Capítulo VII – Muito trabalho, cansaço demais.
Ultimamente tenho realizado minhas tarefas de forma tão mecânica, que se você me perguntar no final do dia o que foi que eu fiz, simplesmente não saberei o quelhe responder. Lembro de uma ocorrência, terça passada, que eu precisava terminar de enviar os arquivos para o email do Senhor Sesshomaru e depois ir entrevistar um candidato ao emprego de contador pessoal do meu chefe. O que se sucedeu foi o fato de eu simplesmente não conseguir me lembrar se eu havia mandando os e-mails; eu me lembrava de estar sentada na frente do computador, lembro de ter aberto o meu email, mas se eu enviei, isto eu só soube quando chegou o final do dia, com medo de não ter enviado e com isto ter despertado a fúria do Senhor Sesshomaru – e consequentemente isso refletiria em um aumento de serviço. Por sorte, eu havia enviado o email.
Ando tendo uns lapsos muito preocupantes de falta de memória. Coisas que eu nunca esqueceria de fazer, tenho esquecido frequentemente; como o de enviar o drama para o Jakotsu. Sim, eu tenho mantido o meu ritmo de escrita, até porque é um dos meus prazeres de vida. Escrever me faz um bem que poucos entendem. Por isto sacrifico horas de sono escrevendo o roteiro do drama, o qual, pasmem, estou quase concluindo. Essas horas perdidas de sono se refletem em minha memória, qual não fixa detalhes, pois o cansaço me faz agir de forma quase autônoma.
Lembro de outro episódio em que eu havia colocado café na caneca e me virei para pegar o açúcar, entretanto, ao fazer o movimento de virar o meu corpo, em vez de pegar o açúcar, segui para minha mesa. Sim, em segundos eu esqueci que ia colocar açúcar no café e apenas me lembrei do que ia fazer quando Tomoyo me indagou se a caneca na mesa da cozinha era minha.
Por incrível que pareça, isto não foi o ápice do quanto estou ficando esclerosada, já que o ápice foi eu chegar na sala do Senhor Parker para entregar documentos para ele, mas sem os documentos. Como eu não notei que os documentos não estavam na minha mão?
Eu poderia ter pegado os documentos errados ou esquecido de ir lá, mas não, eu fui sem nada nas mãos com a intenção de entregar os documentos. O senhor Parker até mesmo me perguntou se eu não estava descansando direito, pois minha aparência estava deplorável.
Falando em aparência deplorável, ontem o senhor Kouga se aproximou de forma furtiva e com uma voz de quem confidenciava um segredo, ele disse:
- Senhorita Kagome, você morreu, vá descansar em paz minha filha.
Eu quis dar um soco nele, mas me contentei com um olhar de esgulha bem agressivo, que o fez esboçar um sorriso amarelo e ir para sua sala.
- Café? – perguntou o Senhor Parker, sentando no canto da minha mesa e estendo uma caneca para mim. Soltei um suspiro, desviando atenção dos documentos que lia e aceitando a caneca – afinal, minha vida se resume a café e energéticos.
- Obrigada.
- Você almoçou?
- Almoço? – Meu olhar caiu para o relógio no computador. – Não havia notado o horário.
- Quer ir almoçar comigo?
- Eu agradeço senhor Parker...
- Me chama de Nick. – ele interrompeu, sorrindo.
- Senhor Parker – repeti formalmente, fazendo o seu sorriso desaparecer. – Preciso terminar de analisar esses documentos para enviar ao Senhor Sesshomaru antes das três.
- Ora, você precisa se alimentar.
- E vou, assim que terminar aqui.
Ela suspirou, se levantando, e repousou sua mão sobre meu ombro.
- Não se esforce demais. – falou, apertando a mão em meu ombro e me lançando um sorriso amigável. Eu me senti mal por ter sido grossa com ele, mas antes de me desculpar ele já havia se afastado.
Jakotsu tem razão, estou com um humor de assustar zumbis famintos. E olha que eles nem têm a capacidade de sentir medo.
Tomei um gole generoso de café e fiz uma nota mental de me desculpar com o Senhor Parker mais tarde. Nota a qual eu esqueci que havia feito, alguns segundos depois. Voltei a minha leitura, fiquei tão concentrada, que quando me lembrei do café ele já estava frio. Respirei fundo e o tomei assim mesmo, eu precisava de cafeína; aliás, precisava de um energético. Comprarei um assim que entregar os documentos ao Senhor Sesshomaru, os quais eu finalmente havia terminado.
Levantei-me e arrumei os documentos, olhei o relógio em meu computador: duas e cinqüenta e cinco. Soltei um suspiro, que bom que eu havia terminado a tempo. Com outro suspiro aliviado peguei os papeis e me virei para seguir na direção do escritório do meu chefe, mas um peitoral masculino entrou em meu campo de visão. Erguendo a cabeça consegui encarar os olhos castanhos de Yuri, que me passavam a clara mensagem:
"Vou te dar uns tapas".
- Yuri?
- Você esqueceu o nosso almoço.
Arregalei os olhos e deixei os papeis sobre a mesa, virei para encará-lo com a melhor careta de "me perdoe" que eu poderia ter.
- Desculpe, não foi intencional.
- Ah, não? Quer dizer que você já teve a intenção de esquecer um compromisso comigo? – Abri a boca para responder, mas ele foi mais rápido. – Eu tive um encontro Kagome, e foi perfeito, cabe dizer. Quero te contar os detalhes, mas você me brocha dando esse tipo de bolo.
- Você está parecendo uma garotinha apaixonada que lê os signos da pessoa amada para ver se combina com o seu. – Ele fez uma expressão indignada. – Desculpe, eu esqueci. Sinto muito, mas eu sou humana, tenho falhas.
- Eu sei que você é falível, Kagome. Mas, poxa, você nem respondeu minhas mensagens.
- Você mandou mensagens?
- Você não viu?
- Óbvio que não. – Inclinei sobre a mesa pegando meu celular. – Ah... você mandou mesmo.
- Você me deixou duas horas esperando. Como você pode ter me esquecido assim?
- Yuri, eu sinto muito.
- Poxa, queria tanto te contar como foi meu encontro com a Rin.
- Desculpa.
- Você me magoou.
Respirei fundo para não mandá-lo para o inferno. Quantas vezes ele queria que eu pedisse desculpas?
- Eu esqueci, poxa. Todos podem esquecer um almoço com um amigo. Eu sinto muito.
Ele fez aquela carinha de cachorro sem dono.
- Como você pode se esquecer de mim?
- Des-cul-pa.
Yuri abriu a boca mas a fechou quando foi puxado para trás. Em meu campo de visão apareceu o Senhor Sesshomaru, com uma careta nada agradável.
- São três horas, onde estão os documentos que pedi?
- Estão aqui, senhor. – falei me virando para pegar os papeis.
- Deixe de ser inútil e leve logo na minha sala. Você não é paga para fazer ceninhas no serviço, pare de se comportar com uma qualquer – ele se virou para ir embora, mas Yuri o puxou pela manga do palitó, fazendo-o se virar.
- Da próxima vez que chamá-la de qualquer, vou lhe surrar tanto que seus pais não vão lhe reconhecer no necrotério. Pelo seu próprio bem, melhor ser gentil quando dirigir a palavra para Kagome, caso contrário terei que fazer você engolir sua arrogância.
O olhar do Senhor Sesshomaru desceu para as mãos de Yuri, que ainda seguravam seu palito, em seguida vieram na minha direção. Imediatamente, segurei o braço do meu amigo, afastando-o do meu patrão.
- Um gigolô deveria se pôr em seu lugar.
- Você conseguiu, cara.
- Yuri. – Eu fiquei na sua frente. – Ele é o irmão da Rin.
Yuri ficou estático. Seu olhar procurou o meu e, com um aceno afirmativo, respondi sua pergunta mental de que ele realmente havia ouvido certo.
- Pelo seu próprio bem, ator. Melhor ficar longe de minha irmã. Caso contrário acabarei com sua carreira tão rápido que você se perguntará se ela de fato existiu. – Ele me encarou. – Coloque o lixo para fora e me traga os documentos.
E com isso ele se afastou, entrando em sua sala. Olhei ao meu redor notando que novamente haviam muitas pessoas me observando, até mesmo Senhor Inu Taisho que riu fazendo um positivo falando:
- Esse andar ficou mais interessante desde que você começou a trabalhar aqui.
Soltei um suspiro segurando a mão de Yuri, que estava em estado de choque.
- Brigar com o irmão da Rin não irá agradá-la. Evite o confronto, vai para sua casa e quando eu sair daqui, eu vou lá e você me conta tudo que aconteceu.
- Tudo bem.
- Mais uma vez, desculpe. Não tinha a intenção de esquecer.
- Tudo bem... Ele é adotado, né?
Ri com o comentário de Yuri, segurei seu braço e o levei até o elevador, notei que havia comentários de que Yuri Hashiro estava ali, e até mesmo algumas mulheres pediram autógrafos dele e fotos enquanto esperávamos o elevador.
- Não deixe ele te tratar assim, Kagome. Você é especial, tem que ser tratada com uma princesa.
- Ele poderia falar isso para mim. – Ouvi uma mulher falar.
- Eu daria um órgão para ele fazer isto por mim
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- Eu também.
Ignorei os outros comentários.
- Obrigada, Yuri.
Ele se inclinou e beijou minha bochecha, entrou no elevador e quando a porta se fechou, começou o interrogatório sobre como eu o conhecia e qual era nossa relação. Demorei trinta minutos para chegar na minha mesa e conseguir levar os documentos ao Senhor Sesshomaru; nesse meio tempo, ganhei muitas melhores amigas falsas. Ao menos o meu chefe ignorou minha existência e não me deu a bronca do século. Ao menos isto.
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Ao entrar na sala do Senhor Sesshomaru no final da tarde, eu estava esperando uma repreensão pelo que havia acontecido hoje, e admito que quando ele sussurrou um "sente-se", enquanto falava ao telefone, senti todo o meu corpo tremer. Ele nunca havia pedido para eu sentar antes e se havia pedido hoje, isso significa que conversa seria longa e séria. A última conversa séria que tivemos eu tive o presente de ficar com o meu braço roxo. Olhei para trás. Como sou burra, fechei a porta, ninguém vai ver ele me espancando.
Droga, Yuri, você poderia ter ficado me xingando por e-mails, pra que vir aqui?
Prendi a respiração quando ele encerrou a ligação e me encarou. Como sempre, sério, mas isso é rotina, no dia em que eu ver um sorriso naqueles lábios finos, juro que vou gritar e chamar o exorcista.
- Preciso de uma acompanhante para a festa dos Senhores Yazunake.
Balancei a cabeça, confusa. Por que ele estava me falando isto? Espera, ele está com dificuldade para conseguir levar uma mulher a uma festa? Quem diria que até mesmo o gostoso do Sesshomaru Taisho teria problemas com mulheres.
- Tomoyo não poderá ir por causa do horário noturno da faculdade.
Ele tem um caso com a Tomoyo? Por que ele iria querer levar ela para uma festa?
- Por isto você me acompanhará.
- Eu? Por que?
- Por que gosto de sua companhia. – Arregalei os olhos enquanto ele rolava os olhos com desdém. – Por que é uma festa de negócios, preciso de alguém que fazer anotações. Você é minha secretaria, está lembrada?
- Ah. – falei em compreensão, era uma festa de negócios, entendi, por isto ele queria levar a Tomoyo, certo, certo. Gente, como eu estou lesada. Preciso hibernar alguns meses.
- Você entendeu o que eu falei?
- Sim, senhor quer que eu vá em uma festa para fazer anotações...
- Depois disso.
Ele falou alguma coisa depois disso?
- Estava sonhando acordada comigo na festa, senhorita Higurashi? – ele indagou com um tom de presunção misturado com desdém. Aquilo era o mais perto de uma piada que eu conseguiria dele.
- Estava divagando sobre o meu maior desejo nesse momento. – Ele estreitou os olhos em um mistura de incompreensão e curiosidade. – Minha cama.
- Pessoas preguiçosas são fadadas ao fracasso.
Eu tinha uma resposta na ponta da íngua, mas sinceramente, não estava com vontade de discutir com ele.
- Desculpe, mas o que o senhor havia falado?
- Deixarei o ipad em sua mesa junto com uma agenda dos nomes importantex da festa que você deverá dar maior atenção.
- Sim senhor, quando é a festa?
- Sexta-feira, dia vinte e oito.
Essa sexta?
- A não ser que tenham mudado o calendário nesse meio tempo que você esteve aqui, sim.
Existe algo importante nessa sexta, sei que tem. Mas não me lembro.
- Tudo bem. O senhor deseja mais alguma coisa?
- Sim, termine logo a contratação do meu novo contador.
- Sim senhor. – falei me levantando. – Com licença.
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Rin é uma vaca leiteira, filha de uma rata manca.
Tudo bem, eu queria ver a estante no escritório do Senhor Sesshomaru, mas acima disso eu queria dormir, eu queria muito dormir. Mas esse meu desejo foi reprimido pela minha melhor amiga me acordando com água fria – sim ela jogou um copo de água no meu rosto, sob alegação de que estava com medo de que eu houvesse morrido, já que ela e o Yuri (ele estava ali como cúmplice dessa larapia, aliás, ele é um viado chifrudo impotente) haviam me chamado várias vezes e eu nem resmungava em resposta.
Enfim, após me acordar dessa forma molhada, e esperar me trocar, os dois me levaram para a empresa da família de Rin, que entrou facilmente... Afinal, que segurança repreenderia a filha do dono? Mesmo que ela chegue com duas pessoas – entre elas a secretaria do irmão. – às duas da manhã.
No elevador eu me escorei no Yuri e cochilei, em pé, de olhos abertos.
- KAGOME!
- O QUÊ? – Respondi notando que a porta do elevador estava aberta.
- Eu nunca havia visto alguém dormir de olhos abertos e em pé. – Falou Yuri, notei um tom de preocupação na voz dele. – Melhor deixar isto para outro dia Rin, ela parece estar muito cansada.
- Não dá. Ele sempre carrega a chave, faz idéia do trabalho que tive para conseguir? Se não for hoje, não sei quando poderá ser.
- Por que estamos aqui? – perguntei chamando atenção dos meus amigos.
- Você não me disse que queria ver a estante do escritório do meu irmão com calma?
- Eu disse?
- Viu, ela não está nada bem.
- Vamos logo. – Rin me puxou, pensei sobre o assunto.
E minha ficha apenas caiu quando entrei na sala do Senhor Sesshomaru. Ali estava aquela magnífica estante, meu sono sumiu, foi quase como se houvesse misturado energético com café... de novo.
- Viu, ela queria muito isso. – ouvi Rin falar, acho que para o Yuri, não ouvi mais nada após isso.
Deslizei o dedo pelas capas, observando os títulos. Eram tão diversos, alguns sobre finanças, outros sobre lei, muitos sobre filosofia. Ainda encontrei títulos de autores consagrados internacionais, como, por exemplo, Stephen King, todos em títulos originais. Mas o que me chamou atenção foi o nome Kazuaki Hiroki numa parte alta da estante... Eu simplesmente encontrei todos os meus livros ali. Fiquei intrigada ao ver o meu primeiro livro na prateleira. Poucos o tinham. Afinal era uma história um tanto patética, melhorei muito desde esse livro. Esse é o motivo de ele ter poucos exemplares, o seu insucesso. Confesso que achava que os únicos que possuíam um exemplar deste livro eram meus amigos e familiares e possíveis fãs adquiridos após a minha série "Rosa e Sangue", a que me consagrou como autora de renome que sou hoje.
Peguei o livro, notando as marcas amareladas nas folhas, possivelmente feitas pelas mãos suadas por segurá-lo por um longo tempo. Havia espaçamentos entre as folhas que indicavam que o livro havia sido lido mais de uma vez. Eu os abri, curiosa, sabia do costume do Senhor Sesshomaru de fazer anotações, mas o livro estava impecável, a não ser por uma nota na contracapa. Por um momento pensei ser uma dedicatória, ele poderia ter ganhado o livro de alguém, entretanto, era uma opinião sobre o livro:
"Enredo óbvio, embora a narrativa seja muito agradável e de fácil compreensão. Leitura prazerosa, apesar de não haver nada de inovador. Autora de talento. Ainda é um diamante bruto, que será lapidado com o passar dos anos. Claro, se possuir fibra para continuar a escrever, considerando que nesse meio há muita instabilidade".
Guardei o livro e peguei o segundo, estavam todos em ordem de publicação. Li as notas na contracapa, aliás, fiz isso com os demais e confesso que as criticas feitas ali me agradaram, poucos tinham aquele ponto de vista crítico. Em minha série mais consagrada, ele havia dito que as histórias o levavam ao dois extremos, do ódio a paixão. Senti meu ego sendo massageado a cada elogio e ri com o comentário de que aquela série merecia mais alguns livros.
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- Kagome, precisamos ir. – A voz de Rin me arrancou do meu mundinho.
- Já?
- São quase cinco horas, Sesshomaru vai chegar logo.
- Cinco? EU NÃO DORMI!
- Não grita. – Ela falou. – Vamos, preciso levar a chave de volta antes que ele acorde.
E assim, fomos embora, eu me sentia mais acordada do que nunca, provavelmente sentirei mais sono do que nunca essa tarde, mas não me importa. Notei que Yuri estava segurando a mão de Rin. Sorri de forma cúmplice a ela corou, desviando o olhar, já ele piscou de forma charmosa me fazendo rir.
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- Kagome?
Levantei, derrubando minha cadeira, olhei para criatura que havia me assustado, o Senhor Parker. Ele estava meio inclinado, acredito que estava naquela posição para falar comigo enquanto estava sentada.
Espera, eu estou na empresa?
Olhei ao meu redor, felizmente todos estavam ocupados demais para notar a minha cena, levantei minha cadeira sentindo o olhar intrigado do Senhor Parker em minha nuca.
- Você está bem? Parece doente.
- Eu estou bem, não se preocupe.
Ele deslizou a mão sobre o queixo com a barba mal aparada enquanto colocava a outra mão dentro do bolso da calça.
- Está pálida, melhor tirar o dia de folga.
- Estou bem. Agradeço a preocupação. – falei me sentando.
- Você dormiu sentada, sem ao menos estar escorada em algum lugar. Está claro que você não está bem. Senhor Inu.
Arregalei os olhos e senti vontade de voar nele e tampar sua boca. Mas antes que a idéia se tornasse agradável o suficiente para executá-la, o senhor Inu estava parado ao meu lado me encarando. Pisquei algumas vezes, em minha mente veio à imagem dele conversando com o Senhor Parker e em seguida me encarando. Eu apaguei novamente e nem notei. A expressão do Senhor Taisho era de preocupação.
- Você não ter dormindo muito, correto?
- O drama tem me tomado as noites de sono.
- Está se esforçando demais, sei que aqui o cansaço é apenas mental, mas ainda sim é um cansaço, você precisa dormir direito. Se organize melhor, não sacrifique suas noites dessa forma.
- Tentarei senhor, mas tenho responsabilidades.
Ele soltou um longo suspiro colocando as mãos no bolso da calça.
- Tire o resto do dia de folga.
- Mas, senhor...
- É uma ordem. Haruka, peça para o motorista levar Kagome para casa. – Ele voltou atenção para mim. – Não se preocupe, vou falar com meu filho. E, sendo bastante sincero, os dois são iguaizinhos: viciados em trabalho.
E assim ele se afastou. Para ser sincera, quando dei por mim já estava em casa. Meu estado definitivamente não era dos melhores para ficar na empresa, possivelmente iria fazer alguma coisa errada e ser repreendida. Antes de me deitar mandei um email para Jakotsu avisando que os últimos capítulos do drama seriam adiados.
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Dormir é uma das maiores maravilhas do mundo. Chegando na empresa no dia seguinte que fui expulsa para ir dormir, me sentia renovada, e fiquei assustada quando até mesmo as recepcionistas falaram que eu estava com uma cara melhor. O Senhor Kouga comentou que eu havia voltados dos mortos. Estou realmente exagerando, exigindo demais do meu corpo, sou humana preciso tomar cuidado com a minha saúde. Se eu morrer antes de terminar o drama, Jakotsu me ressuscita apenas para me matar de novo, de uma forma bem dolorosa.
Admito que o email de Jakotsu havia me deixado preocupada, ele queria que eu revisasse os capítulos e os aumentasse para caberem em um episódio de quarenta minutos. Eu havia avisado que era uma escritora de livros e não de dramas, mas ele mesmo assim queria que fosse a autora do roteiro, por isto deixei claro que os capítulos não seriam exatamente um episódio. Ele poderia adaptar para dois deles serem um episódio ou até mesmo três e, quem sabe, quatro? E mesmo assim ele me mandou aumentar o tamanho. As filmagens ainda demorar para começar, pois estão fechando contratos com as bandas que farão a trilha sonora e ainda terminando de definir os atores que faltavam. Por enquanto estava sendo feito apenas as fotos promocionais. Entretanto, o único entrave para o começo das filmagens era o roteiro, por isto eu tinha a intenção de me dedicar a ele no final de semana.
Procurei dormir bem essas noites que antecederam a tal festa que o Senhor Sesshomaru desejava que eu o acompanhe-se. Não queria estar como olheiras na festa, seria degradante para o meu ego feminino. Entretanto na quinta-feira não dormi, pois Jakotsu me enviou um email solicitando o primeiro episodio com urgência para apresentar aos atores e assim começar as filmagens ainda esse mês. Perguntei sobre os atores que faltavam, ele respondeu – por email – que já haviam sido definidos, motivo da urgência.
Alguns minutos na festa e eu entendi o motivo do Senhor Sesshomaru ter ido me buscar em casa. Ele queria dificultar ao máximo minha fuga daquele lugar chato recheado de pessoas esnobes. Quando me viram bem vestida se aproximaram sorrindo, mas quando souberam que eu não passava de uma secretária, ergueram seus narizes catarrentos e ignoraram minha presença. Melhor assim não suportaria ter que explicar a eles que a Terra que gira em torno do Sol e não o contrário.
Usei muita maquiagem para disfarçar minha olheira e evitei ao máximo não bocejar, claro que houve algumas vezes que falhei, por coincidência, uma delas foi quando uma mulher estava falando para o Senhor Sesshomaru o quanto ele estava elegante aquela noite. Não foi intencional, mas amei a careta dela de desgosto.
Tatsuo uma vez me disse que eu deveria freqüentar mais a alta classe, eu possuía um nome conhecido – Kazuaki Hiroki – dinheiro e a beleza de uma princesa. Entretanto, eu não gosto dessas festas, me parece que quanto mais dinheiro a pessoa tem, mais falsa ela fica. Claro que muitos nem têm onde cair mortos e apenas querem manter as aparências. São poucos os que se salvam.
Passei a notei toda anotando telefones, marcando reuniões, me livrando de inconvenientes e pegando champanhe para o meu chefe. Eu queria me livrar do inconveniente do meu chefe, mas ele eu não podia.
Observando o senhor Sesshomaru conversando com quatro homens, fico me perguntando como ele pode gostar dos meus livros. Afinal, ele parece uma pessoa que leria apenas os números da bolsa de valores e livros falando sobre administração. Até entendo os de filosofia, afinal ele lidava muito com as pessoas, era necessário um certo tato, apesar de ele ser, no fundo, um narcisista arrogante.
Ele realmente é o modelo para o Sadao, mas esta longe de ser o Sadao. Eu precisa de um base para o meu personagem, eu consegui ela, mas a estória que eu precisava criar não se encaixa ao Senhor Sesshomaru, eu nunca o imaginaria completamente apaixonado fazendo loucuras por amor. Por isto precisei criar esse lado amoroso do Sadao. Foi complicado no começo, mas com muito esforço consegui. Na verdade, concentrei em fazer o Sadao uma pessoa que não sabe lidar com seus sentimentos, por isto se porta de forma grosseira com a Kaoru, entretanto, conforme vão convivendo, ele nota que não consegue ficar longe dela, tampouco consegue controlar sua vontade de tocá-la. No final ele cede ao prazer carnal e fica com ela. Eu queria algo mais original, mas é um drama, as pessoas não querem algo original, querem em livros, em dramas eles querem o bom e velho clichê para se divertirem um pouco e esquecerem suas vidinhas patéticas.
Mas que porcaria de festa, eu não bebi, não dancei, não me diverti. Apenas trabalhei. Horrível, me senti aliviada quando o Senhor Sesshomaru disse que estava na hora de irmos embora. E como no percurso de vinda a de volta se resumiu em silêncio de um museu de madrugada, encostei a cabeça no vidro do carro observando o lado de fora, meus olhos estavam ardendo e eu guerreava para que minhas pálpebras não se fechassem. Houve momentos que fiquei alguns segundos com os olhos fechados. Sentindo medo de cochilar no carro do meu chefe, voltei minha atenção para ele que naquele momento mudava a marcha para a primeira e observava o semáforo que estava no vermelho. Ele estava usando um terno preto e sua colônia estava impregnada no carro, acredito que aquele cheiro que estava me embriagando aumentou meu sono. Voltei a encostar a cabeça no vidro, como eu queria dormir.
Eu poderia dormir ali mesmo, e nem me importaria de sentir dores musculares pela manhã. Bocejei e fechei os olhos por um instante, fiquei por algum tempo desse jeito, foi quando percebi que o carro havia parado, abri os olhos percebendo que estávamos na entrada do meu prédio.
- Obrigada. – falei abrindo a porta enquanto saia do carro.
- Não sei como desperdiça suas noites, mas pare de ser tão negligente com o seu descanso. Isso está afetando o rendimento de seu trabalho.
- Desperdiçando minha noite? Onde pensa que passo minhas noites?
Ele me encarou alguns segundos.
- Boates é o primeiro estabelecimento que vem a minha mente que você frequentaria.
- Eu não...
- Preciso ir. Não se atrase segunda-feira.
Ele acelerou e como conheço o seu sadismo me afastei do carro com medo dele me atropelar com ele, dando o troco pelo que houve na Coréia. Soltei um longo suspiro e segui para minha casa, após me trocar e tirar a maquiagem, fui para o maior desejo naquele momento, a minha cama.
