Capítulo 2

- Com licença. - a voz tímida e suave chegou aos seus ouvidos, fazendo a jovem virar-se lentamente para ver quem falava com ela, ignorando o mercador que tentava negociar as maçãs por um preço que ia acima do que elas realmente valiam. Supresa, viu parada atrás de si uma figura que estava coberta por uma longa capa e cujo rosto era escondido por um largo capuz. - Poderia me dizer onde fica os jardins suspensos? - perguntou ainda naquele tom suave e a garota estreitou os olhos para ela.

- Os jardins suspensos? - repetiu a pergunta desconfiada. Os Jardins Suspensos era um parque particular que era de uso exclusivo da realeza e da nobreza próxima a família real. - Quem gostaria de saber? - continuou, largando a fruta sobre a mesa da barraca do mercador e aproximando-se um passo do estranho que, temeroso, recuou um pouco.

- Eu tenho um compromisso naquele local e gostaria de saber onde fica. - a figura recuou quando viu os olhos azuis tão familiares da jovem praticamente quererem despi-la daquela capa com o olhar. Sabia o que ela estava pensando, os Jardins Suspensos também era um dos caminhos menos conhecidos para o palácio real e se alguém estranho perguntava sobre eles com certeza deveria representar uma ameaça.

Soltou um gritinho agudo quando suas divagações foram interrompidas por uma mão segurando em seu pulso e a puxando rua abaixo. Tentou soltar-se da mulher que praticamente a carregava mas ela obviamente era muito mais forte que si. Viu que estava sendo levada por ruelas e ruas até que encontrou um beco escuro e foi violentamente jogada contra uma parede com um punhal afiado prontamente em sua garganta.

- Quem é você? - a garota sibilou para o desconhecido e podia praticamente senti-lo tremer sob a sua ameaça. Viu sob as sombras do capuz olhos cristalinos a mirarem largamente e com um toque de pavor. A outra mão livre foi até a capa e a puxou bruscamente, revelando a identidade do estranho. Recuou aos tropeços e chocada quando viu quem estava na sua frente. - Você é maluca? - praticamente gritou para a outra mulher. O que a Princesa Serenity da Lua fazia na Terra? Ela finalmente perdeu todo e qualquer juízo?

- Por favor Estela - Serenity falou num tom implorador. - me diga onde fica os Jardins Suspensos. - Estela apenas recuou mais ainda, embasbacada com o que via.

- O que você faz aqui alteza? - uma coisa era Endymion dar a louca e correr atrás da princesa na lua. Outra era ela fazer o mesmo. De mal a mal, o príncipe sabia se defender e conseguiria escapar se alguma coisa desse errado e ele fosse descoberto. Mas a princesa... O que a princesa poderia fazer se fosse flagrada andando por aí pela Terra sem a proteção de suas famigeradas senshis? - E como você sabe o meu nome? - continuou. Não estava usando suas usuais roupas da guarda e com certeza não tinha nenhuma aviso grudado na testa que pudesse identificar quem ela era. Serenity apenas sorriu.

- Endymion me fala muito sobre você e não foi difícil reconhecê-la. E eu preciso falar com o meu príncipe. - "seu príncipe?" Pensou Estela ao ver a denotação de posse que a mulher tinha sobre Endymion. Deuses, os dois eram loucos. Esse amor proibido estava fadado a terminar mal.

- Escuta... Já que eu não consigo colocar algum senso na cabeça de Endymion, talvez eu coloque na sua. Faz idéia de o quão arriscado é isto o que vocês estão fazendo? A Terra e a Lua nunca tiveram uma relação de boa vizinhança estável e...

- A culpa não é nossa se a Terra resolveu abster-se do tratado de união dos povos do sistema solar. - rebateu Serenity espertamente. - Se vocês quiseram se isolar e evitar integração com os outros o problema não é meu...

- O problema é todo seu princesa! Eu não daria a mínima se vocês dois não passassem de dois pobres infelizes qualquer sem importância. Mas você é a futura Rainha da Lua. Endymion o futuro Rei da Terra. Isso não é uma coisa que seja concebível...

- Nós nos amamos e quando há amor tudo é possível. - finalizou a mulher num tom firme e Estela sentiu vontade de bater nela para enfiar algum senso em sua cabeça bonitinha. Contudo, se fizesse isso com certeza Endymion não ficaria muito feliz.

- Vocês dois são casos perdidos, isso sim. Seguinte. Eu vou te levar até o Endymion... mas você vai ser breve, diga o que quer dizer e suma antes que alguém dê por sua falta. - falou e sentiu-se um pouco culpada pelo sermão quando a princesa lhe deu um sorriso que fez irradiar felicidade de seu corpo. - E cubra o seu rosto por favor. - disse exasperada e ainda com o sorriso nos lábios Serenity jogou o capuz novamente sobre a cabeça para esconder sua identidade.

Estela prontamente pegou no pulso da garota assim que ela se cobriu e vagarosamente foi saindo do beco, olhando a rua de cima a baixo para ver se tinha qualquer pessoa suspeita. Viu quando um grupo de guardas dobrou a esquina, marchando na direção delas e empurrou a princesa novamente para dentro do esconderijo, usando seu corpo para encobrir a mulher da visão de qualquer observador curioso. Quando os guardas passaram por elas, a garota soltou um suspiro aliviado e estava prestes a sair novamente quando um som de surpresa foi emitido pela jovem atrás de si.

- Rhian! - soltou Serenity, seus olhos cravados no homem que acabara de sair de uma construção do outro lado da rua. Automaticamente a atenção de Estela também foi para o sujeito e num piscar ela virou-se para encarar a princesa com a testa franzida.

- De onde você conhece o rei Rhian? - perguntou desconfiada mas tudo o que recebeu como resposta foi o silêncio.

Selene abriu os olhos num estalo e os mirou janela afora, vendo que já havia escurecido. Seu rosto contorceu-se em uma careta pensativa. De todos os sonhos que tivera nenhum deles tinham como protagonista a princesa Serenity. Sempre eram estrelados por este tal de Rhian e Estela e pelo que se lembrava vagamente do último sonho que teve, Rhian tinha chamado Estela de...

- Guardiã Estelar! - sentou-se na cama num pulo ao lembrar-se disso. O que isso queria dizer? Será que Estela tinha alguma coisa a ver com o cristal que ela carregava dentro de si? Será que Estela era a sua vida passada? Não, não podia ser. Selene sabia que cada um dia um destino não importava quantas vezes reencarnasse e tais destinos nunca estavam interligados com os destinos de outros espíritos reencarnados. Estela, pelo pouco que se lembrava, tinha tido uma ligação com o príncipe Endymion durante seu primeiro reinado e se isto era verdade, jamais que a mulher poderia ter reencarnado como a filha do mesmo. Então o que todos esses sonhos queriam lhe dizer?

Com a cabeça ameaçando a doer, a menina desceu da cama, lançando um olhar para o relógio e vendo que estava próximo da hora do jantar. Esfregou as têmporas intensamente com as pontas dos dedos e soltou um suspiro. Isto tudo estava a cada dia se tornando mais confuso e a garota se perguntava se não seria uma boa idéia contar a alguém o que estava acontecendo. Talvez pudesse perguntar ao seu pai e chegar ao fundo dessa história, mas rapidamente descartou esta idéia. O rei e a rainha poderiam ter lembranças de suas vidas passadas, mas não toda a memória da mesma. Sabiam quem eram e a sua importância para o mundo, mas também tinham consciência de que o que acontecera no Milênio de Prata não passava de história para ser contada a noite antes de dormir. Ou seja, a memória deles desse tempo era limitada e duvidava que as sailors também soubessem de alguma coisa. Exceto...

Seus olhos ficaram largos. Exceto Plutão. A Sailor Guardiã dos Portões do Tempo vagava pelo universo a mais tempo do que qualquer um podia se lembrar. Ela não morrera na batalha do Milênio de Prata, ela tinha se trancado no tempo para proteger os portões. Era a única remanescente daquela época e a única que poderia lhe esclarecer o que estava acontecendo. Rapidamente correu pelo quarto, jogando-se contra a penteadeira e abrindo as gavetas da mesma freneticamenta a procura de seu comunicador. Sorriu triunfante quando achou o aparelho e estava prestes a apertar o botão para falar com a senshi quando lembrou-se... Plutão deveria estar uma fera com ela por causa do "bolo" e com certeza a primeira coisa que faria seria pedir explicações que ela não estava afim de dar.

Resignada, jogou o aparelho sobre a mesa e voltou para a cama, caindo pesadamente sobre o colchão macio e soltando um suspiro. Batidas na porta chamaram a sua atenção e a menina apenas esperou a madeira se mexer para revelar os cabelos castanhos e os grandes olhos azuis de Endie que a mirava com divertimento. Cruzou os braços sobre o peito sabendo qual era o motivo da graça do garoto: o fato de Serena e ela estarem de castigo.

- Diga uma coisa, qualquer coisa, e eu uso o meu "suprema devastação estelar" em você. - ameaçou e Endie entrou por completo no quarto, soltando um som com os lábios que lembrava um "tu, tu, tu" e brandindo o dedo indicador em uma negativa como se estivesse repreendendo uma criança.

- Nada de usar seus poderes em mim querida irmãzinha. Estas são as regras desta casa. - avisou com um sorriso arrogante que a mãe deles dizia que às vezes a lembrava Endymion na época que os dois se conheceram depois de reencarnados na Terra. Por anos não compreendeu o que a mulher quis dizer até que Marte contou que seus pais antes de descobrirem quem eram e finalmente o amor deles florescer, brigavam como cão e gato cada vez que se encontravam.

- O que os olhos não vêem o coração não sente. O que a mamãe não souber... - deu um sorriso macabro para ele e o menino recuou um passo. - não a afetará. - Endie soltou uma exclamação aguda e Selene riu abertamente. - Tsc, e dizem que você é uma peste. - comentou, erguendo-se da cama e indo até ele, lhe acariciando os cabelos macios em um gesto afetuoso. - Mas tão fácil de se colocar na linha. - Endie apenas deu uma careta para ela como resposta e cruzou os braços petulante, empinando o nariz de maneira orgulhosa.

- Mamãe mandou te chamar para o jantar. - falou e saiu com toda a pompa que um pequeno príncipe possuía do quarto da irmã.

Selene sacudiu a cabeça divertida diante das atitudes do menino e saiu do quarto fechando a porta silenciosamente atrás de si e sentindo a dor de cabeça enjoada ficar ainda mais intensa. Um arrepio percorreu-lhe o corpo e a menina ergueu os olhos que miravam o chão e os fixou em um ponto ao longo do corredor apenas para ver uma porta no final deste se abrir e um homem sair de dentro dela. Ofegou ao reconhecer brevemente o sujeito que estava acompanhando a comitiva de mais cedo. Quem eram eles mesmos? Qual era o nome do homem?

Seu coração deu um pulo no peito quando o visitante cravou seus olhos sobre a sua figura e em passos largos e silenciosos começou a vir em sua direção. A menina sentiu pânico apoderar seu corpo quando aquele homem começou a aproximar-se de si. O que ele poderia querer com ela? Será que iria atacá-la? Selene! A sua mente quase gritou. Deixa de ser idiota, acha mesmo que alguém te atacaria dentro da segurança do castelo? Sem contar que você sabe se defender sua estúpida. Ao recordar-se disse ela soltou um suspiro aliviado e seu coração acalmou-se. Contudo, quando deu-se conta, o homem estava parado na frente de dela e Deuses ele era enorme. Não que fosse uma coisa ruim, pelo contrário, como a sua irmã dizia: ele deveria ser mais de 1.90 de puro homem para satisfazer todas as suas fantasias. Teve vontade de rir mas segurou-se quando percebeu que os olhos verdes dele estavam fixados em seu rosto como se procurassem alguma coisa. Sentiu suas bochechas esquentarem.

- Er... a... oi? - falou bestamente e teve vontade de se bater. A criatura mais atraente que já tinha posto os olhos estava na sua frente e tudo o que ela dizia era um minguado oi? De duas a uma, ou ela era muito patética ou muito superficial para estar se derretendo toda só por causa da beleza do estrangeiro.

- Princesa Selene. - Hans curvou-se elegantemente e Selene ponderou como é que ele não tinha caído. Todo aquele tamanho dava a impressão de que ele não deveria ter muito equilíbrio, mas pelo modo como ele se aproximou silenciosamente e a cumprimentou denotava que ou ele teve treinamento em etiqueta desde novo ou era um guerreiro extremamente habilidoso. Estava apostando na última opção. - Uma honra conhecer uma das belas princesas da Terra. - falou educadamente, pegando uma mão da menina e depositando um beijo sobre ela. Selene achou que iria explodir como uma panela de pressão em fogo alto de tanto que seu rosto esquentou.

- Ah... bem... ah... - putz, se Serena a visse agora não sairia de seu pé pela eternidade e faria questão de ficar jogando este mico na sua cara pelo resto da vida. Sem jeito e sem saber o que dizer, acabou apelando para a reação que sempre tinha quando estava nervosa ou sem graça. Começou a rir bestamente. Hans ergueu uma sobrancelha clara para a menina diante desta atitude e ergueu-se novamente, voltando a posição ereta e rapidamente Selene ficou quieta ao perceber o quão idiota era. - Er... É um prazer também me conhecer... quero dizer, te conhecer - mas que merda! É um prazer me conhecer? Porque na próxima não entrava na linha de fogo do ataque da Sailor Moon para assim sumir com a sua vergonha? Morrer no momento parecia ser uma ótima idéia diante desta situação. Hans apenas fez uma expressão levemente divertida diante do embaraço da princesa mas nada mais disse, não querendo agravar a situação da garota.

O barulho de passos se aproximando fez os dois afastarem-se vagarosamente um do outro e Selene notou com incômodo que o homem estava perto demais para o seu gosto. Quando foi que ele tinha aproximado-se tanto? Talvez entre o momento em que ela ruborizou e a frase vergonhosa que dissera mais cedo. Ambas as cabeças viraram na direção do som e a jovem viu-se sob o olhar curioso da irmã antes dessa recuperar-se do susto de presenciar uma cena tão inusitada no meio do corredor do castelo e aproximar-se a passos largos da menina mais jovem, colocando-se entre ela e o desconhecido.

Hans arqueou uma sobrancelha ao ver a outra princesa colocar-se entre ele e Selene mas nada disse. A morena pode não ter dado nada diante desta atitude da irmã, mas como guerreiro bem treinado ele sabia o que esses gestos de Serena queriam dizer. Ela estava interpondo-se entre eles como modo de proteger a garota mais nova de qualquer ameaça que o homem desconhecido pudesse representar. Ou seja, bancando a típica irmã mais velha superprotetora. Viu os olhos âmbares da adolescente o avaliarem de cima a baixo e ela fazer uma expressão de desagrado como se não tivesse gostado nada do que tinha visto.

Serena não sabia explicar mas tinha algo no estranho que não a deixava confortável e quando dobrara a esquina do corredor apenas para presenciar o mesmo praticamente cercando a sua irmã, teve que fazer a sua presença conhecida e colocar-se entre eles. Deu mais um último olhar avaliador ao homem, a sua expressão dizendo claramente a ele que não se metesse com a menina atrás de si e quando o viu recuar um passo levemente, sorriu satisfeita, soltando um resmungo e virando-se para falar com Selene.

- Sel, sugiro que você vá jantar fora. - disse em um tom de alerta e a morena fez uma expressão confusa.

- Por quê?

- Setsuna está vindo jantar aqui e pelo que soube... ela não está nada feliz. Fuja enquanto é tempo. - avisou e observou os ombros magros da menina retesarem e ela fazer uma careta de desagrado.

- Se eu fujir ela vai ficar ainda mais fula, não acha? - rebateu espertamente, cruzando os braços sobre o peito.

- Eu acho que é melhor deixar a poeira baixar. Mas você é quem sabe, é seu funeral. - avisou e foi afastando-se dela a caminho da escada. Quando percebeu que a menina não a acompanhava, virou-se para poder encará-la. - Você não vem? - perguntou confusa e Selene hesitou um pouco.

- Vai na frente. - respondeu, recostando-se na porta do quarto e Serena vagou seu olhar da figura da irmã ao homem ainda parado no meio do corredor. Selene acompanhou o olhar da outra menina, notando que aparentemente a princesa não tinha gostado do visitante, mas ignorou isto. Serena nunca gostava de estranhos a primeira vista, parecia fazer parte da natureza dela, tão diferente da mãe das meninas que era capaz de confiar a vida até a um poste de luz.

A jovem voltou-se para encarar Hans e viu que ele ainda esperava alguma coisa dela, que ela não sabia dizer o que era. Confusa, observou quando o homem lhe estendeu o braço em um gesto cavalheiresco e piscou os olhos repetidamente. Hesitante deu um passo a frente e enroscou seu braço no dele, abaixando o rosto rapidamente e ruborizando ao sentir o calor gostoso da pele dele que transpassava a sua roupa e chegava a sua mão. Seu coração deu mais um pulo estranho.

- A propósito - a voz rouca perto de seu ouvido quase a fez dar um salto. - Creio que fui indelicado e não me apresentei. Sou Hans'Ark-Ra. Ou Hans, se a princesa preferir. Guarda pessoal do príncipe Aldric de Zathar e a disposição da princesa. - encerrou, começando a andar a passos curtos pois sabia que suas passadas largas não conseguiriam ser acompanhadas pela menina menor ao seu lado. Em silêncio ambos desceram as escadas e encaminharam-se ao salão para o jantar, entrando no mesmo e rapidamente atraindo a atenção de todos já presentes no local.

Quando as portas do salão se abriram, automaticamente os olhos de Setsuna voltaram-se para a entrada do lugar, disposta a abrir a boca rapidamente e começar a repreender a princesa. Contudo, calou-se quando viu que a menina não estava sozinha. Hans a acompanhava e a escoltava de braços dados até a sua cadeira e despediu-se dela com um beijo nas costas de sua mão, o que fez Selene ficar rubra de vergonha. Em seguida o homem elegantemente deu a volta na mesa e sentou-se perto de sua comitiva, mais especificamente em frente a princesa mais jovem que ficou ainda mais vermelha ao perceber onde ele se sentara.

A Sailor do Tempo estranhamente sentiu-se incomodada ao presenciar esta cena e desde que chegara a Terra, Hans tinha algo que fazia o seu sexto sentido apitar em alerta. Durante as poucas horas que o homem estava no castelo, ele não tinha inteirado-se com ninguém e mantinha-se calado e parado feito uma estátua ao lado do príncipe enquanto este dava todas as explicações. Entretanto, agora, ele parecia estar extremamente a vontade conversando com a princesa e permanecia olhando para ela como se quisesse desvendá-la apenas com o olhar. Incomodou-se diante disso e parecia que não tinha sido a única.

- Você perdeu alguma coisa na minha irmã? - a voz de Endie cruzou a mesa e ele aparentava estar extremamente zangado. Setsuna abafou uma risada. Endymion poderia ser o caçula da família, mas morria de ciúmes das irmãs e geralmente as suas traquinagens mais maliciosas eram direcionadas as supostos pretendentes das meninas. Podia-se dizer que o príncipe havia puxado ao pai. O rei podia não aparentar, mas também era ciumento e possessivo com as mulheres de sua vida e tinha praticamente convocado Endie para unir-se nesta batalha de afastar qualquer homem mal intencionado de suas garotinhas.

- Endie! - Selene o repreendeu com o rosto parecendo que ia explodir de tão vermelho que estava e ficou grata pela breve distração. O fato de que Hans não parava de encará-la como se estivesse a despindo com os olhos fazia o seu corpo todo tremer.

Na cabeceira da mesa, o rei notara a intereção entre seus convidados e seus filhos e também não gostara do modo como Hans ficava olhando a sua caçula, assim como gostava menos ainda como Aldric sorria charmosamente para Serena e esta respondia no mesmo tom de flerte. Rolou os olhos para o teto do salão, pedindo paciência, e quando sentiu uma mão delicada pousar-se sobre a sua, virou-os na direção da esposa que apenas lhe sorria pedindo calma. Até o presente momento Serenity não tinha detectado nenhuma grande ameaça vinda dos visitantes e ele sempre confiava na intuição da mulher. Podia até compreender o fascínio do príncipe de Zathar pela princesa da Terra, ambos tinham quase a mesma idade e jovens dessa idade costumavam se apaixonar fácil. O que ele não compreendia era o fascínio de um homem maduro como Hans sobre a sua caçula.

Por seu lado Hans desviou o olhar da princesa quando sentiu um cotovelo chocar-se contra as suas costelas e mirou seus orbes verdes em uma Eileen séria ao seu lado. As sobrancelhas claras dela estavam franzidas e os lábios cheios e vermelhos estavam contorcidos em uma expressão de desagrado.

- O que pensas que está fazendo Hans? - começou a mulher na língua oficial de Zathar.

- Nada. - respondeu o homem indiferente.

- Esta é a princesa da Terra, não uma camponesa qualquer ou uma meretriz para satisfazer seus desejos. Você não pode simplesmente seduzí-la e depois descartá-la como fez com tantas outras. Não sem causar uma guerra interplanetária. - advertiu contrariada e ficou ainda mais irritada quando o rosto sempre sério do homem contraiu-se em um sorriso matreiro. - Sem contar que ela não deve ter mais que cinco ciclos lunares de Zathar, o que consideraria as suas atitudes ilegais em nosso planeta e creio que neste planeta também. - o alertou e ele voltou a ficar sério.

- Não seja dramática. Não tenho este tipo de interesse na menina! - falou contrariado e Eileen o mirou confusa. Se não estava interessada nela sexualmente, então porque simplesmente não parava de olhá-la? Como se intrepretando claramente o que a mulher pensava, prosseguiu. ­- Somente que há algo nela...­ - prontamente foi cortado por Eileen.

- Não há nada nela. Não podemos chamar atenção, se lembra? Estamos aqui com uma função e seduzir a princesa não é uma delas. Então comporte-se. - o repreendeu e sorriu satisfeita quando viu a compreensão e a razão finalmente penetrar na cabeça dura do mesmo. Mais aliviada, retornou ao seu jantar e prontamente foi integrada em uma conversa animada com a rainha que perguntava curiosa coisas sobre o planeta Zathar antes deste ser invadido. Feliz, a mulher começou a relatar as belezas de sua terra natal e assim desligou-se de qualquer atitude errônea que Hans pudesse cometer com a princesa.

O jantar foi servido calmamente e conversas paralelas brotavam aqui e acolá. Selene sentia os olhos de Setsuna sobre si e sabia que quando estivessem a sós ouviria o maior sermão de sua vida. Ao seu lado Endie tentava se livrar dos brócolis colocados em seu prato, tentando arrumar um jeito de sumir com eles. Talvez se eles tivessem um cachorro sob a mesa funcionasse. O problema era que os únicos animais que eles tinham naquela casa eram os conselheiros reais e a jovem duvidava muito que Diana fosse comer aquela coisa. A gatinha adorava doces e detestava comida saudável, para a graça do pai e desespero da mãe.

- Pare de brincar com a sua comida e coma! - Selene o repreendeu em um tom materno e Endie lançou a ela um olhar suplicante que não demoveu a garota em nada. Frustrado, o menino começou a contra gosto colocar a verdura na boca e a cada mordida que dava seu rosto contorcia-se em uma careta.

- Como você consegue? - a voz ecoou em sua mente e a garota virou-se para ver a irmã que ainda conversava com Aldric e não a encarava diretamente.

- Talento. - respondeu para a telepata em um tom divertido e quase riu quando Serena finalmente virou-se para olhá-la com ambas as sobrancelhas erguidas.

O jantar prosseguiu sem mais conversas mentais entre as suas e quando a sobremesa foi servida, a jovem ergueu a cabeça do prato ao sentir que alguém a observava. Não ficou surpresa ao ver os olhos verdes de Hans sobre a sua pessoa novamente com aquela expressão como se quisesse desvendar a sua alma. Abaixou o rosto envergonhado e quando foi pegar a colher para experimentar a sobremesa bem elaborada com sorvete, as suas mãos trêmulas a fez bater com o talher contra a vasilha e derrubar a mesma sobre o colo.

- Droga! - gritou irritada, levantando-se da cadeira num pulo ao sentir o alimento gelado escorrer de sua saia para as suas pernas desnudas.

- Desastre heim irmãzinha? - Endie caçoou mas rapidamente calou-se quando viu o olhar furioso da irmã sobre si.

- Se me derem licença. - pediu a todos, lançando um olhar irritado a Hans como se o culpasse pela sua desgraça, o que não estava longe da verdade. Se ele não ficasse a olhando como um bom pedaço de carne ela não teria ficado sem jeito daquela maneira e cometido tal gafe. Contudo, o zathariano não abalou-se diante da raiva da menina e quase sorriu quando a viu sair da sala batendo o pé frustrada.

- Com licença senhores. - Setsuna pediu, prontamente levantando-se para poder seguir a princesa. Agora era uma boa oportunidade para saber o que acontecera de tarde e o que tinha acabado de acontecer agora no jantar.

O local ficou em silêncio por alguns segundos diante da saída intempestiva da princesa, quando de repente a quietude foi cortada por um bipar insistente que parecia vir de Serena. Automaticamente os olhos de Serenity e Endymion recaíram sobre a filha com uma expressão séria e a garota os mirou duvidosa. As meninas sabiam melhor do que ninguém para nunca contatarem durante um jantar de família e se aquele comunicador estava bipando isso só poderia signifcar uma coisa: emergência.

- Com licença. - pediu a adolescente, saindo apressadamente da sala para responder.


Bastet estava sentada em frente ao fogo da sala de orações com uma expressão contemplativa no rosto enquanto observava a chama crepitando, iluminando seus longos cabelos negros e emitindo reflexões alaranjadas nos fios escuros. Suas mãos estavam juntas em pose de prece e os olhos negros observavam as chamas com interesse. Franziu a sobrancelha pensativa, como se estivesse tentando fazer alguma coisa acontecer só com a força da mente. Depois de minutos em silêncio nesta posição a menina relaxou o corpo e soltou um bufo frustrado.

Não tinha metade do talento da mãe para questões espirituais. Ou ao menos metade do talento sensitivo que o irmão possuía, e isso a irritava. Que bem ela poderia fazer ao grupo das Neo Sailors se era incapaz de localizar uma ameaça apenas pela sua aura malígna? Rei lhe dizia que era tudo questão de tempo e que ela ainda estava desabrochando. Mas a sua mãe aos quatorze anos já era capaz de fazer previsões nas chamas sagradas, sentir auras malígnas e fazer feitiços de proteção. Brenton aos quatro anos já era capaz de fazer isto tudo também enquanto ela, ao dezesseis anos de vida tudo o que conseguia fazer eram fracos feitiços de proteção e vez ou outra, por sorte, ler as chamas.

Talvez tenha herdado a capacidade cognitiva lenta de seu pai. Nicolas levara anos treinando com seu bisavó até desenvolver todos os poderes que hoje possuía. No entanto, não fazia muita diferença. O homem hoje era um sacerdote poderoso, responsável pelo templo Hikawa ao lado de sua mãe e a fama deles ao longo da cidade era grande. Ninguém sabia fazer um exorcismo ou cerimônias com eles. E claro que todos esperavam que os filhos deles herdassem o talento dos pais. Bem, Bastet teria que estourar a bolha de felicidade desse povo, pois no momento ela não conseguia conjurar nem uma visãozinha.

Frustrada, socou os punhos fechados contra o chão de madeira da sala e mirou o fogo com fúria e este crepitou mais intensamente diante do olhar da menina. Ao menos isto ela era capaz de fazer. Controlar as chamas como Sailor Marte era a sua especialidade e era a única coisa que aprendera desde menina e nascera com um talento nato para fazer. Claro que durante o ensinamento desta arte houve muitas coisas queimadas no processo, mas hoje Bastet podia se orgulhar em dizer que era a melhor mestre das chamas que existia, até mesmo melhor que seu irmão prodígio, e isto fazia de Sailor Phobos um dos mais poderosos poder de fogo entre as Neo Senshi.

Os olhos escuros da menina voltaram-se novamente para a chama e ela encarou o fogo pensativa, apoiando um cotovelo sobre uma das pernas cruzadas e usando a mão para poder descansar o queixo. Será que tinha alguma palavra mágica? Algo deste gênero? Cada vez que a sua mãe fazia isto sempre estava murmurando coisas sob a respiração enquanto os olhos mantinham-se fechados em concentração. Talvez devesse tentar o mesmo. Juntou novamente as mãos em prece e cerrou as pálpebras, começando a murmurar uma oração qualquer que aprendera durante seu treinamento de sacerdotisa. Mais minutos passaram com nada acontecendo quando de repente tudo mudou.

Parecia que o calor do fogo estava inundando o seu corpo, como em todas as vezes que ela invocava o "explosão de phobos" e ao mesmo tempo que tudo aquecia, parecia esfriar também com arrepios atrás de arrepios pela sua espinha. Seus olhos vidrados abriram-se em um estalo e miraram as chamas apenas para verem surpresos uma sombra negra aparecer no fogo. Não conseguia identificar o que era a sombra, mas podia pressentir um grande perigo se aproximando.

Suas divagações foram interrompidas quando um raio seguido de um trovão barulhento cortou os céus, a fazendo sair do transe em um estalo, e a menina ergueu-se de sua posição de meditação e caminhou até a entrada da sala, deslizando a porta e mirando os céus escurecidos da noite. Outro arrepio percorreu seu corpo e ela sabia que não era por causa da brisa fria que soprara. Mais uma vez outro raio desceu violentamente e os olhos dela alargaram-se quando o viu chocar-se contra o chão ao longe, causando uma grande explosão. Sacudiu a cabeça, tentando compreender o que acontecera, quando seu comunicador começou a apitar.

Rapidamente recolheu o objeto e apertou o botão para receber a chamada e não ficou surpresa ao ver Ann na linha com uma expressão séria e preocupada que parecia confirmar todas as suas suspeitas. Algo grande estava por vir.


Ann Mizuno Aoi era em todos os aspectos uma cópia perfeita da mãe, embora tivesse os olhos acinzentados do pai, o famoso doutor Daiki Aoi. Segundo o que as mães de suas amigas costumavam dizer, ela era o produto da história de amor mais perfeita da humanidade. Ou ao menos era o que as suas românticas tias postiças gostavam de contar. Ann nunca entendeu o porquê do título e um dia perguntara a mãe a razão por detrás de tanto exagero. Lembrou-se que Ami rira diante da indagação da filha e dissera que, segundo as outras mulheres, Ami era a mais improvavél de arrumar um par diante do fato de que a mulher vivia para seu trabalho isto até que o Dr. Aoi apareceu.

Ele a primeira vista parecia ser um homem comum, como qualquer outro. Médico de talento, era um grande cirurgião e por várias vezes cruzara com Ami no hospital onde eles trabalhavam, sempre lançando a doutora de cabelos azulados um sorriso charmoso em tom de flerte. Mas sempre era ignorado pela ingênua mulher que tudo o que sempre via na sua frente era o trabalho. Foi quando tudo mudou. Um ataque mudara a vida de ambos para sempre.

Não era mais anormal a Terra ser visada por viajantes do espaço cobiçosos por suas belezas, vasta fonte de vida e pelo fato de que nela moravam os dois guardiões dos cristais mais poderosos do universo. Portanto, não foi com surpresa que mais um alien invejoso pousara no planeta a fim de fazer alguma maldade no mesmo e as Sailors que há anos estavam em férias prolongadas tiveram que voltar a ativa. A batalha havia sido breve, o inimigo não durara muito tempo, mas foi com pavor que Mercúrio viu que no meio do fogo cruzado estava Aoi, que ajudava as pessoas assustadas a fugirem da luta e socorria aqueles feridos.

Com os olhos largos, a sailor mestre das águas viu um golpe errante ir em direção ao homem e este observar a esfera de energia com uma expressão impassível em seus olhos acinzentados. Surpresa, observou atônita quando o ataque sumira em pleno ar e num estalo reaparecera em frente ao dêmonio que o lançara, continuando o seu trajeto e o acertando em cheio. Confusa, virou-se para Daiki apenas para ver que ele tinha ambas as mãos erguidas e que elas faziam gestos frenéticos toda vez que uma bola de energia perdida vinha em sua direção, a fazendo desaparecer e reaparecer perto do agressor, o atingindo em cheio.

Por fim, depois de horas de luta acirrada os invasores foram expulsos do planeta, deixando um rastro de caos por onde passaram, e uma trêmula Sailor Mercúrio aproximou-se do outro médico, ajoelhando-se ao lado dele e o ajudando a tratar dos feridos. Sorridente, Daiki havia erguido os olhos do homem inconsciente em frente a si e os mirados nos orbes escuros da guerreira ao seu lado que ainda parecia chocada diante do que presenciara.

- Será que seria muita pretenção minha pedir uma famosa sailor senshi para jantar comigo? - ele perguntara ainda com o sorriso no rosto e Ami recuara num ofego.

- Eu não creio que esta seja uma boa... - mas ele rapidamente cortou a sua recusa.

- Não aceito um não como resposta... Ami. - isso pareceu quase dar um ataque do coração a senshi. Como ele descobrira quem ela era? Ao ver que agora não estava sozinha e que as outras Sailors a olhavam em expectativa, a mulher nada mais pode fazer a não ser corar de vergonha e aceitar o convite, para a alegria de Daiki.

Mais tarde ela descobrira o que tinha acontecido na batalha. Daiki Aoi era descentende de um antigo clã de guerreiros do norte do Japão e que estes possuíam alguns poderes especiais que eram designados a proteger os tesouros de sua tribo. Não duvidou que a história fosse verdade, já que Rei, sendo uma sacerdotisa, possuía poderes paranormais que nenhuma das outras tinham. E depois de muito perguntar, finalmente compreendera a especialidade dele. Daiki era capaz de desintegrar partículas que compunham os objetos e realinhá-las em qualquer parte do espaço. Era um espécie de teleporte misturado com telecinese. Ele simplesmente teleportava o golpe do adversário e o jogava contra o mesmo sem este perceber. Um poder útil que infelizmente seus filhos herdaram para desespero da mãe. Embora Ann não usasse este dom a não ser quando fosse estritamente necessário, os gêmeos idênticos de sete anos, Amon e Amos tinham a mania de usar seus poderes diante de qualquer briga que tivessem. Seja fosse por um brinquedo ou pelo controle da televisão.

As divagações da adolescente foram interrompidas quando ela viu que o tempo lá fora fechava-se repentinamente e nuvens negras começavam a cobrir os céus da cidade. Um raio luminoso cortou a escuridão e desceu com violência contra o solo, fazendo a menina dar um pulo de susto ao ver a carga elétrica atingir o chão ao longe, bem no meio do Parque Imperial que ficava um pouco mais afastado do centro urbano da cidade. Confusa e pressentindo que algo de bom não estava por vir diante disso, ela mirou por cima do ombro para os gêmeos que jogavam entretidos em seu computador e ergueu-se do pufe onde estava sentada lendo um livro.

- Eu vou sair por alguns minutos. - falou para eles e os dois meninos nem ao menos desviaram o olhar da tela para encarar a irmã mais velha enquanto esta apenas rolou os olhos diante da atitude de ambos. - Comportem-se. - ordenou e quando percebeu que ainda estava sendo ignorada, balançou a cabeça, sumindo de cima do pufe num estalo.

Em questão de segundos viu-se no local onde o raio tinha acertado e escondeu um sorriso. Se a sua mãe descobrisse que tinha usado o teleporte para poder chegar a algum lugar mais rápido, com certeza lhe daria um longo sermão. Cautelosa aproximou-se da cratera que o raio tinha formado, vendo que uma fumaça com um cheiro forte de enxofre saía da mesma. Inclinou-se sobre a beirada do buraco para mirar dentro do mesmo e nada viu. Deu de ombros, achando que fosse apenas pura coincidência quando sentiu o chão sob seus pés tremerem a fazendo cair sentada sobre a terra fofa. Mais fumaça saiu de dentro do buraco e um barulho ensurdecedor ecoou pelo parque.

Ann tapou os ouvidos quando ouviu o som e olhou com os olhos semi-cerrado em direção a cratera apenas para ver um vulto mover-se e depois disparar em direção aos céus em um rastro prata, indo esconder-se acima das nuvens. Desconfiada, puxou seu comunicador do bolso e apertou o botão de emergência, pois tinha a sensação de que este trabalho de investigação estava apto as Neo Senshi.


Lily Kino olhou para o espelho diversas vezes antes de soltar um suspiro desolado. Isto não era para acontecer e não conseguia compreender o porquê deste infeliz destino. Havia uma coisa enorme praticamente a fuzilando em seu reflexo bem no meio da testa e a menina estava quase soltando um urro de frustração. Afinal, de onde tinha saído aquela maldita espinha? Espinhas não faziam parte de sua carga genética, não era permitido tamanha atrocidade imacular a sua pele perfeita. Mas a porcaria do seu lado humano nem sempre colaborava em certos aspectos.

Veja bem, Lily a primeira vista poderia ser considerada uma garota normal como qualquer outra. Era alta como a mãe, possuía seus lustrosos cabelos castanhos sempre presos em um rabo de cavalo, mas eram as outras características que começavam a diferenciá-la das outras. Seus olhos eram dourados, a sua pele macia e clara como porcelana sem nenhum defeito na mesma e sua graciosidade surpreendia aqueles que sabiam que ela era a herdeira da mulher que no passado fora uma tremenda encrenqueira.

Talvez toda essa diferença pudesse ser explicada pela sua outra metade. Seu pai era um elfo. Um bendito elfo. Sim, parecido com aqueles que você vê em livros como daquele escritor do século vinte... qual era o nome dele mesmo? Tolkien? Sim, ele mesmo. O homem que ela conhecia como pai era alto, pele clara e imaculada, cabelos negros e olhos dourados. Mas, diferente da fantasia, ele não era tão imortal assim, apenas envelhecia mais lentamente. Não era uma criatura cheia de educação (pois conhecia uma gama de xingamentos que surpreendia a garota), mas ainda sim era um guerreiro que vivia em um mundo a parte do deles.

Seu pai era um Elfo Guardião das Portas do Outro Mundo. Título estranho não? Bem, pelo que ela compreendera, o mundo dos mortos não era guardado por anjos ou coisas parecidas, na verdade era guardado por figuras místicas como elfos, leprechauns, duendes e derivados. Vai entender o porquê. E o seu pai era um dos guerreiros que garantiam a segurança do local até as almas reencarnarem e também servia como guia destas mesmas almas. E foi assim que sua mãe e ele se conheceram na história mais bizarra que a menina tinha ouvido na vida.

Lita Kino havia morrido uma vez em batalha e quando estava prestes a atravessar, encontrara seu pai, o guardião Eckhard. Obviamente não havia sido amor a primeira vista, ao menos não por parte de sua mãe. Havia sido mais por parte de seu pai que contrariando todas as regras do outro mundo, apaixonara-se por uma alma errante que estava naquele lugar fora do tempo previsto e ficara com o coração partido quando seu corpo terreno havia sido ressuscitado a obrigando a retornar. Depois disso por meses ele observou aquela jovem através do Espelho dos Mundos e a cada dia que passava ficava ainda mais fascinado com ela. Até que um dia, contrariando todas as leis que diziam que um guardião jamais poderia descer a terra, ele abandonou seu posto nos portões e foi a procura de seu grande amor.

Depois disso, o resto era uma história que envolvia um romance proibido, Lita descobrindo a verdade sobre o namorado (já que como o usual nestes casos, uma alma nunca tinha recordação do outro mundo quando morria fora da hora e era trazida de volta) e por fim um casamento que contrariava todas as vontades dos superiores de Eckhard, mas que no entanto, por mais desgostosos que estivessem, nada podiam fazer a não ser aceitar este fato visto que a mulher escolhida pelo guardião era uma das protetoras da Princesa da Lua. Obviamente não poderia haver ninguém mais digno do que ela para o elfo.

No entanto, sua família terrena não isentava Eckhard de suas responsabilidades com o outro mundo o que o fazia ficar dividido. O elfo amava Lita, mas também amava com igual paixão a sua vida como guardião. No fim, a solução escolhida foi inspirada em um outro mito de amor proibido e com isto, durante seis meses do ano o elfo passava guardando os portões do mundo dos mortos e nos outros seis meses na terra com a sua família. No entanto isto tudo era apenas uma breve explicação do porquê Lily não estar nada feliz em ver uma horrenda espinha em sua bela cutis. Ela supostamente não deveria existir.

Frustrada, começou a abrir as várias gavetas do armário que ficava sob a pia a procura do creme anti espinhas mas sentiu-se uma idiota ao fazer isto. A sua mãe não era mais adolescente para ter tais problemas e as suas irmãs também eram meio elfo, portanto de dimensões e beleza perfeitas. Mas ela, ela tinha que ter a desgraça de sair a mais humana de todas. Isto não era justo. Era a primogênita, logo a carga genética tinha que ser maior para o seu lado, não? Resignada por não achar nada para resolver a sua desgraça, apelou para a última das suas alternativas: a boa e velha pasta de dente e em gestos bruscos e deselegantes emplastrou a massa multicor contra a inflamação em sua testa.

- Lily? - a voz suave de seu pai soou do outro lado da porta do banheiro e a jovem deu um pequeno sorriso. Era época do homem passar a sua temporada na terra e tinha que confessar que embora achasse seis meses um tempo muito curto, Eckhard sempre fazia de tudo para que esses meses fossem inesquecíveis para as filhas.

A porta do banheiro abriu-se bruscamente e o elfo viu-se mirando os intensos olhos dourados da menina que lhe sorria abertamente. Seus orbes vagaram do rosto tão parecido com o de sua amada Lita para um ponto esbranquiçado que destacava-se na testa da garota.

- O que é isso? - apontou para a pasta com divertida curiosidade.

- Argh! - Lily rolou os olhos. - Sem comentários, sem comentários! - exclamou e piscou os olhos intensamente quando um objeto foi empurrado contra as suas mãos pelo pai.

- Isso não parava de apitar lá na sala. Quantas vezes sua mãe e eu lhe dissemos para não largar seu comunicador em qualquer lugar? - a repreendeu. Lily tinha a mania de deixar objetos pessoais espalhados pela casa e depois ficava feito uma louca procurando pelos mesmos e ficava irritada quando descobria que as irmãs os pegara emprestado sem autorização. - Depois reclama quando Liana, Laila e Larissa pegam as suas coisas.

- Eu sei, eu sei, desculpe papai! - pediu com um de seus sorrisos desconcertantes e Eckhard rolou os olhos para o teto, sacudindo a cabeça e se perguntando porque ainda insistia. Lily era uma desorganizada e isto era a marca registrada dela. Sorriu para a jovem, afagando-lhe os cabelos castanhos e beijou-lhe a bochecha em um gesto afetuoso.

- O jantar sai em dez minutos. - avisou e a adolescente engoliu uma risada. Todos sabiam que a chefe naquela casa era Lita mas esta estava ocupada demais na cozinha do restaurante no qual era sócia junto com Mina. Como essas duas conseguiram montar um negócio juntas e fazer sucesso estava além da compreensão de todos, mas parecia que a coisa tinha vingado gerando até duas filiais em cidades próximas a Tóquio. E, no momento, a mulher deveria estar gritando ordens aos seus ajudantes na cozinha enquanto Mina sorria simpática e recebia os clientes. Por isto, Eckhard ficara incubido de alimentar as filhas. Porém o homem um dia teria que criar coragem e admitir que cozinha e elfos são sempre uma mistura perigosa.

- Pelo amor, não destrua nada, senão a mamãe vai ficar possessa. - advertiu em um tom divertido e o elfo lhe deu uma careta infantil antes de prosseguir em direção a cozinha onde uma Laila e Larissa já discutiam para ver quem colocava a mesa. O comunicador apitando divergiu a atenção da adolescente mais velha para ele e a jovem apertou o botão para completar a chamada, vendo o rosto de Ann brotar na tela.

- Emergência no Parque Imperial. - foi tudo o que disse antes de encerrar a ligação e Lily lançou um último olhar para a cozinha de onde vinha o som de conversas e encaminhou-se para a entrada da casa.

- Volto em alguns minutos. - anunciou para quem quisesse ouvir e saiu rapidamente, chegando a varanda e olhando para os lados, vendo se a rua estava vazia. Quando percebeu que estava tudo tranqüilo, deu um poderoso salto, pousando elegantemente sobre o galho de uma alta árvore. Ah, a elegância, eqüilibrio e agilidade dos elfos. O que faria sem eles? Afinal, não era sempre que poderia contar com seus poderes de Sailor e o fato de ainda possuir algumas cartas na manga mesmo destransformada lhe dava uma certa vantagem. Apressada começou a fazer caminho sobre telhados e árvores rumo ao Parque Imperial.


Hideki Jiro sentiu ímpetos de cobrir as orelhas com as almofadas do sofá. Aos seus pés, um menino de oito anos divergia a sua atenção da televisão ao homem no sofá e sorria divertido diante da frustração do mesmo. Seus cabelos castanhos caíam sobre os olhos azuis brilhantes que pareciam gargalhar do pai embora o rosto do garoto estivesse impassível. Quando ouviu Hideki soltar mais um grunhido irritado, rapidamente voltou a sua atenção para a tv apenas para sentir o homem erguer-se atrás de si em um pulo e correr até a escada, subindo a passos pesados até o segundo andar da casa.

A medida que cruzava o longo corredor e aproximava-se mais da porta fechada, podia ouvir mais alto e mais forte o barulho que vinha de dentro do quarto. Quando finalmente parou em frente a madeira branca com enfeites de bichinhos de pelúcia colados na mesma, a socou com força na vã tentativa de chamar a atenção da pessoa que estava do outro lado. Por minutos ninguém o respondeu.

- Marjorie! - gritou, voltando a socar com mais força a porta. - Marjorie! - mas tudo o que teve como resposta foi o som da música alta e uma voz que tentava encobri-la. Irritado, tentou a maçaneta da porta apenas para ver com felicidade que esta estava destrancada e quando a abriu, esbarrou em uma cena peculiar.

Uma jovem de longos cabelos loiros presos em duas tranças embutidas ao lado da cabeça dançava e pulava sobre a cama ao som da música que saía do pequeno reprodutor sobre a sua cômoda, fazendo o homem se perguntar como um aparelho tão pequeno poderia ter uma caixa de som tão potente. As batidas da mais nova banda sensação do momento no mundo adolescente ecoava por todo o quarto, fazendo as paredes tremerem e os quadros ameaçarem a cair no chão. A passos largos o homem cruzou o aposento e apertou o botão de stop do eletro eletrônico e por vários segundos Marjorie ainda continuou cantando e dançando de acordo com a música antes de notar que a mesma parou.

Confusa, a menina piscou seus olhos cor de chocolate e mirou sem graça o homem ao pé da cama, de braços cruzados sobre o peito e que a encarava fixamente com os olhos da mesma cor que os seus. Com um sorriso amarelado, desceu do colchão até chegar ao chão e deu um tchauzinho tímido com a mão para ele, mas tudo o que Hideki fez foi erguer uma sobrancelha negra na direção da filha.

- Marjorie, quantas vezes eu já te disse que a cama não é para se pular, que é para ouvir músicas nesta casa em volume moderado e que é para você parar de tentar sobrepor-se a música nesta altura. Primeiro que vai destruir meus tímpanos, segundo vai destruir as suas cordas vocais! - advertiu irritado e a jovem abaixou a cabeça, reconhecendo aquele sermão mais do que depressa mas sempre se esquecendo dele cada vez que colocava o compacto da sua banda favorita do reprodutor.

- Me desculpe papai. - pediu em um tom tímido e Hideki pôde sentir todo o pesar emanar da garota e o atingir em cheio, o fazendo ficar tonto por breves instantes. Ao ver que o pai tinha ficado calado, a jovem ergueu a cabeça apenas para notar que o homem parecia pálido e com isto arregalou os olhos ao perceber o que tinha feito. - Eu sinto muito papai! - falou horrorizada e outra onda de pesar atingiu Hideki diretamente, o que a deixou ainda mais assustada.

- Filha, respira fundo e relaxa, vamos! - falou, mesmo que a sua cabeça começasse a doer diante da leva de emoções que o acertava uma atrás da outra.

Hideki, assim como os maridos das outras sailors, também tinha um dom especial. As meninas uma vez brincaram dizendo que parecia que o destino tinha lhes unido com homens que possuíam peculiaridades únicas pois assim eles estariam a altura das sailors senshis, mas que Mina até o presente momento era a única da roda que não tinha sido manipulada pelo destino, pois o namorado que acabara de arrumar parecia um rapaz normal como qualquer outro. Isso até eles descobrirem que Hideki era um empata. Como, quando e por que elas não saberiam dizer. O homem não tinha antepassados que fossem especiais como ele e ninguém em sua família possuía algum poder especial.

No fim, depois de muito pesquisar, Ami chegara a conclusão que assim como Hideki, outros humanos com dons diferentes poderiam existir no mundo e que era extrema pretensão delas acharem que eram as únicas com poderes. Afinal, relatos de pessoas fazendo coisas estranhas sempre apareciam na mídia, mas geralmente era desacreditadas por falta de prova. Depois disso, as meninas empenharam-se a ajudar o rapaz a controlar este poder que ele tinha e que parecia dominar muito pouco. Hideki tinha apenas aprendido ainda muito jovem a bloquear as pessoas, nada mais. Mais tarde ele aprendera a ler as pessoas também, rastreá-las e usar a empatia para canalizar poder, o deixando com uma arma ofensiva muito útil. E, com isto, veio mais uma curiosadade. Hideki era o único, talvez, da face da Terra que conseguia identificar uma sailor mesmo transformada e foi assim que depois de meses de namoro ele descobrira que Mina era a Sailor Vênus.

Claro que isso fora há anos atrás e o homem agora tinha um controle absoluto sobre os seus dons, exceto quando se tratava de sua família. Por ter uma ligação muito forte com os entes que amava, às vezes Hideki acabava abaixando a guarda, o que possibilitava momentos como o de agora quando ele sentia todo o remorso da filha por ter desobedecido ao pai invadir o seu corpo e lhe causar uma enxaqueca. Por seu lado Marjorie inspirava e expirava o ar relaxando e deixando uma sensação de calma apoderar seu corpo. Quando viu que o pai não fazia mais uma careta dolorida, percebeu que tinha conseguido parar de emitir suas emoções para ele.

- Como eu ia dizendo... - Hideki inspirou profundamente para se acalmar. - Não faça mais isso, faz mal a sua saúde. - completou e a loirinha assentiu com a cabeça, abrindo a boca mais uma vez para desculpar-se quando o comunicador no bolso de sua calça jeans começou a apitar. Por breves segundos ela ficou parada, tentando assimilar o som com o objeto, até que uma expressão de compreensão adornou seu rosto e ela puxou o aparelho e o ligou, recebendo a chamada.

Hideki apenas balançou a cabeça de um lado para o outro diante das atitudes avoadas da filha e observou curioso a breve conversa com quem ele assumiu ser Ann por causa da voz que saía da máquina. Quando ela desligou o mesmo e o colocou de volta ao bolso, lançou um olhar incerto ao pai que apenas fez um gesto de mão.

- Se for urgente é melhor você ir. - disse calmamente, embora por dentro estivesse sentindo seu coração pesar. Não gostava da idéia da sua garotinha arriscar a vida desta maneira como guardiã da cidade, o mesmo ocorria com a sua mulher, mas aprendera a confiar plenamente nos poderes e capacidades delas para poder deixá-las ir para a batalha sem explodir de ansiedade sobre o que poderia vir.

Marjorie saltitou, dando um largo sorriso para o pai e sapecou-lhe um beijo estalado na bochecha antes de sair cantarolando em direção ao Parque Imperial.


Lily foi a primeira a chegar ao Parque Imperial depois do chamado de Ann, pousando elegantemente ao lado da menina de cabelos azulados e inclinando a cabeça para o lado quando viu despontar de um dos caminhos do parque a figura de Bastet. Minutos depois uma ofegante Marjorie aparecia ao lado delas e apoiava-se nos joelhos enquanto tentava recuperar o ar ao mesmo tempo em que mirava a cratera com interesse. Cruzando os braços, Ann olhou o relógio em seu pulso e voltou sua atenção para o céu nublado. Serena sempre era a primeira que ela chamava, mas normalmente a garota era a última a aparecer.

E não deu outra... Minutos mais tarde a figura apressada da princesa despontava dentro daquela clareira e ela unia-se as amigas aos tropeços e quase perdendo o equilíbrio e caindo dentro do buraco, mas sendo segurada a tempo por uma Bastet entediada. A morena lançou a garota um longo olhar sofrido, a repreendendo quietamente por seu atraso, mas Serena a ignorou, os olhos escuros fixados na enorme cratera na sua frente.

- Mas o que diabos é isso? - perguntou abobada e automaticamente todos os olhares recaíram sobre Ann que arqueou as sobrancelhas como se perguntasse "o que foi?". - O gênio desse grupo é você, sabe disso, herdou essa qualidade de sua mãe. - Serena esclareceu, suprimindo a vontade de rir. Se fosse as antigas sailors no lugar delas, Ami já teria puxado seu computador e começado a analisar todos os dados possíveis. Mas Ann apesar de possuir a genialidade da mãe não tinha este instinto de recorrer a dados e pesquisa durante um problema. Essa lerdeza no racicínio era coisa que tinha adquirido do pai.

- Okay, saquei. - respondeu em um tom de enfado e fez surgir no ar um computador diminuto que cabia na palma da mão dela e não deveria ser maior do que muitos celulares já ultrapassados. Uma pequena caneta surgiu na outra mão da menina e ela aproximou-se do buraco, já começando a digitar as palavras chaves necessárias na minúscula tela para ativar o sistema e colhendo dados sobre o que ocorria. Vendo que a análise da menina iria demorar um pouco, as outras afastaram-se dela, a deixando trabalhar em paz, e recostaram-se nas árvores em volta da clareira, começando uma conversa animada entre elas.

- E então? - Lily rompeu o silêncio, enroscando distraidamente uma mecha solta de seu cabelo com o dedo.

- Que porcaria é essa na sua testa? - Marjorie a interrompeu, apenas agora reparando diante da pouca luz o ponto branco na testa da adolescente mais alta do grupo.

- Puft! Uma maldita espinha. Alguma de vocês têm algum creme para me emprestar? - pediu e observou quieta a expressão incrédula das amigas que com certeza estavam pensando o que ela pensara mais cedo. Como é que uma meio-elfo tinha conseguido uma espinha na pele que causava inveja a 99,9 das garotas da escola delas? - Esquece. - completou ao ver a expressão embasbacada das outras.

- Vocês receberam sermão? - Bastet interrompeu, desviando seu olhar de uma Ann ocupara para uma Serena que olhava displicente para as unhas bem cuidadas. A princesa ergueu a cabeça para encarar a amiga e franziu as sobrancelhas, não compreendedo direito a pergunta dela. - Selene e você, receberam sermão? Afinal, a certinha matou um treino com Plutão. - provocou e viu os habituais olhos âmbares escurecerem de raiva. Ninguém falava naquele tom de desdém sobre a irmã de Serena e saía vivo para contar história. Só a jovem de cabelos rosados tinha o direito de zombar da outra princesa, mais ninguém. Nem mesmo Bastet que era sua melhor amiga. A sailor do fogo deu um sorriso e ergueu as mãos em rendição, dizendo que tudo tinha sido uma brincadeira e esperou pacientemente a outra responder a sua pergunta.

- Nós acabamos brigando em frente a mamãe e o papai e os convidados deles... - e como se algo tivesse subitamente penetrado na mente da garota, esta virou-se aos pulos, extremamente animada, para encarar as outras meninas. - Vocês não sabem quem está hospedado no castelo neste exato momento...

- O Príncipe de Zathar. - responderam todas em unísso, soltando um suspiro frustrado sob a respiração e Serena piscou os olhos confusa.

- Mamãe ficou atolando os nossos ouvidos durante o jantar sobre como não confiava nesses visitantes e que algo não estava cheirando bem. - Bastet explicou e as outras assentiram em concordância com a cabeça, pois em algum momento ouviram o mesmo discurso de suas mães.

- Mas elas disseram que o príncipe Aldric é uma gracinha? - completou Serena com um sorriso malicioso e isso pareceu atiçar a curiosidade delas que formaram um círculo em volta da líder para poder saber melhor dessa fofoca. - Ele tem mais ou menos a nossa idade, os olhos mais exóticos que eu já vi. Eles são de um azul cor de gelo... quase brancos. Os cabelos são prateados e a pele alva. Parece um anjo... lindo, lindo, lindo. E quando ele fala, a voz dele parece veludo... - soltou um suspiro sonhador que foi acompanhado pelas outras ao imaginarem o tal príncipe.

No entanto, todo e qualquer relato de Serena foi interrompido quando um alto estrondo foi ouvindo ecoando pela clareira, fazendo o chão tremer e as meninas caírem desajeitadamente. Na beirada do buraco, Ann balançou sobre os pés antes de cair sentada no chão e arregalar os olhos ao ver que a terra no centro do buraco pululava como lava prestes a explodir de um vulcão. Em um silvo montes de pedra e areia foram cuspidos e de repente do monte no meio da cratera criaturinhas pequenas e rastejantes, como besouros e escaravelhos, começaram a se arrastar pelo chão e subirem pelas laterais do buraco.

- Argh! - Ann ergueu-se em um pulo, afastando-se correndo da borda e indo juntar-se as outras que encolheram-se contra os troncos das árvores. Num impulso a garota segurou no pulso de Bastet e Marjorie e se teleportou mais as duas para cima de um grosso galho quando os insetos aproximaram-se demais dos pés delas. Lily fez o mesmo com Serena, a segurando pela cintura e em um salto indo parar em outra árvore. Mais uma vez o mini vulcão dentro da cratera soltou outro silvo, cuspindo mais terra, e de dentro dele emergiu a criatura mais horrenda que elas já viram. Era uma mistura de escaravelho com besouro gigante e quando este abriu as asas pareceu encobrir todas as luzes do local. Aturdidas, elas observaram a coisa levantar vôo e ser acompanhada pelos outros insetos em direção ao centro da cidade. Mais especificamente em direção ao castelo.

- Temos que pará-los! - Serena atestou o óbvio e antes que as outras pudessem responder, puxou seu broche de transformação. - Pelo poder do Prisma Lunar... transformação! - uma explosão de cores surgiu do corpo da princesa enquanto a transformação ocorria. A sua volta, as outras meninas invocaram suas varinhas e uma a uma foram gritando as palavras mágicas.

- Pelo poder do cristal sagrado, transformação... Arcádia!

- Pelo poder do cristal sagrado, transformação... Europa!

- Pelo poder do cristal sagrado, transformação... Phobos!

- Pelo poder do cristal sagrado, transformação... Vésper!

Luzes coloridas iluminaram a clareira e depois de breves segundo cessaram, dando lugar a cinco meninas vestidas em roupas de marinheiro sobre as árvores. Sailor Phobos foi a primeira a saltar para o chão, seu uniforme semelhante ao da mãe depois que Pégasus concedeu poderes extras as senshis. A diferença era que a sua saia possuía duas camadas em dois tons diferentes de vermelho, a camada de baixo era um vermelho normal enquanto a de cima era vinho, da mesma cor que os restantes dos acessórios, como o laço do peito, os detalhes das luvas e o laço nas costas. O sapato também era um salto fino, mas com laços de fita que circulava as pernas da menina até abaixo do joelho.

Arcádia postou-se ao lado de Phobos, seu uniforme de um azul cintilante que assemelhava-se a água cristalina dos mares caribenhos. E a bota, de cano curto, mal passava acima do tornozelo. Já Europa tinha um uniforme prateado semelhante aos raios que soltava contra o inimigo e os pés estavam adornados por um sapato de salto parecido com sapato de boneca. Vésper possuía o uniforme da cor do céu do amanhecer, de um laranja tão claro que quase beirava ao branco e os sapatos de salto fino lhe davam uma certa elegância. E, por fim, Sailor Moon, com seu uniforme semelhante ao da mãe depois de receber os poderes de Pégasus. Obviamente que a sua transformação ia além disso, poderia chegar a Eternal Sailor Moon, mas a menina sempre reclamava que as asas se metiam no caminho e que não fazia diferença, pois os poderes entre as duas era praticamente o mesmo, por isso preferira ficar com algo mais simples e parecido com os das amigas.

- As suas asas seriam de grande ajuda agora, sabia? - comentou Phobos irritada, jogando os longos cabelos negros sobre os ombros e mirando Moon firmemente.

- Como? - Serena arqueou a sobrancelha para Bastet. Por que essa menina estava sempre da pá virada com ela?

- Para chegarmos mais rápido ao troço lá. - e apontou para o inseto que sumia ao longe, sendo praticamente camuflado pela nuvem negra que o seguia.

- Para que asas se temos o maravilhoso teleporte da Ann? - a menina virou-se com um sorriso largo para Arcádia que rolou os olhos.

- Escuta! - Ann protestou mas já pegando na mão de todas e as obrigando a fazer um círculo. - Não sou a condução particular de vocês. - e com este último resmungo as teleportou bem em frente a grande praça que dava para a entrada principal de visitantes do Castelo de Cristal e de onde o escaravelho gigante já estava se aproximando com incrível velocidade.

- Bem... Não fiquem paradas aí, façam alguma coisa! - Moon ordenou e todas saíram de seu torpor, começando a enxurrada de ataques.

Bastet abriu os braços na lateral do corpo, convocando pequenas explosões ao seu redor na atmosfera seca enquanto uma aura avermelhada a envolvia. Em um movimento rápido como se estivesse cortando as moléculas de ar, juntou ambas as mãos em um estalo e uma onda invisível pareceu brotar delas, expandindo e causando mais estouros a sua volta até transrformar-se em uma enorme bola de fogo em direção ao inseto gigante.

- Explosão de Phobos! - gritou e a bola disparou a toda velocidade, esquentando o ar a sua volta. Apreensiva a menina ficou parada observando o golpe engolfar e bicho e este explodir. Soltou um grito vitorioso mas alargou os olhos quando a fumaça abaixou apenas para mostrar uma criatura intacta e que tinha usado as asas como escudo de proteção. - Isso não é bom. - murmurou, olhando para as outras que acenaram positivamente com a cabeça e inspirando fundo posicionaram-se prontas para a batalha.


Selene terminava de trocar a sua saia suja por um par de calças quando a porta de seu quarto abriu-se num estrondo, fazendo a menina pular de susto e fechar rapidamente o zíper e os botões do jeans que usava. Virou-se bruscamente sobre os pés para ver quem era o invasor e recuou com uma expressão sem graça quando uma Setsuna raivosa adentrou o aposento, batendo a porta atrás de si e as isolando de qualquer pessoa que pudesse ouvir os gritos aterrorizados da princesa pedindo por ajuda.

- Onde você se enfiou a tarde inteira? - esbravejou a mulher e Selene divergiu o olhar do rosto irritado dela para a enorme janela que adornava seu quarto. Podia simplesmente pular pela mesma e fugir, mesmo que estivesse a uns dois andares de distância do chão. Vantagens de ter telecinese como poder herdado do príncipe da Terra... podia usá-lo para voar quando destransformada e sempre recorria a esta opção quando buscava fugir de uma encrenca.

- Desculpa... eu acabei ficando em detenção... - o rosto de Plutão pareceu ficar ainda mais sério e amedrontador ao ouvir isto. A garota nunca ficara de detenção e para a professora ter feito isso, alguma muito boa ela deve ter aprontado. - Injusta por sinal! - completou, tentando aliviar a tensão no quarto. - E depois Serena apareceu, me convidou para um sorvete com as meninas e eu perdi a noção do tempo. - deu de ombros, como se isso fosse o suficiente para aplacar a ira da mulher.

Setsuna apenas cruzou o espaço entre as duas com três passadas largas e parou em frente a garota, segurando-lhe o queixo firmemente a a obrigando a encará-la nos olhos como se pudesse ler a mente dela apenas com este gesto.

- Amanhã pegarei pesado com você, está me ouvindo? - alertou, sacudindo a cabeça dela como se assim fizesse o aviso entrar e ser processado mais rapidmente pelo cérebro da menina. - Então nem pense em me dar bolo outra vez. - e a largou, se afastando calmamente.

Selene coçou o queixo na vã tentativa de espalhar a dor causada pelo aperto da mulher e a mirou fixamente. Sabia qual era o problema de Plutão e de um certo modo ficava até tocada com a preocupação dela. Desde o ataque de Kolie ao passado que ela interviu e o fato do pirata ter roubado seu Cristal Estelar, quase a matando, a guardiã do tempo tornara-se ainda mais protetora da princesa, embora nunca tenha contado aos pais da mesma sobre este pequeno detalhe da quase morte da garota. Sabia que Serenity e Endymion não suportariam a idéia de que quase perderam a filha. Contudo, Selene desconfiava que de uma certa maneira a sua irmã sabia o que acontecera no passado, pois também ficara mais protetora em relação a ela.

- Era só isso? - perguntou a adolescente em tom petulante.

- Não! - completou a mulher. - O que era aquilo que eu presenciei com aquele guarda durante o jantar? - exigiu e Selene franziu as sobrancelhas confusa, pensando por um momento sobre o que ela falava até lembrar-se das olhadas indiscretas de Hans, a fazendo corar.

- Sei lá... não sei o que deu nele. Não leio mentes como a Serena. - defendeu-se apressadamente. Normalmente não atraía a atenção de garotos de sua idade, quanto mais homens maduros. Sabia que era bonita, era um fato, todos diziam isso, mas a sua personalidade pouco amistosa sempre espantava os outros. Sem contar que era uma princesa e ter pessoas interesseiras na sua cola não era novidade, o que a fazia ser mais cautelosa. Então não sabia explicar qual era o problema de Hans, embora tenha ficado bem envaidecida por ter atraído a atenção dele.

- Escuta, aquele homem faz todos os pêlos do meu corpo eriçarem, então fique longe dele. - avisou a mulher e a jovem deu de ombros.

- Mamãe parece confiar...

- Sinto dizer, mas Rainha Serenity confia até em um poste, o que significa que isto não quer dizer muita coisa. - gracejou e Selene soltou uma risadinha. - Apenas... - Setsuna aproximou-se dela mais uma vez, a olhando com ternura. - me ouça, ao menos uma vez na vida, me ouça. - completou e continuaria dizendo algo quando uma enorme explosão e fumaça inundaram o quarto.

Ambas correram até a varanda acoplada as enormes portas de vidro e apoiaram-se na mureta de mármore que dava visão a praça em frente a entrada principal do castelo onde um enorme inseto planava inabalado diante dos ataques sucessivos das Neo Sailors. Guardas do palácio já tinham tomado suas posições e atiravam incansavelmente contra o intruso, mas este não parecia sentir nada e tudo o que os golpes faziam era atrasar a criatura para que ela não chegasse perto da moradia real.

- Mas... - Selene abriu a boca para falar mas foi calada quando um grito ecoou pelo lugar.

- Cascata Inebriante de Arcádia! - um estouro e um jato d'água poderoso foi-se seguido deste grito, atingindo a criatura e a fazendo recuar. Pontos onde o golpe atingira no casco do animal congelaram, mas rapidamente o gelo foi-se desfeito deixando a asa que protegia o bicho intacta.

- Luz Espiral de Vésper! - um raio laranja berrante brotou da ponta do dedo enluvado de Marjorie, indo de encontro ao inseto e causando outra poderosa explosão que fez Selene e Setsuna encolherem-se dentro da varanda para evitar a claridade cegante.

Quando as duas levantaram-se, puderam ver que Phobos carregava novamente seu golpe enquanto as meninas recuavam um passo, dando espaço a sailor de fogo que disparava bolas atrás de bolas de chamas contra o bicho mas não fazia nenhum estrago.

- Você fica aqui. - ordenou Setsuna a Selene, já transformando-se em um piscar de olhos e num salto pousando na praça e soltando seu "grito mortal" contra o bicho e vendo com satisfação que tinha causado algum dano, mesmo que mínimo. Contudo, quando ele abriu as asas e a boca como se fosse gritar, a mulher pressentiu que algo ruim estava por vir e não deu outra. Um brilho arroxeado brotou da boca do animal e em outro estrondo, ele disparou um raio sobre as sailors, causando mais uma explosão barulhenta que balançou os alicerces do palácio.


Em seu quarto, Hans, Eileen e Aldric observavam a batalha da grande janela apreensivos. Tinham uma vaga idéia de onde aquela criatura tinha surgido e o porquê dela estar ali, mas não queriam acreditar que haviam sido encontrados tão rápido. Assustada, Eileen segurou no braço de Hans e o apertou com força, mirando seus olhos azul gelo no homem maior.

- Precisamos ajudá-las. - falou em um tom horrorizado ao ver que mais um golpe das sailors tinha falhado e agora o bicho contra atacava com violência, as derrubando no chão e as ferindo. - É nossa culpa ter trazido a desgraça a este planeta... - continuou com pesar, divergindo seu olhar de Hans para Aldric.

O homem mais velho hesitou um pouco. Não estava na Terra para combater qualquer invasor, a sua missão não era essa, mas não podia tirar a razão da mulher que apertava seu braço com os dedos magros e pálidos e sabia que se não fizesse nada a sua consciência pesaria. Melhor dizendo, Eileen pesaria, porque com certeza ela ficaria atolando seus ouvidos pelo resto da eternidade. Quando outra explosão ecoou pela praça, o zathariano rolou os olhos e soltou-se do aperto da dama ao seu lado, saltando pelo janela e pousando suavemente sobre o chão de lajotas.

Novamente o escaravelho abriu a boca largamente, soltando mais um raio púrpura sobre as sailors que desviaram-se em um pulo. Hans viu o golpe vir em sua direção e saiu do caminho do mesmo, virando-se ao mesmo tempo em que o raio chocava-se contra as paredes do castelo, fazendo a construção tremer nas bases mas não causando nem ao menos uma fissura no revestimento de cristal. Arqueou as sobrancelhas ao ver isso. Parecia que o material brilhante e cristalino que envolvia o palácio não era apenas de enfeite e servia a algum propósito.

- Raios Incandescentes de Europa! - o grito o tirou de seus devaneios e pareceu que as nuvens negras acima deles rodaram em um roda moinho, chocando-se, até que uma saraivada de raios desceram em direção a terra atingindo o inseto em cheio e o fazendo cambalear para trás, mas sem afetá-lo muito. Os besouros e escaravelhos que o rodeava no entanto não tiveram muita sorte, pois podia-se ver abaixo da criatura espalhados no chão pavimentado pequenos objetos chamuscados pelos golpes das sailors.

A bicho novamente abriu a boca e apreensivos todos esperaram por mais um ataque, mas em vez de um raio, o que ele soltou foi um longo e agudo grito que fez o tímpanos de todos zunirem diante do som e eles tamparem os ouvidos e se encolherem na vã esperança de abafar o ruído irritante. Arcádia em um movimento rápido puxou seu mini computador, tentando avaliar qualquer ponto fraco que aquela coisa pudesse ter, mas o barulho que ele emitia estava causando interferência no aparelho, fazendo os dados na tela ficarem distorcidos.

- Cala a boca! - Bastet gritou mal humorada, já sentindo uma dor de cabeça surgir por detrás de seus olhos. - Explosão de Phobos! - bradou, soltando a bola de fogo que sabia nada faria a ele, mas ao menos deveria calar-lhe a boca. Quando o efeito desejado foi conseguido, todos respiraram aliviados diante do silêncio.

- Opa... - Arcádia soltou em um ofego, os orbes cinzentos grudados na pequena tela do computador de mão onde gráficos saltavam aos olhos e ondas de energia iam a picos nos medidores da máquina. - Ele está carregando! - alertou aos outros. - Procurem abrigo! - gritou, afastando-se do monstro e ao mesmo tempo auxiliando os guardas do castelo a tirarem do caminho do golpe os soldados caídos.

Hans viu mais uma bola de energia brotar da coisa e ergueu a mão em frente ao corpo, começando a entoar palavras esquisitas sob a respiração. Sailor Moon, que vinha correndo aparando um guarda, divisou o homem que parecia estar carregando algum tipo de golpe e usou o corpo avantajado dele como forma de proteção do que estava por vir.

- Seja lá o que você esteja planejando - advertiu a princesa. - acredito que não vai funcionar. - Hans apenas deu um olhar de esguelha para ela, vendo que as outras sailors seguiam seu exemplo e iam refugiar-se atrás dele, esperando que a tentativa de ataque do zathariano fosse muito mais bem sucedida do que a delas.

Plutão, que acabava de aproximar-se das outras meninas, olhou para o refugiado com estranheza. Aquela pose dele e aquelas palavras lhe pareciam familiar, mas ela não pensou muito no caso. Tinha milhares de anos de vida, conhecia praticamente centenas de povos na imensidão do universo então o fato de reconhecer aquela postura de ataque não era um grande mistério. Com certeza vira alguém no passado em suas andanças fazer o mesmo. Conformada com esta explicação, posicionou-se atrás do homem, já preparada para agir caso o contra ataque dele não desse certo.

Em seu quarto, Selene observava a batalha apreensiva, vendo com temor que os golpes de suas irmãs e amigas não estavam surtindo efeito. Viu quando Hans parou em uma posição de ataque e começou a cantarolar umas frases estranhas ao mesmo tempo que o monstro carregava o seu golpe. Quando a criatura abriu a boca para disparar o raio arroxeado, o homem também soltou seu poder e em um piscar de olhos uma bolha azulada brilhante envolveu o bicho, prendendo o ataque dentro da esfera e o fazendo ricochetear nas paredes violentamente antes de atingir a coisa certeiro, fazendo mais uma nuvem de fumaça bloquear a visão de todos.

Por um breve momento as neo aailors suspiraram aliviadas crendo que finalmente o bicho tinha sido derrotado, mas mais uma vez um guincho ensurdecedor cruzou o ar e o barulho de asas batendo chegou aos ouvidos doloridos de todos enquanto uma criatura aparentemente irritada voava na direção deles. Em um pulo todos saíram da linha de ataque e novamente começaram a disparar seus golpes repetidamente. Apressada, Ann correu até Hans, o puxando para um canto qualquer, longe da linha de frente de batalha, e começou a falar em baixas vozes com ele.

- Me diz uma coisa, aquela sua esfera de energia segura o golpe dentro dela, mas um golpe externo ela deixa passar? - perguntou com o computador na mão pronta para recolher os dados.

- Creio que sim. - Hans lançou um olhar ao monstro que era seguro pelas sailors que tentavam impedir seu avanço para o castelo. Seus orbes verdes foram das guerreiras batalhando as varandas da construção e viu em uma delas o rei e a rainha que pareciam apreensivos em querer participar da batalha, mas não moviam um centímetro. Ficou se perguntando porque criaturas tão poderosas apenas assistiam menininhas novatas lutarem sem fazer nada quando teve a sua pergunta respondida quando um golpe errante foi em direção ao palácio.

Serenity apenas fechara os olhos ao ver a energia vir contra as paredes de cristal que brilharam brevemente antes de absorver o poder e manter o escudo de proteção do castelo intacto. Hans sorriu levemente, era uma estratégia interessante de proteção e agora entendia porque os monarcas não saíam do lugar. Eles eram o que mantinha o palácio em pé e protegia aqueles que moravam dentro dele. Afinal, não tinha apenas a família real habitando aquela construção e pelo pouco tempo que ficara ali percebera que boa parte dos seus funcionários também residiam no enorme castelo.

- Seguinte! - a voz de Ann trouxe a atenção dele de volta a ela. - Você convoca seu golpe de novo e o cerca. Quando ele tentar mais uma vez a bola de energia, nós dispararemos nosso poder todas juntas, o prendendo dentro do seu escudo. Talvez um ataque conjunto surta mais efeito do que solitários. - explicou e o homem a olhou por um breve momento antes de voltar seu olhar a coisa.

- Então o distraia. Carregar aquele escudo leva tempo e concentração. - Arcádia assentiu com a cabeça, indo rapidamente juntar-se as outras e contar seu plano e prontamente Hans assumiu a pose para novamente invocar seu poder.

Rapidamente ele começou a sentir a energia percorrendo o seu corpo enquanto entoava as palavras mágicas sob a respiração com seus olhos fixos na batalha mais a frente. Via golpe atrás de golpe das sailors atingir a coisa e não fazer muito efeito e soltou um baixo xingamento quando o fogo de Phobos chocara-se contra o canhão de energia do bicho, divergindo o ataque bem na sua direção. Percebeu que a sua reação havia sido lenta e mal teve tempo de conjurar uma defesa quando sentiu seu corpo ser arremessado para o lado por uma força invisível. Tropeçou sobre os pés, virando-se para ver o que o tinha empurrado e arregalou levemente os olhos quando viu uma nova sailor entrar no embate. Seu uniforme era dourado e ela carregava um cetro nas mãos que usou como escudo para o canhão. Quando o golpe se dissipou, ela posicinou-se para rebater o ataque.

Observou fascinado os movimentos suaves que ela fazia enquanto rodava o cetro acima da cabeça e a aura de energia dourada a envolvia. Em um gesto brusco ela empunhou o cetro ereto em frente ao corpo e depois o virou na horizontal. Segundos depois ela começou a traçar um círculo em torno do próprio corpo e o ar a volta dela estalava como pequenas ondas de energia acumulando-se na ponta do cetro.

- Suprema... - o grito ecoou pela praça e a sailor girou o dorso para o lado, posicionando o cetro na altura do quadril como se estivesse tomando impulso para lançar uma bola bem pesada contra a coisa. - Devastação Estelar! - gritou, cortando o ar com o movimento de sua arma, a jogando para frente e lançando a bola de energia que parecia crescer a medida que percorria o caminho que separava a sailor da coisa e o zathariano teve a sensação de ver, por um breve momento, o ataque parecer engolir o universo como um buraco negro e abastecendo-se ainda mais de poder com isso.

O golpe envolveu o monstro em uma explosão de luz e cores e por um instante todos prenderam a respiração esperando o desfecho usual desta cena. Mas quando o show pirotécnio encerrou-se, nada mais havia da criatura a não ser um montinho de poeira no chão sob o local onde ela estivera flutuando mais cedo. Aliviada, a sailor soltou um suspiro e sorridente virou-se, indo na direção de Hans e parando na sua frente, o olhando de cima a baixo para averiguar se ele tinha algum ferimento.

- O senhor está bem? Aquela foi bem perto e... - começou mais foi interrompida por um grito agudo vindo de uma Sailor Moon possessa que praticamente trotava em sua direção.

- ESTELAR! O que você pensava que estava... - a mulher soltou em um rosnado, começando a repreender a outra senshi, mas Hans não estava mais prestando atenção pois seu rosto estava lívido. Estelar? Estelar?! Então o Cristal Estelar estava na Terra? Mirou a menina sendo advertida pela outra sailor e ofegou. Nunca pensara que daria tanta sorte em tão pouco tempo. Já estava com meio caminho andado então. Agora faltava pouco, muito pouco para a sua missão ficar completa.

Continua...