri junto com Rin. – Ontem conversamos sobre um novo projeto que ele tem em mente. Me convidou para ser a roterista.
- Olha só a senhora Kazuaki Hiroki, escritora conceituada pela crítica, com grandes obras que têm encantando o público mais jovem, irá fazer roteiro de um drama que será produzido por Shingi Jakotsu, um dos diretores e produtores de renome no Japão da atualidade. Estou ansiosa para ver os resultados. O que você já tem escrito? – Ela puxou o meu notebook. – Três linhas? Você me decepciona assim.
- Rin, são quase oito.
Ela olhou o relógio do celular e com um grito desesperado correu para fora do restaurante. Graças aos céus ela tem horário para entrar na empresa; eu simplesmente não estou com humor para ouvir uma de minhas melhores amigas dizer que não acredita que estou com dificuldade para construir um personagem.
Soltei um longo suspiro, voltando ao meu entrave. Jakotsu havia me dito como havia imaginado os protagonistas e queria que fosse eu a escrever o roteiro, pois, de acordo com ele, sou a única que entenderia o que ele deseja. E eu entendi, ele quer uma garota alegre e extrovertida como protagonista, que está se recuperando de uma desilusão amorosa, momento em que ela conhece o protagonista, que simplesmente é um executivo com dificuldades para demonstrar o que sente e, na maioria das vezes, adota uma postura de frieza para aquele determinado problema imposto em sua vida.
Na mente, a ideia é linda, mas colocar no papel se tornou um tormento. O esqueleto para fazer a estória estava totalmente construído em minha mente... Ainda assim, estou com muita dificuldade para construir o protagonista masculino (a feminina já esta completamente feita, mas o infeliz do homem está definido fisicamente em minha cabeça, mas não no quesito personalidade). Simplesmente não consigo visualizar seu ambiente de trabalho, seu lar, suas ações. Suas verdadeiras ações e não ações que quero que tenha para que a estória se desenrole com maior facilidade. Não quero facilidade, quero realidade. E isto está me fazendo entrar em parafusos.
- Estava esquecendo!
Eu cai da cadeira, literalmente, olhei inconformada para Rin que havia surgido de algum buraco negro – única explicação que encontro –, e como toda boa amiga, ela se sentou rindo de mim.
Amizade é o sentimento mais masoquista existente na Terra. Por mais que seus amigos fiquem lhe perturbando a paciência e tirando sarro de coisas constrangedoras que ocorreu em sua vida, você os ama. Isto sim que é amizade pura. Me levantei chamando-a de "vaca" e outros animais grandes.
- Criatura surgida do inferno, vai assustar a sua vó!
- Como você é amorosa, Ka.
- O que você quer? – Perguntei levantando minha cadeira.
- Quero carona hoje.
- Você está pedindo ou me mandando ir lhe buscar?
- Mandando, oras. Por que eu pediria? – Ela disse enquanto se afastava mandando beijos para mim. Senti vontade de jogar a cadeira nela, acertando-a na cabeça, de preferência. – Até a noite.
- Até. – Respondi voltando a me sentar. Juro que hoje sai o primeiro capítulo do roteiro do drama!
###
Não consegui escrever nem uma linha. O dia foi totalmente perdido, gastei uma fortuna em café e porções de batatas fritas em vão.
- Obrigada por vir me buscar.
- AAAHH! – Eu gritei.
- AAAHH! – Rin gritou.
Quando meu cérebro assimilou que a pessoa que havia entrado mansamente em meu carro era a Rin, ele mandou a mensagem de "eê um cascudo nessa garota" para a minha mão, que executou a tarefa tanto empenho que arrancou um sonoro "Ai" de minha amiga louca que tenta me enfartar.
- Sua violenta.
- Maldita, se quer me matar dá um tiro no meu peito. Vaca. Cadela. Baleia.
- Ô boca suja.
- Vem lavar ela com sabão então, sua assexuada.
Rin rolou os olhos e eu respirei fundo procurando o mínimo de paciência.
- Qual o problema? Parece estressada.
- Esse maldito protagonista que o Jakotsu quer, está me fazendo perder os cabelos.
- Ao menos você tem muitos.
- Não achei graça.
Rin riu e minha vontade de abrir a porta do carro e chutá-la para fora aumentou.
- Certo, como agradecimento pela carona, hoje você janta na minha casa.
- Não, obrigada.
- Não estou convidando e nem dando a chance de você recusar.
- Você é muito mandona.
- Aprendi com os meus irmãos mais velhos. Enquanto comemos você me conta o que está deixando você com esse humor terrível.
- Além de uma certa amiga que fica me perturbando?
- A Sangô realmente sabe como ser inconveniente.
- E você realmente sabe como ser cínica. – Respondi, fazendo com ela risse. Juntei minha risada à dela..
Dei a partida no carro e seguimos na direção da casa dela. Eu já dei muitas caronas para a Rin, e já jantei muitas vezes com ela; até mesmo almocei em sua casa. Entretanto, por ser de uma família japonesa muito importante, dona de uma grande empresa de desenvolvimento de tecnologia – aparelhos de informática, celulares, entre outros aparelhos –, acaba que não conheço muitos de seus familiares. Na verdade, acredito que o único familiar que conheço é o pai dela, o Senhor Inu Taisho. Que, aliás, é um belo pai o que a minha amiga tem. Eu sei que é indecente, mas o que posso fazer se o homem é simplesmente lindo, além de muito simpático e gentil? Combinação perigosa. Pensando nisso, começo a me perguntar como uma mulher de uma família tão rica e com trabalho estável não possuí um carro? Ela tem espaço para ter um carro na garagem.
- Rin, por que não compra um carro?
- Lhe incomoda tanto assim me dar carona?
- Eu não disse isso.
- Eu sei. – Ela riu, enquanto eu rolava os olhos. – Meu irmão não gosta, disse que do jeito que sou desmiolada vou ser um perigo no volante de um carro.
- Ele não quer que você mate inocentes.
- Na verdade ele disse que sou um perigo para mim mesma. Ele não se preocupa com os inocentes, apenas com o que posso fazer comigo mesma. Resumidamente... que se dane os outros, quero minha irmãzinha intacta. Ele é um fofo.
- Um fofo de uma forma bem peculiar.
- É que você não conhece para saber como ele é peculiar para demonstrar o que sente.
Encarei ela por alguns segundos, após desligar o carro. Eu sempre achei interessante a forma que Rin descreve seus irmãos. Claro que não acredito em tudo, pois ela é do tipo que idealiza demais as pessoas de quem gosta. Um exemplo claro do que digo é o fato dela descrever o Kouga como alguém engraçado com alegria pela vida, mas eu o descrevo como hiperativo e desmiolado. Ou seja, seguindo este exemplo, entendo que quando Rin diz que seu irmão mais velho – acho que se chama Sesshomaru – tem dificuldade de demonstrar que sente e se preocupa com ela ao ponto de não a deixar que ela tenha um carro, eu entendo que, na verdade, ela quer dizer que ele é uma pessoa séria e fria, com um possessivo instinto protetor no que diz respeito a sua irmãzinha.
Ah, e quando ela fala que seu irmão, o que mora em outra cidade – acho que é o Inuyasha –, tem muita personalidade e é dono de um grande caráter, na verdade ela quer dizer que ele deve ser genioso como um gato velho e metido e um justiceiro do tipo bêbado que realiza abaixo assinado para o dono do bar vender o saquê mais barato.
Meus devaneios foram interrompidos ao ouvir o som da porta se fechando. Rin havia descido do carro... Comecei a me apressar, seguindo-a. Eu havia estacionado o carro próximo à porta.
A mansão possuía um amplo jardim que causava inveja em muitas pessoas, incluindo em mim. A porta de entrada era entalhada com figuras de uma arvore de cerejeira – aposto que se um ladrão assaltar essa mansão, ira querer levar essa porta consigo, de tão bonita que ela era.
- ESTOU EM CASA! - Rin segurou minha mão, me guiando na direção da sala de jantar. – Vamos conversar enquanto eu forro o estômago.
A situação era simples, então durante o jantar contei a Rin sobre a idéia do drama que Jakotsu havia tido, assim como os personagens. Vale salientar que quando falei do protagonista masculino confessei que não consigo visualizar a sua personalidade e o ambiente em que viveria, e que, por conta disso, estou completamente "travada", não conseguindo escrever sequer uma linha qualquer, sendo cenas com ou sem ele (afinal, gosto de ter tudo levemente encaminhado para a desenvoltura da história de uma forma mais natural). Após me ouvir com toda atenção, esquecendo até mesmo da comida a sua frente, Rin tomou um gole de suco de laranja e voltou a me encarar. Esperei pacientemente pela sua opinião e confesso que a demora dela para falar alguma coisa estava me dando uma vontade inarrável de jogar aquela mulher pela janela.
Por sorte, não precisei tomar tal atitude desesperada.
- Kagome, Você está querendo ser perfeccionista demais.
- Não, eu quero apenas ser o mais realista possível.
- Veja alguns filmes e pronto, faça o moleque.
Rolei os olhos. De onde tinha vindo aquela esperança de que Rin me ajudaria? Por que eu queria acreditar naquilo? Oh, doce sonho sendo destruído novamente.
- Rin, os filmes são meio fantasiosos demais quanto a isso. Veja o exemplo de sua família, nunca os vejo em casa, se sua vida fosse um filme, eles estariam sempre aqui para jantar com você ou então apareceriam em um helicóptero para a levar em um restaurante grego ou sei lá aonde mais.
- Nisso você tem razão.
- Viu, até você concorda comigo.
- Veja animes então.
Bati minha mão contra minha testa, o que provocou um estalo alto. Ô, esperança, morra logo! Essa cretina que está na minha frente não irá me ajudar. No máximo, provocar uma fúria que me fará criar um personagem com suas características para então matar de uma forma bem perversa.
- Qual o problema com os animes?
Deus, ela ainda me pergunta isso?
Oh, senhor, me manda uma luz sobre de que planeta essa criatura veio.
- Kagome?
- Rin, você não merece uma resposta.
- Você fica muito chata quando é incapaz de criar um personagem.
Soltei um suspiro pesaroso e voltei a comer o arroz com curry – comida favorita de Rin e, como tal, a mais servida na casa, já que ela é que mais usa a sala de jantar.
Ficamos por um tempo em silêncio até que um homem entrou na sala de jantar, seguindo na direção de Rin, que se levantou para cumprimentá-lo. Fiz o mesmo por respeito. Esse homem se chama Inu Taisho, pai de Rin. Por mais que os dois sejam muito diferentes fisicamente, quem conhecesse a senhora Taisho sabia que sua filha havia saído sua cópia fiel. O senhor Taisho possuía o cabelo prateados compridos até o meio das costas, estando presos por uma fita preta, ele trajava um terno cinza com uma gravata branca. Inu Taisho sorriu e apertou minha mão, em cumprimento, e uma das empregadas se aproximou, arrumando a mesa para ele se juntar a nós.
- Então, Kagome... Como está o trabalho? Algum projeto novo? – me perguntou o senhor Taisho de forma cortês.
- Sim, na verdade, estava conversando sobre um com Rin.
- Atrapalhei a conversa?
- De forma alguma.
- Kagome quer criar m executivo para um roteiro de drama, mas ela não consegue. O senhor poderia a deixar que ela visse como funciona as coisas no escritório... Poderia ajudá-la a conseguir escrever.
Arregalei os olhos para Rin. Como ela tinha a cara de pau de pedir para o pai dela, um homem tão ocupado, que deixasse que sua amiga escritora observasse o seu local de trabalho apenas para que conseguir criar um personagem executivo? Será que ela não entende o quanto seu pai é ocupado?
- Claro, você pode trabalhar lá por algum tempo comigo, para ter uma noção de como funciona o escritório.
Arregalei os olhos e então eu entendi, ela faz essas coisas por saber que o pai vai concordar. Afinal, ela é a única filha e, ainda por cima, caçula. Resumindo: a filha que o papai sempre mima e faz todas as vontades. Rin não é uma pessoa mimada, mas se você pode conseguir o que deseja com apenas um pedido para seu pai, por que não fazer?
- Trabalhar? – perguntei, perplexa. E, convenhamos, quem no meu lugar não ficaria também?
- Sim, você pode... ser minha... – Ele coçou o queixo me observando. – Secretária.
- Secretária?
- Sim, Haruka sempre reclama que está sobrecarregada, posso fazer um contrato com você por... seis messes. O que acha?
Cocei o queixo, pensativa.
O drama estava previsto apenas para o ano que vem, eu teria tempo para pesquisar e escrever, e aquela oferta era realmente muito boa. Ver como o mundo dos negócios funcionava, como os executivos realmente se comportavam em seu ambiente de trabalho, poder analisar cada homem empresário, suas diferenças... Assim eu poderia finalmente criar este maldito personagem, o que preciso definir um nome antes que eu enlouqueça.
- Eu não quero incomodar.
- Imagina. Você é uma garota inteligente e minha filha confia em você. Estaria fazendo um favor a Haruka e a mim. E assim, ganho mais tempo para achar alguém de confiança para lhe substituir quando sua pesquisa estiver terminada.
Como alguém abre as portas de seu escritório de forma tão solícita?
- Papai, o senhor é o máximo. – Rin o abraçou e deu um beijo estalado na bochecha.
- Eu sei, eu sou o máximo mesmo. Você só pode namorar homens melhores que seu pai.
- Vou morrer solteira. – Suspiro Rin fazendo o senhor Taisho rir.
- O que me diz, Kagome?
- Se não for incomodar.
- Ótimo. – Ele tirou a carteira e em seguida me entregou um cartão. – Venha me procurar amanha.
- Sim, senhor. Obrigada.
- Estou ansioso para ver o personagem que você irá criar. Li o seu último livro e aquela personagem, Momya Atsuki, realmente prendeu minha atenção. A forma como você retrata os conflitos internos dela. Aquele romance complicado que falhou no final, com todas aquelas complicações. Será que você me deixa ler um manuscrito? Sem querer ser enxerido, mas é que eu sempre tive curiosidade de ver como é um manuscrito.
Minhas bochechas ficaram quentes. Provavelmente eu estava corando... O motivo era que eu finalmente entendia o motivo de ele ser tão prestativo – além de estar realizando um desejo da filha -, o senhor Inu Taisho era um fã de Kazuaki Hiroki, ou seja... de mim. E aquilo me deixou orgulhosa de minhas obras e também sem graça por um homem tão culto ler o que eu escrevo.
