Capítulo 3
Selene prontamente fez ouvido surdo quando o sermão de Sailor Moon começou a atolar a sua cabeça. Era uma mal agradecida, isso sim, já que graças a ela aquela coisa finalmente foi derrotada. E o que recebia como prêmio? A sua irmã lhe enchendo as orelhas com bronca atrás de bronca sem sentido e de roteiro antigo. Afinal, já ouvira aquela ladainha antes sobre responsabilidades de ser uma sailor, o fato dela ainda ser uma aprendiz e coisa e tal. Conversa na sua opinião. A mãe delas não nasceu sabendo ser uma sailor, ela aprendeu com o tempo pois na vida anterior no Milênio de Prata a mulher fora uma princesa, não uma guerreira, então como esperavam que ela, Selene, adquirisse experiência se não a deixavam participar de nada?
- JÁ ENTENDI! - gritou frustrada, pois a conversa de Moon estava começando a lhe dar dor de cabeça. - Mas caso não tenha notado, ele virou pó. - apontou na direção onde estava o bicho e cujos únicos restos mortais era um montinho de farelos no chão.
- Sorte de principiante. - Selene arregalou os olhos azuis irada diante da colocação da irmã.
- Sorte de principiante? - repetiu em um silvo irritado. - Sorte de principiante? - berrou indignada e iria partir para cima da líder das senshis para mostrar onde ela poderia enfiar a sua "sorte de principiante", quando recebeu uma chave de braço que a prendeu no lugar.
- Acalme-se minha jovem. - a voz suave e poderosa de Hans chegou aos seus ouvidos e a menina sentiu o corpo amolecer automaticamente, sumindo com toda a tensão que estava em seus músculos. Piscou confusa diante do poder que o homem tinha sobre si, mas não ponderou por muito tempo sobre isso ao ver o sorriso triunfante de Sailor Moon.
- Escuta aqui sua poeira lunar... - sibilou para a outra princesa. - um dia ainda vou mostrar para você que o meu cetro faz muito mais estrago do que essa porcaria de varinha rosa que você fica agitando de um lado para o outro feito uma macaca maluca! - Serena apenas mirou a irmã chocada diante da explosão dela e piscou os olhos várias vezes rapidamente antes de cair na gargalhada. Selene irritada era a comédia, mesmo que a menina estivesse a ofendendo.
- Ma-ma-macaca maluca. - repetiu entre risadas e Estelar acalmou-se um pouco, começando a rir também ao ser contagiada pelo divertimento de Moon. As outras sailors apenas sacudiram a cabeça em negativa num gesto exasperado. As duas irmãs eram doidas, isso sim, pois uma hora estavam discutindo como se quisessem arrancar a cabeça uma da outra e na outra hora riam juntas de uma piada que somente elas compreendiam. Piradinhas, piradinhas, e as outras senshis costumavam gracejar que o problema delas era "lua virada".
- Meninas. - a voz da rainha que aproximava-se do grupo de senshis interrompeu qualquer futura discussão e todas viraram-se para a mulher, fazendo uma curta reverência somente pela força do hábito. Selene até que tentou cumprimentá-la formalmente como as outras, mas percebeu que ainda era mantida presa pelos braços fortes de Hans.
- Er... - falou sem graça, mirando por cima do ombro o homem atrás de si. - Se importa? Prometo não pulverizar a Moon. - completou quando o viu lançar um olhar desconfiado para ela. Com certeza o estrangeiro deveria estar pensando que tipo de guerreiras guardiãs eram as Sailors se viviam brigando entre si. Lentamente, como se ponderassse muito se fazia isto ou não, ele a foi soltando e com um sorriso a garota o agradeceu.
Estático, Hans observou Estelar afastar-se de si e ir juntar-se as outras senshis que rodeavam a realeza e conversavam a baixas vozes com eles. Por um breve momento teve a mulher em seus braços e a chance de completar a sua missão, mas a soltou por simples lógica. Seqüestrar a sailor sob o nariz das outras guerreiras seria extrema burrice. Primeiro precisaria levá-la a um lugar longe dos olhos das outras e assim capturá-la. Contudo, como é que faria isto? Duvidava que as senshis fossem senshis vinte e quatro horas por dia e ficassem andando pela cidade para cima e para baixo naqueles trajes que na sua opnião pareciam mais enfeite do que coisas práticas para uma batalha. Afinal, em que uma saia curta pregueada e laços de fita serviam como armadura de proteção?
No entanto, como é que descobriria a identidade por detrás do glamour de transformação de Estelar? Não acreditava que pudesse perguntar a qualquer pessoa e esta lhe esclaresse esta dúvida, pois com certeza somente poucos no mundo deveriam saber quem eram as sailors quando estavam vivendo entre os civis, e podia apostar que a família real era uma dessas poucas pessoas. Afinal, as mulheres tinham como uma das funções de guardiãs proteger a realeza e como fariam isso se não estivessem em contato direto com a mesma, com ou sem seus poderes.
- Algumas de vocês faz idéia do que foi aquilo? - Endymion perguntou ao se aproximar-se do grupo, fechando a roda de conversa.
- Eu coletei alguns dados durante o ataque que talvez valham a pena serem analisados. - Arcádia respondeu. - Mas não aqui. - continuou, lançando um olhar por cima do ombro para Hans parado a alguns metros de distância deles.
- Vamos para a sala de conferência... - o rei aconselhou, guiando as sailors para a sala.
- Menos ela! - Moon apontou Estelar que cruzou os braços sobre o peito e arqueou as sobrancelhas.
- Não recebo ordens de você lunática! - respondeu contrariada, pois não gostava de ser comandada pela irmã mais do que a política de irmãos mais velhos permitia. - Estou sob a jurisdição do rei e da rainha. - provocou, dando um sorriso de escárnio para a outra senshi. Serena não queria envolver a irmã nessa confusão, mesmo que ela tivesse as ajudado espetacularmente, mas não queria arrumar problemas para ela e ao mesmo tempo não conseguia fazer Selene entender o porquê.
Nunca contara a ninguém, mas no dia que Selene viajou ao passado atrás de Kolie, a princesa ficara apreensiva durante o sumiço da irmã e um pressentimento horrível não parava de assolá-la, até que chegou um dia, dois dias depois do desaparecimento dela, que a jovem sentira. Sentira como se o seu peito estivesse rasgando e seu corpo sendo destruído em mil pedaços. Sua pele queimava, seus músculos repuxavam e estalavam e parecia que alguém tinha atravessado algo pelo seu coração e ficava o revirando dentro de seu corpo a procura de alguma coisa. Até que, subitamente, tudo parou e uma sensação de vazio a apoderou e ela soube, soube imediatamente que a sua irmã estava clinicamente morta. Que o seu Cristal Estelar havia sido roubado, e tudo o que pôde fazer foi cair de joelhos no chão e chorar copiosamente até o momento que sentiu que tudo estava bem de novo, que a Sailor Moon do passado tinha salvado a filha que desconhecia.
Não estava disposta a sentir isto novamente e por isso fazia de tudo para impedir qualquer relação de Estelar com qualquer batalha, por menor que esta fosse, mesmo que isto fizesse a menina odiá-la pela eternidade. Preferia ter a raiva da irmã sobre si do que o corpo dela sem vida em seus braços.
- Okay, creio que já chega, já chega. - Serenity interpôs-se entre as duas meninas, as olhando seriamente e dizendo com o olhar para pararem com a bobagem se não quisessem mais semanas de castigo pela atitude infantil. Prontamente as duas recuaram, se afastando o máximo que podiam uma da outra mas ainda ficando perto do grupo. - Creio que o melhor seja levar esta conversa a sala de conferências para poder compreendermos o que aconteceu. - falou em um tom calmo e as outras sailors nada disseram, apenas caminhando automaticamente para a sala que usavam para se reunirem e debaterem assuntos que envolviam política ou segurança de Estado. Sailor Estelar moveu-se para acompanhar as Neo Senshis, quando Moon lhe lançou um longo olhar atravessado.
- Onde pensa que vai? - indagou seca e Selene cruzou os braços sobre o peito, batendo a ponta do pé insistentemente no chão pavimentado.
- Onde você acha que eu estou indo? - respondeu azeda. Fez parte da estratégia de defesa do palácio e como tal também tinha direito de discutir sobre a nova ameaça. Afinal, pensou em deboche, como poderia proteger o pequeno príncipe (que na sua humilde opinião sabia se virar muito bem sozinho) se não soubesse com o que estavam lidando?
Sailor Moon abriu a boca para protestar e cortar o barato da irmã sem parecer arrogante ou grosseira, mas sabia que qualquer objeção sua seria interpretada pela menina de maneira errada. Selene tinha a teimosia irritante da mãe delas, assim como a própria Serena. Nenhuma das duas havia herdado o gênio controlado do pai. Uma pena, pois isso enlouquecia o rei Endymion aos extremos, coitado.
- Iremos todos - Endymion cortou quando sentiu a ameaça de uma nova briga pairando no ar e não pela primeira vez se perguntou o que aconteceria se as duas sailor partissem para a agressão física. Sailor Moon era poderosa, mas por outro lado Sailor Estelar tinha desintegrado aquele bicho num golpe só, coisa que as outras não tinham conseguido. - sem exceção. - disse firme e em um tom que encerrava qualquer propensa discussão.
Sailor Estelar lançou um olhar de triunfo a outra princesa e empinou o nariz no ar, começando a seguir as outras sailors mas parando brevemente e virando-se sobre os saltos para encarar um Hans estático no mesmo ponto que deixara mais cedo.
- Er... obrigada pela ajuda. - sentiu na obrigação de agradecer e dispensar o homem ao mesmo tempo sem parecer mal educada. - Mas acho que podemos assumir daqui. - completou, correndo para alcançar os outros que já sumiam castelo adentro.
Hans ainda aguardou alguns minutos, olhando a sua volta com curiosidade e experiência de alguém que já vira várias batalhas. Soldados da segurança do castelo levavam feridos para ambulâncias que acabavam de estacionar em frente ao palácio. Pessoas observavam a distância a movimentação e confusão, mas ele percebeu que eram recém chegadas, pois durante a batalha ninguém mais além dos combatentes estavam por perto. Com certeza os habitantes de Tóquio de Cristal, mais do que acostumados com esses acontecimentos, desenvolveram um instinto natural de fugir do local do embate no primeiro ataque. Funcionários do castelo avaliavam os estragos e a passos lentos o homem aproximou-se do monte de pó que um dia fora uma criatura muito estranha e medonha.
Não podia negar que a conhecia e sabia o que ela fazia ali. Era um aviso de que seu tempo estava acabando, o que era injusto visto que não fazia nem vinte e quatro horas que estava na Terra. No entanto, ele esquecera de contar em seu prazo o tempo de viagem que levaria de Zathar até aquela planeta, o que explicava a investida precoce como aviso de que seu dead line estava chegando. Travando o maxilar em uma expressão irritada e franzindo as sobrancelhas, ele rodou sobre as solas das pesadas botas de combate e voltou ao castelo, fazendo rapidamente o caminho até o quarto onde uma Eileen preocupada o esperava.
- E então? - Aldric abriu a boca antes mesmo que a mãe pudesse dizer alguma coisa.
- E então o quê? - Hans o mirou duramente. - Você sabe o que aquilo significa...
- Pelos Grandes Deuses! - Eileen ofegou, levando as suas mãos delicadas a frente da boca e arregalando os olhos claros. - Hans, isso é mesmo necessário? Não há outra maneira? Talvez se pedirmos ajuda...
- Não faremos nada! - rebateu grosseiramente e a mulher se calou num estalo. Frustrado, inspirou profundamenta para recuperar seu tão estimado controle e a mirou com seriedade e frieza. - A ajuda desse povo será inútil. Ou você acha que um bando de menininhas de mini saia servirão de alguma coisa? - disse com um tom de escárnio.
- Elas pareceram servir quando aquela de uniforme dourado pulverizou... - Aldric começou, apenas para ser interrompido pelo homem mais velho.
- Aquela de uniforme dourado era Sailor Estelar. - enfatizou e viu a compreensão refletir-se rapidamente nos olhos de seus companheiros de viagem. - E vocês sabem o que isso significa...
- Acha que vai conseguir Hans? - Eileen perguntou preocupada. Vira a batalha da janela e a menina destruíra o monstro num golpe só, mais eficiente que as suas colegas.
- Sim. Só preciso descobrir quem ela é. - completou e os outros dois zatharianos piscaram os olhos confusos. - Não creio que uma sailor viva transformada vinte e quatro horas por dia e acredito que elas tenham uma identidade civil. Quando as encontrei pude sentir a energia delas vibrando e além disso uma magia de ocultação que as envolvia. Um glamour, algo que impede que as pessoas saibam quem elas são destransformadas. - explicou e Aldric soltou a pergunta que ele já esperava.
- E como pretende fazer isso?
- Duvido que alguém fora do círculo real saiba quem elas são, mas acredito que a família real...
- E espera que Serenity ou Endymion diga a você quem é ela? - Eileen zombou. Obviamente o rei e a rainha achariam muito suspeito que três foragidos recém chegados ao planeta saíssem por aí perguntando qual era a identidade secreta das guardiãs da cidade.
- Eles não... E obviamente a princesa Serena muito menos, ela pareceu não gostar de mim. Mas a princesa Selene... - deixou a idéia vagando no ar e não surpreendeu-se quando a mulher a sua frente fez uma expressão de desagrado.
- Não pretende seduzí-la para conseguir esta informação, pretende? Porque duvido que ela diga de bom grado este detalhe sobre uma de suas senshis. - falou com a expressão fechada diante da insinuação de que o homem se rebaixaria a tal ponto para conseguir alguma coisa.
- Se for preciso.
- Você tem mais escrúpulos do que isso Hans! Ela é apenas uma menina!
- Um sacrifício válido para um bem maior. - rebateu friamente e Eileen fez uma expressão horrorizada.
- Você acha partir o coração de uma adolescente um sacrifício justificável? - perguntou chocada e recuou quando os gélidos olhos claros do homem a miraram com fúria.
- A dor de uma mera adolescente não é nada perto do que estamos passando. E caso não tenha percebido majestade, temos problemas maiores aqui para nos preocupar. Nosso tempo está se esgotando então, se você não se importa, pretendo colocar meu plano em prática em breve. - finalizou, saindo do quarto as pressas para poder espairecer a cabeça. Discutir com Eileen sobre o que era certo e errado sempre o deixava com um peso de culpa no coração.
- Isso não vai dar certo. - murmurou a mulher quando viu a porta do quarto bater com força anunciando a partida de Hans. Retesou levemente os ombros quando sentiu ser abraçada por trás, mas relaxou rapidamente ao reconhecer o toque confortador de seu amado filho.
- Não se preocupe mãe - o jovem falou em um tom enigmático. - sinto que o feitiço está prestes a virar-se contra o feiticeiro.
O burburinho na sala era grande e por todos os cantos conversas paralelas surgiam e várias hipóteses eram lançadas sobre a origem da coisa que atacou o castelo. Arcádia estava recostada a mesa de projeção, seu palm top tinha um fio que estava acoplado a uma das entradas do painel da mesa e ela digitava com a mão livre vários comandos no teclado do painel. Uma luz esbranquiçada foi emitida do centro da mesa e prontamente as imagens que antes era restritas a tela do pequeno computador agora estavam a vista de todos.
- Bem - Ann elevou seu tom de voz para chamar a atenção e logo as conversas foram morrendo até tudo ficar em completo silêncio. - Acho que devo começar a história do início, não? - falou, olhando para todos a sua volta e recebendo assentimentos de cabeça. - Ótimo! Bem, eu estava na doce tranqüilidade do meu lar...
- Hunf! - Phobos soltou, abaixando o tom de voz para murmurar para Vésper ao seu lado. - Com aquelas duas pestes que ela chama de irmãos, não vejo onde está a tal tranqüilidade. - falou e quando voltou a olhar para o grupo viu que Arcádia a mirava irritada por ser interrompida.
- Posso? - perguntou com escárnio a uma Bastet que dava um sorrisinho presunçoso a ela. - Obrigada. De qualquer maneira, eu estava em casa quando vi o tempo começar a fechar e raios cruzarem os céus. Normalmente eu não daria nada para isso, mas não se pode ignorar quando um raio desce e acerta o centro do Parque Imperial, abrindo uma cratera enorme. Então, obviamente, eu tive que ir lá investigar... - e começou a relatar o que vira desde o momento que se teleportara para o parque, ao estranho vulto que saiu do buraco, a hora que chamou as outras sailors até o momento em que o besouro/escaravelho gigante brotou da terra junto com outros insetos e partiu em direção ao palácio.
- E então quando vimos estávamos aqui, soltando golpe atrás de golpe para parar aquela coisa - continuou Sailor Moon. - sem sucesso e o Hans apareceu, fazendo aqueles badulaques brabos dele e convocando aquele escudo que não adiantou de nada...
- E quando eu sugeri que ele invocasse o escudo de novo - completou Arcádia. - para assim prender os nossos golpes conjuntos dentro da esfera na esperança que fizesse mais efeito, Estelar apareceu e encerrou com tudo. - e voltou seu olhar para a senshi ao canto da sala, recostada na parede com os braços e tornozelos cruzados, mais afastada do grupo e com um ar de enfado.
- E tirou toda a nossa diversão. - reclamou Bastet. - Estávamos quase conseguindo...
- Com certeza, com você soltando aquelas faíscas que não chamuscavam nem as anteninhas daquele bicho. - provocou Selene e a sailor do fogo bufou diante da ofensa. Ninguém chamava as suas poderosas chamas de faíscas.
- E você com aquele cetro fajuto que mais parece acessório de fantasia de Halloween não é lá grande coisa. - rebateu irritada e a princesa apenas arqueou uma sobrancelha para ela.
- Mas funcionou, não funcionou? - disse com um sorriso de escárnio e Bastet bufou, ficando quieta pois não podia lhe tirar a razão.
- Pode ter funcionado - Ann as cortou. - mas devemos lembrar que para poder derrubá-lo você nem recorreu ao seu golpe primário. Por que o suprema devastação em vez do tempestade estelar? - perguntou curiosa e Selene piscou intensamente, desencostando da parede.
Verdade, por que um e não o outro? O Suprema Devastação Estelar era o seu golpe mais poderoso, todos sabiam disso, o que ela usava apenas em casos de emergência por causa do tamanho do estrago que ele fazia pois ainda não tinha domínio sobre o mesmo. Contudo, por incrível que pareça quando ela o disparou mais cedo sentiu a energia fluir de seu corpo em um controle absoluto. Por nenhum momento ela vacilou na hora do ataque. Mas mesmo assim ainda a fazia pensar, o Tempestade Estelar também causava estragos, mas quando botou-se na frente do golpe do bicho contra Hans e abriu a boca para contra atacar, o tempestade foi a última coisa que lhe veio a cabeça. Por quê?
- Sei lá! - respondeu dando de ombros. - Na hora eu não pensei, quando vi já tinha saído. - disse como se não tivesse importância nenhuma este fato e ignorou o olhar chocado de Plutão.
- Não pensou? - Setsuna falou alarmada. - Faz idéia do caos que seria se o golpe fugisse do seu controle?
- Nenhum. Provavelmente ele iria em direção ao castelo e as barreiras da mamãe e do papai protegeriam o palácio. Grande coisa. - voltou a recostar na parede na posição de antes e Plutão rolou os olhos.
- Irresponsável. - murmurou a mulher sob a respiração. - De qualquer maneira, o que você conseguiu descobrir sobre o ataque Ann?
- Não muita coisa. - falou apontando para os gráficos que eram mostrados pela mesa progetora. - Ninguém assumiu a responsabilidade pelo atentado ao palácio, o motivo, e o monstro tinha um traço de energia similar a todas as outras criaturas negras que já enfrentamos. Logo suponho que seja mais uma trupe do lado negro da força querendo invandir a Terra... de novo. Mas até alguém assumir a autoria e deixar seus planos claro, tudo o que podemos fazer é ficar em alerta. - concluiu, lançando um olhar para Serenity e Endymion que pareciam preocupados. Com certeza não deveria ser fácil ser o líder de um reino modelo que era cobiçado pela mais baixa escória do Universo. - Só sei que é alguém de fora visto que, pelo que compreendi, o raio trouxe o bicho para a atmosfera terrestre em alguma espécie de cápsula.
Ao fim do relato de Arcádia, Endymion soltou um suspiro, coçando os olhos com as pontas dos dedos para ver se dissipava uma enjoada dor de cabeça que começava a brotar atrás de seus olhos. Mais essa agora, depois de anos em relativa paz, aparecia mais uma ameaça para destruir o esforço dele e de Serenity em construir um reino sólido e estável. Por que esse povo não escolhia outro lugar para atracar? O pouparia de tantos problemas, com certeza, pois duvidava que eles fossem o único planeta do Universo que possuísse objetos mágicos poderosos.
- Bah, sou somente eu ou alguém acha que é muita coincidência o ataque surgir no mesmo dia que os refugiados chegaram? - Phobos comentou distraidamente. Era tão desconfiada quanto a sua mãe e este dado poderia não ser nada, como poderia ser alguma coisa.
- Coincidência. - respondeu Serenity. - Se o príncipe Aldric e a sua comitiva fossem uma ameaça jamais teriam passado pela proteção do castelo. - afirmou e as outras acenaram em concordância. Quem achava que o Palácio de Cristal somente tinha as Sailors e seus guardas armados como proteção estava muito enganado. A energia das Inner Senshi desde o ataque da Black Moon ainda estava encrustada nas paredes da construção e adicionadas a energia do rei e da rainha, tornava o lugar praticamente impenetrável pelas forças malígnas. Se os zatharianos fossem uma ameaça não teriam passado da praça de entrada.
- Creio que se isto era tudo. - Serenity falou em um tom calmo de dispensa. - Acho melhor encerrarmos por hoje. - pediu e as outras concordaram com um gesto de cabeça. Se não tinham dados suficientes sobre o assunto nada mais poderiam fazer a não ser deixar todas as sailors em alerta para qualquer eventualidade.
- Bem, eu estou indo para casa, quem quer carona? - perguntou Arcádia displicente e Bastet prontamente ergueu a mão no ar. Era a que morava mais longe e não estava disposta a voltar correndo para casa a aquela hora da noite. Se ao menos tivesse conseguido surrupiar o carro da mãe antes, claro, de esta a matar por pensar em dirigir seu amado carro. - Mais alguém? - continuou Ann, ignorando Phobos que sempre era companhia garantida em seus teleportes.
- Eu vou com a Lily, moramos mais perto uma da outra. - perto? Pensou Lily divertida. Tudo o que separava ela da Marjorie era uma cerca branca enfeitada com rosas e margaridas. As duas eram vizinhas e praticamente transformara a casa alheia em sua casa. Afinal, Lily sempre usava a amiga como escape para fugir de suas irmãs. Uma coisa era aturar o pequeno Marcus, outra era aturar o triplo terror L, como ela chamava as suas irmãs caçulas.
- Você não se importa de eu dormir na sua casa hoje, se importa? Mamãe deve ficar até tarde no restaurante e o triplo terror com certeza vai me atormentar querendo saber o que aconteceu e... - começou a se explicar, já saindo da sala na companhia de Vésper.
- Setsuna? - Arcádia perguntou quando a mulher não se manifestou. Sabia que Plutão morava do outro lado da cidade em uma mansão que dividia com Hotaru que a considerava a sua mãe postiça.
- Acho que vou aceitar a carona, pois está tarde. - disse e aproximou-se da menina, segurando a mão esquerda dela já que a direita já estava ocupada com Bastet. - Mas amanhã continuaremos a nossa conversa mocinha. - completou, lançando um olhar significativo a Estelar que lhe deu uma careta infantil antes dela sumir num estalo com Arcádia e Phobos.
- Se vocês não se importam... - Selene murmurou, soltando um bocejo e revertendo a transformação, indo saltitando até os pais e lhes dando beijos molhados nas bochechas, desejando logo depois um boa noite. Serenity e Endymion retribuiram o gesto com um sorriso e observaram quietos a menina sair correndo da sala.
Apressada, ela subiu as escadas do palácio até o quarto e parou abruptamente no corredor em frente a porta de seu aposento, olhando a sua extensão curiosa para a entrada do quarto de hóspedes, como se esperando que Hans aparecesse novamente com aquela postura intimidadora e viesse puxar conversa com ela. Quando depois de minutos nada acontera, a menina entrou no quarto, trancando-se nele e caindo na cama pesadamente, adormecendo mais do que depressa em um sono que ela esperou não fosse carregado de sonhos enigmáticos.
Não importava quantos anos passassem ele sabia que jamais conseguiria esquecer a sensação que era ter o corpo dela em seus braços, o cheiro adocicado inundando as suas narinas ou a sensação dos cabelos macios como seda entre seus dedos calejados e rudes. Gostava de encarar os intensos olhos azuis que pareciam o oceano infinito, da cor das águas que prevaleciam naquele planeta. Gostava de sentir as curvas bem moldadas pelos anos de treinamento contra o seu físico bruto de guerreiro. Mas, acima de tudo, gostava de vê-la sorrir. Aquele sorriso que deixava amostra todos os dentes perolados e fazia brilhar os belos orbes azulados.
Ela tinha sido uma conquista difícil, era cética diante de suas ações, pouco se valorizava como mulher e apenas dava importância a guerreira. Não acreditava que pudesse chamar a atenção de um homem e não podia estar mais enganada. Chamara a sua atenção, no primeiro momento que colocou os pés no castelo e vira aquela jovem parada ao lado do príncipe, ajeitando suas roupas e sentindo-se deslocada naquele traje formal, ela lhe chamara a atenção. Aproximar-se não havia sido fácil, era arredia, desconfiada e gostava dessa qualidade dela. Provava que era boa no que fazia. Mas ele era melhor. Era mais teimoso, tinha anos de experiência no ramo de estratégia e porque não dizer alguma prática na sedução, embora fizesse mais o tipo solitário.
A encurralara várias vezes, tentara lhe roubar beijos as escondidas e ser dolorosamente negado. Insistira, persistira, e quando em uma tarde chuvosa escondidos pelas grossas gotas d'água dentro de um coreto no meio de um lago ela cedeu, sentiu-se vitorioso e maravilhado. O gosto dos lábios dela contra os seus era uma coisa única, maior do que esperava ser, maior do que poderia descrever. Os braços tímidos envolvendo seus ombros fazia seu corpo tremer e a entrega completa o extasiava imensamente.
Poderia se passar milhares de anos mas ele jamais se esqueceria dos encontros furtivos ao longo do castelo, das escapadas, de como as bochechas dela ficavam vermelhas diante de um elogio, de como os olhos brilhavam discretamente ao identificá-lo na multidão, do modo como ela sussurrava palavras doces ao seu ouvido depois de fazerem amor. E poderia se passar milhares de anos e ele não se esqueceria do fatídico dia em que ela se foi. Em que segurou seu corpo sem vida em seus braços, das lágrimas que derramara em frente ao seu túmulo, da promessa que fizera de jamais permitir-se sentir novamente. Era feliz quando era um homem solitário e fadado a tristeza eterna, mas quando a conheceu percebeu que podia mudar seu destino, até perdê-la. Tornou-se fechado, frio, gelado, amar tornou-se apenas uma palavra. Não era cruel ou rude com as outras mulheres, nunca deixou de se envolver, ter relacionamentos e aprendeu a apenas encarar essas relações como passageiras.
Para, no fim, perceber que as suas amantes jamais seriam como Estela.
Os olhos azul gelo abriram-se apenas para serem cumprimentados pela escuridão do aposento e lentamente a figura mexeu-se, sentando-se na cama e vagando seu olhar janela afora para a escuridão da noite. Em movimentos curtos e vagarosos desceu do colchão e caminhou a passos lentos até a grande janela, deixando a brisa fria da madrugada não apenas brincar com as cortinas mas também chocar-se contra seu rosto na vã tentativa de levar aquele sonho embora de sua mente.
Fazia anos que não tinha esse tipo de sonho, que as lembranças não o assolavam de maneira dolorosa, mas talvez compreendia um pouco o porquê dessas memórias terem voltado tão abruptamente, sendo desenterradas violentamente de seu sub-consciente. Inspirou profundamente o ar noturno, sentido-o gelado e queimar por todo o caminho até os seus pulmões. Não importava se Estela estivesse querendo voltar dos mortos para atormentá-lo, isso não mudaria seus objetivos. Um brilho perigoso passou por seus olhos claros e num estalo ele fechou a janela, voltando para a cama a passos pesados. O passado estava no passado e o presente era o que importava agora. E no momento o presente era conseguir o que veio buscar não importa quem ele tivesse que passar por cima para isso.
A cidade de Tóquio de Cristal ainda estava encoberta pelas negras e pesadas nuvens que reuniram-se na noite passada antes do ataque, fazendo aquele início de manhã mais parecer um entardecer. Selene abriu largamente as cortinas da janela, mirando o horizonte e aquele clima estranho que a incomodava sem motivo aparente. Sonhara novamente na noite passada mas, curiosamente, este sonho era diferente. Ela não era a Estela, parecia que ela era outra pessoa, estava no pensamento de outra pessoa que tinha uma ligação forte com Estela e suspeitava que, desta vez, tivera a visão do tal de Rhian sobre toda a situação.
Soltou um suspiro, indo até a cama e deixando-se cair pesadamente sobre o colchão, começando a brincar com uma mecha do cabelo em um gesto displicente. O que afinal esses sonhos queriam lhe dizer? Por que os estava tendo? Mordendo o lábio inferior pensativa, ela rodou os olhos pelo quarto até eles recaírem sobre o objeto no criado mudo, o recolhendo imediatamente com as mãos e ponderando se seria uma boa idéia fazer isso. Decidida, apertou o botão de contato com Sailor Plutão e esperou a conexão ser completada.
Dois minutos depois, o rosto sonoleto de Setsuna aparecia na pequena tela e a mulher erguera uma sobrancelha ao ver quem a chamava. Logo ela pareceu acordar e encarou a princesa com uma expressão preocupada.
- Algum problema? - perguntou ao ver que Selene apenas a encarava em silêncio. Os lábios da jovem se mexeram como se quisessem dizer alguma coisa mas ela permaneceu quieta. Depois de um minuto nesta espera finalmente ela abriu a boca, emitindo algum som.
- Quem era Estela? - falou abruptamente e Setsuna piscou, tentando assimilar a pergunta. Como assim quem era Estela? Estranhamente o nome lhe parecia familiar, mas ela não lembrava de onde.
- Como?
- Eu ando tendo esses sonhos... - começou e calou-se quando a sailor do tempo ficou pálida. Franziu as sobrancelhas diante desta reação da mulher. - O que foi?
- Sonhos? - repetiu em um sussurro.
- Sonhos. Por que você está com essa cara como se eu tivesse anunciado o fim do mundo? - disse, enquanto rolava o corpo sobre o colchão e deitava-se de bruços na grande cama, prendendo o comunicador entre as mãos e o levando a altura dos olhos.
- Você sabe que a família real tendo sonhos sempre significa alguma coisa. - Selene soltou um suspiro exasperado diante da resposta da mulher. Claro que sabia. A sua mãe às vezes tinha alguns sonhos proféticos, como visões, mas era muito raramente e geralmente precedia a alguma ameaça. Todas suspeitavam que era o sexto sentido aguçado da rainha que ocasionava isso e que mandava mensagens ao sub-consciente dela durante o sono para deixá-la alerta diante de uma ameaça. Afinal, a única médium oficialmente reconhecida do grupo era Sailor Marte, e as previsões dela eram muito mais certeiras do que as de sua mãe.
- Não são visões do futuro, Setsuna. - falou e pareceu que a senshi soltou um suspiro de alívio. - São do passado. - isso pareceu soprar para longe a tranqüilidade da mulher e antes que ela abrisse a boca pôs-se a explicar. - Ando tendo sonhos com uma tal de Estela que viveu durante o Milênio de Prata e parecia ser uma das guardiãs do príncipe Endymion... - calou-se quando viu uma expressão de compreensão passar pelo rosto de Setsuna. - Lembra quem é? - indagou esperançosa.
- Estela foi a guardiã do Cristal Estelar antes de você. - explicou calmamente. - Ela era um dos generais do príncipe Endymion durante o primeiro reinado dele e morreu no ataque ao Milênio de Prata. - Selene soltou um bufo. Disso ela já sabia, o que queria era uma novidade.
- Disso eu sei Setsuna, sonhei com ela. O que quero entender é o porquê de eu estar sonhando isto. - falou exasperada e Plutão ficou quieta por alguns segundos, pensativa.
- Isso depende do que você está sonhando. - retrucou e viu com curiosidade as bochechas da menina ficarem vermelhas.
- Eu... bem... er... - disse sem graça. - Bem, em meus sonhos - soltou um pigarro para disfarçar a vergonha. - a maioria dos sonhos envolve ela e um tal de Rhian... - ficou quieta novamente ao ver Setsuna empalidecer mais uma vez. - O quê? O que foi?
- Rhian? Rei Rhian? - perguntou e Selene deu de ombros. Ouvira Estela chamar em alguns de seus sonhos este tal de Rhian de majestade, então supunha que ele era rei.
- O que tem ele?
- Rei Rhian foi o amante de Estela... um escândalo diga-se de passagem. Ele era a realeza, ela apenas uma serviçal, Endymion não gostara da idéia, achava que o homem só poderia estar brincando com a mulher, causou uma enorme confusão e surpresa.
- Por quê?
- Rhian tinha a fama de ser solitário e fechado, dedicado apenas ao seu povo em seu planeta. Recusara várias propostas de casamento e todos diziam que ele era tão gelado quanto a sua terra natal... - Plutão calou-se de novo com uma expressão que Selene não gostou.
- Qual o problema?
- Rhian era o rei de Zathar.
- ZATHAR? - gritou a menina, pulando e pondo-se de joelhos sobre a cama, sacudindo o comunicador nas mãos na vã esperança que assim pudesse sacudir os ombros de Setsuna ao saber dessa informação. - O que aconteceu com ele?
- Não sei. Depois que Estela morreu ele voltou ao seu planeta e se isolou, nunca mais ouvi falar dele. Se bem que eu também me isolei por anos nos portões do tempo, então fiquei um pouco desatualizada. A essa altura ele deve ter morrido, já que Zathar passou por uma guerra civil há alguns séculos atrás e acho que deve ter se casado, já que o príncipe Aldric é herdeiro do trono...
- Você acha que Aldric é filho de Rhian? Depois de tantos milênios? Como pode isso?
- Do mesmo modo que as sailors e o rei e a rainha têm mais de dois mil anos de vida e nem parece que chegaram direito a casa dos trinta. - respondeu divertida. - A magia os mantêm sadios e com uma vida longa e próspera. Zathar, assim como foi o Milênio de Prata e agora a Terra, é movida por poderes mágicos o que dá longevidade ao seu povo.
- Isso ainda não explica porque eu estou sonhando com dois amantes que parecem uma versão pobre da história do meu pai e da minha mãe. - continuou frustrada e foi a vez de Setsuna dar de ombros.
- Também não sei explicar. Talvez seja remanescência do Cristal Estelar, pois acredito que entre Estela e você não houve outro guardião. Além do mais, você é uma descendente direta de Estela e o fato do cristal permanecer na mesma família por duas gerações de guardiões deve ter desencadeado um processo de libertação de lembranças. Pouco se sabe do funcionamento do Cristal Estelar e a sua origem, mas uma coisa é sabida, ele costuma absorver e arquivar todo o conhecimento adquirido de cada guardião que ele tem, passando esses conhecimentos ao guardião seguinte. - explicou e Selene piscou intensamente, completamente confusa.
- Peraí... volta um pouquinho nessa história. Como assim sou descendente de Estela? - Setsuna sorriu.
- Estela era prima do príncipe Endymion...
- Se era prima, então era realeza, e se era realeza, então porque o caso dela com o tal de Rhian foi um escândalo?
- Não necessariamente. Veja você por exemplo. Você é uma princesa, mas não é a herdeira do trono então seu status no círculo da nobreza está abaixo do de Serena que esta destinada a ser a futura rainha. - falou e Selene assentiu com a cabeça, compreendendo. Não que se importasse muito com isso e quem de fora ouvisse poderia achar que as palavras de Setsuna foram duras, dizendo que ela estava abaixo de Serena. O problema é que Selene não tinha o menor interesse no trono e estava feliz com a vida relativamente normal que possuía. Além do mais, ser princesa já dava trabalho, a pessoa ficava constantemente no foco da mídia e da atenção pública. Ser rainha então deveria ser um inferno, e era nessas horas que ela tinha pena irmã. - Sem contar que naquela época a mulher da nobreza só poderia ter um status: o de lady cujo destino era se casar com alguém de seu patamar social... - Selene fez uma careta. Como é que o seu pai, um homem inteligente e resolvido, pôde viver em uma época tão machista? Não conseguia imaginar o carinhoso rei Endymion, que tinha um respeito enorme e admiração pela esposa, ser do tipo que considerasse o sexo feminino inferior. - Estela abdicou desse status para tornar-se uma guerreira, o que na Terra era uma afronta. Mulheres não eram feitas para lutar, mas ela era a guardiã do Cristal Estelar então nada puderam fazer contra isso, precisavam dela. Logo, ela deixou de ser nobreza para ser serviçal, embora estivesse em uma classe alta por ser um general da guarda pessoal do príncipe. Mas ainda sim era uma serviçal.
- Os terráqueos então devem ter ficado enlouquecidos quando descobriram que a Lua era protegida por um bando de mulheres de mini-saia. - riu Selene ao imaginar como a sociedade patriarcal da Terra deve ter entrado em choque com a cultura matriarcal da Lua. Não era à toa que não se davam, embora fossem vizinhos. E pelo que lembrava da história, a maioria dos outros planetas também tinham um regime parecido com o regime lunar. Será que foi por isso que a Terra não entrou no tal "tratado de união dos povos do sistema solar"? - Mas por que justamente as memórias dela com o Rhian? Por que não lembranças de lutas ou coisa parecida?
- Como?
- Você disse que o cristal absorve informações sobre o guardião anterior para passar ao guardião seguinte. Logo, se fossem sonhos sobre as batalhas de Estela, então seria apenas o cristal repassando o conhecimento sobre lutas e novos golpes. Mas não, todos os sonhos envolvem o caso dela com Rhian e isso, sinceramente, não me acrescenta em nada. - reclamou em um tom irritado e Setsuna não podia lhe tirar a razão. Será que a predescessora de Selene estava tentando dizer alguma coisa a menina?
- Há quanto tempo você vem tendo esses sonhos? - perguntou desconfiada.
- Há... uma semana mais ou menos.
- Sinceramente Selene, não sei o que dizer. Você contou a mais alguém sobre esses sonhos?
- Somente a você. Pensei na possibilidade de falar com o papai... afinal, Estela e ele foram...
- Provavelmente não será de grande ajuda. As sailors e as majestades têm muito poucas recordações sobre o Milênio de Prata, sobre a vida anterior deles. Normal, segundo as "regras" da reencarnação você não deve se lembrar de sua vida anterior, mas eles são exceção, óbvio, então duvido que seu pai saiba de alguma coisa. No entanto, irei consultar Sailor Mercúrio para qualquer informação, acho que ela ainda tem dados daquela escavação que participou nas ruínas do Milênio de Prata há cinco anos.
- Por que o Milênio de Prata? - interrompeu Selene.
- Não entendi.
- Estela era uma guardiã da Terra, então o que vocês podem achar sobre ela no Milênio de Prata?
- Foi onde ela morreu então é um lugar bom para começar. Até porque, pode ter havido uma guardiã do Cristal Estelar antes de Estela que fez parte do Milênio, vai saber. Sem contar que a Lua é menor que a Terra e é sempre bom começar por baixo.
- Preguiçosa. - resmungou a garota, dando uma careta a Plutão que sorriu na tela do comunicador.
- Nesse meio tempo se algo além do sonho acontecer, me comunique. Bem, era apenas isso? - perguntou e Selene assentiu com a cabeça. - Não se esqueça do nosso treino hoje. - lembrou e num aceno de despedida encerrou a ligação.
No meio da manhã a chuva que ameaçava cair durante o dia finalmente apareceu, formando uma cortina branca sobre a cidade por causa da intensidade da água e fazendo muitos pedestres correrem apressados a procura de abrigo. Raios cortavam o céu violentamente e seus trovões faziam os alicerces dos edifícios tremerem e muitos pularem de susto diante do barulho. Selene desviou seus olhos azuis da tempestade para a jovem ao seu lado que deu um salto no lugar quando mais um trovão ecoou sobre a cidade e escondeu um sorriso. A tempestade tinha começado logo assim que o sinal de fim das aulas tocou e com isto muitos alunos ficaram presos dentro do prédio esperando pais ou amigos virem buscá-los.
- A vantagem disso tudo é que meu treino com Setsuna foi cancelado. - murmurou, sendo a sua voz encoberta por mais um trovão e por outro grito que Serena deu ao seu lado. A água com certeza deveria ter inundado o campo aberto que Plutão e ela usavam para praticar perto do Templo Hikawa e, com isto, quando a chuva começou a primeira coisa que a mulher fez foi avisar a princesa sobre o cancelamento. - Você não acha que está muito grandinha para ter medo de trovões? - repreendeu a irmã, mas sabia que era inútil e apostava que neste momento, no castelo, a mãe delas deveria estar pipocando a cada trombada e agarrando-se ao seu pai desesperadamente.
- Não consigo evitar, esse barulho todo me dá arrepios. - ela deu mais um pulo de medo e abraçou-se formente a Selene, quase desequilibrando a outra garota ao pegá-la de surpresa.
- Por que - a morena abaixou o tom de voz para somente a outra adolescente pendurada a si a ouvir. - você não procura Ann e pede para que ela te transporte para casa? - perguntou e ouviu um choramingo ao seu lado.
- Ann está em uma reunião do corpo estudantil e vai demorar um pouco... mas ela falou que se estivermos dispostas a esperar, ela nos leva para casa. - a voz de Bastet chegou até as duas irmãs e a sacerdotiza postou-se ao lado das princesas, sendo rapidamente imitada por Lily e Marjorie. Quando elas faziam isso Selene ficava com a ligeira sensação de que tinha acabado de ganhar guarda-costas, pois as meninas tinham a mania de andar em torno das duas herdeiras como se estivessem as protegendo de qualquer perigo eminente, de qualquer lado que ele pudesse vir, e sabia que essa reação não era consciente. As inners e others senshis também faziam isso com a rainha quando eram novas. Havia descoberto este fato quando estivera no passado e vira a interação das mulheres.
- Bem... - Selene resmungou, olhando para Serena ainda aparafusada ao seu corpo e a apertando mais pela cintura de maneira dolorosa cada vez que um raio brilhava e um trovão soava. - eu não tenho paciência para ficar aqui dentro mais do que o necessário.
- E o que você vai fazer? Ir correndo para casa debaixo dessa chuva? - Lily perguntou e fez uma careta ao ver que a tempestade parecia ficar pior.
- Vocês sabem que eu detesto ficar mais do que o necessário aqui dentro. - Selene fez uma careta e Lily riu. Claro que todo mundo sabia da aversão da princesa em ficar além da hora na escola. Dizia que o ambiente do local a sufocava e que todo aquele conhecimento a atolando mais do que o necessário faria seu cérebro explodir. No entanto, a meio-elfo suspeitava que o problema da garota era a falta de amigos. Se ela tivesse a sua turma dentro do colégio com certeza não seria nada contra em ficar depois da hora jogando conversa fora enquanto trocava idéias sobre o dever de casa.
- Se você tem coragem. - provocou Bastet, apontando para o temporal que criava enormes poças no pátio de entrada da escola.
- E eu já estou partindo... então alguém queira por favor desatarrachar essa garota de mim? - reclamou a princesa, apontando para uma Serena ainda grudada em sua cintura. Lily riu, puxando a garota de cabelos rosados que num outro trovão pulou, abraçando a menina mais alta pelo pescoço e escondendo o rosto no ombro dela. A jovem de cabelos castanhos deu tapinhas no topo da cabeça da amiga em um gesto de consolo, mas seus olhos dourados brilharam em divertimento. - A gente se vê! - Selene despediu-se das meninas, correndo apressada em direção a saída e mal pôs os pés para fora do prédio da escola, sentiu o vento e a água baterem contra o seu corpo violentamente.
Da janela do prédio as outras puderam ver o ponto diminuto no pátio que era a figura de Selene correndo em direção as grandes portões de saída, seus cabelos negros sendo rebelados pelo vento enquanto aos poucos o uniforme da escola grudava em seu corpo. Em poucos minutos a garota chegava a rua e sumia calçada abaixo, desaparecendo entre a multidão.
Tentar vencer o temporal a caminho do palácio não estava sendo algo fácil, mas as ruas praticamente vazias ajudava em seu progresso. Contudo, quando pela terceira vez ela quase escorregou no chão molhado, resolveu parar por um momento, refugiando-se sob um ponto de ônibus e recostando-se na armação de metal enquanto torcia a barra da camisa de seu uniforme para livrar-se do excesso de água. Os longos cabelos negros até a cintura grudavam em seus ombros e rosto e a sua saia estava em um tom mais escuro que o normal. Seu sapato fazia um barulho esguichado cada vez que andava e a sua mochila parecia ter visto dias melhores. Com um suspiro cansado, voltou seus olhos para o céu enegrecido e para as gotas de chuva e quando sua atenção voltou-se para a rua, por um momento teve a sensação de que o asfalto transformara-se em um cristalino lago onde ao longe havia um coreto com duas pessoas conversando acaloradamente. Entretanto, quando piscou os olhos, a estranha imagem sumiu, voltando a ser apenas uma rua por onde carros apressados passavam.
- Acho que não é saudável andar sob essa chuva. - Selene virou-se abruptamente e por instinto girou a sua mochila nas mãos e a lançou contra quem estava ao seu lado, pronto para nocauteá-lo e sair correndo. Contudo, a bolsa nem ao menos acertou o homem que a segurou com destreza por entre seus dedos largos.
- Hans? - disse estupefata ao ver o zathariano ali. - O que faz aqui? - seus orbes percorreram o corpo do homem e viram que ele estava tão molhado quanto ela, com as suas roupas grudando de maneira quase indecente no físico bem definido. Seu rosto ficou rubro de vergonha e ela prontamente desviou o olhar.
- Fui visitar o abrigo onde estão os outros refugiados e resolvi voltar a pé, espairecer, conhecer a cidade, quando fui surpreendido pela chuva. - respondeu em seu usual tom grave e calmo.
- Ah. - disse bestamente, dando um puxão em sua mochila e Hans rapidamente soltou a bolsa.
Confessava que tinha sido extrema sorte encontrar a princesa em seu caminho de volta ao castelo, mas também estava surpreso ao ver que a menina arriscara-se sob este temporal para voltar para casa. Pelo que se lembrava, as duas herdeiras estudavam na mesma escola e com certeza diante da chuva a rainha já deveria ao menos ter mandado alguém para buscá-las. Então o que a garota fazia ali no meio da rua? Inevitavelmente, deixou seus olhos percorrerem a forma da jovem, notando que o uniforme dela moldava-se as curvas de um corpo que era anormalmente belo para uma menina de quinze anos. O rosto de Selene continha aquela expressão e traços que indicavam claramente a idade que possuía, mas o corpo dela era bem formado demais para ser capaz de envelhecê-la alguns anos. Escondeu um sorriso ao perceber isso e desviou o olhar. Tinha decidido que se aproximaria dela, a seduziria se fosse preciso para descobrir o segredo de Sailor Estelar, mas ninguém falou que seria fácil.
Ela, perto de si, ainda era uma criança inexperiente que estava prestes a cair de maneira tola nas garras do lobo mau e lá no fundo sentia-se parcialmente culpado. No entanto, ele tinha um motivo maior para fazer isso, e quando se lembrava de suas razões, toda a sua moralidade e consciência lhe davam adeus em um piscar de olhos. O que fazia era por um bem maior, repetia a si mesmo constantemente, e se quisesse ter sucesso teria que livrar-se de seus escrúpulos.
- E o que você faz aqui? - perguntou em um tom desinteressado, apoiando-se no painel que tinha no ponto de ônibus e olhando a chuva cair na frente deles.
- Indo para casa também...
- Nesta chuva? Não é uma escolha inteligente. - a interrompeu, a mirando mais uma vez de cima a baixo e fazendo a sua atenção ser de conhecimento da garota que corou, cruzando os braços sobre o peito onde sob o tecido claro da camisa podia-se ver a silhueta do sutiã de renda que ela usava.
- Melhor do que ficar naquela prisão chamada escola. - murmurou sob a respiração e Hans deu um meio sorriso.
- Educação é um dos maiores tesouros que os pais podem deixar para os filhos. - falou sábio e divertiu-se ao ver o olhar irritado da garota sobre si. Ela era como qualquer outra adolescente na sua opinão. Geniosa, não gostava de escola, preferia sempre se divertir e ficar com os amigos a ter alguma responsabilidade. Tsc, com uma princesa como essa o reino da Terra estava condenado.
- Eu creio que sei o suficiente, então não preciso de mais. - reclamou, descruzando os braços por um momento apenas para trazer a mochila contra o peito e a abraçando.
Um silêncio incomodo pairou entre os dois depois dessa resposta e por um minuto eles ficaram apenas olhando a chuva cair e os carros passarem rapidamente pela avenida, erguendo jatos de água quando as suas rodas velozes cruzavam uma poça.
- Temporal não? - falou Selene por falta de assunto e por estar consciente de que os olhos verdes de Hans vez ou outra divergiam da rua para a sua figura molhada. Com certeza deveria estar parecendo um cachorro vira-lata afogado ou, na pior das hipóteses, Diana em sua forma felina depois de cair na fonte do palácio ao perseguir uma borboleta. Às vezes o lado animal da garota parecia sobrepor-se fantasticamente ao seu lado racional, era engraçado.
- Pois é. - respondeu o homem divertido diante da falta do que dizer, voltando a sua atenção para a chuva e vendo de esguelha a menina corar. Ela era tão fácil de se provocar que Hans começava a achar cruel esta missão, mas não podia fraquejar. - Alguma idéia de como chegamos ao castelo sem nos afogarmos no caminho? - perguntou cansado daquela conversa "produtiva" e mais do que disposto a encontrar um lugar seco. Não precisava ser necessariamente quente pois estava acostumado com o frio, mas nunca era agradável ter as roupas grudando em seu corpo e água irritando a sua pele.
- Podemos pegar um ônibus. - falou Selene solicita, colocando um pouco a cabeça para fora da proteção da marquise que cobria o ponto e vendo se vinha algum ônibus no final da rua. Uma caminhonete dobrara a esquina, vindo rápida e rente a calçada e quando aproximou-se deles e passou por uma poça esguichando água para tudo quanto é lado, a garota sentiu alguém segurar em seus braços e puxá-la de encontro a uma massa sólida, a tirando do caminho do jato. Ficou extramente vermelha ao perceber que com as roupas molhadas e justas, ela praticamente conseguia sentir a pele do peito de Hans roçar contra a pele de suas costas. - Acho que este está perfeito! - gritou ao ver um coletivo vir rua abaixo e rapidamente fez o sinal.
O ônibus parou no ponto e mais do que depressa Selene embarcou nele, sendo seguida de perto por Hans. O motorista lançou um olhar breve para a menina que depositava o dinheiro na caixa para passar pela roleta e depois voltou-se para frente, para segundos depois dar um pulo no lugar e voltar-se com olhos largos para a garota ao reconhecê-la.
- A-a-alteza. - disse, fazendo uma pequena reverência e a jovem ficou ainda mais envergonhada. Detestava quando as pessoas faziam isso. Rapidamente pagou pela sua passagem e pela de Hans, pois duvidava que o homem viera fugido de Zathar com dinheiro terrestre no bolso, e avançou ônibus adentro, ignorando os olhares e cumprimentos dos únicos dois ocupantes, apenas dando um aceno leve de cabeça na direção deles e indo refugiar-se nos últimos bancos. Segundos depois a figura imponente do zathariano ocupava o espaço ao seu lado e o veículo deu um tranco, voltando a andar pelas ruas de Tóquio de Cristal.
O silêncio que se seguiu foi incomodo e era apenas interrompido pelo barulho das buzinas dos carros que tentavam fazer o trânsito caótico andar. Era apenas uma tempestade cair que parecia que a cidade parava completamente, algo normal dentro de grandes centros urbanos. As gotas de chuva batiam contra os vidros do ônibus, criando pequenos barulhos de tilintar e o ar mais úmido e frio embaçava as janelas bloqueando qualquer visão que os passageiros pudessem ter da rua. O coletivo por duas vezes parou em sua viagem, deixando descer as duas pessoas que acompanhavam Hans e Selene e seguiu em frente.
Trinta minutos depois a menina levou uma mão ao vidro embaçado, o esfregando e o limpando gradualmente para ver o que acontecia nas ruas. A paisagem que passava em frente aos seus olhos lhe era desconhecida e quando ela virou-se para olhar pelo pára-brisa traseiro do ônibus viu que não conseguia ver a torre de cristal do palácio que sempre servia de ponto de referência para as pessoas. E isto só poderia significar uma coisa: estavam perdidos. Apressada, ergueu-se de seu assento e cambaleando por causa do sacolejar do carro foi até o motorista para lhe falar.
- Para onde este ônibus vai? - perguntou enquanto via o limpador de pára-brisa mexer-se em um vai e vem enlouquecido na frente deles, tentando em vão espalhar o rio de água que descia pelo vidro, bloqueando toda a visão do homem ao volante.
- Zona norte alteza. - respondeu e Selene xingou baixinho. A zona norte era extremamente longe do castelo. Entretanto, em compensação, era a zona onde Urano e Netuno moravam. Talvez pudesse se abrigar na casa delas antes de voltar para casa quando a tempestade diminuisse. Virou-se sobre os pés para voltar ao seu lugar, percebendo que estava sob a observação intensa de Hans, quando de repente tudo aconteceu rápido demais para ela registrar.
Um estampido soou dentro do ônibus e este balançou violentamente. O motorista gritara em sua posição enquanto girava o volante ao mesmo tempo que metia o pé no freio. Selene sentiu o seu corpo ser lançado para frente e Hans num reflexo rápido vir em sua direção, a aparando contra o seu peito ao mesmo tempo que o carro dava outra forte sacudida e arremessava os dois contra a última fileira de bancos no final do corredor. Rapidamente o zathariano envolveu os braços nas costas da menina, a abraçando e usando seu físico para poder protegê-la do impacto enquanto o barulho de pneu cantando no chão molhado, buzinas ecoando ensurdecedoras no ar e o som de metal chocando-se contra o outro e retorcendo-se chegava em seus ouvidos.
Sentiram quando o coletivo virou de ponta cabeça, dando uma volta completa em torno de si, fazendo eles serem arremessados de um lado para o outro como se estivessem dentro de um chocalho, até que deslizou uns bons metros pelo asfalto com as rodas para o ar ainda girando intensamente. Um tranco na traseira do ônibus trouxe um barulho agudo de algo quebrando e fez seus tímpanos doerem quando os vidros das janelas estouraram e os cacos caíram sobre eles, encerrando o caos que foi seguido por uma quietude mórbida.
Selene ergueu a cabeça do peito de Hans e piscou os olhos, sentindo o mundo rodar por breves segundos a sua volta. Um pouco desnorteada, tentou desvencilhar-se dos braços do homem e estes a largarem facilmente. Ainda zonza, olhou ao seu redor para ver o que tinha acontecido apenas para presenciar uma cena de bancos soltos do piso do ônibus, cacos de vidro ao seu redor e o cheiro de borracha derretida e fumaça preenchendo o local. Uma fisgada em seu cotovelo lhe chamou a atenção e ergueu molemente o braço para ver uma enorme lasca de vidro cravada na carne e parecia ser a única coisa que impedia o sangue de aflorar com abundância.
- Hans? - chamou o homem sob si enquando levantava-se lentamente e escorregava para o chão de metal, ajoelhando-se ao lado dele. - Ei? - levou a mão do braço não ferido ao rosto dele, lhe dando leves tapinhas para acordá-lo e segundos depois o homem a respondeu com um gemido. Os orbes azuis cravaram-se em um líquido vermelho que descia em linha tortuosa pela nuca do zathariano e deslizou a mão do rosto pelos cabelos platinados apenas para encontrar atrás da cabeça dele um ferimento que sangrava copiosamente. - Acorda. - chamou e viu olhos verdes piscarem lentamente, desfocados, antes de abrirem de vez e mirarem a menina acima de si.
- Lila? - chamou desnorteado e Selene presumiu que ele ainda deveria estar confuso diante da pancada.
- Não, tente de novo. - ele piscou, focando mais a sua atenção nela.
- Princesa Selene. - gemeu ao tentar se sentar e prontamente sentiu a sua cabeça latejar. Rapidamente a princesa procurou a sua volta pela mochila perdida e a encontrou mais a frente no corredor, a abrindo bruscamente e procurando entre o material a lancheira que carregava o seu almoço. A sua mãe gostava de seguir certos tradicionalismos do século vinte e um deles era levar almoço de casa para a escola. Em gestos ligeiros, o mais rápido que seu braço permitiu, desamarrou a toalha que sempre envolvia a lancheira e a pressionou sobre o ferimento na cabeça dele.
- Quantos dedos tenho aqui? - perguntou, erguendo três dedos em frente ao rosto dele.
- Quatro... não, três. - ele tinha uma concussão, mas no momento teria que aguentar até eles saírem dali. - O que aconteceu?
- Minha aposta? Sofremos um acidente e o ônibus capotou. Fique pressionando isso no ferimento. - explicou, levando a mão dele a toalha que ela segurava, o obrigando a apertá-la sobre o machucado em seu lugar. Mais alerta, ela ergueu-se do chão e foi até onde um motorista inerte estava pendurado no próprio banco, preso pelo cinto de segurança. Incerta, aproximou-se do homem apenas para ver que ele estava comprimido entre o encosto da cadeira e o volante e que sangue pingava de seus ferimentos diretamente no chão. Procurou sentir o pulso dele, mas não conseguiu encontrar nada, e com um bolo na garganta afastou-se dele com pesar.
- Esta ferida. - Hans disse quando ela voltou para onde eles estavam e viu o caco de vidro no braço dela. - Não é melhor...
- O caco está segurando o sangue - falou calmamente. - melhor deixá-lo aí por enquanto. - completou e o homem quase arregalou os olhos. Para uma adolescente que fora criada no luxo e devidamente protegida e mimada pelos pais, Selene parecia extremamente calma para alguém que acabara de sofrer um grave acidente. Ela não chorava, percebeu que quando vira seu ferimento suas mãos não tremiam e embora tivesse ficado um pouco mais pálida e feito uma careta ao ver o corpo do motorista morto, não ficara histérica como seria o normal das meninas de sua idade. Apostava que ou ela estava acostumada com situações que exigiam calma sob tensão, ou então o choque dos acontecimentos ainda não resgistrou na mente dela e quando a adrenalina abaixasse aí sim ela entraria em pânico.
- O que vamos fazer? - perguntou ao ouvir ao longe um som estridente que o lembrou uma sirene.
- A casa de duas amigas fica aqui perto, se você tiver forças, podemos ir para lá. - explicou, ajoelhando-se atrás dele para ver a extensão do corte em sua cabeça, afastando a mão com a toalha e depois separando os fios claros do cabelo curto para ter acesso ao machucado. Não parecia profundo, mas sabia que um ferimento no couro cabeludo tendia a sangrar mais do que realmente o necessário por causa dos vasos sangüíneos que alimentavam os fios capilares.
- Não seria melhor ir para o hospital? - sugeriu, não que fosse contra a idéia de sumir dali. Detestava curandeiros, eles eram sempre muito enxeridos e ele não queria chamar a atenção. No entanto, estava na companhia da princesa e com certeza ela deveria receber prioridade no assunto.
- Melhor não. - disse misteriosamente. A anatomia de uma sailor, querendo ou não, era diferente de um humano comum. Elas tinham poderes especiais, a maioria descendia de raças que não eram terrestres e portanto os médicos convencionais não saberiam lidar com elas. Além do mais, os médicos oficiais da realeza eram Ami e Daiki, e esses dois trabalhavam no hospital que ficava no centro da cidade, bem longe de onde estavam. E, pela regra do socorro e resgate, os feridos sempre eram levados para a Emergência mais próxima. Até porque, não tinha ferimentos graves e sabia que Haruka e Michiru saberiam como ninguém lidar melhor com eles do que os funcionários do hospital.
- Se você diz, conhece esse planeta melhor do que eu. - falou, levando a toalha novamente ao ferimento e aceitando a ajuda de Selene para erguer-se do chão. Assim que pôs-se de pé, cambaleou um pouco, sendo amparado pela garota. Por um momento pensou que ela iria cair e ser esmagada pelo seu peso por não ser capaz de segurá-lo, mas surpreendeu-se novamente quando ela se manteve firme no lugar e com um pé o encaixou na alça da mochila e a lançou para o alto como uma catapulta, a pegando com a mão livre e a jogando sobre o ombro.
- Vamos. - o guiou para o vidro traseiro e partido do ônibus, o ajudando a passar pelos escombros lentamente. Mal pisaram na rua e novamente foram mais encharcados pela tormenta e somente agora podendo ver o estrago que a capotagem do ônibus tinha causado. Cinco carros haviam batido em um engavetamento, com certeza tentando desviar do ônibus que virou e o tranco que eles sentiram na traseira fora uma caminhonete que fez o veículo deslizar pela pista e atravessá-la na horizontal, criando automaticamente um engarrafamento e mais tumulto. - Por aqui. - falou baixinho, encaminhando um Hans apoiado em si entre os carros batidos, longe dos olhos da multidão e tomando as calçadas, afastando-se discretamente mais e mais do acidente até chegarem a uma escadaria que levava ao metrô. A casa de Urano e Netuno ficava na outra estação e se dessem sorte ninguém repararia naquele casal nada convencional entrando nos trens.
Serenity tinha que confessar que dias chuvosos a deprimiam um pouco, pois as nuvens negras bloqueando a luz solar sempre deixavam o ambiente um pouco baixo astral. Sem contar os raios e trovões que ainda faziam seu corpo tremer levemente mesmo depois de anos. Não que ainda tivesse medo deles, apenas que o barulho ensurdecedor a incomodava, a fazia lembrar dos estrondos que os golpes ocasionavam quando se chocavam durante uma batalha. E de lutas ela já estava cheia.
Preguiçosamente a rainha apertou o pequeno botão do diminuto controle da televisão em suas mãos, mudando rapidamente de canal. Deveria haver um limite diário para ver emissoras que tinham como principal assunto política. Detestava lidar com questões de Estado embora a sua posição exigisse tal coisa. Preferia deixar esse trabalho com o marido, mas Endymion, assim como ela, não era muito fã de diplomacia. Contudo, o homem tinha mais paciência do que ela para a coisa. Afinal, tinha governante que às vezes dava vontade de socar a cabeça intensamente para ver se alguma idéia entrava em sua mente teimosa.
Com um sorriso ao recordar-se de todas as reuniões que participou onde quase perdeu as estribeiras e sua tão conhecida compostura, parou a televisão em um canal de notícia local, observando com interesse o caos que a chuva estava causando. Tóquio de Cristal podia ter um implementado sistema urbano, mas sofria de alguns males como qualquer outra cidade. Era populosa, parecia ter mais carro do que gente, embora o sistema de transporte público fosse ótimo, com toda aquela água caindo era óbvio que as pessoas preferiam dirigir-se pela cidade em seus veículos último modelo do que usarem ônibus ou metrôs. Suspirou. Ainda bem que Serena tinha lhe contatado mais cedo avisando que não era necessário mandar carona pois usaria o tão eficiente teleporte de Ann para ir para casa. Não que ela aprovasse tal abuso dos poderes da filha de Ami, mas com certeza sabia que as meninas seriam cuidadosas e não deixariam ninguém vê-las desaparecendo no meio do ar, além de ser muito mais prático do que enviar um carro que com certeza ficaria encalhado no trânsito.
A chamada de uma repórter na TV atraiu a sua atenção e ela aumentou um pouco o volume apenas por curiosidade ao ver que no fundo da imagem parecia haver vários carros batidos e um ônibus capotado.
"... Aparentemente o acidente foi causado pelo pneu do ônibus que estourou, ocasionando seu capotamento e o engavetamento de vários carros. No presente momento os bombeiros estimatizam uma morte, a do motorista do ônibus, e quatro feridos." a repórter tinha parado para ler alguma coisa em um note pad eletrônico que estava em sua mão, levando logo em seguida o microfone a boca. "O grupo de resgate também suspeita que havia mais vítimas dentro do ônibus, visto que sangue foi encontrado no veículo. Mas, aparentemente, elas estão desaparecidas."
Serenity franziu as sobrancelhas ao ouvir isto. O acidente do ônibus a incomodava de maneira estranha, embora soubesse que desastres com desconhecidos costumassem afetá-la. Endymion dizia que era por causa de seu "coração de ouro" que a fazia sentir a perda de outros, mesmo que esses outros fossem completos estranhos. Entretanto este caso parecia ser especial.
"Vamos agora falar com a Mizuki que parece ter encontrado testemunhas que viram os dois desaparecidos encaminharem-se para o metrô." a cena mudou e agora em vez da repórter de cabelos ruivos que relatava o acontecido sob forte chuva, havia uma jovem morena que parecia estar na plataforma do metrô ao lado de uma senhora de idade e de cabelos muito brancos.
"Obrigada Ichikawa." agradeceu a mulher, virando-se para a senhora ao seu lado. "Aparentemente as vítimas desaparecidas do ônibus foram vistas a vinte minutos atrás pegando um trem que seguia para a área norte da cidade. Estou aqui com a Sra. Matsuyama que viu os dois feridos. A senhora poderia nos dizer como eles eram e em que estado se encontravam?" a jornalista colocou o microfone na altura da boca da mulher enquanto a câmera enfocava no rosto marcado pela idade.
"Bem minha filha... um deles era um homem grande, moreno, de pele meio tom de canela," comentou, soltando umas risadinhas diante da analogia. "mas tinha cabelos brancos ou prata, não sei dizer... e ele estava com a camisa toda manchada de sangue e todo molhado também. Engraçado que estava carregando uma menina que também estava toda ensanguentada e que parecia não se aguentar em pé... Mas o mais curioso é que eu acho que a menina era a princesa Selene..." o coração de Serenity deu um pulo ao ouvir isso. Como assim a sua filha estava envolvida em um acidente?
"A senhora tem certeza?" perguntou a repórter. Afirmar que vira a princesa sangrando pegando o metrô era uma coisa séria a se dizer em rede local. E se os soberanos estivessem vendo isso? Pais nervosos era a última coisa que iriam querer sobre si. Da última vez que o canal tinha soltado uma fofoca sobre uma das princesas... Vamos apenas dizer que os diretores da emissora nunca mais desejariam ver uma rainha furiosa, era assustador.
"Minha filha eu posso ser vivida mas ainda não estou senil. Tenho certeza que era a princesa Selene, pobrezinha. Espero que esteja bem... ela não me parecia muito saudável." completou e a mulher deu um aceno positivo com a cabeça, cortando qualquer futuro comentário da senhora e voltando ao relato, contudo Serenity não mais prestava atenção na TV.
- Da... DARIEN! - gritou desesperada, erguendo-se do sofá em um salto e saindo da biblioteca às pressas a procura do marido, o encontrando no escritório do palácio na companhia de um Artemis em forma humana que discutia com ele alguns assuntos reais.
- Serenity? - o homem ergueu os olhos dos papéis a sua frente e encarou surpreso a mulher que entrava esbaforida na sala. - Algum problema? - o rosto da rainha estava branco como papel e ela respirava pesadamente como se tivesse corrido uma maratona.
- Se... Se... - ofegou, puxando rapidamente do gancho o telefone que ficava sobre a mesa que o rei usava, começando a digitar no aparelho o número familiar do celular de Selene. Inquieta, ouviu o telefone tocar e tocar, mas não completando a chamada e depois de minutos a ligação caiu. Sem desistir, ela digitou outro número e ouviu com alívio e voz de Serena do outro lado da linha.
- Sim? - falou a menina calmamente.
- Serena! - a rainha praticamente berrou no telefone. - Onde está a sua irmã?
- Como assim onde está Selene? Ela está no castelo, não está? - perguntou Serena confusa. As duas meninas tinham tomado rumos distintos há mais de meia hora e mesmo debaixo de chuva a garota mais nova já deveria ter chegado ao palácio.
- Não, ela não está! - respondeu Serenity aflita e o que a filha mais velha lhe dissera foi resposta suficiente para saber que era realmente Selene que estava naquele acidente. Sem falar mais nada, desligou o telefone e mirou os olhos lacrimosos no rosto do marido que não compreendia nada do que estava acontecendo. - Meu bebê... meu Deus... meu bebê. - choramingou a mulher, deixando o corpo cair sobre uma das cadeira em frente a mesa de Endymion.
- Serena... - chamou o moreno calmamente, trocando um olhar confuso com Artemis. - O que houve?
- Um acidente. - a loira soluçou, levando a mão ao peito como se sentisse uma dor horrível no coração. - Eu vi agora na TV. - Endymion sorriu brevemente, meio que compreendendo a situação. Serenity tinha a mania de sempre sentir o pesar dos outros, o que às vezes a deixava deprimida.
- Meu amor... coisas ruins acontecem na vida, faz parte da natureza da Terra. - tentou acalmá-la mas foi calado por um olhar extremamente irritado dela.
- Eu sei! Acha que sou uma infeliz ingênua? Acontece que o acidente, aparentemente, envolve a nossa filha. - explicou-se e os ombros do rei retesaram.
- Qual delas? - perguntou com um tom contido na voz. - Não, não me diga, pela conversa que ouvi agora, acredito que foi Selene. O que ela aprontou? - falou acusador e Serenity soltou um gemido agoniado.
- Por que você sempre acha que Selene tem a culpa nas coisas? - choramingou mais alto ainda, assustando imensamente o rei. - Ela é um anjo de menina... meu bebê. E se alguma coisa acontecer com o meu bebê a culpa é sua Darien! - esbravejou e o homem entendeu menos ainda.
- Serena... dá para explicar?
- Um ônibus capotou por causa da chuva - disse aos soluços. - e aparentemente Selene estava dentro dele. - isso pareceu fazer qualquer mau humor de Endymion diante de uma propensa travessura da filha sumir imediatamente.
- E onde está Selene? Em que hospital ela está? - indagou, já levantando-se da cadeira onde estava.
- Eu não sei! Ela saiu da cena do acidente, aparentemente levando alguém com ela. - Serenity parou de fungar e secou as lágrimas pensativa. - Espera um instante... - murmurou. - Segundo a descrição na televisão, o homem que Selene ajudou no acidente parecia ser Hans. - completou e viu quando o rosto do rei adquiriu uma expressão de desgrado.
- E o que diabos os dois estavam fazendo juntos? - perguntou o homem e viu a esposa dar de ombros.
- Não sei.
- Já tentou contatar Selene? - continuou o rei e a mulher rolou os olhos.
- Primeira coisa que fiz, você não viu?
- Pelo celular não querida, pelo comunicador. - os olhos azuis da rainha se alargaram e ela deu um sorriso sem graça por não ter pensado nisso.
- Er... não? - Endymion sacudiu a cabeça e soltou um suspiro exasperado, dando a volta na mesa a caminho da sala de comunicações. Não importava quantos anos passassem, a sua mulher sempre seria uma cabeçinha de vento.
Michiru cruzou a sala da espaçosa cobertura como um raio, impaciente por causa da campainha que tocava insistentemente, piorando ainda mais o seu humor. Certo que normalmente a mulher era uma criatura calma e controlada, sempre com um sorriso suave no rosto bonito mesmo diante de grandes adversidades. Contudo, desde que resolvera ceder a idéia que por anos considerava de formar uma família, toda a sua personalidade mudou drasticamente por culpa de um bebê que ainda não era maior do que um grão dentro de sua barriga. Maldita hora que resolvera ficar grávida, seus hormônios já estavam enlouquecidos por causa disso.
Irritada, abriu a porta pronta para dar um sermão no infeliz que a incomodava no momento em que a inspiração tinha batido para mais um de seus famosos quadros, mas qualquer palavra atravessada que estava na ponta de sua língua foi engolida ao ver o casal sob o batente. Uma Selene enxarcada apoiava um homem que a mulher recordou ser o guarda do príncipe Aldric de Zathar e ambos sangravam copiosamente. Sem dizer uma palavra, ela puxou os dois para dentro, os guiando para o sofá sem se importar com o estrago que eles poderiam fazer no móvel.
- Haruka! - chamou em um tom quase histérico e não deu nem dois segundos a outra mulher entrava na sala já preparada para qualquer crise que a namorada pudesse ter. As variações de humor dela estavam ficando piores a cada semana que passava e a gravidez progredia. - Você fica com a princesa. - disse Michiru, empurrando Selene para os braços da mulher mais alta que num reflexo abraçou a menina que cambaleou sobre os pés até topar contra o seu corpo. - O senhor vem comigo. - ordenou a um Hans ainda zonzo pela pancada na cabeça e em um puxão poderoso o ergueu do sofá, o levando até o estúdio que usava para pintar e compor e o sentando no divã que a sala possuía, sumindo rapidamente por uma porta lateral e voltando minutos depois com um par de toalhas e um kit de primeiro socorros.
Entrementes, Haruka, muda e surpresa diante dos rápidos acontecimentos, guiou Selene para o banheiro da suíte do apartamento, a ajudando a despir-se do uniforme molhado, lhe entregando um grande e felpudo robe para vestir e olhando com interesse para o caco de vidro preso no braço dela na altura do cotovelo.
- Preciso dizer que isso vai doer? - falou a mulher ao levar as mãos a ponta do caco e mirando dentro dos olhos azuis da menina. A princesa apenas mordeu o lábio inferior e fechou os olhos apertado, esperando pelo pior. Em um puxão a mulher mais velha arrancou o caco, fazendo o sangue que estava preso fluir com mais intensidade ao longo do braço. Rapidamente pegou o kit sob o armário da pia e começou a tratar do ferimento, o limpando, desinfetando e envolvendo em gazes e ataduras. - O que aconteceu? Você foi atacada? - perguntou preocupada, fazendo uma avaliação rápida pelo corpo dela a procura de mais estragos.
- Sofri um acidente. - justificou-se, sentindo o braço latejar de dor agora que a adrenalina tinha passado. - Estava em um ônibus e ele capotou. - explicou e observou quieta Haruka recolher o material usado no ferimento e guardá-lo no kit, para depois jogar as gazes manchadas de sangue no lixo.
- Por que não esperou pelo socorro como toda pessoa normal? - indagou a mulher, apoiando-se na pia e mirando divertida a menina que praticamente era afogada pelo seu robe.
- Porque caso você tenha esquecido... não somos pessoas normais. - alfinetou e Haruka deu um sorriso torto para ela, sacudindo a cabeça de um lado para o outro antes de ficar subitamente séria e encarar a menina nos olhos.
- E o que você estava fazendo com aquele zathariano? - desencostou da pia e parou em frente a jovem, a avaliando de cima a baixo antes de recolher as roupas molhadas dela do chão.
- Estávamos a caminho do castelo quando nos encontramos na rua, pegos de surpresa pela chuva. Foi quando decidi que deveríamos pegar o ônibus, mas eu não percebi que tinha subido no carro errado até que vi a paisagem pela janela. Já considerava pedir abrigo na sua casa quando o acidente aconteceu. - falou tudo em um fôlego só e a other senshi assentiu com a cabeça antes de voltar o olhar para as peças em suas mãos e franzir as sobrancelhas.
- E você está usando esta roupa? - perguntou enquanto brincava com o laço vermelho que enfeitava o uniforme da menina.
- Esperava que eu estivesse usando o quê? - Selene não compreendia onde ela queria chegar.
- Algo que quando molhado fosse menos revelador? - acusou a mulher e a garota ficou vermelha. Tinha consciência de que a camisa de seu uniforme ficara indecente com a água da chuva, mas precisava ser lembrada desse fato?
- Reclame com o sujeito que confeccionou a roupa. Talvez ele não tenha pensado "vou fazer mais uma camada na blusa porque pode acontecer de Selene precisar sair na chuva e acabar topando com um Deus Grego e parecer praticamente nua aos olhos dele..."
- Deus Grego? - Haruka interrompeu com um olhar desconfiado e a jovem ficou praticamente roxa de vergonha.
- Er... eu... er... bem, você tem que admitir que Hans é um homem que não é de se jogar nada fora. - tentou desconversar mas viu que estava sendo mau sucedida pela expressão no rosto da outra.
- Sabe que ele não faz muito o meu tipo, mas não nego que é bonito e não gosto do fato de que isto esteja chamando a sua atenção. - a repreendeu em um tom suave.
- Pelo amor... Haruka, eu sou adolescente e como toda adolescente é normal eu me sentir atraída por um cara bonito.
- Concordo, mas poderia ser qualquer cara menos o sujeito que está em "condicional" porque ainda não sabemos o motivo da vinda dele para a Terra.
- Pensei que eles eram refugiados do planeta...
- A invasão de Zathar, na minha opinião, foi muito mal explicada e a história possui várias lacunas. Sem contar aquele ataque da outra noite que simplesmente coincidiu com a chegada deles. - falou séria, apertando a roupa molhada da menina entre os dedos.
- Disse tudo, coincidência.
- De qualquer maneira o santo daquele sujeito não casou com o meu e eu sei que não sou a única. As outras sailors sentem vibrações estranhas vindas daquele homem. O príncipe e a mãe dele também têm mistérios os rodeando, mas este tal de Hans faz os pêlos do meu corpo se arrepiarem e não é no bom sentido. - alertou e Selene soltou um suspiro. - Por isso fique longe dele.
- Por que vocês sempre têm a mania de tentar me proteger? Você, Setsuna e Michiru poderiam formar um clube. Não sou mais criança pombas! - reclamou, fazendo um beicinho infantil e Haruka riu.
- Você é a nossa criança, pequenina. - disse divertida, afagando os cabelos negros dela. Quando Black Moon invadiu Tóquio de Cristal, as inner senshi simplesmente se isolaram ao criarem a barreira que protegiam o castelo, ficando em transe por um longo tempo até que o inimigo fosse derrotado. O rei e a rainha estavam incoscientes. A Pequena Dama tinha ido ao passado consertar as coisas e restara apenas Selene da família real na cidade e a mesma ficara sob a proteção das others senshi. Haruka, Michiru e Setsuna consideravam a menina muito mais que a princesa delas, era quase como uma filha postiça e às vezes sentiam-se na obrigação de orientá-la pelo caminho certo como se fossem a mãe dela.
- Não sou mais. - retrucou em um tom travesso. - Estou perdendo o posto para a nova prole. - abriu um largo sorriso maroto. - Como anda Michiru nos últimos dias? - perguntou e riu ao ver Haruka soltar um gemido sofrido, rolar os olhos e sair do banheiro a caminho da lavanderia, sem se prezar a dar uma resposta a garota. Ela sabia muito bem como andava Michiru e como esta estava impossível de aguentar.
Ainda rindo, Selene esperou Haruka sumir de vista antes de sair do quarto e começar a percorrer o apartamento a procura de Hans, o encontrando no estúdio de Michiru com uma enorme toalha enrolada na cintura e outra sobre os ombros, além de uma atadura envolvendo a sua cabeça e com certeza mantendo a gaze sobre o curativo que cobria o machucado que arrumou no acidente. Automaticamente sua expressão risonha se desfez e as bochechas da menina ficaram carmesin e ela cogitou dar meia volta e sair dali antes que ele percebesse, mas a voz poderosa do homem a fez estacar no lugar.
- Como você está? - perguntou Hans com seu olhar indo automaticamente para o braço que era mostrado sob a manga do roupão e onde a atadura aparecia.
- Bem. - respondeu Selene com uma voz trêmula, entrando na sala e puxando um banquinho que Michiru usava para sentar e pintar seus quadros, olhando todos os cantos do estúdio mas evitando fixar seus orbes azulados na figura praticamente nua do zathariano. - Onde está Michiru? - disse enquanto a sua atenção estava fixada em uma tela apoiada no canto da parede. Nunca entendera as obras da mulher e nem era fã de arte mas, no momento, o quadro parecia ser a coisa mais interessante do mundo, tudo para não olhar para aquele peito largo que estava exposto indecentemente as suas vistas.
- Lavar a minha roupa, ver se conseguia tirar a mancha de sangue antes que causasse mais estragos. - falou com divertimento, percebendo que a menina estava incomodada com o fato dele ter apenas uma toalha para se cobrir e por isso não o encarava de jeito maneira e torcia freneticamente a barra do roupão azul claro que usava. Distraído observou como a mão pequena e de dedos arredondados amassava o tecido e como, diferente da mãe, ela tinha uma pele mais morena, como o rei Endymion, fugindo da complexão pálida que era característica dos lunarianos e seus descendentes. Não era a primeira vez que notara que a segunda princesa tinha mais semelhanças com o rei do que com a rainha o que a tornava ainda mais peculiar.
- Sei... - respondeu Selene sem saber direito o que fazer e mirou as mãos em seu colo quando percebeu que não tinha mais para onde olhar naquela sala.
- Por que não fomos a um hospital como pessoas comuns? Este ferimento em seu braço pode infeccionar. - Hans apontou para a atadura no braço da jovem e ela deu um breve relance ao curativo, não lhe dando a devida importância como se o fato de que há poucos minutos estivesse com um objeto estranho encravado em sua carne não fosse grande coisa. Essa menina realmente era estranha. A conhecia não tinha nem quarenta e oito horas e a maioria dos pré-conceitos que tinha criado sobre ela foram derrubados, o fazendo ponderar se o seu plano iria ser tão fácil como aparentava ser. Agora que realmente pensava sobre isso, que certeza ele tinha de que conseguiria seduzir Selene se nada sabia sobre ela? A garota tinha namorado? Era do tipo de adolescente que se apaixonava fácil ou desacreditada no amor? Será que as reações dela eram apenas pudores de uma menina bem educada na mais alta roda da nobreza ou conseqüências de uma atração mais carnal? Perguntas e mais perguntas que com certeza as respostas não seriam obtidas de outros senão da própria Selene.
- O ferimento em meu braço não era tão ruim quanto parecia. - mentiu, pois o corte havia sido profundo e fizera Haruka dar uma careta de desagrado enquanto tratava dele. Entretanto, tudo o que a mulher fez foi juntar as bordas da pele mutilada e as prendeu com um adesivo médico antes de enfaixar o machucado corretamente. Se bem se conhecia, aquele corte estaria fechado em dois ou três dias. Vantagens de ser uma senshi. - Como está a sua cabeça? - disse sem jeito, ainda não o encarando diretamente e se perguntando onde estavam as duas moradoras daquela casa.
- Melhor... latejando menos. Foi uma sorte termos conseguido sair daquele acidente com apenas pequenos ferimentos. - comentou e Selene fez uma expressão estranha, virando o rosto em direção a grande janela que tinha no estúdio, vendo desinteressada a chuva cair sobre a cidade. Sabia porque não tinham saido mais quebrados do que estavam daquele acidente. Simplesmente na hora da batida, quando seu corpo foi arremessado contra o de Hans, seus instintos entraram em ação. Ela sentiu no momento do impacto seus poderes psíquicos criando uma bolha de proteção e amortecendo a queda deles, gerando apenas aqueles cortes em ambos. Mas isso era uma coisa que o homem não poderia saber.
- Sorte mesmo. - murmurou em voz baixa, não percebendo os orbes verdes do zathariano sobre si, a avaliando intensamente. Agora que todo o calor da ação havia abaixado, a dor de cabeça em seu crânio aumentado e o cansaço sobrepondo-se a adrenalina provinda do acidente, que ele conseguia avaliar melhor a situação. Selene era um pingo de gente, ao menos comparado a si, ela era. Uma adolescente comum, com uma estatura e corpo adequados para a sua idade e que parecia frágil demais até para carregar a mochila que ela usava para ir para a escola. Então, como, pelos Deuses, a garota o conseguiu arrastar para fora do ônibus, ao longo do metrô, até aquele apartamento e não aparentar nem uma gota de cansaço?
- Suas amigas estão demorando, não? - falou por simples falta de assunto. Duvidava que conseguiria manter uma conversa produtiva com uma menina que não vivera nem 1/4 do que ele viveu.
- Devem estar avisando os meus pais sobre mim. - respondeu e deu um relance para a porta de entrada da sala, tentando ver se conseguia ouvir qualquer coisa vinda dos outros cômodos da casa. Mais silêncio reinou entre os dois e Selene soltou um suspiro. - Ô papozinho complexo. - resmungou baixinho e soltou um bufo entre dentes. - Qual a sua cor favorita? - disparou sem rodeios e Hans a mirou confuso.
- Como?
- Eu estou entediada homem e até aquelas duas doidas voltarem, somos só eu e você e a conversa não parece estar fluindo muito bem entre nós. Então, qual a sua cor favorita, apenas para começar de leve. - explicou e sorriu divertida diante da expressão confusa dele.
- Er... vermelho? - respondeu incerto e Selene riu. - Qual a sua?
- Azul. - continuou, cruzando as pernas na altura do tornozelo e apoiando as mãos nas bordas do banquinho, inclinando um pouco o corpo para frente e nem reparando que seu roupão abriu uma ligeira brecha, deixando parte da curva de seus seios a mostra. Automaticamente os olhos de Hans foram para o pedaço de pele exposta antes de voltarem com pressa para o rosto da menina. Grande erro, pois Selene agora possuía uma expressão pensativa e mordia o lábio inferior levemente, o deixando mais cheio e mais vermelho do que já era. Um arrepio desceu pelo seu corpo, um que ele reconheceu bem mas não conseguiu assimilar. Era apenas um gesto inocente e sem malícia, mas mesmo assim o fizera sentir algo que há anos não sentia pois a atitude dela lhe lembrava alguém.
Sacudiu a cabeça para afastar essas sensações e pensamentos e voltou a encará-la, vendo que ela o observava com interesse, tentando compreender o porquê do silêncio repentino dele e a sua expressão distante.
- Qual a sua pessoa favorita em todo o mundo? - disparou a pergunta sem pensar e a princesa piscou os olhos azulado para ele, não entendendo de onde tinha vindo aquela questão.
- Que pergunta é essa?
- É uma simples pergunta, foi o melhor que pude arranjar. - justificou-se e a menina deu de ombros.
- Meu pai. - respondeu sem preâmbulos e Hans segurou um sorriso. Como pensava, ela era a garotinha do papai e com certeza se fizesse besteira com a princesa ele teria um furioso rei da Terra na sua cola. Precisava ser cuidadoso, muito cuidadoso.
Neste meio tempo Haruka e Michiru esperavam pacientemente na área de serviço da cobertura as roupas dos dois convidados serem lavadas e secadas pelas máquinas que trabalhavam sem descanso atrás delas. A mulher de longos cabelos esverdeados jogava as mechas sedosas por cima dos ombros enquanto observava quieta a outra mulher de cabelos curtos perambular de um lado para o outro na pequena área que comportava a lavanderia.
- Me explica de novo por que deixamos os dois sozinhos lá no seu estúdio? - murmurou Haruka impaciente, lançando um olhar de desagrado em direção ao dito estúdio.
- Eles precisam conversar. Senti vibrações sendo emitidas deles dois... - explicou Michiru calmamente.
- Desde quando você virou médium? Este posto é de Marte e Phobos. - rebateu a outra mulher irritada e os olhos azuis de Michiru a miraram intensamente antes de voltar a sua atenção para o aparelho de telefone sobre a bancada na sua frente. Não fazia nem dez minutos que ligara para o palácio avisando sobre Selene e ainda podia sentir a voz da rainha vibrando em seus ouvidos, desesperada para saber o estado da filha. Apostava toda a sua fortuna que Serenity deve ter arrastado Endymion para o carro mais próximo da entrada da garagem real e agora ambos estavam cruzando a cidade desesperados em direção ao apartamento delas.
- Sinto uma tensão sexual no ar. - provocou, sabendo que Haruka detestava ouvir a palavra sexo associada com a jovem princesa. Era tão estranho ver aquela mulher que raramente parecia se afeiçoar a alguém nutrir tanto carinho pela menina mais nova. E era as lembranças de uma Haruka extremamente sorridente levando uma pequena Selene pelas mãos em um passeio no parque que a fazia obter forças para aguentar seus hormônios enlouquecidos pela gravidez. Nunca pensou que seria do tipo maternal, mas a medida que os anos passavam e ela via as pessoas a sua volta aumentando a família, começou a desejar o mesmo para si, o problema era convencer a sua parceira desta decisão e tinha que confessar que ficou surpresa quando a outra mulher não relutara muito em aceitar a proposta de terem um filho.
- O que você se tornou agora? Sailor Vênus? - disse indignada, parando de perambular para fixar um olhar penetrante na namorada. Era só o que lhe faltava, Michiru ficar toda sentimental e sensível em relação a problemas amorosos alheios. - Pensei que tínhamos concordado que este tal de Hans e seus amigos não eram muito confiáveis, e você fica apoiando qualquer coisa que possa rolar entre ele e a princesa? Sem contar que ele é mais velho, muito mais velho, do que Selene. - Netuno apenas soltou um suspiro exasperado e rolou os olhos.
- Eu sei Haruka, só estava te provocando. E o que ele pode fazer sob o nosso teto? Nada! Não seria tolo o suficiente. E Selene sabe se cuidar. Além do mais, o rei e a rainha devem estar a caminho e é bom terminarmos de lavar essas roupas logo se não quisermos um Endymion furioso vendo a filha semi nua no mesmo ambiente que outro homem... - seu discurso foi interrompido pelo toque frenético da campainha, acompanhado por batidas intensas na porta. Michiru e Haruka se entreolharam com as sobrancelhas franzidas.
- Não podem ser eles, não faz nem vinte minutos que você ligou. Nesta chuva eles levariam muito mais tempo para chegarem aqui...
- Haruka... Michiru! - a voz da rainha interrompeu os pensamentos da senshi de Urano.
- O que eles fizeram? Voaram até aqui? - murmurou Haruka a caminho da porta de entrada, sendo acompanhada de perto pela outra mulher. O barulho das batidas na porta ficou mais intenso a medida que elas se aproximavam da mesma e rapidamente Michiru a abriu, deparando-se com uma rainha vestida em trajes informais e com os longos cabelos loiros levemente molhados. O rei também estava em trajes informais e tinha uma expressão nada agradável no rosto. O homem mal abriu a boca para falar e já se encontrava sendo puxado para dentro do apartamento pela esposa que olhava tudo a sua volta a procura da figura familiar de Selene.
- Onde ela está? Onde está o meu bebê? - Serenity choramingou e tudo que Haruka fez foi apontar na direção do estúdio e prontamente a soberana correu até lá, soltando um: "Meu bebê!" que foi rapidamente respondido por um grito surpreso de "Mãe?!" da princesa. Em passos mais vagarosos e calmos, o rei seguiu o mesmo caminho que a esposa e as duas senhis que ficaram para trás esperaram com os ombros tensos o que estava prestes a vir.
- O QUE SIGNIFICA ISTO? - a voz de Endymion ecoou por todo o apartamento e as duas mulheres rolaram os olhos, indo até a entrada do estúdio para ver o homem fuzilar com o olhar a figura semi nua de Hans sentado no divã e de Selene, que somente possuía o roupão de Haruka para se cobrir, sentada no banquinho, sendo ainda abraçada pelos ombros pela mãe. - Isso são maneiras de se portar jovenzinha? Ficar praticamente nua com outro homem em um mesmo recinto? - a repreendeu e a adolescente rolou os olhos.
- Geez... então eu devo presumir que a minha concepção, a de Serena e a de Endie foi feita com vocês dois vestidos. - provocou e o rei ficou vermelho, um rubor que misturava vergonha e raiva enquanto a rainha soltava risadinhas travessas, aumentando ainda mais o embaraço do marido.
- O que eu estou querendo dizer que não é apropriado para uma dama... - Endymion tentou se explicar mas novamente foi cortado pela filha.
- Pelo amor, estamos no século 30... mas se você quiser da próxima vez que eu resolver fazer sexo animal com o Hans serei mais discreta e não deixarei você descobrir, okay? - falou e viu com prazer o rosto do pai ficar lívido e a boca dele abrir e fechar como um peixe em busca de comida. Serenity abafou mais risadinhas. Às vezes Endymion agia com as filhas da mesma maneira que seu pai agiu com ela quando tinha aquela idade. Será que Darien não se lembrava do maus bocados que passou nas mãos do sogro até eles finalmente se casarem? E Selene respondia ao homem da mesma maneira que ela costumava responder ao pai quando tinha a idade da filha. Seu marido às vezes era tão ingênuo e apostava que ainda acreditava que Serena fosse virgem e que Selene nunca beijara ninguém na vida. Homens, hunf, eram tão cegos para as coisas mais óbvias da vida.
- Se... Se... SELENE! - o rei gritou ultrajado, dando as costas para a menina rapidamente para ela não ver o estrago que as suas palavras causaram, pois as bochechas do homem estavam ficando vermelhas. As duas sailors que estavam quietas na entrada da sala suprimiram uma risada divertida e deram as costas para a família real, voltando rapidamente para a área de serviço para verificar se as roupas dos visitantes estavam secas. Haruka achava que se o rei visse a filha mais um minuto semi-nua na companhia de um homem também quase nu teria uma síncope.
Um silêncio desconfortável recaiu sobre a sala depois dessa breve brincadeira e cada um parecia extremamente distraído em seus pensamentos. Endymion observava sem interesse a chuva através da janela enquanto Serenity parecia brincar com as mechas negras do cabelo da filha, as enrolando entre os dedos em um minuto e depois as trançando em outro, admirada com o fato de como os fios eram tão escuros como o céu da noite terrestre. Selene fisicamente representava a Terra, assim como Darien, diferente dos outros herdeiros cuja aparência os tornava claramente remanescentes do reino lunar. Luna costumava dizer que a genética era algo extremamente interessante.
A princesa por sua vez mirava novamente um quadro no canto do estúdio pois podia sentir os olhos de Hans sobre a sua pessoa mas preferia ignorar veementemente o homem que parecia ter criado uma estranha tara por ela. Sentiu a sua mãe lhe puxar levemente uma mecha do cabelo, chamando a sua atenção, e virou a cabeça por cima do ombro para poder encará-la.
- Você não usou seus poderes, usou? - a mulher perguntou tão baixo que Selene mal a ouviu.
- Se está querendo saber se eu me transformei... - Serenity fez uma negativa com a cabeça. Compreendia a preocupação da rainha sobre a questão de exibir ou não os poderes. Não era toda adolescente no Japão que possuía habilidades fantásticas e mesmo que o mundo soubesse das capacidades "sobrenaturais" dos dois governantes e tivessem a suspeita que os herdeiros reais tivessem recebido algo dos pais nesse quesito, ainda sim eles evitavam que as pessoas descobrissem a extensão das habilidades do príncipe e das princesas. Principalmente das princesas. Selene e Serena várias vezes usaram em campo de batalha seus poderes psíquicos e os usar na forma civil seria atestar uma confissão de quem elas eram. Afinal, quantas meninas havia pelo mundo que tinham a mesma telepatia de Sailor Moon e a telecinese de Sailor Estelar? Talvez até houvesse garotas assim, mas apostava que nenhuma delas tinha cabelo rosado preso em duas maria-chiquinhas e a outra cabelos de uma negritude e olhos azuis que pareciam não possuir tom igual em outra parte do planeta.
- Sabe que não falo disso. - respondeu, a abraçando pelo ombro e apoiando o queixo no topo da cabeça da jovem.
- Acho que ele não notou na hora da confusão. - esclareceu e a conversa das duas foi interrompida quando Michiru e Haruka entraram novamente na sala carregando nos braços várias mudas de roupas. Rapidamente Selene se levantou, pegando seu uniforme das mãos de Michiru e indo trancar-se no quarto para poder se trocar. A Haruka apenas restou entregar as roupas a Hans e sair do estúdio acompanhada dos outros para poder dar um pouco de privacidade ao homem. Minutos depois ambos retornavam a sala devidamente vestidos e qualquer conversa que as duas sailors estavam tendo com os soberanos foi encerrada diante da volta de Hans e Selene.
- Bem... vamos? - perguntou Endymion e a menina lançou um olhar janela afora antes de voltar-se para o pai.
- Nessa chuva? - indagou com uma expressão incerta. Da última vez que entrara em um veículo sob forte temporal tinha sofrido um acidente.
- Espera ficar aqui o dia todo? - respondeu o rei. - A chuva não diminuiu nem um pouco desde que começou e não creio que vá terminar tão cedo... - foi interrompido quando a esposa aproximou-se dele para poder lhe sussurrar algo no ouvido.
- Você não pode parar a chuva Darien? - o homem a olhou por um breve momento. Ser príncipe da Terra, ou rei no presente momento, implicava mais do que um simples título. Endymion tinha uma ligação direta com o seu planeta e podia sentir qualquer variação que o mesmo sofresse e que afetasse seu equílibrio natural. Logo, o homem era capaz de ter um certo controle sobre alguns fenômenos terrestres, entre eles o tempo. Entretanto Darien não gostava muito de se meter com a "mãe natureza" e preferia deixar as coisas seguirem com o seu curso natural, mesmo que tal curso fosse desastroso como tornados, terremotos e derivados.
- Conversamos sobre isso em casa. - respondeu em um tom baixo apenas para ela ouvir. - Haruka, Michiru, agradeço pela ajuda. - as duas mulheres apenas fizeram uma reverência polida para o rei e logo todos estavam se despedindo e agradecendo pelo abrigo, seguindo logo em direção a garagem do prédio e ao carro que trouxe o casal real ao apartamento das duas senshis. Em um movimento rápido de clicar de botão no chaveiro que carregava, Endymion destravou as portas e logo o veículo foi devidamente ocupado, saindo momentos depois do abrigo seco que era o prédio em direção as ruas alagadas da cidade.
Não demorou muito tempo para o carro com os seus quatro ocupantes ficar preso no trânsito caótico que havia em Tóquio, onde buzinas ressoavam enquanto as gotas grossas de chuva tilintavam contra os vidros da janela. Endymion tamborilava os dedos sobre o volante e soltava um suspiro vez ou outra quando os veículos na sua frente andavam apenas alguns centímetros para pararem logo em seguida.
- Eu falei que deveríamos ter esperado um pouco mais na casa de Haruka. - reclamou Selene e recebeu um irado olhar azulado através do retrovisor que mandava ela claramente calar a boca. A menina soltou um resmungo, cruzou os braços sobre o peito e afundou-se mais sobre o banco traseiro do carro. Hans ao seu lado observava desinteressado a confusão que ocorria rua afora, pensando em como os terrestres conseguiam viver naquela zona e barulho e lembrava-se de como Za-Xmyr mesmo sendo a capital de Zathar e uma megalópole conseguia ser um pouco mais organizada. Talvez fosse pelo fato de que sempre nevava no lugar e que os meios de transportes eram dados por portas de deslocamento, uma espécie de engenhoca mágica criada pelos magos cientistas do planeta que ajudavam na locomoção de massa dentro de lugares fechados. Embora do nome porta, o negócio nada mais consistia em uma grande cápsula que era conectada a outra em qualquer ponto da cidade e depois de receber uma descarga de energia a pessoa era teleportada ao seu destino desejado. Cada zona da cidade tinha uma cápsula de transporte específica.
Um trovão ressou ao longe e um raio cortou os céus, fazendo Serenity dar um pulo em seu assento e levar a mão ao coração palpitante. Endymion deu um meio sorriso a esposa diante da reação da mesma e a mulher lhe respondeu com uma careta infantil, fazendo o rei rir diante das atitudes da loira. Hans olhou a interação do casal com curiosidade, tentando compreender a piada inserida naqueles gestos e virou-se para encarar Selene quando esta também riu.
- Mamãe tem medo de trovões. - explicou a garota ao ver a expressão confusa do homem.
- Não tenho nada! - Serenity respondeu em tom birrento e deu outro pulo quando mais um trovão ressoou sobre a cabeça deles. Automaticamente Endymion pegou a mão de sua amada entre a sua e a apertou levemente a assegurando de que tudo estava bem. A rainha prontamente se acalmou e voltou a sua atenção para o trânsito engarrafado.
Mais um trovão ressoou, dessa vez mais alto e violento que os anteriores, fazendo os vidros dos carros e janelas vibrarem e em seguida um raio iluminou toda a avenida, cegando os poucos transeuntes e motoristas. Um alto estalo foi-se ouvido e uma descarga elétrica desceu dos céus fortemente, atingindo o asfalto e ocasionando um tremor que fez muitos veículos saírem de sua pista e chocarem-se com outros, causando ainda mais confusão.
- Mas o que é isso? - Serenity exclamou quando o carro tremeu e Endymion pisou bruscamente no freio para não chocar-se com a van que estava na sua frente. Os quatro viajantes olharam na direção que o raio tinha caído e observaram quietos as pessoas saindo de dentro dos carros para verem o que tinha acontecido, pouco se importando com a intensa chuva. Segundos depois do impacto do raio o chão começou a tremer e o buraco que a descarga de energia provocou estava sugando alguns carros que infelizmente ficaram na borda da cratera e agora caiam na mesma em grandes estrondos. A rainha abriu a porta do veículo, saltando dele e tentando ver melhor o que acontecia, ignorando totalmente o burburinho a sua volta daqueles que rapidamente a reconheceram. Pelo lado do motorista o rei fez o mesmo e começou a caminhar a passos lentos em direção ao buraco com as pessoas abrindo caminho automaticamente para o soberano.
O chão ainda tremia em um terremoto que para Endymion era extremamente estrangeiro pois podia sentir que aquilo não era um fenômeno natural e um pressentimento ruim estava comprimindo seu peito. Rapidamente chegou na beirada do buraco e olhou para dentro dele cautelosamente, tentando identificar qualquer coisa estranha. Subitamente a terra parou de tremer e pareceu que um silêncio sepulcral recaiu sobre todas as pessoas naquele lugar. Um alto e ensurdecedor zumbido foi-se ouvido e a multidão encolheu-se, cobrindo os ouvidos para poder abafar o barulho incomodo. Um estrondo rimbombou pelas paredes dos prédios e a vibração explodiu janelas, vidraças e os vidros dos carros, fazendo todos correrem a procura de abrigo contra os cacos. Terra foi cuspida de dentro do buraco como lava de um vulcão e um objeto estranho saiu dele num zunido, para logo depois o solo começar a pulular e ceder rapidamente.
Serenity, Selene e Hans ainda estavam parados perto do carro quando Endymion voltou correndo e segurou com força o braço da esposa, a puxando para longe do carro e fazendo um movimento de cabeça, ordenando que Hans e Selene o seguisse.
- Tire o máximo de pessoas que você puder daqui. - falou para a mulher que piscou confusa.
- Por que... - uma explosão a calou e novamente o zunido irritante preencheu o local.
- Por aquilo! - o rei apontou para o buraco de onde uma enorme mosca havia surgido e Serenity arregalou os olhos quando a mesma bateu as asas com força, fazendo os carros que tinham caído dentro da cratera voarem em direção a multidão desesperada que fugia aos tropeços por entre os vãos formados por ônibus, motos, táxis, vans e etc. Inspirando profundamente a rainha fechou os olhos e uma bolha multicor, das cores do arco-íris, e semi transparente circundou as pessoas que seriam atingidas pelos veículos arremessados parando a queda dos mesmos. Decidida, a mulher começou a caminhar em direção aos fugitivos, sendo parada por um puxão do marido. - Tome cuidado. - pediu e o homem recebeu como resposta um aceno positivo e um sorriso dela.
Prontamente a rainha pôs-se a proteger com seus escudos de energia a população que estava sendo atacada pela mosca gigante, ao mesmo tempo que guiava as pessoas assustadas, com a ajuda de alguns guardas e policiais, em direção ao metrô, o lugar mais seguro da cidade. Depois de tantos ataques, Tóquio de Cristal precisava ter um plano de proteção e evacuação eficaz e o metrô tornou-se a principal solução. Os túneis eram construídos para resistirem a qualquer ataque acima do solo ou interno, ele tinha portas nas entradas que eram lacradas ao sinal de perigo na região atacada, formando um verdadeiro abrigo anti-guerra e possibilitando o deslocamento das pessoas para lugares seguros e longe das batalhas. Era um plano simples mas eficiente e que por muitas vezes salvara a vida dos moradores da cidade.
Hans suspirou para poder disfarçar a sua irritação. Ainda estava no prazo e com meio caminho andado, não precisava desses pequenos lembretes constantes sobre a sua missão. Frustrado virou-se para o rei e a princesa, vendo que eles pareciam conversar intensamente e a baixas vozes. Na verdade eles mais pareciam estar discutindo alguma coisa a qual ele não conseguia ouvir e sinceramente não se importava. Assim como não se importava de deixar aquela mosca fazer o que quisesse com aquele povo, pois essa não era a sua preocupação. No entanto sabia que não podia levantar suspeitas e sair da cena do crime faria exatamente isso, além de que se Eileen soubesse o aborreceria pelo resto da eternidade. Irritado, virou-se em direção ao inseto, aproximando-se lentamente dele e preparando-se para uma batalha que com certeza seria muito cansativa.
Endymion apenas viu de esguelha Hans se afastar para poder retardar a tal mosca gigante e rapidamente voltou-se para Selene na sua frente que mais uma vez estava molhada dos pés a cabeça e não parecia muito feliz com isso.
- Eu quero que você chame as outras senshis e depois vá com a sua mãe... - começou a dizer e a menina rolou os olhos, o mirando com orbes azulados iguais aos seus.
- Já tivemos essa conversa antes, da última vez os golpes das neos não arranharam nem aquele besouro. Estelar seria muito mais eficiente nesta batalha do que elas. - retrucou exasperada. Parecia que seu pai tinha a tendência de esquecer que ela também era uma sailor. Talvez fosse pelo fato de que ganhara o cargo recentemente e a idéia ainda parecia não ter entrado na cabeça do rei.
- Selene... - começou em um tom de advertência.
- Endymion... - repetiu a garota no mesmo tom. - Okay! - soltou num suspiro exasperado. - Eu chamo as outras sailors, mas não vou fugir com o rabo entre as pernas enquanto você e a mamãe arriscam as suas vidas. Eu sei que é duro ouvir isso majestade, mas seu tempo de guerreiro já foi, está na hora de você admitir derrota e deixar o trabalho sujo para quem foi incubido deste cargo. Ou seja, as outras meninas e eu. - falou firmemente e Darien pensou em abrir a boca para protestar mas calou-se. Ela estava certa e podia ver que este discurso não fora feito por uma garota teimosa querendo ir de cabeça de encontro ao perigo, mas sim por uma guardiã que tinha plena consciência de suas responsabilidade e sabia o que fazia. Talvez fosse a hora dele parar de ver uma menina em frente aos seus olhos e começar a ver uma mulher.
- Está certo. - concordou e Selene sorriu levemente, antes de lançar um olhar furtivo as pessoas ainda fugindo, a Hans segurando a mosca, para ver se nenhuma delas iria notar a sua figura indo se refugiar em um pequeno beco. Quando viu que estava seguro, sumiu do lado do rei e foi esconder-se nas sombras dentro do estreito corredor formado pelas paredes de dois prédios.
- Moon! - chamou quando o comunicador em sua mão completou a chamada. - Ataque na zona norte da cidade, perto da casa de Urano e Netuno. - o rosto de Serena na pequena tela contorceu-se em desagrado ao ouvir isto. - Família real na zona de perigo. - completou e viu a irmã adquirir uma expressão preocupada.
- Vou contatar as outras e logo estaremos aí... Você vai ajudar? - perguntou hesitante a jovem de cabelos rosados e Selene franziu a testa antes de acenar positivamente com a cabeça. - Tome cuidado então. E não o destrua antes de chegarmos... - a morena iria abrir a boca para protestar. Por acaso Serena estava insinuando que ela era incapaz? - Arcádia pode querer fazer análises, é o segundo ataque em dois dias, pode ser que dessa vez consigamos mais pistas. - justificou e Selene assentiu com a cabeça antes de encerrar a ligação.
Uma explosão sacudiu os alicerces dos prédios, fazendo poeira e farelo de tinta cair sobre a menina que tossiu e sacudiu a cabeça para livrar-se da sujeira. Deu uma espiada para fora do beco para ver que a tal mosca tinha dado um tiro de canhão que explodira vários carros, causando um grande incêndio que era apagado aos poucos pela chuva intensa. Rapidamente voltou ao seu esconderijo e inspirou profundamente antes de lançar um último olhar ao logo do corredor e certificar-se de que estava sozinha antes de falar:
- Pelo poder do Cristal Estelar... Transformação!
A mosca gigante abriu um pouco o bico, soltando um alto zumbido que fez doer os tímpanos daqueles que estavam perto da criatura e fez as pessoas se encolherem cobrindo os ouvidos. Uma bola de energia começou a formar-se na ponta da boca dela e Hans ergueu ambas as mãos em frente ao corpo, começando a carregar seu ataque para chocar-se contra o canhão do bicho. As duas bolas de energia foram disparadas ao mesmo tempo e bateram uma contra a outra, ocasionando mais uma estrondosa explosão e uma onda de força que jogou carros e pessoas pelo ar. Gritos apavorados ecoaram pela rua e o zathariano xingou baixo algo em sua língua natal. Matar terráqueos no meio do embate não o faria ganhar pontos com a família real e isso atrasaria a sua missão.
Num pulo ele recuou para longe do adversário e conseguiu, no meio de seu salto, resgatar ao menos duas jovens, as prendendo com o braço contra o seu corpo e pousando suavemente no topo da carroceria de uma caminhão. O problema era que as duas garotas não foram as únicas arremessadas e quando fez um gesto para ir tentar salvar o restante, viu que as "pessoas voadoras" começaram a planar levemente no ar até tocarem com suavidade a segurança do solo. Rapidamente o homem voltou seu olhar para a rainha que ainda ajudava os habitantes a fugirem para o subterrâneo, pensando que talvez tenha sido ela a salvar aquela gente, mas a mulher nem estava com a atenção voltada para a batalha. Voltou o olhar para o rei que agora distraía o inseto gigante e ele também parecia não ter prestado atenção no que tinha acontecido. Então quem...?
- Nós precisamos parar de nos encontrar dessa maneira. - alguém falou ao seu lado e Hans virou-se rapidamente para ver uma Sailor Estelar sorrindo para ele.
Continua...
