Capítulo 1

A manhã na cidade de Tóquio iniciou-se como outra qualquer, com pássaros cantando em seus ninhos no topo das árvores, pessoas saindo as pressas de suas casas para mais um dia de trabalho e descendo em bandos pelas escadas do metrô ou atolando as ruas com seus carros modernos e ambientalmente corretos. Lojas abriam as portas para mais um dia de vendas agitadas enquanto estudantes de várias idades já esperavam impacientes no ponto de ônibus por suas conduções, seus uniformes coloridos e bem desenhados causando um grande contraste com os ternos escuros, impecáveis e caros dos executivos que circulavam pela cidade.

No Palácio de Cristal que erguia-se magestoso no centro da grande metrópole o burburinho matutino já começava com funcionários movimentando-se ao longo da construção exercendo os seus afazeres, com os jardineiros ajoelhados sobre a terra fofa e molhada pelo orvalho da noite anterior cuidando das rosas tão ricamente apreciadas pelo rei e copeiras e cozinheiras agitavam as panelas e serviam o café da manhã para a família real que estava presente no salão de refeições do palácio. Bem, ao menos quase todos estavam presentes, pois faltava uma figura para completar o quadro usual que era pintado todas as manhãs no castelo.

- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHH! - o grito ribombou pelas paredes, sacudindo os quadros em suas molduras e fazendo tremular vasos antigos e caros. Em seu lugar de costume à cabeceira da mesa, rei Endymion rolou os olhos, os desviando da xícara que bebia para o teto sobre a sua cabeça e que balançava devido aos pesados e abafados passos que ecoavam no andar superior. Em uma das laterais da mesa, Serenity soltou uma risadinha enquanto passava calmamente a geléia sobre a sua torrada, mordiscando a ponta da mesma com extrema delicadeza. O rei teve vontade de rir.

Quem visse hoje a mulher que ele orgulhosamente chamava de esposa sentada como uma dama à mesa e comendo com toda a pompa atribuída a realeza, jamais imaginaria que era a mesma adolescente que ele conheceu há séculos atrás e que era capaz de devorar potes e mais potes de sorvete em questão de segundos. Obviamente que Serenity ainda era capaz disso, mas recusava-se a mostrar seu lado mais irresponsável em frente aos filhos com a desculpa de que não queria oferecer um "mau exemplo". Conversa na opinião de Endymion, visto que o grito que eles acabaram de ouvir tinha vindo de Serena, a filha mais velha do casal, que em tudo era igual a mãe na adolescência, com ou sem influência da mesma.

Como previsto e como sempre ocorria em todas as manhãs, a porta do salão abriu-se num estrondo e uma jovem de dezessete anos entrou afobada e ofegando, ajeitando apressadamente o laço da camisa de seu uniforme enquanto percorria os dedos por entre os fios rosados do cabelo, tentando domá-los ao mesmo tempo em que lutava para prendê-los em seu usual penteado. Quando finalmente conseguiu o resultado que queria e sentiu que agora estava satisfatóriamente arrumada, sentou-se pesadamente em sua cadeira e começou a atolar o prato com guloseimas.

- Bom dia Serena! - desejou Endymion em um tom que dizia que educação era bom e se usava, principalmente à mesa, e lançou a menina um olhar de repreensão quando esta tentou enfiar uma torrada, um pedaço de bolo na boca e beber de seu leite tudo ao mesmo tempo.

- Bom dia pai! - respondeu a garota, a sua voz saindo abafada por causa da comida obstruindo sua boca. Serenity, ao lado da jovem, soltou outra risadinha e Endymion olhou a mulher de maneira atravessada. Achar graça da situação não ajudava quando ele tentava corrigir as péssimas maneiras da filha à mesa.

- Uma coisa de cada vez Serena. - falou num tom calmo e quase rolou os olhos quando a adolescente simplesmente o ignorou e continuou comendo seu café as pressas. - Se não ignorasse seu despertador acordaria na hora de ir para a escola. - disse e sentiu como se estivesse falando com uma parede, pois a princesa simplesmente prosseguiu a engolir a comida até dar-se por satisfeita, erguer-se num pulo da cadeira e sair correndo porta afora despedindo-se com um breve "adeus" dos pais.

Endymion rolou os olhos e quando viu-se sozinho com a esposa deixou a cabeça cair pesadamente contra o tampo da mesa, começando a bater a testa repetidamente no mesmo. Serenity arqueou as duas sobrancelhas bem feitas diante da atitude do marido e recolheu a sua xícara entre seus dedos finos e delicados, esperando que a crise do homem passasse e ele voltasse a ser o rei maduro que era e governava Tóquio de Cristal. Usou a xícara em suas mãos como forma de esconder outro sorriso. Seu querido rei poderia ser o homem mais sábio do universo, mas que estranhamente conseguia ser enganado pelas criaturas mais simples que existiam: seus filhos.

Serena por ser extremamente parecida com a mãe já tinha uma manha natural em lidar com os mandos e desmandos do pai. Não que Endymion fosse um carrasco ou coisa parecida, pelo contrário, ele era um pai carinhoso e atencioso que tentava educar os filhos de maneira séria porque queria prepará-los para o futuro que os aguardava. Afinal, aquele reino rico e próspero seria deles um dia e eles teriam que estar prontos, principalmente a primogênita que era a principal herdeira do trono.

Selene, por outro lado, era extremamente parecida com o pai, não apenas nos aspectos físicos como os cabelos negros e olhos azuis, como na personalidade, embora às vezes deixasse escapar traços que lembrasse a mãe, como o fato de ser um pouco atrapalhada em certas ocasiões. Tinha o pensamento astuto e a sagacidade de Endymion, mas a preguiça e irresponsabilidade de Serenity, o que praticamente enlouquecia o homem que tinha a esperança que a filha do meio futuramente servisse não apenas como princesa, mas como uma hábil conselheira da próxima rainha. Isto se ele conseguisse fazer a garota se interessar por política. Não precisa dizer que todas as suas tentativas foram fracassadas.

E havia o pequeno Endie, ou Endymion, o caçula da família, um espoleta por nascença. Serenity tinha que admitir que o menino lembrava muito o seu irmão Shingo na idade dele, sendo a única diferença os cabelos castanhos escuros levemente ondulados e os grandes olhos azuis límpidos como os da mãe. Toda a postura do garoto e todas as suas atitudes denotavam claramente o que ele era: um verdadeiro pestinha que sabia usar de suas artimanhas e malandragem para passar a perna em muitos adultos. Exceto Serenity. Ninguém conseguia entender, principalmente as Sailors, como a mulher que era um poço de desleixo no passado conseguia conter o furacão que era o príncipe. A rainha apenas sorria e dizia que eram segredos de mãe. Sendo Selene a segunda a conseguir botar rédeas no menino. Os outros desconfiavam que era a curta diferença de idade entre os dois - apenas cinco anos - que os tornava mais próximos, embora a menina já fosse uma adolescente de quinze anos enquanto Endymion fosse apenas um garotinho de dez. Mas eles se entendiam e ninguém discutiria isto.

- Não ria! - o rei esbravejou frustrado, fuzilando a esposa com o olhar que não aguentou-se e começou a gargalhar. - Serenity! - gritou ultrajado.

- Me desculpe. - Serenity disse entre soluços por causa do riso. - Mas a sua cara foi ótima! - cobriu a boca com a mão para esconder o inclicar de seus lábios no que prometia ser um largo sorriso. - Dê um desconto a menina Darien. - falou quando finalmente conseguiu se acalmar.

- Serena precisa aprender a ser responsável, afinal ela será a futura rainha de...

- Tóquio de Cristal. - a mulher rolou os olhos, já mais do que familiarizada com aquele discurso. - Mas não será amanhã. Deixa-a aproveitar a juventude. Até porque nós dois não envelheceremos tão cedo e eu duvido muito que estarei disposta a abdicar de meu trono quando ainda há muito o que se fazer por este planeta. Quero deixá-lo em 'perfeitas condições' para as gerações futuras, assim Serena não terá muito com o que se preocupar. - encerrou num tom sério e Endymion assentiu com a cabeça. Afinal, esse era o desejo de todos os pais, não era? Dar um futuro estável e feliz aos seus filhos, eles sendo realeza ou não. - Mas que a sua cara foi cômica - cutucou, pois achava que havia um limite para conversas sérias logo durante o café da manhã. - ah se foi.

- Serenity! - exclamou o homem, tentado a jogar um biscoito amanteigado sobre os brilhosos cabelos claros da esposa. Depois de minutos ambos riram diante da própria infantilidade e silenciaram-se, trocando olhares de confidência e intimidade que somente os anos juntos poderiam proporcionar. Num gesto fluído, Endymion ergueu-se de sua cadeira, tomando o lugar vagado pela filha mais cedo ao lado da esposa e pegou uma das mãos suaves da mulher entre as suas, acariciando os dedos lentamente e olhando com interesse a aliança que simbolizava a união de ambos.

- O que foi? - perguntou quando viu o marido extremamente pensativo encarando com interesse seus dedos pálidos.

- Eu te amo. - murmurou o homem num tom baixo e Serenity sorriu, dando um beijo leve na bochecha dele.

- E eu sou uma mulher de extrema sorte. - respondeu com um sorriso que mesmo depois de anos ainda tirava o fôlego do rei cada vez que o mesmo era direcionado a si.

- O mesmo digo eu. - rebateu, inclinando-se para dar um beijo nos lábios rosados da esposa, mas sendo prontamente interrompido quando as portas do salão abriram-se num estrondo. Frustrado, o homem voltou ao seu lugar e mirou com irritação o recém chegado, sabendo que não deveria ser nenhum funcionário do castelo pois os mesmos tinham ordens expressas que depois que a refeição fosse servida para não serem incomodados, pois este era um momento de família. Com isto, as únicas pessoas que seriam capazes de entrar desta maneira sem pedir licença eram as Sailors.

E não deu outra, quando Endymion virou-se completamente sobre a cadeira para encarar o intruso, viu-se sob o olhar curioso de Júpiter e o de enfado de Urano, ambas devidamente transformadas e com uma postura tensa ao seu redor. Com as sobrancelhas negras franzidas o homem ergueu-se de seu lugar, pois sabia que se elas estavam como Sailors era porque o assunto a ser tratado era alguma emergência de Estado. Ao seu lado, Serenity soltou um suspiro ao ter mais uma manhã pacífica sendo interrompida e também ergueu-se, acompanhando em silêncio as amigas para a sala de conferência para tratar de mais um problema que com certeza era sem importância e chato. Realmente não era nada fácil ser o centro político do mundo.


Juuban High não tinha mudado muita coisa com os anos. Okay, mentira, na verdade tinha mudado em tudo, principalmente a construção que havia sido completamente destruída no último ataque que a cidade sofreu por causa da família Black Moon. Embora muito da arquitetura tradicional tenha sido mantida, podia-se ver nas salas de aulas e outras dependências da escola o que a modernidade tinha causado no sistema de ensino mundial. E naquela manhã, como em todas as outras, o colégio estava repleto de vida e animação proporcionada por seus alunos entusiasmados em reencontrar os amigos após mais um final de semana e correndo apressados para as suas salas ao toque do primeiro sinal.

Selene bateu a porta de seu armário, recolhendo seus sapatos usados dentro do prédio do colégio, os jogando no chão displicente e os calçando. Hoje não estava com humor para encarar um longo e enfadonho sermão dos professores sobre assuntos que sinceramente não lhe interessava em nada. Depois do pesadelo da noite passada não conseguira dormir novamente e agora todo o seu mau humor tinha vindo a tona por causa da noite insone. Maldita hora que resolvera sonhar com a morte de seu pai. Aliás, por que diabos sonhara com a morte de seu pai? Embora as lembranças do sonho estivessem fragmentadas em sua mente, tinha a certeza que o pesadelo era relacionado ao passado do Milênio de Prata e poderia culpar a sua fascinação pela história do mesmo que atiçou a sua imaginação ocasionando o sonho.

Contudo, isto não explicava o fato que parecia ver a história ocorrer em frente aos seus olhos da perspectiva de alguém do qual nunca ouvira falar e que ao mesmo tempo tinha a sensação de que lhe era extremamente familiar. Sem contar aquele homem cujo rosto ela não lembrava mas que só de recordar dele sentia as bochechas esquentarem de maneira absurdamente rápida.

- De mau com a vida? - uma voz a chamou e a garota virou-se para mirar o rapaz recostado no armário ao seu lado.

- Não encha o meu saco Brenton. - murmurou entre dentes, dando um empurrão no garoto para tirá-lo do caminho.

Brenton Hino era um dos gêmeos que Rei Hino teve a infelicidade de colocar no mundo, ou ao menos era esta a opinião de Selene. O garoto era irritantemente arrogante, só porque era um ano mais velho que ela, nariz empinado e gostava de se gabar largamente de suas habilidades em controlar o fogo. Além de jogar constantemente na cara de Selene que ele, ao invés dela, tinha autorização para fazer parte do destacamento de novos guerreiros que serviam de guardiões da Cidade de Cristal. Destacamento este o qual a sua irmã fazia parte ao liderar um grupo chamado Neo Senshis. E Bastet, a gêmea de Brenton, era uma dessas Neo e igualmente irritante como o irmão.

Por isso, não precisa se dizer que Selene, dentre todos os herdeiros das Sailors Senshi, era a única que não se entrosava muito bem com o grupo. Cada Sailor, estranhamente, teve como primogênito uma menina, exceto Saturno e Plutão que no presente momento permaneciam solteiras, e cada menina herdou, sem nenhuma explicação científica possível, os poderes das mães, ou ao menos tinham poderes que assemelhavam-se aos de suas mães. Visto isto, a rainha resolveu que para a cidade de Tóquio não seria de nada ruim ter mais guardiãs que o necessário já que as tradicionais Sailor já eram mais do que escaldadas de batalhas e mereciam um descanso. Além do mais, se pretendiam deixar aquele reino para gerações futuras, essas gerações teriam que saber defendê-lo.

Com isto, usando o poder do Cristal de Prata, Serenity concedeu a cada uma das meninas herdeiras o poder de transformar-se em uma senshi gerando assim uma nova identidade a elas, as possibilitando lutar contra qualquer ameaça sem o perigo de serem expostas. Afinal, séculos podem se passar, mas ainda sim o maior mistério que prevalecia no planeta era quem eram as Sailors Guerreiras. Entretanto, o caso de Selene era outro completamente diferente.

O poder do Cristal Estelar tinha manifestado-se na garota recentemente a apenas poucos meses antes do ataque de Kolie, o Pirata Espacial, que causou toda a confusão que teve como consêqüencia o fato da menina estar de castigo há semanas. O homem aproveitou-se da inexperiência da garota e roubou seu cetro, abrindo um instável portal do tempo para o passado na vã tentativa de derrotar as Sailors do século vinte e assim dominar a Terra. Claro que Selene não deixou a ofensa por menos e foi atrás do sujeito, contrariando toda e qualquer ordem superior para o desespero de seus pais. Porém, no final, tudo dera certo e o rei Endymion foi enfático ao dizer que de agora em diante ela não participaria de mais nenhuma batalha (o que não fazia diferença pois era a mesma coisa que ela fazia antes do ataque) até seu treinamento com Plutão estar completo.

- Alguém acordou do lado errado da cama hoje. - murmurou o rapaz com um sorriso divertido e Selene soltou um resmungo sob a respiração.

- Quem disse que eu dormi? - retrucou, dando as costas para ele e seguindo seu caminho em direção a sala de aula. Brenton em questão de segundos a estava seguindo de perto, falando a mil milhas por hora e Selene freou o impulso de abrir um portal agora mesmo e transportá-lo para a imensidão do universo e largá-lo lá.

- Você não tem uma Serena para puxar o saco? - esbravejou, virando-se violentamente sobre os pés para poder encará-lo de frente e Brenton parou num supetão, quase caindo no chão diante do gesto brusco da garota. Suas bochechas adquiriram um intenso tom vermelho diante da menção da outra princesa. Não era segredo para ninguém que o rapaz arrastava um bonde pela herdeira do trono, que não lhe dava muita bola pelo simples fato de ele ser um ano mais novo que ela e por todas os filhos das Sailors terem sidos praticamente criados juntos como irmãos. Ou seja, Serena não nutria nada pelo menino que fosse além do carinho fraterno e isso frustrava o garoto que praticamente tinha um tombo em relação a ela.

Resignado com a eterna atitude avessa de Selene, Brenton balançou a cabeça, rebelando seus cabelos castanhos, e lançou um último olhar a menina antes de virar-se e sumir na esquina de um corredor em direção a sua sala de aula. Aliviada por finalmente encontrar-se sozinha a garota seguiu caminho e silenciosamente entrou em sua sala, tomando seu lugar aos fundos da mesma e esperando pacientemente o que prometia ser mais um dia longo de aulas começar.


O grupo cruzava os corredores em silêncio, com Serenity olhando vez ou outra para as suas guerreiras e tentando descobrir na postura delas do que se tratava a tal emergência, porém nada conseguindo. Minutos depois de deixarem a copa, os quatro adultos entraram na sala de conferência e Urano e Júpiter prontamente se dirigiram a mesa de projeção e ligaram o aparelho, fazendo uma imagem 3D do universo ser emitida do sensor que ficava no centro da mesa arredondada.

- Zathar! - começou Urano, indo direto ao assunto. - Um planeta de 1.5 bilhões de habitantes e fica a quinhentos mil quilômetros do quadrante 2 do universo. É um planeta semelhante a Terra em alguns aspectos, sendo 60 de sua superfície composta por água, 15 terra e 25 gelo. É um local frio, por isso o fato de poucos habitantes. - a imagem no projetor deu um zoom, deixando a mostra uma versão tri-dimensional de um planeta que era uma mistura de azul e branco. - Tem um sol que possui no mínimo um terço da capacidade do nosso, por isto do gelo, e é rodeado por três satélites naturais, as luas de Zathar. Também possui um único grande continente, sendo o restante tudo pequenas ilhas ou arquipélagos, e a maioria de seus moradores moram na capital Za-Xmyr. São governados por uma família real num sistema misto. Eles possuem um parlamento popular mas no fim a palavra final é a do rei. Principal fonte de renda é o elemento zaphira... - parou a explicação e mirou os soberanos por um breve momento.

- A matéria prima usada para a construção de ao menos 90 das estruturas militares dos 4 primeiros quadrantes do universo? - Serenity completou incerta. Não era muito ligada em política e rara foram as vezes que ficou acordada em uma aula sobre diplomacia que Luna e Artemis ainda insistiam em dar a mulher de vez em quando.

- Isso mesmo. Armas de defesa, naves cargueiras, militares e de passageiros são feitas com este elemento. Sem contar que é a principal fonte de energia dos canhões de plasma usados nas naves de combate. Com isto - Urano prosseguiu, fazendo um gesto com o dedo e indicando algo no holograma. A imagem do pequeno planeta Zathar ampliou-se até que mostrou o que parecia ser uma grande e próspera cidade. - possui uma economia rica e estável, pois vivem praticamente do comércio deste elemento. - nisto a mulher pausou novamente, como se tomando fôlego. - No entanto, as leis de exploração da zaphira são severas. O planeta é praticamente constituído por esta matéria e sua extração desordenada poderia levar a destruição do mesmo. E acho que o fato de haver leis estritas para o comércio da zaphira não agradou alguns negociadores espaciais.

- Se a matéria está no território deles, Zathar tem o direito de explorá-la como bem lhe convir. - esclareceu Endymion, cruzando os braços sobre o peito e tentando compreender em que esta breve aula de história tinha a ver com o assunto.

- Verdade, mas nem todos sabem levar um não na cara. - Júpiter resolveu assumir a explicação. - Há alguns meses o planeta foi invadido, seu povo facilmente subjulgado e escravizado e com isto começou uma exploração desordenada do solo...

- Subjulgado? - Endymion arqueou uma sobrancelha. - Pelo que lembro Zathar tem o melhor sistema de defesa existente e os melhores soldados, como esta façanha foi conseguida? - perguntou e as duas sailors deram de ombros. Também não saberiam dizer, pois poucos dados tinham sobre o assunto.

- Ainda não compreendo no que isto nos afeta. Por acaso os invasores de Zathar tem como próximo alvo a Terra? - Serenity indagou, olhando curiosa para a imagem tri-dimensional que tremulava acima da mesa.

- O sistema de monitoração espacial captou um sinal de socorro há uma hora atrás de uma nave aproximando-se da esfera terrestre e pedindo permissão de pousar na base militar norte. - esclareceu Júpiter. - uma nave que, segundo o piloto, está trazendo a família real. - isso pareceu finalmente chamar a atenção dos dois soberanos.

- Precisamos saber qual a posição de vocês, cedemos a autorização ou não? - Urano perguntou e observou Serenity e Endymion trocarem olhares, como se estivessem tendo uma conversa apenas com os olhos.

- Quais são os riscos de abrigarmos estes refugiados? - a rainha perguntou a ninguém em particular.

- Grandes. - retrucou Júpiter. - Nada nos garante que aqueles que invadiram Zathar não venham atrás da família real para completar o trabalho. - falou e viu a amiga colocar a mão sobre o peito, como se perguntasse ao seu coração o que fazer. A loira fechou os olhos por breves momentos, pensativa, e depois os abriu, soltando um suspiro.

- Há muitos anos atrás quando o Milênio de Prata foi destruído a Terra aceitou-me e me acolheu se transformando em meu segundo lar. As pessoas nos procuram, vindas de vários cantos do universo em busca de ajuda ou apenas um abrigo e eu não vou lhes negar esta chance. - falou, virando-se para Endymion para ver se ele concordava com ela e o homem lhe sorriu, dando um leve aceno positivo de cabeça.

- Diga ao comando da base para autorizar a entrada da nave e avise as outras Sailors para ficarem apostas para receberem os visitantes.

- Vamos precisar de todo esse esquema de segurança mesmo? - indagou Urano, apenas para certificar-se de que era isso que o rei queria.

- Nunca é demais prevenir. - as duas mulheres assentiram com a cabeça e Júpiter rapidamente saiu da sala, indo procurar a estação de comunicação do palácio para passar a mensagem enquanto Urano permanecia com os soberanos.

- Vocês irão receber os refugiados? - perguntou a sailor que ficara para trás e mais uma vez Serenity e Endymion trocaram olhares, acenando com a cabeça positivamente. A mulher respondeu com seu próprio aceno, prontamente pegando o comunicador das senshis para convocar as outras guerreiras para a escolta do casal real e para fazer a segurança dos viajantes com a sensação de que essa nova chegada traria muitos problemas para Tóquio de Cristal.


As mãos seguraram firmemente os controles da espaço nave enquanto a guiava com precisão em direção a pista de pouso onde podia-se ver ao longe a comitiva já os esperando. Com alguns movimentos de pé nos pedais da nave e alguns apertos de botão, o homem acionou o trem de pouso e num tremular a enorme máquina tocou o chão, deslizando pelo longo caminho pavimentado com suavidade até parar finalmente com um leve sibilo do motor que estava se desligando. Soltou um suspiro, desafivelando o cinto e dando um relance ao co-piloto que acenou positivamente com a cabeça copiando seus gestos e ambos saíram da cabine, chegando ao outro compartimento da nave onde um grupo de ao menos trinta pessoas se encontrava, todas encolhidas umas contra as outras, as expressões em seus rostos ainda de horror e as lembranças dos motivos de sua fuga com certeza ainda impresso na mente delas.

- Chegamos? - uma bela mulher de pele clara como a neve, cabelos pratas e olhos cor de gelo perguntou ao homem que tinha acabado de sair da cabine de comando e ele apenas acenou positivamente para ela, causando um suspiro de alívio passar por entre os lábios vermelhos. A passos largos, o piloto dirigiu-se a saída da nave, destrancando a porta e ativando o escorrega de emergência que rapidamente inflou-se até tocar o chão.

- Um por um por favor. - avisou, estendendo os braços em direção a mulher que ergueu-se graciosamente de sua posição no chão e caminhou até ele, pegando-lhe a mão e permitindo-se ser empurrada escorrega abaixo. Logo depois dela, veio um rapaz, máximo dezoito anos em contagem terrestre, extremamente parecido com a mulher que acabara de sair da nave, e também jogou-se no escorrega, descendo rapidamente. Um a um os passageiros foram desembarcados e ao tocar no solo eram rapidamente auxiliados pelos funcionários da base que prontamente os levavam em direção ao prédio hospitalar para fazerem os exames de praxe quando se tratava da chegada de um extra-terrestre. Por fim, quando todos finalmente desceram da espaço nave, o homem permitiu-se relaxar, jogando seu corpo contra o tobogã e pousando de maneira elegante no chão, sendo logo escoltado por dois soldados pelo mesmo caminho que seus companheiros fizeram mais cedo.

Minutos passaram como horas enquanto os recém-chegados eram avaliados atenciosamente pelos médicos da base e quando finalmente foram liberados, o grupo fora encaminhado para uma sala onde supreenderam-se ao encontrar oito mulheres trajando uniformes de marinheiro e um casal que mesmo em silêncio pareciam gritar para quem quisesse ouvir que eram os famigerados Serenity e Endymion da Terra.

- Então? - o rei foi o primeiro a quebrar o silêncio, seus olhos azuis percorrendo todos os estrangeiros naquela sala e fixando-se particularmente no trio que estava mais a frente do grupo. - Por favor, poderia o líder de vocês se apresentar? - pediu num tom polido e o adolescente de mais cedo deu um passo a frente, fazendo uma reverência respeitosa para o homem.

- Sou Aldric de Mar'Ran da casa de Ran, príncipe herdeiro do trono de Zathar. - apresentou-se. - Muito prazer em conhecê-los rainha Serenity e rei Endymion. Quero de antemão agradecer pelo acolhimento dos senhores. Por favor, deixe-me apresentar a minha mãe... - esticou o braço para a bela mulher de cabelos prateados que deu um passo a frente e parou ao lado do rapaz. - Milady Eileen do Baus e este ao nosso lado é meu guarda pessoal e conselheiro Lorde Hans'Ark-Ra da casa de Ra. - Hans imitou o gesto do príncipe e cumprimentou polidamente o grupo do rei e rainha, mais as guerreiras. As mulheres arregalaram um pouco os olhos ao ver como aquele homem conseguia ser tão gracioso. Hans era alto, extremamente alto, talvez para 1.90 m de altura ou mais. Tinha ombros largos e o corpo de soldado sendo completamente escondido pelos trajes de piloto. Os cabelos eram prateados, quase brancos, curtos e arrepiados e os olhos verdes intensos, além da pele bem morena ser um contraste com os seus conterrâneos que tinham todos um complexo pálido que lembrava completamente o fato de virem de um planeta frio.

- Seja bem vindo príncipe Aldric. - Serenity respondeu com um sorriso acolhedor que pareceu aliviar um pouco a tensão sobre os visitantes que não sabiam o que esperar dos moradores daquele planeta. A fama da cidade de Tóquio de Cristal e seus governantes estendia-se a vários quilômetros universo adentro, mas nem sempre era possível acreditar em histórias de um planeta distante, contadas em bares nas paradas espaciais por viajantes cansados e bêbados. - Confesso que estou surpresa, quando a sua nave pediu permissão para entrar na nossa atmosfera, vossa alteza não especificou o número de refugiados. - continuou em um tom calmo, olhando com uma expressão tenra para as pessoas assustadas e que encolhiam-se umas contra as outras a procura de um pouco de conforto. Sentiu pena delas e podia apenas imaginar o que elas estavam passando. Afinal, ser expulso de seu lar nunca era uma experiência agradável.

- Me desculpe pela falta de aviso majestade, mas diante de toda a confusão, da fuga as pressas de Zathar, parece que muitas coisas ainda estão sendo assimiladas pela nossa mente. Sinto causar-lhe tamanho transtorno. - continuou o príncipe apologético e Serenity sorriu mais ainda.

- Transtorno algum... - respondeu, virando-se para as senshis que a cercavam como se fossem uma parede de proteção humana. Quase rolou os olhos ao ver isso, hoje as sailors preocupavam-se aos extremos em protegê-la e às vezes a mulher tinha a impressão que as suas amigas somente viam a rainha de Tóquio de Cristal na sua frente, esquecendo que ela ainda era a mesma Serena que no passado lutou contra o mal e arriscou várias vezes a sua vida junto com elas para poder proteger o planeta. Não era indefesa, ou fraca, e anos de prática em combates lhe deram algumas habilidades que a possibilitava se safar muito bem de uma enrascada sozinha. - Urano e Netuno irão acompanhar seus amigos para um dos refúgios construídos na época do ataque da Black Moon. - completou, fazendo um gesto para as duas sailors que deram um passo a frente.

- Agradeço pela sua generosidade. - o rapaz fez uma reverência polida. - Mas... e quanto a nós? - perguntou confuso, correndo seu olhar desde a figura silenciosa de sua mãe ao conselheiro parado ao seu lado como uma gárgola, seus olhos intensos obsevando tudo a sua volta a procura de qualquer risco com as costas retas numa postura ameaçadora.

- Queremos lhe oferecer estadia em nosso palácio. - Endymion convidou e lançou um olhar de esguelha para Marte e Júpiter que abriram a boca para protestar diante dessa oferta. Não sabiam tanto assim sobre o motivo da vinda dos zatharianos e as guerreiras não estavam muito convencidas que um invasor qualquer conseguira expulsar de um planeta que possuía um excelente sistema de defesa a família real e mais alguns refugiados. - E se a viagem não tiver sido muito cansativa, talvez vocês possam nos oferecer algum esclarecimento sobre o que aconteceu. - continuou, pois pensava o mesmo que as senshi, mas sabia que a melhor maneira de prevenir qualquer ataque surpresa era manter o inimigo bem perto dos olhos, onde pudesse observar qualquer movimento suspeito dele.

Aldric encarou o rei da Terra por longos segundos, sabendo claramente o que ele pensava. O planeta já tinha sofrido invasões o suficiente para seus guardiões serem abertos a qualquer tipo de ação solidária por compreensão diante do que eles sentiam, mas não se permitirem confiar plenamente em quem pedia a ajuda. Voltou seus olhos claros para o homem prostrado ao seu lado, pedindo silenciosamente por um conselho, e Hans apenas lhe deu uma leve afirmativa de cabeça. Rapidamente o príncipe voltou-se com um sorriso para os seus anfitriões.

- Claro! - disse animadamente. - Seria uma honra. - um pouco da tensão que reinava na sala pareceu diminuir e pouco a pouco as sailors foram guiando os visitantes para o micro ônibus que os esperava. A familia real zathariana junto com Endymion e Serenity tomaram um outro rumo, sendo encaminhados para um grande carro de luxo que servia de transporte da realeza. Calmamente eles entraram no veículo e Sailor Vênus assumiu o volante, o que fez Serenity rapidamente encolher-se contra o banco e apertar seu cinto de segurança. Endymion queria rir da atitude da esposa, mas estava ocupado demais fazendo o mesmo, assim como Marte e Mercúrio. Quando o grupo recebeu um olhar curioso dos estrangeiros, Ami resolveu esclarecer a situação.

- Melhor se segurar - sussurrou. - Vênus não é a melhor... - hesitou um pouco e olhou nervosamente para a mulher atrás do volante. - das motoristas. - e mal terminou de falar o carro deu um tranco, saindo em disparada da base.


A lua mais uma vez brilhava majestosa na imensidão do céu enegrecido da noite, iluminando o jardim de belas rosas e criando reflexos prateados sobre a superfície da água que estava na fonte. A mulher cruzou desatenta a trilha, mais do que acostumada com todas as saliências que as pedras do chão tinham e qualquer curva que tivesse a frente e rapidamente encontrou o que procurava: um banco de pedra que estava posicionado de maneira estratégica e possibilitava uma visão completa do palácio mais a frente.

Sentou-se pesadamente no banco, soltando um logo suspiro e voltando seus olhos azulados para o chão pavimentado. Uma brisa suave soprou, balançando seus cabelos negros sobre o rosto e a jovem ergueu a cabeça para poder retirar os fios que lhe incomodava. Rapidamente sua atenção voltou-se para a lua brilhante no céu e ela deu outro suspiro. Endymion tinha desaparecido mais uma vez, a deixando louca e quando foi reclamar deste fato com os quatro generais, eles apenas deram de ombros. Os traidores estavam descaradamente encobrindo as doideiras do príncipe. Eles simplesmente achavam que era uma fase o que o rapaz estava passando e que logo iria se cansar. Mas Estela tinha a sensação de que ia muito mais além disso.

Já fazia meses que Endymion estava saindo as escondidas do castelo, indo como um clandestino ao reino lunar para poder visitar a princesa do mesmo e os generais nada faziam a respeito. Seus avisos sempre entravam por um ouvido do príncipe e saíam pelo outro e a mulher nem queria pensar no que aconteceria quando os pais do rapaz descobrissem sobre estas escapadas noturnas. O inferno, com certeza, subiria a terra e Endymion não fazia idéia de o quão próximo ele estava de causar um crise de Estado.

- Se eu soubesse que não seria punida por isso, eu juro que torceria o pescoço dele. - murmurou contrariada, fazendo gestos com as mãos como se estivesse torcendo algo no ar.

- Atitudes tão violentas para uma dama tão delicada. - a voz sussurrada perto de seu ouvido fez a garota dar um pulo e sair do banco num salto, mirando com os olhos largos o intruso. Ao ver quem estava na sua frente, rapidamente a guerreira fez um gesto polido para o homem, a sua voz começando a tremular assim que abriu a boca.

- Ma-Ma-Majestade. - dirgiu-se ao sujeito que fazia parte da comitiva que há alguns dias chegara a Terra. O homem sorriu para a bela jovem, dando a volta no banco e parando em frente a ela, seu físico avantajado praticamente causando uma grande sombra sobre o corpo diminuto da guerreira.

- Rhian. - corrigiu e a garota piscou seus grandes olhos azuis.

- Como senhor? - perguntou pasma pois seu cérebro ainda não tinha conseguido assimilar o que o soberano tinha acabado de dizer. Por acaso ele estava insinuando que ela o chamasse pelo nome? Claro que não, óbvio que não, porque se fosse isso teria uma epifania. Ela não chamava nem o rei e a rainha, que eram seus tios, pelo nome, quanto mais um estranho completo.

- Meu nome é Rhian.- repetiu calmamente, caminhando até o banco e sentando-se elegantemente sobre o mesmo. Estela mirou o homem longamente, seu rosto denotando surpresa diante da permissão de não mencionar mais nenhum título quando fosse falar com ele. Rapidamente as bochechas da guerreira adquiriram um tom avermelhado ante tamanha intimidade e ela virou de costas para o rei quando percebeu que ele tinha um sorriso divertido nos lábios.

- Eu sinto muito majestade, mas simplesmente não posso me permitir tamanha intimidade com um superior. - respondeu aos gaguejos e Rhian franziu as sobrancelhas, inclinando a cabeça para o lado pensativo.

- Não importa... ficarei na Terra tempo o suficiente para fazê-la mudar de idéia. - murmurou e Estela sentiu o corpo esquentar diante da insinuação.

Como da outra vez, a cena foi interrompida por uma névoa que tomou conta do local, cegando qualquer espectador que pudesse ter naquele lugar. Uma brisa fria soprou, carregando para longe a densa neblina e dando espaço a mais uma nova cena. Estela estava impressada contra a pilastra do coreto que ficava no meio do lago dentro das terras do castelo da família real com Rhian na sua frente, sendo o responsável pelo fato da jovem praticamente estar se tornando uma com a peça de mármore.

- Nós não podemos. - falou firmemente, a sua voz praticamente sendo abafada pela chuva torrencial que caia a volta deles.

- Por que não? - os olhos azuis gelo fixaram-se nos azuis escuros da garota. Rhian esticou um braço, o apoiando na coluna ao lado da cabeça dela, praticamente impedindo qualquer fuga da guerreira pela esquerda.

- Porque... porque... porque não! - respondeu aflita, olhando a sua volta para ver se não tinha ninguém que resolvera observar justo aquele ponto do lago naquele dia, embora soubesse que seria difícil alguém conseguir distinguir alguma coisa com aquela chuva encobrindo a paisagem.

- Estela... - Rhian sussurrou, aproximando seu rosto do dela e a jovem sentiu as bochechas esquentarem. O rei tinha um charme todo natural que fazia as mulheres da corte soltarem risadinhas bobas e suspirarem por ele com um simples olhar. Era um homem belo, de uma beleza firme e quase amedrontadora, estava sempre sério e era de poucas palavras. O tipo de soberano que passava a imagem de ser um homem rígido mas ao mesmo tempo justo. E estando assim tão perto dela apenas fazia o coração da garota dar saltos enlouquecidos em seu peito.

- Rhian... por favor. - falou num sussurro com um tom implorador e franziu levemente as sobrancelhas quando viu o homem dar um discreto sorriso.

- Eu disse que ainda conseguiria fazê-la dizer meu nome. Viu, não foi tão difícil assim. - brincou, mas isso não pareceu aliviar a expressão de pesar da guerreira que o mirava com os orbes azulados brilhando com lágrimas não derramadas. - Shhh... - disse suavemente, levando uma mão ao rosto arredondado dela, lhe acariciando a bochecha e secando com o dedão uma lágrima que foi derramada sem a jovem perceber. - Não chore princesa, não chore. - Estela soluçou diante do tom carinhoso dele, tão diferente do monarca que portava-se em público como uma intransponível pedra de gelo. Sacudiu a cabeça, deslocando a mão dele do lugar e fechou os olhos firmemente.

- Não sou princesa! - sua voz quase sumiu ao declarar isto. - Sou uma guerreira, treinada e educada desde criança para proteger e servir o príncipe da Terra. Não vê?! - gritou desesperada, socando o peito largo na sua frente. - Eu não sou ninguém importante, ninguém que valha a atenção de um rei! O que você quer? Brincar comigo? Pois procure outra - o mirou com fúria. - porque eu não tenho paciência para este tipo de joguinho! - tentou desvencilhar-se do homem, mas este a segurou pelos ombros e a jogou contra a pilastra, a fazendo perder o fôlego.

- Fique sabendo Guardiã Estelar que eu não sou do tipo de pessoa que gosta de relacionamentos frívolos. - praticamente sibilou como uma cobra raivosa. - E jamais perderia meu tempo com joguinhos sem sentido. - Estela ofegou diante da intensidade com que aqueles olhos exóticos a encaravam e tentou-se encolher-se o máximo que pode contra a coluna para poder fugir daquele olhar.

- Então o que você quer de mim? - aventurou-se a dizer e Rhian deu mais um de seus sorrisos contidos.

- É tão simples, será que você não consegue ver que tudo que eu quero é você? - e inclinou-se sobre ela, capturando os lábios cheios e trêmulos com os seus.

O som estridente de algo chocando-se contra o metal fez a adolescente dar um pulo no lugar e encarar com olhos largos a mulher que estava praticamente com o nariz grudado em seu rosto e a olhando com raiva contida.

- Talvez a minha aula seja enfadonha para a princesa. - sibilou a professora, fazendo Selene rapidamente recuar com a cadeira para poder afastar-se de qualquer ataque de ira da mulher.

- Como? - perguntou abobalhada e olhou a sua volta apenas para ver que todos os seus colegas de turma a encaravam com uma expressão divertida, alguns deles até soltando risadinhas diante da situação.

- Muito me admira você princesa Selene, dormindo na minha classe! - a professora virou-se sobre os saltos, ainda resmungando. - Eu esperava uma atitude dessas da sua irmã, mas você? - completou, fazendo uma expressão de desapontamento quando chegou em frente a classe e virou-se para observar a todos. Rapidamente os alunos risonhos se calaram, esperando pacientemente pela próxima frase clássica da mulher num caso desses. - Detenção depois da aula! - e a Selene nada mais restou a não ser soltar um sofrido suspiro.


O ponteiro dos segundos parecia rodar com uma lentidão enervante sobre a superfície do relógio enquanto a jovem o mirava em expectativa esperando que a uma hora de detenção se encerrasse. Quando o ponteiro dos minutos finalmente chegou ao número doze, marcando as quatro horas em ponto, Selene saiu da cadeira num pulo e nem ao menos deu um adeus a professora entretida em corrigir trabalhos, e saiu correndo sala afora, chegando aos corredores as pressas e descendo as escadas de dois em dois degraus.

Quando alcançou o primeiro andar do prédio, a garota acelerou mais o passo, doida para sair daquele lugar onde ela não suportava passar mais tempo do que o necessário, e viu com alegria que estava chegando ao seu destino apenas para ser interrompida por um corpo que colocou-se entre ela e seu caminho para a liberdade.

- Mas que... - esbravejou quando colidiu com a outra pessoa, a fazendo recuar cabaleante para trás e sacudir a cabeça para recuperar-se da tontura provinda do choque. - Serena? - perguntou incrédula ao ver-se mirada pelos olhos âmbares da irmã, que tinha duas finas sobrancelhas rosadas arqueadas até a linha da franja.

- Selene? - Serena recuou surpresa ao ver a irmã mais nova parada na sua frente, com o rosto rubro, os cabelos longos e negros rebelados pela corrida e o uniforme amarrotado por causa do impacto. - O que você ainda faz aqui na escola? - Selene sempre era a primeira a sumir do campus quando o último sinal do dia tocava, ansiosa para encontrar-se com Plutão para prosseguir seu treinamento, mas cá estava ela, ainda dentro do prédio e aparentemente com pressa.

- Eu... a professora... - começou a apontar para trás de si, para o corredor de onde tinha vindo, sem saber direito o que dizer. Se contasse a irmã que ficara em detenção a história chegaria ao ouvido de seus pais e de metade da cidade. Serena não sabia manter o bico fechado quando necessário e com certeza não perderia a chance de tirar sarro da cara dela. Quando viu o rosto da adolescente mais velha começando a se contorcer num sorriso de compreensão, a menina sentiu um frio descer até a boca do estômago. Infeliz hora que a herdeira teve de subitamente ficar esperta.

- Você ficou depois da hora em detenção, não foi? - falou com um sorriso malicioso surgindo no rosto e Selene bufou, suas bochechas estufando em um gesto irritado que lembrou muito a mãe delas quando mais nova.

- Quem disse tamanho absurdo para você? Eu posso ter ficado simplesmente por causa de algum trabalho, ou crédito extra... - Serena a interrompeu com uma gargalhada.

- Você é uma Tsukino, Selene, e como um bom membro dessa família escola para você é o Anti Cristo! Confessa, você ficou em detenção. - gracejou e Selene estreitou os olhos. - Qual foi o motivo? - a jovem de cabelos rosados aproximou-se de irmã, deixando seus rostos bem próximos um do outro. - Heim?

- Não te interessa. - a morena recuou um passo e mirou irritada a outra adolescente que abriu mais um largo sorriso maroto.

- Sonhando acordada em sala de aula Sel? - a mais jovem fechou as mãos em um punho e soltou um rosnado.

- Não leia a minha mente Serena! ISSO É ANTI ÉTICO! - falou com o rosto vermelho de vergonha. O fato de Serena ter o poder de ler mentes, contrapondo o poder que ela tinha de mover coisas com a mente, a assustava. A irmã nem sempre entrava na cabeça dos outros sem ser autorizada, ordens expressas de seus pais sobre respeitar a privacidade alheia, mas com ela a garota abria uma excessão às vezes... ou sempre.

- Por quê? Está escondendo algo de mim? - Serena sentiu vontade de rir como uma menina do colegial apaixonada. Não, espera, ela era uma menina do colegial, só não estava apaixonada. Bem, o que fosse. Mas o importante era que Selene tinha algo a esconder e pela vermelhidão no rosto da garota com certeza o motivo de ela ter sonhado acordada em sala de aula era... - AHHHHHH... VOCÊ ESTÁ A FIM DE ALGUÉM! - gritou incrédula, apontando um dedo acusador para a caçula. - Como, como, como, por que você não me disse isso?! - choramingou histericamente. - Eu sou a sua irmã Selene, você deveria me contar essas coisas...

- Quem disse? - interrompeu a jovem diante do drama da outra. Rolou os olhos, Serena era tão exagerada.

- É LEI! Irmãs confidenciam esse segredo! - a morena arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços sobre o peito, encarando a outra princesa com uma expressão de enfado.

- Verdade? Então me diga: naquela vez que você passou a noite fora de casa há três semanas, você estava realmente com a Ann? - perguntou e rapidamente Serena calou-se, ficando séria e qualquer traço de choro sumindo de seu rosto.

- Não! - respondeu firme.

- Estava com aquele menino do classe C não estava? Aquele que você tava de olho... Matt era o nome dele?

- E se eu disser que sim? - respondeu, estufando o peito e a desafiando a repreendê-la.

- Tsc! Foi o que eu falei... você não me conta essas coisas, por que então eu deveria contar a você? - deu o golpe de misericórdia e Serena murchou. Era verdade, relacionamentos amorosos, problemas extremamente pessoais, elas não confidenciavam uma a outra. Na verdade se conversavam sobre algumas coisas na maioria das vezes eram assuntos mundandos ou de sailors. Contudo Serena sabia que mesmo com a falta de comunicação elas conseguiam se entender, ao menos ela conseguia entender a irmã mesmo que essa achasse que não.

Selene tinha a estranha idéia de que Serena achava-se superior a ela por causa de seu status como Sailor Moon, pelo fato dela e suas amigas serem as guardiãs da cidade e a jovem sempre recusar qualquer participação da adolescente mais nova em alguma missão. A princesa sabia que isso enfurecia a irmã que tudo o que queria era ajudar... Mas Selene não tinha idéia de como era essa vida. Ela era Sailor há pouco tempo, Serena tinha este cargo há anos, fora o tempo que ela passou no passado quando criança com o peso da responsabilidade de salvar todo o reino da família Black Moon. Ela não queria isso para a irmã que na época do ataque era só um bebê. E ela lembrava-se claramente da promessa que fizera a pequena Selene quando deixou esta aos cuidados de Plutão e partiu para o passado. Havia dito a menina que salvaria os pais delas, que a protegeria sempre, e era isto o que estava fazendo.

- Verdade. - disse num tom sério. - Mas você sabe que se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, você pode me procurar, não sabe? - continuou, encarando a menina firmemente nos olhos. Selene soltou um suspiro. Sabia que a sua irmã não era de todo ruim e a amava de verdade, mas as vezes a mulher a irritava. Resignada descruzou os braços e lançou um olhar contrariado a outra jovem que não abalou-se muito pois conhecia todas as facetas da irmã e sabia que ela não estava mais zangada com ela por ter entrado em sua mente sem avisar. - Isso mesmo garota, você tem que contar tudo pra mim! - disse animada, aproximando-se da morena aos pulos e a envolvendo em um abraço apertado que praticamente a sufocou.

Selene debateu-se nos braços de Serena, não muito surpresa pela garota ter uma pegada tão forte. O problema era que a irmã era mais alta que ela, tendo a sorte por ter puxado o lado do pai neste quesito, e praticamente engolfava todo o físico diminuto da menina mais nova, que neste caso puxara mais a altura da mãe, naquele abraço.

- Serena, você está me matando. - falou praticamente sem ar e num pulo a princesa a soltou, afastando-se dela com um enorme e inocente sorriso no rosto.

- Que tal isto? - disse animada, gesticulando largamente. - Eu te pago um sunday para poder te acalmar do trauma de sua primeira detenção. - e piscou um olho para a caçula que fez uma expressão duvidosa.

- Você? Pagando? - colocou as mãos sobre a cintura e mirou a irmã de cima a baixo, cerrando os olhos desconfiada. - Você que sempre está sem dinheiro porque gasta toda a sua mesada em porcarias inúteis que vai usar somente uma vez na vida e outra na morte e depois ficam atolando seu armário? - acusou e a garota mais velha recuou soltando uma risada sem graça.

- Ouch, precisava ser direta assim? Mas e então? - persistiu, seus grandes olhos âmbares praticamente grudados no rosto da irmã.

- Bem... - Selene ponderou, explorar um pouco da boa vontade da outra menina não seria de todo ruim, ainda mais para comer um sunday de graça. Quando abriu a boca para poder responder, algo começou a bipar no bolso da saia de seu uniforme. Distraída pegou o objeto barulhento e olhou estranhamente para ele, como se nunca o tivesse visto na vida. Era o comunicador das sailors que estava apitando, e este era apenas usado em emergências. Okay, sua irmã e as amigas senshis tinham a mania de usar para problemas pessoais, mas este não era o caso dela. Ergueu o olhar para mirar Serena que estava séria e encarava o objeto em suas mãos intensamente. O comunicador dela não tocava, então não poderia ser tão grave assim, poderia? Se não estavam contatando a Sailor Moon.

- Pelo amor, não vai atender? Está me deixando louca de antecipação. - resmungou a jovem de cabelos rosados e num estalo, como se saindo de um transe, Selene apertou o botão para receber a ligação.

- Selene Tsukino Chiba! - não tinha sido propriamente um grito, mas o tom de voz fez a garota recuar temerosa enquanto o rosto de Setsuna aparecia na pequena tela do comunicador. Somente a mulher costumava chamá-la pelo nome completo quando queria repreendê-la. As outras normalmente soltavam um "Princesa Selene" muito mal humorado. Mas Plutão era excessão, sempre era excessão, pois foi praticamente a sua guardiã quando criança quando a cidade fora atacada, seus pais postos para dormir e sua irmã viajara ao passado para salvar a todos. - Onde diabos você está? Esqueceu do nosso compromisso? - esbravejou a mulher e Selene fez uma careta ressentida para ela.

- Foi mal? - disse sem jeito e os olhos escuros de Setsuna praticamente a fuzilaram.

- Você tem cinco minutos para aparecer aqui! - ordenou e encerrou a chamada. Selene bufou, voltando-se para a irmã e ponderando se dava um bolo em Plutão e escolhia o sorvete. Não era de faltar compromissos e diferente da outra princesa costumava ser mais responsável quando o assunto era sério.

- Ah vamos lá Sel! Uma vez na vida você nunca quis fazer algo espontâneo? Inconseqüente? - provocou Serena, vendo a dúvida no rosto da menina.

- Da última vez que eu fiz isso me rendeu um castigo imenso. - respondeu desgostosa. Da última vez que agira sem pensar foi quando perseguiu Kolie até o passado para poder capturá-lo depois que ele usou seu cetro para viajar no tempo. Seus pais simplesmente além de ficarem extremamente preocupados, ficaram possessos diante da irresponsabilidade.

- Sim, mas desta vez você não está arriscando a sua vida nem nada, é apenas um sorvete, diversão. Você precisa relaxar irmãzinha. - incitou e viu os olhos azuis finalmente emitirem um brilho decidido.

- Bah, que se dane! - deu de ombros num gesto de pouca importância. - Eu estou me dando um dia de folga. - Serena vibrou ao ouvir isso e envolveu o ombro da irmã a puxando contra seu corpo.

- Então vamos que as meninas devem estar nos esperando! - falou animada, praticamente carregando Selene para fora da escola. Estava feliz, feliz por finalmente conseguir fazer a sua irmã começar a se soltar mais e ser menos anti social. Se tivesse sorte, logo logo ela faria parte do grupo de amigos dela e talvez fosse um pouco menos tensa em alguns aspectos. Contudo, a única coisa que não conseguiria mudar era o status da menina de guerreira aprendiz para guerreira ativa porque, sendo um pouco egoísta, Serena não queria a irmã como guardião da cidade. Preferia tê-la sempre protegida pelas poderosas paredes do Castelo de Cristal pela eternidade.

Sorrindo as duas princesas deixaram a escola a caminho do ponto de encontro das herdeiras das sailors entusiasmadas por uma tarde de folga.


Netuno e Urano estavam reunidas com as outras Sailors, o rei e a rainha, na sala de conferência do palácio ouvindo a história dos visitantes sobre o ataque a Zathar quando o comunicador de Urano começou a tocar, fazendo os refugiados se calarem e olharem para a mulher de maneira curiosa. Urano fez um gesto polido de cabeça, pedindo desculpas pela interrupção e recolhendo o dispositivo, saindo da sala para atendê-lo. Assim que a porta fechou-se atrás dela, Aldric continuou com seu relato.

- Sei que nosso planeta é conhecido por ter um bom sistema de defesa, mas até mesmo os melhores guerreiros conseguem sucumbir se são pegos de surpresa. Por séculos Zathar vivia pacífica desde a guerra civil que quase a destruiu e de repente, do nada, chega este invasor e nos ataca com um poder de fogo dez vezes maior que o nosso. Nossos sacerdotes tentaram salvar o máximo de pessoas possível e acolhê-las dentro dos casulos de proteção, mas muitos de nós foram facilmente derrotados. No fim tudo o que nos restou foi fugir com aqueles que ainda não tinham caído no ataque inimigo. - o jovem suspirou desolado, seus olhos ganhando uma expressão distante, com certeza revivendo na memória o momento da invasão.

- Sem querer ofender alteza - Vênus começou incerta. - Mas o seu planeta não tem muita coisa a oferecer a um invasor não é mesmo? - continuou, ignorando os olhares de alerta das outras sailors. Você não dizia na cara de alguém que o lar deles era feio. Só mesmo Vênus para ter essa cara de pau. - Quero dizer, é praticamente água e gelo, a população não chega nem a um terço da Terra e é escaço em fauna e flora, então o que poderia ter de interessante para alguém estrangeiro? - completou e quase foi fuzilada pelos olhares de suas amigas. Como é que alguém podia ter tão pouco tato?

Aldric apenas riu diante das atitudes das senshis. Não tinha sentido malícia por detrás da pergunta de Vênus, apenas curiosidade comum na verdade. Não tirava a razão da mulher. Zathar não tinha muita coisa a dar, embora o fato de ser um lugar frio oferecesse uma beleza glacial peculiar ao local que encantava seus habitantes e até alguns visitantes que passavam pelo planeta. Contudo, o lugar tinha algo de especial, algo que com certeza era o motivo dele ter sido atacado.

- Entendo a sua colocação Sailor Vênus, mas lembre-se que Zathar é 90 constituído de zaphira e as nossas leis de restrições de exploração do material pareceu não alegrar alguns. É um elemento caro no mercado e sua importação é para poucos e hoje em dia, com a aproximação da comunicação entre os planetas, todos querem desfrutar de um pouco dessa riqueza. Mas isto poderia destruir Zathar e quem é de fora não entende e parece que alguém resolveu tomar as rédeas da situação. - explicou e recebeu um olhar curioso do rei.

- Está querendo me dizer que vocês foram invadidos, mas não sabem por quem? - Endymion arqueou uma sobrancelha quando viu Aldric remexer-se desconfortável em sua cadeira.

- Nunca conseguimos um contato direto com o líder da invasão, não sabemos quem são e sabemos muito pouco de seus motivos. Tudo que sabemos é que eles querem explorar a zaphira livremente e devem estar fazendo isto neste exato momento. - falou com pesar e os outros assentiram em concordância com Serenity lançando um olhar piedoso para o trio. Contudo, Endymion e as guerreiras ainda estavam com um pé atrás. Estava faltando pedaços nessa história e um planeta simplesmente não era invadido sem ficar ao menos conhecendo a origem do inimigo. Isso ao menos nunca acontecera com eles. Mas por hora, iriam relevar enquanto os abrigava e investigavam tudo por detrás dos panos.

A porta da sala abriu-se, anunciando o retorno de Sailor Urano que terminava de guardar seu comunicador e tinha uma expressão pensativa no rosto.

- Qual o problema? - Netuno perguntou baixinho ao ver a expressão da companheira.

- Era Plutão. - respondeu no mesmo tom, virando-se para encarar o casal real e aumentando o volume da voz para eles poderem a ouvir. - Aparentemente Selene deu um bolo nela esta tarde. - Serenity virou-se num estalo enquanto o corpo todo de Endymion retesou-se. Como assim Selene não tinha aparecido no treino com Plutão? Em um pulo o homem pôs-se de pé na intenção de saber dessa história direito com a guardiã do tempo, mas Urano rapidamente o impediu com as suas próximas palavras. - Ela falou que contatou a princesa porque estava atrasada e ela parecia bem, mas depois que desligou Plutão esperou, esperou, e nada e quando tentou contatá-la novamente não foi respondida.

- Deuses... - Serenity levou a mão a boca, arregalando os olhos azuis e ignorando os olhares curiosos de seus hóspedes. Parecia que uma crise estava prestes a acontecer e eles estavam a testemunhando neste exato momento.

- Há quanto tempo foi isso? - Endymion perguntou agitado e Urano protelou um pouco.

- Há umas duas horas? - respondeu e os olhos claros do rei pareceram faiscar.

- Como assim a princesa desaparece e só resolvem nos avisar agora? - esbravejou o homem, socando o tampo da mesa.

- Endymion meu amor, acalme-se, está assustando nossos convidados. - Serenity repousou uma mão sobre o punho fechado do marido e lançou um olhar apologético aos zatharianos que observavam tudo silenciosamente. Endymion respirou fundo e lançou um breve olhar para o grupo e depois virou-se para encarar a esposa enquanto a sua boca abria-se e automaticamente ele começava a soltar as ordens.

- Eu quero que vocês vasculhem cada buraco desta cidade em busca da princesa. - virou-se para encarar as sailors firmemente que já estavam mais do que prontas para irem atrás da desaparecida. A última vez que Selene tinha sumido sem dar aviso a menina tinha viajado no tempo e quando voltara tudo parecia estar normal mas Plutão a olhava de segundo em segundo e por semanas ficou na cola da garota como se esta fosse desaparecer a qualquer momento. A senshi nunca contou em detalhes o que tinha acontecido no passado e Serenity e Endymion tinham lembranças muito escassas daquela época por causa dos anos de adormecimento que a Terra passou. Embora a recordação de uma sailor futurística estivesse impressa na mente deles as memórias da batalha eram vagas. Imagine o susto então quando Selene nasceu e cresceu, começando a assemelhar-se com a visitante que eles conheceram no passado. E no final dessa história, tudo o que eles ficaram sabendo era que Kolie não representava mais risco ao reino.

Quando as senshis estavam prestes a darem meia volta e sairem em disparada em uma missão de busca, duas vozes ecoaram pelos corredores do castelo, altas e animadas, e chegaram ao salão de conferência, fazendo aqueles dentro do mesmo trocarem olhares confusos. Em um piscar de olhos Serenity estava fora da cadeira e correndo sala afora, sob o olhar surpreso dos visitantes que nunca poderiam imaginar que a rainha tivesse tanta agilidade, e das inner senshis que por um breve momento tiveram um deja vu ao ver a cena.

- Nossa, ela ainda continua em forma. - Marte comentou ao sair da sala apenas para ver os longos cabelos da rainha sumirem na esquina de um corredor. - Me lembrou os tempos de escola. - completou e recuou assustada quando um rastro negro passou por si e logo ela também podia ver o rei sumindo pela mesma esquina que a esposa. - E ele me lembrou os tempos de batalha.

- Er... - Mercúrio virou-se sem graça para os convidados que tinham sido largados para trás pelos soberanos. - Melhor vermos o que está acontecendo. Se importam de nos acompanhar? - pediu polidamente. Não podiam deixá-los sozinhos, mas a sua curiosidade estava atiçada, assim como a das outras mulheres. Selene nunca fora de faltar a um compromisso e quando isto acontecia era de se preocupar. Sem contar que sentia que suas amigas e ela precisariam estar presente para desvencilhar uma Serenity histérica da filha.

Acenando positivamente com a cabeça, Hans, Aldric e Eileen ergueram-se de seus assentos e acompanharam as sailors sala afora pelo mesmo caminho que as majestades tinham feito minutos atrás, até que chegaram a um grande hall perto da entrada do castelo para presenciarem uma cena inusitade. Serenity praticamente esmagava contra o seu corpo uma jovem de cabelos negros que olhava suplicante para o rei como se pedisse para ser resgatada daquele abraço mortal. Contudo, Endymion estava impassivo e apenas olhava contrariado para a menina.

Quando a rainha a soltou é que os zatharianos puderam ver melhor o motivo da comoção. Duas adolescentes estavam paradas no corredor e uma delas tinha o cabelo rosado preso em um penteado semelhante ao da soberana, enquanto em seu rosto havia um sorriso divertido. Ao lado dela estava uma menina de cabelos negros como o céu da noite e que tinha um sorriso sem graça nos lábios enquanto observava o casal de adultos.

- Você... - Endymion abriu a boca e antes que pudesse dizer alguma coisa Serena interpôs.

- A culpa foi minha, eu conveci Selene a vir comigo tomar um sorvete depois da detenção e nós duas perdemos a hora. Sinto muito se não avisamos. - falou rapidamente. O rei piscou e mirou as duas meninas por um longo tempo.

- Detenção? De novo Serena! - soltou exasperado e Serena deu um sorriso charmoso para o pai.

- Eu não... ela. - e apontou Selene ao seu lado.

- Muito obrigada! Você me defende para depois me jogar aos leões? Bela irmã é você. - esbravejou e Serena riu.

- Ainda sim está de castigo! - Endymion completou. - As duas. - e sorriu triunfante ao ver o olhar chocado das duas meninas que começaram a falar ao mesmo tempo.

- Você não pode nos deixar de castigo... - Selene começou.

- Foi só um deslize... - continuou Serena.

- Foi tudo culpa da doida da Serena, ela praticamente me arrastou para a sorveteria. - Serena virou-se fumegando de raiva para a irmã.

- Eu tento ser uma irmã boazinha e lhe pago um sorvete...

- Pagar? EU paguei aquele sorvete sua mão de vaca.

- Eu estava curta de grana, releva...

- Relevaria se você não gastasse toda a sua mesada em apenas um dia e ficasse me pedindo empréstimos atrás de empréstimos. Você tem uma dívida comigo que com certeza supera a dívida externa de cinco países juntos.

- Você é muito mesquinha...

- E por culpa sua eu estou de castigo cara de lua!

- Não me chama de cara de lua!

- Cara de lua, cara de lua! - cantarolou, vendo o rosto da princesa mais velha ficar totalmente vermelho e ela inflar de ódio.

- Nerd! - gritou Serena enfurecida.

- Cara de lua!

- Tampinha!

- Girafa!

- Idiota!

- Estúpida!

- Sua infeliz...

- CHEGA! - o grito de Serenity fez tremer as paredes do castelo e rapidamente as duas jovens se calaram, olhando com olhos largos para a mãe que ao ouvir o tão abençoado silêncio ajeitou as suas roupas displicente e encarou as meninas com uma expressão calma, como se não tivesse gritado com elas a segundos atrás. - Isso são maneiras de se comportarem em frente aos nossos convidados? - falou e apontou para os três zatharianos que observavam tudo surpresos. As sailors por outro lado tinham um ar de enfado, como se este tipo de cena fosse contidiana.

Serena sentiu seu rosto esquentar ao ver-se sob o olhar intenso do rapaz mais novo do trio e ver que ele não era nada mal de se olhar, considerando que pela aparência física não parecia ser da Terra. Tinha cabelos platinados quase brancos e olhos azul gelo além de uma pele tão alva que parecia querer imitar a neve. Ponderou se ele fosse algum descendente do reino lunar por causa da sua pele extremamente clara e logo a sua excitação murchou. Se fosse assim com certeza era algum parente. Quase bufou. Hoje não era seu dia de sorte.

Selene por sua vez passou um olhar rápido pelos visitantes, os reconhecendo prontamente como zatharianos e se perguntando o que diabos eles faziam ali. Por acaso seus pais estava fazendo alguma transação política da qual ela não tomou conhecimento? Impossível. Sempre sabia quando havia reuniões de Estado naquele castelo, pois assim conseguia planejar-se melhor para evitá-las. Mas parece que Endymion estava ficando mais esperto com os anos e pegando a filha pelo pé. Seus orbes vagaram desde a bela mulher ao rapaz que não parava de olhar para Serena até o homem que estava prostado ao lado deles e que a olhava fixamente com uma expressão estranha. Sentiu um arrepio descer-lhe pelas costas e desviou o olhar, voltando a sua atenção para os seus pais.

- Diante de tamanho comportamento as duas estarão confinadas em seus quartos até a hora do jantar. - completou Serenity num tom suave e as mirou ferozmente quando as duas meninas abriram a boca para protestar. Em um passe de mágica ambas as irmãs fecharam a boca e abaixaram a cabeça submissas diante da ordem da mulher.

- Sim mamãe. - disseram juntas e cabisbaixas seguiram o caminho das escadas apontado pela rainha.

- Me desculpem por toda esta confusão, paranóia paterna, creio que vocês compreendam. - Serenity justificou-se e viu Eileen lhe dar um sorriso de compreensão enquanto colocava uma mão sobre o ombro do filho. A rainha sorriu de volta com a sensação de que entenderia-se muito bem com a mulher.

Por seu lado, Hans apenas continuava a olhar as duas princesas que subiam cabisbaixas escada acima, ainda discutindo a baixas vozes uma com a outra. Quando chegou na metade do caminho, Selene parou, sentindo como se alguém a observasse e virou-se, olhando sobre o ombro para Hans que ainda a avaliva com aquela expressão estranha. Sentiu o rosto esquentar e desviou o olhar quando a sua irmã a chamou, correndo escada acima até chegar ao segundo andar com a sensação de que algo grande estava por vir com a chegada destes estrangeiros.

Continua...